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MICHAEL PALMER
A IRMANDADE DE ENFERMEirAS



Dedicado com amor aos meus filhos, Matthew e Daniel, e aos meus pais



AGRADECIMENTOS

Esta obra  afilhada das pessoas muito especiais que so mencionadas abaixo. A minha gratido para com elas  muito mais profunda que quaisquer palavras escritas
nesta pgina possam expresser.
- A Jane Rotrosen Berkey, minha agente e amiga, por ter sabido que eu conseguiria, muito antes de eu prprio o ter compreendido.
-Aos meus editores, Linda Grey e Jeanne Bernkopf, pelo estilo, sagacidade e sabedoria que instilaram neste trabalho.
-A Donna Prince e ao Dr. Richard Dugas pelas suas sucessivas leituras crticas.
-Ao promotor de justice Mitchell Benjoya, de Bston, e ao Dr. Steven I. Cohen, de Providence, Rhode Island, pela assistncia tcnica que me prestaram.
-A Clara e Fred Jewet e a tantos outros que me ensinaram a viver-e a escrever-um dia de cada vez.
Finalmente, quero deixar aqui um agradecimento muito especial a Jim Landis' sem o qual, muito francamente, nada disto se teria concretizado.
M. S. P. Bston, 1982



PRLOGO

-Est tudo bem, mezinha... Eu estou aqui, mam...
 Os dedos afuselados estenderam-se por cima do lenol bem engomado da cama de hospital. Com muita lentido, cerraram-se em volta da mo gorducha de pele branca, 
restringidos pelos adesivos e pela correia de couro que prendia a mo  extremidade lateral da cama.
A doente, que tinha o outro brao e as pernas presos de maneira similar, olhava sem pestanejar para o tecto; a pintura comeava a lascar. Os movimentos rtmicos 
ascendentes e descendentes do lenol que lhe cobria o peito, assim como o passar da lngua pelos lbios ressequidos, eram os nicos sinais exteriores de vida. Os 
seus cabelos grisalhos e desalinhados emolduravam um rosto que em tempos fora considerado de grande beleza.
Agora, a pele colava-se aos ossos devido  extrema magreza, enquanto os seus olhos eram obscurecidos por uma pelcula de sofrimento. Embora fosse fcil calcular 
que ela deveria rondar os sessenta e cinco anos, desde o dia do quadragsimo quinto aniversrio daquela mulher haviam decorrido apenas cinco meses-exactamente o 
mesmo dia em que Lhe tinha sido diagnosticada, pela primeira vez, a doena terminal.
A rapariguinha mantinha-se sentada a um dos lados da cama de lato, cerrando o aperto da sua mo quando virou a cabea para ocultar uma lgrima que Lhe corria pela 
face. Usava um casaco comprido, de uma fazenda espessa azul-marinho, e calava botas de Inverno de onde escorria a neve derretida, que ia formando uma pequena poa 
no cho de linleo.
Os cinco minutos seguintes foram de completa imobilizao; os nicos sons que se ouviam naquele lugar vinham dos outros doentes acamados no interior de outros quartos. 
Finalmente, a rapariga despiu o casaco, aproximando mais a cadeira da cabeceira da cama e recomeando a falar.
-Mezinha, consegue ouvir-me? Continua a doer muito? Mam, por favor. Diga-me o que  que posso fazer para a ajudar.
Decorreu outro minuto antes que a mulher Lhe desse resposta. A sua voz, embora baixa e enrouquecida, encheu o quarto.
-Mata-me! Por amor de Deus; por favor, acaba com a minha vida.
-Mam, pare com isso! No sabe o que est a dizer. Vou chamar a enfermeira, ela poder dar-lhe qualquer coisa que alivie as dores.
-No, minha querida. No existe nada que possa aliviar-me. H vrios dias que no h nada que me tire estas dores. Mas tu podes ajudar-me.  foroso que me ajudes!
A garota, que se sentia mais confusa e atemorizada do que se sentira em qualquer outra altura ao longo dos seus quinze anos de vida, ergueu o olhar para a garrafa 
de fluido translcido, cujo contedo entrava gota a gota no brao da me. Levantou-se da cadeira e, a medo, ensaiou alguns passos na direco da porta, at que as 
splicas da mulher mais velha Lhe imobilizaram os passos.
Com alguma hesitao regressou para junto da cama, mas a menos de um metro deteve-se. Vindo de algures, mais ao fundo do corredor, ouviu-se um grito lancinante de 
agonia. Seguiu-se-lhe um outro. A rapariga cerrou os olhos e rilhou os dentes, tentando conter o dio que nutria por aquele lugar.
-Por favor, aproxima-te e ajuda-me-implorou-lhe a me.-Ajuda-me a pr cobro a este sofrimento. Apenas tu podes faz-lo. A almofada, minha querida. S tens de a colocar 
em cima do meu rosto e fazeres tanta fora quanta te seja possvel. No ser preciso muito tempo.
-Mezinha, eu...
-Eu sinto muito amor por ti, se tu tambm me amas, no permitirs que eu continue a sofrer desta maneira. Todos eles dizem que sou um caso desesperado... No permitas 
que a tua me continue a viver nesta agonia atroz...
-Eu amo-a, mezinha. Gosto muito de si...
A garota continuou a sussurrar aquelas palavras, enquanto, com toda a gentileza, erguia a cabea da me para retirar a almofada pouco alta mas firme.
-Eu amo-a, mezinha...-repetiu ela vezes sem conta, colocando a almofada sobre o rosto de feies esguias e fazendo presso com todas as foras que conseguiu reunir. 
Obrigou os seus pensamentos a recuarem at ao perodo da sua vida onde imperara a felicidade: as longas caminhadas durante a Primavera, a aprendizagem de doaria, 
as canecas cheias de chocolate fumegante nas tardes em que nevava.
O seu corpo era magro e leve; deixava adivinhar somente uns ligeirissimos traos de mulher madura. Esforando-se por encontrar um ponto de apoio, agarrou firmemente 
na almofada e soergueu os joelhos, mantendo as pernas dobradas.  medida que as imagens iam desfilando na sua mente, ela exercia cada vez mais fora sobre a almofada 
com todo o seu corpo. Os passeios num passo saltitante at ao lago, os piqueniques  beira de gua, as corridas at  jangada...
Os movimentos que sentia por baixo da almofada comearam a abrandar, at que cessaram por completo.
O seu choro convulsivo misturava-se com o matraquear da saraivada contra os vidros da janela; a rapariga deixou-se ficar imobilizada, sem se aperceber do pedao 
de fronha que inconscientemente havia rasgado e que mantinha fechado na sua mo.
Ao cabo de quase meia hora, ergueu-se, voltou a colocar a almofada no seu lugar e beijou os lbios sem vida da me. Em seguida, voltou costas  cama e encaminhou-se 
resolutamente para o corredor que percorreu sem hesitar, abandonando o hospital e saindo para o tempo agreste de invernia que fazia naquele fim de tarde.
Era um dia de Fevereiro, mais concretamente, o dia 17. O ano era o de 1932.



CAPTULO 1

BSTON
1 DE OUTUBRO

O sol da manh banhava o interior do quarto, momentos antes do rdio-despertador comear a transmitir as primeiras notas musicais. David Shelton, com os olhos ainda 
fechados, deixou-se ficar a ouvir durante alguns segundos, aps o que tentou adivinhar em silncio qual o tema: As Quatro Estaes de Vivaldi, muito provavelmente 
o concerto "Vero". Aquele era um jogo com que ele se entretinha todas as manhs havia muitos anos. Ainda assim, as ocasies em que identificara correctamente uma 
determinada pea eram bastante raras, pelo que eram merecedoras de uma pequena celebrao.
Entretanto, comeou a ouvir uma voz masculina e acariciante, seleccionada criteriosamente pela estao de rdio para se misturar com o amanhecer, identificando o 
tema musical como sendo uma sinfonia da autoria de Haydn. David sorriu para si mesmo. "Ests a ficar cada vez mais arguto. O continente correcto, at mesmo o sculo 
certo."
Voltou a cabea na direco da janela, abrindo os olhos muito ligeiramente e preparando-se para o jogo de adivinhao seguinte, o que fazia sempre durante aquele 
seu ritual matinal. Atravs das suas pestanas filtravam-se os arcos-ris obscurecidos dos raios solares.
-No h lugar a competio - disse semicerrando as plpebras para que as cores bruxuleassem.
-O que  que disseste?-resmungou a mulher sonolenta que se encontrava deitada ao seu lado, encostando firmemente o seu corpo ao dele.
-Temos um dia cintilante de Outono. Dez, no... treze graus. Sem uma nica nuvem no cu.-David abriu completamente os olhos e, confirmando a sua previso, rolou 
para o outro lado e fez deslizar o brao por baixo das costas de pele macia da mulher.
- Um Outubro feliz-acrescentou ele beijando-lhe a testa, ao mesmo tempo que a mo que tinha livre Lhe acariciava o pescoo, deslizando at aos seios.
David ficou a observar as feies da mulher enquanto esta despertava, maravilhado perante a sua beleza sem mcula. Cabelos da cor do bano. Mas do rosto salientes. 
Uma boca carnuda e sensual. Lauren Nichols era uma mulher estonteante. At mesmo s seis horas da manh. Durante uma fraco de segundos, os seus pensamentos foram 
atravessados pela imagem de uma outra mulher.  sua maneira muito pessoal, Ginny tambm apresentara sempre um aspecto maravilhoso s primeiras horas da manh. Aquela 
imagem breve desapareceu quando ele passou os dedos pelo estmago raso de Lauren, tendo comeado a massajar, com toda a suavidade, a elevao por baixo dos seus 
plos macios.
-Vira-te de barriga para baixo, David, para eu te dar uma massagem s costas-disse Lauren sentando-se de repente.
A desiluso ficou bem patente na expresso dele, embora tivesse dado lugar imediatamente a um sorriso rasgado.
-A escolha pertence s senhoras-cantarolou ele amarfanhando a almofada por baixo da sua cabea.-A noite passada foi maravilhosa-acrescentou, sentindo os msculos 
macios na base da sua nuca comearem a relaxar-se ao toque das mos de Lauren.-Tu s uma mulher muito especial, Nichols, sabes disso, no  verdade?
Fora do ngulo de viso de David, Lauren forou-se a esboar o sorriso de uma pessoa adulta que tentasse partilhar um entusiasmo juvenil que h muito deixara de 
ter qualquer significado para si.
-David-continuou ela, imprimindo mais vigor  massagem-, achas que s capaz de conseguir cortar o cabelo antes do jantar danante na Sociedade das Artes que est 
marcado para a prxima semana?
Ele voltou-se, ficando deitado de costas a olhar para ela com uma expresso que era um misto de confuso e perplexidade.
- O que  que o corte do meu cabelo tem a ver com o estarmos a fazer amor?
-Lamento muito, querido-retorquiu ela sem esconder alguma ansiedade.-De verdade que lamento. Deve ser porque hoje tenho um milhar de coisas a preencherem-me os pensamentos. 
Para mim tambm foi maravilhoso. De verdade que sim.
-Maravilhoso? Ests mesmo a falar a srio?-retorquiu David recuperando de imediato todo o seu arrebatamento.
-O teu corpo continua excessivamente tenso, doutor, embora um pouco menos do que h pouco. Sem dvida que a noite passada foi a melhor de todas.
A melhor de todas. David inclinou a cabea de lado, procedendo a uma avaliao das palavras que ela proferira. Progressos e no perfeio. Concluiu que aquilo era 
tudo o que tinha direito a pedir. Certamente que, ao longo dos seis meses decorridos desde que se conheciam, haviam sido alcanados alguns progressos.
A vida em conjunto que ambos levavam era com bastante frequncia uma autntica montanha-russa de emoes, bastante o oposto dos anos fceis, e sem grandes contratempos, 
em que estivera casado com Ginny. No obstante esse aspecto, as diferenas que existiam entre ambos no eram inultrapassveis: os amigos dela to crticos, o cinismo 
dele, as exigncias diversificadas da carreira profissional por que cada um deles optara. Com o aparecimento de cada crise, que era ultrapassada e deixada para trs, 
David sentia que o carinho que existia entre ambos saia reforado. Embora houvesse alguns aspectos que ele desejava que tivessem sido diferentes, sentia-se grato 
pela simples existncia de afecto e vontade de tentar.
Era essa vontade que David tinha pensado ter morrido para si havia oito anos, por entre gritos, vidros estilhaados e a amlgama de metal retorcido.
Apercebendo-se de que Lauren j dissera tudo o que tinha a dizer com referncia  relao fsica entre ambos, David retomou a posio anterior. A massagem s costas 
continuou. "Talvez estejas finalmente preparado", pensou para consigo. " possvel que tenha chegado a altura. Mas, por amor de Deus, Shelton, no apresses os acontecimentos. 
No faas com que ela se afaste de ti, mas' por outro lado, tambm no deves restringi-la." Enquanto aqueles sentimentos passavam pela sua
mente, a apreenso em que ambos se encontravam envoltos comeou a dissipar-se.
 - Sabes... - prosseguiu ele ao fim de algum tempo. -  De todas as apostas e previses que fiz comigo prprio, tu foste a perda mais surpreendente.
 - O que  que queres dizer com isso?
 - Pois bem, acho que agora ser seguro dizer-te. Aquando do nosso primeiro encontro, apostei comigo mesmo uma piza gigante especial do Luigi, com tudo menos anchovas, 
em como ao fim de uma semana j no teramos nada a dizer um ao outro.
 - David! - exclamou Lauren.
 - Muito simplesmente, eu no era capaz de imaginar o que  que um cirurgio nada sofisticado, do mais vulgar que existe, poderia encontrar para tema de conversa 
com uma reprter chique das colunas sociais dos jornais, s isso.
 - Mas agora j sabes, no  verdade?
 - Tudo o que sei  que o meu corpo te excitou tanto que no foste capaz de resistir a brincar ao gato e ao rato com o resto de mim. - David riu-se, descrevendo 
meia volta para lhe dar um abrao ursino, uma manobra que, regra geral, dava origem a uma espcie de luta corpo a corpo em que tudo valia. Quando Lauren no mostrou 
a mnima inclinao de embarcar naquela brincadeira, ele largou-a, inclinando-se para trs com o peso do torso apoiado sobre as mos.
 - Passa-se alguma coisa? - perguntou ele a Lauren.
 - David, ontem  noite, enquanto dormias, gritaste. Tiveste outro pesadelo?
 - Eu... calculo que sim - replicou David com alguma hesitao, enquanto exercitava os msculos das mandbulas. S ento  que se apercebeu de que os sentia magoados. 
- Sinto o rosto dorido, o que significa que passei a maior parte da noite com os dentes cerrados.
 - Consegues recordar-te com o que  que sonhaste desta vez?
 - Foi um sonho que j tive anteriormente, acho eu. Menos perceptvel do que em outras noites, mas sem dvida que foi o mesmo.  um pesadelo que deixou de me afligir 
com tanta frequncia como antigamente.
 - Qual ? - perguntou ela.
David adivinhou a preocupao na voz de Lauren, mas a sua expresso mostrava mais qualquer coisa. Seria impacincia? Irritao? David afastou o olhar.
 - A auto-estrada - disse ele numa voz murmurada. -  Era a auto-estrada. - A entoao cadenciada das suas palavras at ento adquiriu um aspecto estranho e impessoal, 
como se ele houvesse voltado a mergulhar no pesadelo. - Durante algum tempo, tudo o que eu vejo  minha frente  o pra-brisas... os limpa-pra-brisas que se deslocam 
freneticamente de um lado para o outro... cada vez com maior rapidez, numa luta sem trguas para conseguirem acompanhar o ritmo da chuva. O traado do centro da 
estrada tenta serpentear por baixo do automvel. Eu insisto em faz-lo retroceder com a roda. Por breves instantes, a face da Ginny est presente... assim como a 
da Becky... ambas adormecidas... ambas com uma expresso to plcida... - Os olhos de David mantinham-se fechados. Interrompeu as suas palavras, mas a recordao 
do sonho no o tinha abandonado. Surgindo por entre a escurido e as btegas de chuva, os mximos comeavam a aproximar-se. Dois de uma vez. Dirigiam-se directamente 
na sua direco, para em seguida se dividirem, passando num claro, um de cada lado. Vaga aps vaga de luz desfocada. E ento, acima das luzes, ele avistou o rosto. 
As feies enlouquecidas da embriaguez, contorcidas e avermelhadas como que por aco do fogo; olhos que cintilavam dourados no meio das chamas. As suas mos cerraram-se 
e ele rezou para que os faris que se aproximavam se separassem como todos os outros. Mas sabia que isso no aconteceria. Nunca o faziam. Em seguida, ouviu o som 
estridente dos traves a fundo. Viu que os olhos de Ginny se abriam, arredondando-se numa expresso de terror. Por fim, ele ouviu o grito. Dela? Dele? Nunca soube 
dizer de qual dos dois  que sara.
 - David?
A voz de Lauren atalhou o grito. Estremeceu e voltou-se para ela. As suas frontes estavam perladas de gotas de transpirao. As mos tremiam-lhe. Respirou fundo 
e lentamente exalou o ar com que enchera os pulmes. Os tremores pararam.
 - Imagino que por alguns instantes me perdi em devaneios, no? - Esboou um sorriso tmido.
 - David, tens ido ao teu mdico? Talvez devesses entrar em contacto com ele - sugeriu Lauren.
-O velho Brinker, o Espreme-Miolos? Ele deixou-me completamente depenado... tanto da cabea como da carteira h cerca de trs meses e disse-me que eu j me tinha 
licenciado. Porque  que ests to preocupada? No passa de um pesadelo. O Brinker informou-me que eles so uma ocorrncia normal em situaes como a minha.
-Sinto-me preocupada, mais nada.
-Lauren Nichols, deves estar com medo que eu me v abaixo durante o banquete da Sociedade das Artes, fazendo com que vejas cancelado o teu estatuto de scia vitalcia!
O riso de Lauren pecava pela falta de convico. Decorridos alguns segundos, ela desistiu de tentar prestar homenagem ao sentido de humor que ele mostrava.
-David, por acaso existir alguma coisa que tu leves a srio? Numa s frase, tu consegues troar de mim por me preocupar com o teu estado de sade, assim como por 
me interessar o suficiente em relao s artes, o que me leva a manter um papel activo na sociedade. O que  que se passa contigo?
David esteve prestes a apresentar as suas desculpas, mas engoliu as palavras. A expresso que via nos olhos dela disse-lhe que, subitamente, havia algumas questes 
muito bsicas que se encontravam em foco. Era necessrio algo bastante mais substancial do que um simples "lamento muito". Durante alguns segundos de silncio, que 
Lhe pareceram interminveis, o olhar de ambos manteve-se preso.
-Aqui vou eu de novo, certo?-disse ele ao fim de algum tempo com um encolher de ombros.-Uns quantos gramas de frivolidade equivalem a um quilograma de se ser forado 
a enfrentar os verdadeiros sentimentos. Eu sei que fao isso, mas por vezes at mesmo esta percepo no  o suficiente. Bem vs, Lauren, o que eu disse no foi 
com qualquer inteno maliciosa. Verdadeiramente que no. Os pesadelos continuam a assustar-me. -me extremamente dificil encarar essa situao. Compreendes?
Lauren continuava sem se sentir apaziguada.
-No respondeste  minha pergunta, David. Existe algum assunto que para ti tenha um significado suficientemente relevante para impedir que o encares de animo leve?
-Para te ser franco-redarguiu ele-, devo dizer-te que a maior parte das questes  relevante no que me diz respeito. Merda, nesta fase da nossa relao tu j devias 
estar bem ciente disso.
-Mas acontece que somente tu  que tens a certeza do que  o qu, no  verdade?
-Que diabo, Lauren, eu sou um mdico; na verdade, um cirurgio, e j agora acrescento que muito bom.  evidente que as coisas so importantes para mim. Claro que 
me interesso. Preocupo-me com as pessoas e com o seu sofrimento, com as dores que as afligem, com a vida. O meu mundo encontra-se repleto de ferimentos, de doenas, 
de decises em que nem sempre se sai a ganhar. No dia em que eu perder a minha capacidade de rir, ser o dia em que terei deixado de conseguir fazer frente s adversidades.-Reprimi

u o impulso que o levava a desejar continuar, tendo a percepo de que era o culpado pelo ataque ao pequeno arrufo matinal com um martelo de forja.
-Vou tomar um duche-disse Lauren momentos depois. J se tinha levantado da cama, envolvendo-se num roupo de tecido aveludado azul.
-Queres companhia?-perguntou David.
-Est a parecer-me que esta altura  bastante apropriada a um pouco de espao pessoal, uma ensaboadela e gua bem quente. Vai preparar qualquer coisa para o pequeno-almoo. 
Vou ficar muito bem lavadinha, aps o que poderemos dar a este dia um bom comeo, enquanto tomamos uma chvena de caf.
David deixou-se ficar sentado em cima da cama, olhando para a luminosidade do dia. at que comeou a ouvir o som da gua a bater contra os azulejos. Aquele dia, 
possivelmente o mais importante para si em muitos anos, no estava a comear da maneira que ele o havia planeado. Naquela altura, ele j deveri a ter partilhado 
com Lauren as alteraes empolgantes que se haviam verificado no hospital. Acontecimentos que poderiam muito bem assinalar o incio do fim de tantas frustraes, 
e desiluses, que tinham vindo a colorir a sua vida. Naquele momento, j ele deveria ter reafirmado o seu desejo de que ela se mudasse para sua casa, com o que ela 
finalmente teria concordado, chegando  concluso de que estava na altura de tomar aquela medida.
-Acalma-te, Shelton, e deixa que as coisas aconteam com naturalidade-disse David para consigo, enclavinhando as mos, relaxando-as logo que tomou conscincia do 
que fazia.-Finalmente, todas as peas esto a comear a enquadrar-se de forma adequada. Nada nem ningum, a no ser tu mesmo, poder estragar tudo de novo.
De uma das gavetas da cmoda tirou um conjunto de roupas verdes de cirurgia, bastante pudas, de entre a meia dzia de peas que mantinha em casa, vestiu-se e dirigiu-se 
para a janela. Quatro andares mais abaixo, avistou uns quantos madrugadores que atravessavam as zonas centrais, destinadas aos pedestres, existentes entre as faixas 
de rodagem de direces contrrias, espaos que continuavam envoltos em sombras, da Commonwealth Avenue. Perguntou a si mesmo quantas daquelas pessoas sentiriam 
o mesmo sentimento de antecipao, que ele prprio sentia, a expectativa de um novo dia prestes a comear. Comear, comear. Aquele pensamento fez com que Lhe aflorasse 
aos lbios um sorriso esperanoso. Quantas vezes  que ele prprio tinha sentido aquele empolgamento. No liceu, principalmente durante os ltimos anos, ao que se 
seguira a faculdade de medicina. Ginny, Becky. Tantos comeos. Comeos que haviam sido to promissores como aquele. David suspirou. Seria o raiar da manh o incio 
de uma nova pgina, de um captulo ou talvez de toda uma histria? O que quer que fosse que viesse a acontecer, ele sentia-se preparado. No obstante todos os comeos 
promissores que tinham existido na sua vida, desde o acidente e do ano de pesadelos que se seguiram  morte da mulher e da filha, aquele era o primeiro em que realmente 
confiava por inteiro.
O apartamento, embora fosse pequeno, dava a iluso de ser espaoso, o que era realado pelo tamanho, bastante grande, das janelas altas, aliadas a um p direito 
com mais de trs metros, caractersticas de muitas das casas situadas na zona da cidade com o nome de Back Bay. O quarto encontrava-se ligado  sala de estar por 
um corredor estreito e comprido; esta era uma rea bem separada para as refeies, e estava mobilada com um excesso de peas que imitavam o mobilirio antigo; tambm 
havia uma cozinha nfima que dava para um beco nas traseiras do edifcio. A porta da frente e a da casa de banho situavam-se de frente uma para a outra, a meio do 
vestbulo.
Cantarolando uma sinfonia de Haydn numa entoao desafinada, David dirigiu-se  cozinha num passo arrastado. Habitualmente, teria feito uma corrida e demais exerccios 
fsicos antes de se sentar para o pequeno-almoo; contudo, decidiu que aquela manh constituiria uma excepo. Ele era um homem bem musculado e de ombros largos; 
dos seus braos emanava uma grande fora; aquele tipo de constituio dava a impresso de que ele pesava mais do que os cerca de oitenta quilogramas que eram o seu 
peso. Por entre os abundantes cabelos negros viam-se alguns fios prateados. Os seus olhos bem espaados, e de expresso juvenil, abrangiam todo um espectro de cores 
que iam do azul-cintilante a um verde-esmaecido, de acordo com o grau de luminosidade. A sua testa, assim como a cana do nariz, eram atravessadas por uns traos 
finos que em tempos haviam sido transitrios, mas que presentemente eram indelveis.
David deixou-se ficar no centro da cozinha, esfregando as mos e fingindo um profissionalismo trocista.
-Ento, agorra vamos crriar o pequeno-almoo.-Abriu a porta do frigorfico toda para trs.-As escolhas so muitas, cerrto?-A sua voz reverberava das prateleiras 
quase vazias.
"Est-me a parecer que vou escrever um livro sobre artes culinrias destinado aos homens solteiros", anunciara ele a Lauren numa ocasio em que tinha estorricado 
irremediavelmente dois bifes. "Vou dar-lhe o ttulo de Cozinhar Para Ningum."
A escolha do pequeno-almoo no era tarefa muito complicada.
-Ora vamos a ver... podemos tomar sumo de tomate ou... sumo de tomate. Pezinhos de trrigo com manteiga... tm bom aspecto, no? E cinco ovos; esto a pedir para 
serrem cozinhados, no esto?
Enquanto ele colocava o pequeno-almoo sobre a mesa na rea da sala destinada s refeies, Lauren entrou com um passo ligeiro.
-Est com bom aspecto-comentou ela observando a refeio que David preparara.-Um dia destes sers uma excelente dona de casa para a pessoa com quem te casares.- 
Por debaixo da toalha, que trazia enrolada  cabea, saam umas quantas madeixas de cabelos brilhantes. Tal como havia dito, o seu sorriso anunciava que estava a 
dar incio a uma nova manh.
-Ento...-comeou David a dizer num timbre de voz deliberadamente hesitante.-Quais  que so os teus planos para hoje?-Sentia-se satisfeito por ter conseguido refrear 
o impulso que quase o levara a partilhar precipitadamente com ela as boas novas. Tencionava anunci-las de uma forma casual, da mesma maneira desinteressada que 
Lauren usava para Lhe dar a saber que tinha almoado na Casa Branca, ou que fora incumbida de fazer a cobertura da campanha eleitoral de determinado senador.
-David, h alguma coisa que queiras contar-me?-perguntou ela.
-Desculpa, no ouvi o que disseste.-Espreguiou-se numa atitude despreocupada.
-Houve uma ocasio em que a minha colega de quarto na faculdade organizou uma festa surpresa com que me brindou -retorquiu Lauren com um sorriso.-Exactamente antes 
de toda a gente ter irrompido pela sala, comeando aos gritos, ela mostrava a mesma expresso que neste momento vejo no teu rosto.
-Bom... estou em crer que tenho algumas notcias que so boas-admitiu David cuja atitude de desinteresse naquele momento era a fingir.-O doutor Wallace Huttner... 
o doutor Wallace Huttner amanh vai para fora por alguns dias.
-E?...
-Ele pediu-me que fizesse a ronda aos seus doentes esta tarde na sua companhia, a fim de assumir as suas funes at que regresse  cidade.
-Oh, David, mas isso  uma maravilha! -exclamou Lauren, entusiasmada.-O Wallace Huttner! Tenho de confessar que me sinto impressionada. O par de mos, oriundo de 
Bston, que mais amplamente tem vindo a ser aclamado desde Arthur Fiedler.
-Pois bem, agora j sabemos que ele  suficientemente esperto para ser capaz de reconhecer os verdadeiros talentos cirrgicos quando estes se Lhe apresentam. Vou 
ficar responsvel pelos seus doentes, at ele regressar de uma conferncia de trs dias que se vai realizar em Cape.
-E a ests tu sentado, tentando impressionar-me com o facto de conseguires mostrar-te to desinteressado relativamente a todo este assunto to empolgante. Mas que 
fulano to engraado que tu s, David.
Os ovos mexidos, que no tinham um aspecto muito apetitoso, continuavam no prato de Lauren enquanto esta Lhe fazia uma sucesso de perguntas.
-Sabias que a Time j publicou alguns artigos sobre o Huttner?
-Acontece que ele j operou uns quantos xeques assim como alguns primeiros-ministros. Apesar disso, continua a ser obrigado a usar as roupas de cirurgia e veste 
as calas uma perna de cada vez,  semelhana do que todos ns fazemos.
-Importas-te de tentar falar a srio, ao menos uma vez na vida? Isto pode vir a significar mais dinheiro para ti?-perguntou Lauren.
Os olhos de David estreitaram-se. Durante breves segundos, examinou atentamente a expresso dela, tentando detectar mais do que um mero interesse superficial por 
detrs da sua pergunta. Embora no fosse muito frequente que a sua falta de um salrio, que deveria ser o correspondente ao de um cirurgio tpico, viesse  baila; 
sempre que tal acontecia, estava-se na iminncia de uma espcie de guerra. Lauren dava a impresso de ser incapaz, ou de no desejar, aceitar as realidades instveis 
de carcter econmico de uma especializao mdica, as quais dependiam muito das referncias que eram dadas por outros mdicos, especialmente numa cidade como Bston, 
onde o nmero de mdicos era excessivo.
At mesmo depois de ter vindo a exercer medicina no Hospital Mdicos de Bston havia dois anos, David dava-se conta de que muitos dos seus colegas continuavam a 
manifestar algumas reservas a seu respeito. Haviam-lhe chegado aos ouvidos certos comentrios tecidos  sua pessoa.
"O Shelton? Oh, sim, suponho que o poderia indicar a esta mulher; no entanto, ela no  uma pessoa de trato muito fcil e, francamente, no estou bem certo de que 
ele seja capaz de lidar com ela. Estou a referir-me aos problemas por que ele passou, em que ficou completamente destroado depois da morte da mulher e da filha. 
Eu gostava muito de poder ajud-lo, de verdade que sim. Mas em que posio  que eu ficaria perante a minha doente, se Lhe indicasse um cirurgio que de um momento 
para o outro se fosse abaixo..."
A situao no era nada fcil. Verdade fosse dita que nunca esperara que o fosse. As preocupaes que Lauren manifestava em relao  sua situao econmica eram 
bastante compreensveis embora, at certo ponto, no deixassem de ser bastante desencorajadoras. Seria necessrio algum tempo, tentou David explicar. Apenas isso: 
mais algum tempo.
A expresso dela no era de crtica. Ainda assim, David contornava o assunto com pezinhos de l.
-Bem vs, o Huttner  chefe de departamento. O que se traduzir numa maior aceitao por parte dos mdicos que indicam cirurgies aos seus doentes.-Qualquer grau 
de aceitao que a maioria dos seus colegas pudesse mostrar j seria um progresso na direco certa, reflectiu David com uma expresso acabrunhada. As suas aparies 
no bloco operatrio eram to pouco frequentes que, por vezes, as enfermeiras se deixavam ficar no mesmo lugar depois de ele entrar, como se aguardassem a chegada 
do cirurgio.
-Ele est a preparar-te para seres seu scio?
-Lauren, o homem mal me conhece! Ele viu apenas a oportunidade de lanar umas quantas migalhas, na direco de um cirurgio que se esfora, mais nada.
-Pois bem, Senhor Balde de gua Fria-retorquiu ela com um sorriso-, podes agir da maneira que melhor te aprouver. Eu sentir-me-ia suficientemente empolgada pelos 
dois. A que horas  que assumes as funes dele?
- Combinei e ncontr ar- me com o Huttne r no ho spit al s dezoito horas. L para as vinte ou vinte e uma horas j deveremos ter terminado e... meu Deus, j me tinha 
esquecido. Os Rosetti convidaram-nos para jantar esta noite ou amanh. Eu disse-lhes que ns...
-No posso ir-interrompeu Lauren.-Quer dizer, tenho de trabalhar.
-Tu no gostas deles, no  verdade?
-David, por favor. Esta no  a primeira vez que abordamos este assunto. Na minha opinio, os Rosetti so pessoas muito simpticas.-As suas palavras soavam a falso. 
As tentativas falhadas que David vinha a fazer, no sentido de que houvesse uma aproximao quanto quela relao de amizade que havia muito ele mantinha com o proprietrio 
de um pub, assim como com a mulher deste, continuavam a ser uma fonte de tenso.
-Muito bem, vou telefonar ao Joey para Lhe dizer que o jantar ficar para outra oportunidade-disse David, sentindo-se aliviado por poder pr aquele assunto para 
trs das costas, sem que se verificasse uma confrontao de grandes propores.
-Parece-me uma soluo excelente. De verdade.-Aquela era a maneira de Lauren Lhe agradecer pela conteno que ele mostrara.-Na realidade, tenho mesmo de trabalhar. 
De facto, esta manh ainda tenho de apanhar um voo para Washington. O presidente vai anunciar os pormenores do seu programa econmico mais recente; fui incumbida 
de fazer a cobertura desta reportagem sob uma perspectiva humana e pessoal. O mais provvel ser eu ter de me manter ausente durante dois dias.
-Nesse caso, vais necessitar de toda a alimentao que consigas ingerir.-David acenou para o prato onde o pequeno-almoo permanecia intacto.-Queres que eu te prepare 
outros ovos?
Lauren lanou um olhar ao seu relgio de pulso, levantou-se da mesa e espreguiou-se o mais que o corpo Lhe permitia.
-Deixa-os ficar no prato at eu regressar de Washington. -J se encontrava a meio caminho do quarto quando acrescentou:-S podero melhorar com a passagem do tempo.- 
Riu-se  socapa e comeou a percorrer o corredor num passo apressado. De um salto, David levantou-se da sua cadeira com o intuito de Lhe dar perseguio. Ela aguardou 
at ele estar prestes a atingir a porta do quarto, antes de a fechar e de trancar a maaneta.
-Hs-de viver para lamentares o que fizeste-gritou David atravs da porta fechada.-Um dia destes, hei-de transformar-me num cozinheiro famoso, aps o que desposarei 
a condessa de Lusitania. Nessa altura, ter-me-s perdido para todo o sempre.
Vinte minutos mais tarde, Lauren saiu do quarto. A sua aparncia era de cortar a respirao, com o seu fato de saia e casaco bordeaux e blusa bege.  volta do pescoo 
enrolara um leno que mantinha solto.
-Nada de manobras  homem das cavernas, David-advertiu ela em antecipao ao abrao que ele tencionava dar-Lhe, bloqueando-o com uma mo que mantinha estendida na 
sua direco.-Este vesturio tem de me durar pelo menos durante um dia. J me esquecia de te dizer uma coisa.  muito possvel que tu estejas em posio de poderes 
ajudar-me.
-Somente a troco das coisas  homem das cavernas.
-David, o assunto  srio-redarguiu Lauren.
-De acordo.-Ele fez um gesto que indicava estar pronto a ouvir o que ela tinha a dizer-lhe.
-O gabinete do senador Cormier informou que ele ser admitido no teu hospital, dentro de um ou dois dias para ser operado. Parece-me que   vescula.
-Tens a certeza? O Cormier d-me a impresso que  mais do gnero do Hospital White Memorial, do que do Mdicos de Bston.
-Achas possvel que ele seja admitido como doente do Huttner? -perguntou Lauren com um acenar de cabea.
-No h hiptese nenhuma de isso vir a acontecer. O Huttner jamais iria para fora, no caso de uma pessoa da craveira do Cormier vir a ser internado no seu servio.
-Parece-te que poderias falar com ele? Ou, melhor ainda, proporcionar-me o acesso a ele? A campanha que ele est a levar a cabo contra as companhias petrolferas, 
com vista a que estas empresas passem a pagar mais impostos, est a fazer com que ele seja uma figura predominante na cena poltica. Se eu conseguisse uma entrevista 
em exclusivo, isso seria um grande feito na minha carreira jornalstica.
-Vou tentar, mas no posso garantir-te nada de...
Lauren desejou-lhe felicidades nas suas novas responsabilidades profissionais, apertou-lhe as mos e deu-lhe um beijo ao de leve nos lbios. Em seguida, com um "Agora 
porta-te como um bom rapaz", saiu do apartamento, comeando a percorrer o corredor at ao elevador.
Durante vrios minutos, David deixou-se ficar imobilizado  porta de sua casa, cheirando a fragrancia do perfume de Lauren; no entanto, tudo o que sentia era um 
estranho vazio.
-No mnimo dos mnimos, ela poderia ter provado os ovos-disse para si prprio quando comeou a levantar a mesa.-Apesar do aspecto que possam ter tido.

O segurana do turno da noite era um homem gordo. Adiposo e agonizantemente vagaroso. De uma ombreira meio oculta, a enfermeira, uma mulher de aspecto frgil que 
tinha uns cabelos da tonalidade de um sol empalidecido, observava e aguardava, enquanto ele caminhava pesadamente pelo corredor. De vez em quando, o porteiro parava 
para espreitar o interior de uma arrecadao, ou inspeccionar uma das fileiras de cacifos do pessoal mdico, os quais estavam encostados  parede. A  rea Oeste B-2, 
um dos pisos subterraneos da Ala Oeste do Hospital Mdicos de Bston, encontrava-se deserta com a excepo da presena dos dois.
A enfermeira olhava para a camada de sujidade que a rodeava, iluminada pelas lmpadas suspensas do tecto sem qualquer quebra-luz, comeando a sentir um formigueiro 
na pele. Era uma mulher de estatura pequena, impecavelmente arranjada; a sua maquilhagem fora aplicada com tanta meticulosidade que se tornava quase imperceptvel. 
Com impacincia, ela fez deslizar os polegares pela ponta dos outros dedos. O segurana da noite levava uma eternidade. Lanou uma olhadela ao seu relgio. Quarenta 
e cinco ou talvez mesmo cinquenta minutos at  hora em que seria seguro-mais do que o tempo suficiente, desde que ela pudesse apressar-se, evitando assim quaisquer 
demoras inesperadas. Viu uma barata que se arrastava pela biqueira do seu sapato; durante breves instantes ocorreu-lhe que talvez Lhe provocasse vmitos. Obrigou-se 
a descontrair, continuando a aguardar sem fazer qualquer movimento.
Finalmente, o guarda deu a sua tarefa por concluda. Fechou  chave o cofre, comeando a assobiar uma marcha e, aps ter dado alguns passos ao ritmo da msica, recomeou 
a caminhar na sua cadncia pessoal. Na perspectiva de algumas pessoas, o homem poderia ter apresentado uma atitude disparatada, jovial ou mesmo engraada. Contudo, 
para a mulher delicada que o observava, ele provocava-lhe somente uma sensao de repulsa.
Ela esperou mais alguns segundos, aps o que se deslocou apressadamente para a fileira de cacifos, concentrando-se no nmero 178, e comeando a marcar a combinao 
de nmeros indicada no carto que Dahlia Lhe enviara. A seringa fina e cheia at meio encontrava-se precisamente no lugar onde Lhe tinham dito que estaria. De fugida, 
ergueu-a contra a luz e depois colocou-a na algibeira da frente do seu uniforme sem mcula. Voltou a ver as horas e dirigiu-se para o tnel que permitia o acesso 
 Ala Sul. Seguiu de elevador at  Dois Sul, aps o que se encaminhou para as escadas, subindo dois lanos de degraus num passo clere. Entrando sub-repticiamente 
no quarto 438. deteve-se para recuperar o flego, respirando grandes lufadas de ar em silncio. Por entre a semiobscuridade, conseguia avistar John Chapman. O homem 
dormia todo aninhado numa posio fetal e com o rosto virado para ela. De debaixo do lenol saa um cateter por once se escoava a urina lmpida, que se acumulava 
num recipiente de plstico translcido.
A recuperao de Chapman, no prosseguimento de uma interveno cirrgica renal, decorrera sem dificuldades de maior... at agora.
Ela inspeccionou o corredor. Uma auxiliar de enfermagem, a primeira chegada do turno de trabalho diurno, havia acabado de sair do elevador. O silncio pouco duradouro 
que reinava durante a noite continuava a manter-se; todavia, a enfermeira sabia de antemo que, dentro de trinta minutos, este daria lugar ao caos caracterstico 
daquela hora do dia. Chegara a altura. Sentiu que a sua pulsao se acelerava. O choque anafilctico! Ao longo de quase quinze anos de uma carreira de enfermagem 
em hospitais, nunca presenciara um caso em franco desenvolvimento, quanto mais ter a oportunidade de observar um desde o seu incio at  fase final.
Aproximou-se da beira da cama. Ali, sobre a mesa-de-cabeceira haviam sido colocadas as flores. Um magnfico ramo de lrios. Havia um carto preso  jarra por fita 
gomada: "Com votos de uma rpida recuperao, Lily." Sussurrou as palavras sem que de facto as tivesse lido. No havia necessidade disso. Aquelas palavras tinham 
sido da sue autoria.
Sobre uma mesa que se encontrava prxima da jarra, encontrava-se o fio de prata de Chapman, assim como uma medalha de advertncia mdica. Ela iluminou-a com a sua 
pequena lanterna em forma de lpis. Voltou a esboar um sorriso.
Leu A inscrio:
DIABTICO ALRGICO  PENICILINA, ALRGICO S FERROADAS DE ABELHAS
A pequena seringa que mantinha na mo continha um concentrado de veneno de abelhas, que costumava ser utilizado pelos especialistas em alergias, com a finalidade 
de dessensibilizar os seus doentes de elevado risco. Embora para todos os efeitos prticos aquela dose fosse excessiva, continuava a ser suficientemente dim inut 
a para no vir a ser de tectada durante um processo convencional de autpsia.
A tez cor de cacau do rosto de John Chapman tinha uma expresso despreocupada e descontraida. At mesmo adormecido, o homem dava a impresso de sorrir. A enfermeira 
arrastou uma cadeira de costas direitas e sentou-se. Com uma mo, introduziu a agulha no dispositivo de vedao de borracha do seu tubo intravenoso, enquanto com 
a outra o sacudia pelo ombro com gestos suaves.
-Mister Chapman, John, acorde-murmurou ela.-J amanheceu.
-Pequena Angela?-perguntou Chapman abrindo os olhos.- voc?-A sua voz era bastante grave. Uma adolescncia passada havia vinte e cinco anos na Jamaica continuava 
a modular-llhe as palavras. Focou o olhar no rosto dela e sorriu-lhe. - Com a breca, voc  uma viso que d prazer aos olhos-continuou ele. - J  realmente manh 
ou voc  apenas um dos meus sonhos?
-No est a sonhar-respondeu ela.-Mas eu cheguei um pouco mais cedo. O meu turno s comea dentro de mais ou menos meia hora.-Ela descomprimiu o mbolo, introduzindo 
o lquido no interior do tubo intravenoso.-Vim mais cedo com o nico propsito de poder v-lo.
-O qu?
Ela no Lhe deu resposta. Em contrapartida, comeou a observar atentamente quando o rosto de Chapman foi atravessado por uma expresso interrogadora, a qual muito 
rapidamente deu lugar  apreenso.
-Eu... eu estou a sentir-me esquisito, Angela-disse ele. -Verdadeiramente estranho.-A sua voz era trespassada por um sentimento de pnico.-Estou a sentir um formigueiro 
por todo o corpo... Angela, est a acontecer-me qualquer coisa. Algo de terrvel. Tenho a sensao de que estou prestes a morrer.
A mulher ficou a olhar para ele com uma fisionomia abstracta. "E ests", pensou ela. "De facto, ests." Nesse instante, toda a fora da reaco anafilctica fez 
sentir o seu impacte. Os tecidos internos do nariz e da garganta de Chapman comearam a inchar, encerrando quase totalmente aquelas cavidades. Os msculos que circundavam 
as suas vias bronquiais entraram em espasmos. A enfermeira voltou-se para trs, a fim de se certificar de que a porta do quarto se mantinha cerrada. A reaco deu-se 
mais rapidamente e com maior espectacularidade do que ela havia imaginado. Na realidade, concluiu a enfermeira, era ainda mais espectacular do que qualquer outra 
coisa que alguma vez houvesse testemunhado.
-An... gela, por favor...-As palavras de Chapman mal eram audveis. As suas plpebras tumefactas mantinham-se fechadas.
Instintivamente, ela verificou a pulsao, apesar de saber que o colapso vascular j tinha ocorrido. Uns segundos mais tarde, a ltima passagem de ar existente no 
sistema respiratrio de Chapman ficou obstruda. Manteve-se deitado de costas, completamente imobilizado.
A enfermeira de cabelos do tom de um sol empalidecido, susteve a respirao durante uns momentos finais, para em seguida expirar. O seu rosto de traos impecveis 
foi iluminado por um sorriso de grande placidez, o que traduzia a percepo de que, uma vez mais, ela se incumbia da sua tarefa a contento.

O relgio Seth Thomas, que se encontrava numa das paredes da sala de estar, mostrava que eram sete horas e trinta minutos, quando David acabou de empilhar a loua 
no lava- loua, depois de ter vestido um fato de treino azul-marinho. Comeou a examinar criteriosamente a sua pequena coleco de discos, antes de seleccionar o 
Rodeo de Copeland, aps o que deu incio a uma srie de movimentos lentos de distenso e exerccios calistnicos.
A obra de Copeland era uma escolha perfeita, pensava ele enquanto arrastava um conjunto de halteres que se encontravam atrs do sof. Durante dez minutos, ergueu-os 
em vrias posies e ngulos, obrigando-se a esforar-se mais do que era habitual, at que a tenso provocada pela partida desprovida de qualquer trao de emoo 
de Lauren o abandonou.
Os halteres haviam-se transformado tanto num meio teraputico mental como fsico-um ritual matinal a que dava cumprimento h quase cinco anos, o qual comeara no 
mesmo dia em que David tinha decidido regressar  cirurgia, repetindo os dois anos estafantes de estgio. Nesse mesmo dia, fumou o seu ltimo cigarro, tendo corrido 
o seu primeiro quilmetro. ao cabo de alguns meses, j havia recuperado toda a energia que perdera durante os trs anos em que se mantivera afastado da sala de operaes.
Com o brilho do suor devido ao exerccio fsico, agarrou no cronmetro e nas chaves que meteu na algibeira das calas do fato de treino, enquanto saa porta fora.
Dispensou o elevador estreito que subia e descia aos solavancos, tendo optado pelas escadas localizadas ao fundo do corredor. Desceu os trs lanos num passo saltitante, 
atravessando o trio pouco iluminado do prdio onde vivia e saiu pelas portas da frente que Lhe deram o acesso  Commonwealth Avenue.
A luz do Sol atingiu-o como se fosse um claro de grande intensidade. Estava um daqueles dias de que as pessoas oriundas da Nova Inglaterra se costumavam gabar, 
sempre que afirmavam aos forasteiros que no existia lugar nenhum ao cimo da Terra melhor para se viver. Era um daqueles dias que reduzia Fevereiro a pouco mais 
do que uma vaga recordao muito  distncia, ajudando os residentes a esquecerem-se dos dias lamacentos e chuvosos de Abril, assim como o calor sufocante e opressivo 
caracterstico de meados de Agosto; pelo menos, por algum tempo.
Inicialmente, com alguma rigidez a que se seguiu uma mobilidade de movimentos cada vez mais acelerada, comeou a correr ao longo de alguns quarteires na direco 
da alameda. Os carvalhos e os olmeiros parecia deslizarem rapidamente cheios de folhagem de tonalidades profusas de vermelhos, laranjas e dourados. A atmosfera, 
que naquele dia no estava disposta a sucumbir s emisses dos escapes dos automveis de quem vivia nos subrbios, dava a impresso de ter o sabor das guas cristalinas 
das montanhas.
David atravessou at Storrow Drive, acelerando o passo ao entrar no pavimento de asfalto que corria paralelo  margem do rio. Durante alguns momentos continuou a 
correr com os olhos quase fechados, aspirando o ar do dia. sentindo-se cada vez mais satisfeito pela resposta positiva que todos os msculos do seu corpo Lhe proporcionavam.
Observou um remador solitrio aos remos de um Charles como se a embarcao fosse um insecto aqutico gigantesco. At mesmo quela hora to matutina j se avistavam 
algumas pessoas espalhadas pela margem relvada, as quais liam ou desenhavam, ou ainda os que desfrutavam somente do ar da manh. Por ele passavam os ciclistas silenciosos 
que seguiam em ambas as direces. Os ces puxavam, presos pelas trelas, pelos seus donos. Os estudantes de expresses atentas levavam os livros s costas, como 
se estes fossem coletes de tortura, arrastando os seus passos com alguma relutncia em direco s salas de aula, onde a luz fluorescente e estril substituiria 
aquele sol de Outono.
David consultou o seu cronmetro, olhando em redor. Conseguira chegar  ponte em menos de cinco minutos. Tinha ganho a sua primeira aposta quanto  corrida. Mais 
cedo ou mais tarde, haveria de poder chamar seus a um Rolls Royce, assim como a uma case em Berkshires com a fachada e traseiras triangulares e telhado at ao solo. 
Limpando o suor que Lhe perlava a regio em volta dos olhos, acelerou um pouco o ritmo da sua corrida.
 sua direita avistou uma rapariga descala, que usava calas de ganga e uma camisola de algodo de um vermelho-garrido, a qual lanava um disco de plstico na direco 
do namorado.
-Dois Twinkies e um Big Mac em como ele consegue
apanh-lo.-David arquejou exactamente antes de o disco revoltear acentuadamente na direco do rio, caindo no solo e rolando at  margem do riot-Nosso Senhor-disse 
ele rindo-se em voz alta.
Quando atingiu a marca de quatro quilmetros e meio, deu meia volta e encetou o caminho de regresso.
-Est tudo a ficar mais de feio-acrescentou ele em voz alta, imprimindo a cada slaba o ritmo da passada dos seus Nike sobre o pavimento.-Melhor e melhor, cada 
vez melhor.
Jesus!, sabia-lhe bem ter recomeado a sentir-se vivo.



CAPITULO 2

Christine Beall abrandou a velocidade do seu Mustang
azul-claro, passando pelo guarda de servio ao Lote C do parque de estacionamento, forando-se a exibir um pequeno sorriso em resposta ao seu gesto de saudao. 
Atravessou com lentido vrios espaos vazios sem sequer reparar neles, at que avistou um lugar no canto mais afastado do porto, onde estacionou. Saindo para o 
piso de gravilha, comeou a ajeitar o seu uniforme de enfermeira que tinha um corte impecvel, semicerrando os olhos devido  intensidade do sol da tarde; no entanto, 
foi com rapidez que desistiu de tentar absorver qualquer da magia daquele die de Outono de uma luminosidade to radiante. A preocupao que a assolava, e que tinha 
a ver com outros pensamentos e outras questes, tornava isso absolutamente impossvel.
O Lote C era uma das trs zones satlites de estacionamento, propriedade do Hospital Mdicos de Bston, reas que iam ao encontro das necessidades de um pessoal 
mdico que no parava de aumentar. Christine encaminhou-se para a paragem do
mini-autocarro, para logo decidir que necessitava do tempo e da caminhada ao longo de trs quarteires, como se aquele percurso fosse uma ponte entre o seu mundo 
fora do hospital e este. Mais  sua frente, avistou outras duas enfermeiras que tambm trabalhavam no turno da noite, as quais Lhe acenaram para que se Lhes juntasse; 
mas, depois de ter dado alguns passos apressados, Christine deteve-se e indicou-lhes que prosseguissem sem ela. Parando junto da montra de uma loja de mubilirio 
em segunda mo, comeou a examinar a sua imagem reflectida na vitrina empoeirada.
-Ests com uma aparncia de cansao-disse para si prpria.-Extenuada e preocupada... alm de assustada.
No era uma mulher de estatura elevada: mal tinha um metro e sessenta. Os cabelos, de um dourado-arenoso, mantinham-se presos num rabo-de-cavalo que ela prenderia 
por baixo da touca de enfermeira, antes de iniciar o seu dia de trabalho. As sardas, que continuavam escurecidas pelo sol do Vero, pontilhavam a regio superior 
dos malares, assim como a cana do nariz.
-O que  que tencionas fazer, garota?-perguntou ela ao reflexo da sua prpria imagem em voz baixa.-Estars tu realmente preparada para engrenares tudo isto?  possvel 
que a Peg No Sei Quantos esteja pronta. Talvez a Charlotte Thomas tambm esteja a postos. Mas e tu, estars?-Cerrou os lbios numa linha firme e olhou com fixidez 
para o passeio. Finalmente, com um encolher de ombros que denotava indeciso, fez mais meia volta e comeou a andar pelo quarteiro abaixo.
O Hospital Mdicos de Bston era uma hidra macia construda de tijolos e vidro, com trs tentculos que se estendiam para norte e oeste, entrando em Roxbury, havendo 
ainda outros trs que se alargavam para sul e leste em direco  baixa da cidade. ao longo da sua existncia, que j contava com mais de cento e cinco anos, houvera 
vrias alas que no tinham resistido inclumes  passagem do tempo, tendo acabado por ficar em runas, vindo a ser substitudas por outras mais elevadas e de maiores 
dimenses. Os trabalhos de construo, que parecia nunca terem fim, faziam tanto parte do hospital como os uniformes brancos que entravam e saam apressadamente 
das suas entranhas.
Sem nunca terem sido capazes de desdenhar um benfeitor suficientemente generoso que doasse todo um edifcio, os administradores do hospital haviam perfilhado uma 
poltica que carecia de todo e qualquer sentido de imaginao, ao identificarem aqueles tentculos pela direco em que se estendiam. As portas que deslizavam sobre 
calhas e que Christine transps, entrando no trio principal,
localizavam-se entre o Sul e o Sudeste.
Olhou de relance para o enorme relgio dourado colocado sobre um bloco de mrmore, em cima do balco das informaes. Eram catorze horas e trinta minutos. Ainda 
faltavam vinte ou vinte e cinco minutos antes que o turno que se encontrava de servio no Quatro Sul passasse a pasta ao grupo que trabalharia das quinze s vinte 
e trs horas.
Christine encostou-se a uma coluna de pedra, comeando a examinar toda a actividade fervilhante  sua volta. Os doentes e as visitas ocupavam todos os assentos existentes, 
enquanto algumas dzias de outras pessoas se apinhavam em redor do balco de informaes, ou ento atravessavam a multido passando de uma ala para outra. Havia 
cadeiras de rodas que pontuavam as vrias fileiras de cadeiras de plstico moldado. Aquela cena, que ela tivera oportunidade de observar em centenas de ocasies 
anteriores ao longo dos ltimos cinco anos, continuava a ench-la de um estranho fascnio, provocando-lhe uma certa perplexidade. Havia dias, determinados dias muito 
especiais, em que ela chegava a sentir verdadeiramente uma espcie de fuso do seu corpo com a fibra do hospital. Dias esses em que sentia a pulsao do edifcio 
to acentuadamente como se esta fosse a do seu prprio corpo. Num passo vagaroso, comeou a atravessar o trio, juntando-se ao fluxo de gente que se dirigia  passagem 
principal da Ala Sul.
No piso onde Christine trabalhava, o Quatro Sul,  semelhana da maioria dos outros sete andares situados naquela ala, os doentes internados constituam uma mistura 
de pessoas submetidos a cirurgia, assim como a outros tratamentos hospitalares, sendo cada uma delas assistida pelo seu mdico particular. Existiam alguns mdicos 
estagirios, espalhados pelas vrias reas do hospital, os quais serviam como reforo de emergncia. No Quatro Sul,  semelhana de todos os outros pisos particulares 
nos demais hospitais, as enfermeiras eram a nica presena mdica durante a maior parte do dia.
Saindo do elevador, Christine observou o corredor, procurando qualquer carrinho com o equipamento de reanimao ou quaisquer outros indcios que assinalassem uma 
situao de emergncia num dos quartos. No entanto, naquele piso via-se somente o movimento habitual, mas um instinto que se desenvolvera ao longo de cinco anos 
de enfermagem sussurrou-lhe que havia algo que no estava bem.
Christine aproximava-se do balco das enfermeiras quando os gritos comearam a fazer-se ouvir: expresses de dor lancinantes, que s podiam provocar d, vindas do 
fundo do corredor. Encaminhou-se' pressurosa, para o stio de onde viera o som. Quando passou pelo quarto 412, olhou de fugida para Charlotte Thomas, que dormia. 
embora o seu sono fosse desassossegado devido a toda aquela perturbao.
Os gritos vinham do quarto 438, do quarto de John Chapman. Chegada  ombreira da porta, Christine deteve-se abruptamente. O quarto estava num autntico caos. Havia 
guloseimas, livros, flores e um vaso quebrado, tudo espalhado pelo cho. Sentada numa cadeira, e com as faces enterradas nas mos,
encontrava-se a mulher de John Chapman, uma mulher de expresso orgulhosa e senhora de uma constituio corpulenta, que Christine ficara a conhecer aquando da admisso 
do marido. A cama estava desfeita e desocupada.
-Oh, meu Deus-murmurou Christine atravessando o quarto e ajoelhando-se ao lado da mulher, cujos gritos haviam sido substitudos por gemidos de impotncia. -Mistress 
Chapman?
-O meu John morreu. Desapareceu. Todos diziam que ele ficaria bom e agora est morto.-Olhando atravs dos dedos, ela no despregava os olhos do cho, enquanto falava 
mais para si prpria do que para Christine.
-Mistress Chapman, eu sou a Christine Beall, uma das enfermeiras do turno da noite. Posso ajud-la em alguma coisa? Quer que v buscar-lhe qualquer coisa para tomar?- 
Christine sentia-se verdadeiramente pesarosa ao pensar na morte de John Chapman. Quando ela sara do hospital havia somente dezasseis horas, o quase lendrio defensor 
dos direitos civis das pessoas de raa negra e outras minorias j conseguia
deslocar-se pelos seus prprios meios, mostrando boas condies fsicas.
-No, no, eu estou bem-disse a mulher por fim, com alguma dificuldade.-Eu... eu no sou capaz de acreditar que o meu John esteja morto.
Christine olhou  sua volta. Avistou algumas jarras que ainda se mantinham intactas, apesar de a maior parte destas ter sido arremessada para o cho ou lanada contra 
as paredes, transformando-se em estilhaos.
-Mistress Chapman, quem  que fez isto?
A mulher soergueu o olhar; os seus olhos estavam raiados de vermelho e pareciam vitrificados; a sua fisionomia
encontrava-se distorcida pela dor.
-Eu. Fui eu-respondeu ela.-Eu vim at aqui acima para reunir as coisas pessoais que o Johnny tinha no quarto. De repente, tive a percepo de que ele tinha desaparecido. 
Jamais regressaria. Depois disso, s me recordo de uma enfermeira que tentava impedir-me de quebrar mais algum dos presentes que o John recebera. No sei se sabe, 
mas ele at recebeu um livro e um carto enviados pelo governador. Meu Deus, s espero que eu no os tenha danificado. Eu...
-Essa oferta continua intacta, Mistress Chapman. Tenho-a aqui comigo. E aqui est o sumo de laranja que pediu.
Christine voltou-se na direco de onde viera a voz.
Angela Martin acenou com a cabea num gesto de saudao, aproximando-se com o livro e com o sumo.
 -J chamei o seu pastor, Mistress Chapman-informou ela.-J no deve demorar muito.
Perante a viso de Angela, cujo uniforme se mantinha impecvel e de uma brancura imaculada, apesar do trabalho esgotante de um turno de oito horas, a mulher acalmou-se 
visivelmente.
-Muito obrigada, minha filha. Voc tem sido to simptica para comigo. E tambm com o meu John.-Fez um gesto que abarcava a desarrumao.-E... eu lamento muito tudo 
isto.
- No se preocupe-tranquilizou-a Angela.-J chamei o pessoal de limpeza. Trataro de arrumar e limpar tudo. Venha, vamos esperar a chegada do pastor numa sala tranquila. 
-Com aquelas palavras, colocou um brao esguio em redor dos ombros da mulher que to desditosa se sentia, conduzindo-a para fora do quarto.
Christine ficou sozinha entre toda aquela destruio, recordando-se da surpresa que sentira inicialmente perante o bom humor e a erudio nada intimidativa que John 
Chapman demonstrara possuir. Haveria alguma coisa que ela pudesse fazer naquele momento para minorar o desgosto da viva? Chegou  concluso que efectivamente no 
havia nada que estivesse ao seu alcance. Desde que ela se encontrasse na companhia de Angela Martin, tudo correria pelo melhor; a mulher no poderia ter estado em 
mos mais capazes e excepcionalmente caridosas.
Christine dirigiu-se para a porta, mas parou e aproximou-se das duas jarras com flores que continuavam intactas. Era possvel que Mrs. Chapman gostasse de as levar 
consigo para casa, ocorreu-lhe naquele momento. Olhou para o carto preso com fita adesiva ao vidro da jarra verde. Lrios... da Lily? Que Deus nos valesse! O que 
 que viria a seguir? Abanou a cabea. Uma morte inesperada e o grotesco carcter homommico da oferta das flores. Todos aqueles acontecimentos Lhe davam a impresso 
de se enquadrar num dia que, os primeiros minutos, Lhe parecera estar fora do seu controlo.

As suas colegas de apartamento, Lisa e Carole j tinham sado para o trabalho quando o telefone comeou a tocar. Christine estendera imediatamente a mo para o despertador, 
mas ento identificou a origem daquele toque insistente. Ainda tentou meter a cabea debaixo da almofada. Acabou por se dirigir  cozinha num passo vacilante, certa 
de que a campainha do telefone deixaria de tocar no preciso instante em que levantasse o auscultador. O que no veio a verificar-se.
-O meu nome  Peg-apresentou-se uma voz do outro lado da linha, a qual, simultaneamente, era suave e firme.- Eu sou um dos membros da direco da sua Irmandade. 
Existe uma doente no seu piso, no Hospital Mdicos de Bston, cujo caso eu gostaria muito que voc avaliasse e, se concluir que  apropriado, apresent-lo  considerao 
do seu Comit Regional de Avaliao. No me  possvel ser eu prpria a ocupar-me desse processo sem que se verifique um mal-estar que poder no escapar  ateno 
dos outros, uma vez que eu j deixei de exercer activamente a profisso de enfermeira.
Christine molhou a mo na gua fria que saa da torneira, passando-a pelo rosto. Embora a meno da palavra Irmandade a houvesse despertado como se tivesse sido 
esbofeteada, quis ter a certeza absoluta.
-Bem... nunca ningum me tinha telefonado, pedindo-me que...-comeou ela a gaguejar.-O que quero dizer  que...
A mulher j contara com as reticncias de Christine.
-Por favor, Christine, limite-se a ouvir o que eu tenho para Lhe dizer-continuou ela.-Tal como sempre foi do regulamento no nosso movimento, voc no est vinculada 
a qualquer que a force a fazer alguma coisa que, bem no fundo do seu corao, sinta no ser o mais correcto. H j muitos anos que conheo a mulher que me levou 
a telefonar- lhe. Tenho a certeza absoluta de que ela no desejaria sobreviver s condies em que presentemente se en contra a viver. Sofre de dores excruciantes 
e o seu estado de sade, tanto quanto eu averiguei, no permite que se alimente a mnima esperana de recuperao.
Naquele preciso momento, Christine soube, sem que houvesse necessidade de Lhe dizerem, qual a identidade da doente que Lhe pediam que avaliasse.
-Trata-se da Charlotte, no  verdade?-perguntou.- A Charlotte Thomas.
-Sim, Christine,  precisamente ela.
-Eu... ultimamente... eu tenho pensado muito nela, em especial na agonia por que ela tem passado durante os ltimos dias.
-Tinha intenes de ser voc prpria a participar o caso dela?-inquiriu a mulher do outro lado da linha.
-Ontem  noite. A noite passada estive prestes a falar com ela. Houve qualquer coisa que me impediu de o fazer. No sei bem o que  que foi. Ela  uma mulher to 
extraordinria... Eu...-A voz de Christine enfraqueceu.
-O caminho que optmos trilhar nunca ser fcil- acrescentou a mulher.-Caso alguma vez ele venha a tornar-se fcil,
saber-se-, de uma maneira qualquer, que perdemos de vista o nosso objectivo.
-Estou a compreender-replicou Christine numa voz ensombrada.-O meu turno comea s trs horas desta tarde. Nessa altura, caso eu no sinta qualquer mal-estar em 
relao ao assunto, recolherei o seu historial mdico para que seja o comit a decidir.
-Isso  tudo o que eu, nestas circunstncias, posso pedir-Lhe ou esperar de si, Christine. Talvez num futuro prximo, em condies mais auspiciosas, possamos vir 
a conhecer-nos. Adeus.
-At outro dia-retribuiu Christine, mas a mulher j tinha desligado o telefone.
Antes de ter adormecido na noite anterior, Christine elaborara uma lista de projectos ambiciosos que desejava pr em prtica ao longo do dia. Subitamente, com uma 
simples chamada telefnica, todos os seus planos haviam deixado de ter qualquer importncia. Levou um bule cheio de ch para a sala de estar, afundando-se num sof 
onde ficou profundamente embrenhada em pensamentos sobre "A Irmandade da Vida". ao longo dos dez meses que se seguiram  sua iniciao no seio do movimento, na sua 
vida passara a existir um novo significado e propsitos. Agora pediam-lhe que pusesse  prova esses mesmos objectivos. Com a vida de Charlotte Thomas em risco, esse 
teste no seria nada fcil.
Concentrada nos seus pensamentos, cujo tema era Charlotte Thomas e John Chapman, Christine dirigiu-se ao vestirio para pendurar o seu casaco. Duas das enfermeiras 
do turno diurno tinham posto de lado os apontamentos que na altura elaboravam, optando por abordar o tema sobre a medicao que havia sido ministrada a John Chapman 
e que muito provavelmente lhe teria provocado a reaco fatal. Christine no se sentia inclinada a participar na discusso. Saudou as duas colegas com um acenar 
de cabea.
-Vou ver a Charlotte por alguns minutos-anunciou ela. -Se eu no estiver de volta quando forem horas de comear a trabalhar, peam a algum que v chamar-me ao quarto 
quatrocentos e doze. De acordo?-As duas mulheres indicaram-Lhe com um gesto que fosse  sua vida, retomando a sua conversa.
Haviam decorrido quase duas semanas desde que Charlotte Thomas fora submetida a uma interveno cirrgica, uma quinzena ao longo da qual Christine entrara dzias 
de vezes no quarto 412. Apesar daquelas visitas to frequentes, ao aproximar-se da porta ocorreu-lhe  mente uma imagem estranha. Tratava-se de uma viso que Lhe 
surgia em quase todas as ocasies, sempre que se encontrava prestes a transpor a porta daquele quarto. Bem... no era exactamente uma imagem, compreendeu Christine: 
tratava-se mais de uma expectativa. Era bastante acentuada, a despeito daquilo que ela sabia atravs da sua faceta profissional e experincia prtica. Charlotte 
encontrar-se-ia sentada na sua cadeira de vinil junto da cama, enquanto escrevia uma carta. Os seus cabelos de um castanho-claro estariam apanhados na nuca num penteado 
descuidado, presos num lao pouco apertado de um tecido rosa. As rugas finas que se viam ao canto dos olhos, juntamente com as que tinha na comissura dos lbios, 
enrugar-se-iam para cima numa manifestao de contentamento perante a entrada da sua ""superenfermeira". O seu aspecto seria to saudvel, radiante e cheio de vida 
aos sessenta anos como ela, muito provavelmente, teria mostrado quando tinha dezasseis anos de idade. Uma mulher completamente em paz consigo prpria.
Aquela era a aparncia que ela apresentara sempre durante todos os dias do seu internamento em Agosto, perodo em que fora submetida a variados exames clnicos. 
Nos momentos que antecederam a sua entrada no quarto, Christine imaginou a sua voz to suave e cristalina como as guas de um riacho.
-Ah, minha doce Christine. O meu peloto de uma s mulher que vem trazer alento a uma velha senhora adoentada...
Quando chegou aos ps da cama, Christine deteve-se e cerrou os olhos, abanando a cabea como se tentasse desalojar o pouco que ainda Lhe restava das suas expectativas 
e esperana.
Charlotte encontrava-se deitada sobre o lado direito, posio em que s conseguia manter-se com a ajuda de vrias almofadas. Com os lbios hmidos, Christine abeirou-se 
da cabeceira da cama em bicos de ps. Charlotte parecia estar adormecida. A sua respirao farfalhada, que mais se assemelhava a um ressonar, fazia-se com dificuldade 
e de forma pouco natural. Os tubos de oxignio, concebidos para se manterem inseridos nas narinas, haviam deslizado para uma das faces, provocando uma irritao 
avermelhada na pele causada pela presso contnua. O seu rosto estava inchado; a sua tez era de um amarelado pastoso. Dos suportes altos existentes  cabeceira de 
ambos os lados da cama, mantinham-se suspensos sacos de plstico onde gotejava um fluido que era administrado por via intravenosa, atravs de tubos de um plstico 
translcido.
Christine encontrava-se  beira das lgrimas quando estendeu a mo para ajeitar os cabelos de Charlotte, afastando-os das faces. Os olhos da mulher de idade pestanejaram 
por breves instantes, para logo os abrir.
-Mais um outro dia-disse Christine com um timbre de voz animador, embora o seu sorriso no conseguisse ocultar a tristeza que sentia.
-Mais um outro dia-ecoou Charlotte numa voz enfraquecida.-Como  que est a minha menina?
Christine pensou que aquela pergunta era bem caracterstica da sua maneira de ser. "Deitada numa cama de hospital, perguntando-me como  que eu me sinto."
-Um pouco cansada, mas para alm disso sinto-me ptima. Como  que est a minha rapariga?
Os lbios de Charlotte contorceram-se no arremedo de um sorriso antes de Lhe responder.
-J devia saber que essa  uma pergunta que no deve ser feita.-Ergueu uma mo, onde se viam hematomas, tocando ao de leve no tubo de borracha vermelha, preso com 
adesivo  sua cana do nariz, o qual se encontrava enfiado numa das narinas.-Isto no me agrada nada-afirmou ela num murmrio.
Christine abanou a cabea. Quando largara o servio na noite anterior, a doente no tinha aquele tubo no nariz. As palavras que proferiu em seguida saram-lhe da 
boca a custo.
-Deve... estar com algum problema no estmago... Esse tubo impede-o de inchar devido ao fluido. Est ligado a uma mquina de suco.  da que vem o som sibilante 
que tem ouvido.-Afastou o olhar. Os tubos, os hematomas, as dores... Christine sentia aqueles padecimentos como se fossem no seu prprio corpo. Compreendia que com 
Charlotte, mais do que com qualquer outro doente de quem houvesse cuidado, as suas perspectivas tinham-se distorcido. Foram muitas as vezes em que Lhe apetecera 
desatar a fugir daquele quarto... fugir dos seus prprios sentimentos. Tivera vontade de entregar Charlotte Thomas aos cuidados de outra enfermeira. No entanto, 
nunca chegara a concretizar esses impulsos.
-Como  que est esse seu namorado?-perguntou Charlotte.
A mudana de assunto era a sua maneira de dizer que compreendia. No havia nada que se pudesse fazer em relao ao tubo. Christine baixou-se e, com um acentuado 
constrangimento juvenil, retomou a conversa.
-Charlotte, se voc est a referir-se ao Jerry, devo dizer-Lhe que ele no  meu namorado. Para Lhe ser franca, nem me parece que goste muito dele.-Desta feita, 
Charlotte conseguiu esboar um pequeno sorriso, acompanhado de uma piscadela de olho.-Charlotte,  verdade. E no me d nenhuma das suas piscadelas matreiras. O 
homem ... um vaidoso egocntrico e um... pedante.
Charlotte estendeu uma mo para Lhe acariciar a face. De sbito, quela luz semiobscurecida, Christine fitou-a bem nos olhos. Reflectiam um brilho de uma estranheza 
maravilhosa que ela nunca tinha visto. A voz de Charlotte encontrava-se imbuda de uma fora, de um poder, que eram quase palpveis.
-As respostas esto todas dentro de si, minha querida Christine. Oua apenas o que o seu corao Lhe diz. Sempre que tenha realmente necessidade de saber, preste 
ateno ao seu corao.-Deixou descair a mo. Fechou os olhos. ao fim de alguns segundos, Charlotte tinha entrado num sono induzido pela exausto.
Christine fitou-a atentamente, tentando descobrir o significado que as suas palavras encerravam. "Ela no esteve a falar do Jerry", pensou Christine. "Eu sei que 
no." Como se tivesse entrado em transe, saiu para o corredor para dar incio ao seu turno de trabalho.
A sala das enfermeiras comeara a encher-se. Havia oito enfermeiras-seis que pertenciam ao turno que terminara e duas que trabalhavam no de Christine-todas sentadas 
em redor de uma mesa cheia de relatrios, papeletas, chvenas de caf, cinzeiros e vrios tubos espremidos de loo para as mos. Uma das mulheres, Gloria Webster, 
continuava a escrever os seus apontamentos. Gloria tinha a mesma idade de Christine; os cabelos, descolorados, tinham ficado com uma cor platinada. Usava uma maquilhagem 
espessa nas plpebras, que Lhe dava uma tonalidade iridescente. Ergueu o olhar, bebeu um gole de caf e retomou a sua escrita, ao mesmo tempo que falava.
-Ol, Beall.
-Ol, Gloria. Tiveste um dia atarefado?
-No foi muito mau-respondeu a loura platinada, continuando a escrever.-A mesma merda de sempre, s que um pouco mais do que o habitual, se  que percebes onde quero 
chegar.-Pousou a chvena de caf.
-Ainda falta muito para acabares o teu relatrio?-perguntou Christine.
-Dentro de um minuto. Como de costume, eu sou a ltima a elaborar o raio dos apontamentos relativos ao meu turno. Na minha opinio, o que se deveria fazer era fotocopiar 
um conjunto e col-lo em cada uma das papeletas. Seja como for, dizem todos o mesmo, se sabes o que quero dizer.
A pequena risada que Christine soltou deveu-se apenas a uma atitude de simpatia para com a outra mulher.
Entretanto, uma das outras enfermeiras sumariou num pice as capacidades de Gloria.
- possvel que ela seja uma descuidada quanto aos medicamentos, relatrios clnicos e similares, mas, da mesma forma, est-se absolutamente nas tintas para os doentes-afirmou 
ela.
As duas ltimas enfermeiras chegaram e sentaram-se  volta da mesa. O relatrio comeou com uma discusso sobre os novos doentes que haviam sido admitidos naquele 
piso, durante os ltimos dois turnos, desde que o pessoal da noite tinha largado o servio. Os casos dos recm-chegados foram discutidos mais pormenorizadamente 
do que os demais internados. Mesmo assim, a maior parte das observaes que se ouviam em redor da mesa no era sobre os doentes, mas sim acerca dos mdicos que tratavam 
cada um destes.
-Sam Engles, doente do doutor Bertram...
-... Ora bem, Jack, o Estripador, ataca de novo.
-Bert, o Namoradeiro, dez polegares no bloco operatrio, mas uma dzia de mos em redor das enfermeiras.
-Stella Vecchione, doente do doutor Malchman...
-Boa sorte, Stella...
-Donald McGregor, um doente da doutora Armstrong...
-Ela  simptica, no acham?
-Simptica, mas senil. Escreve como a minha av.
-Edwina Burroughs, doente do doutor Shelton...
-Quem?
-Shelton... aquele que  muito engraado, com o cabelo encaracolado.
-Estou a ver a quem  que ests a referir-te. No  ele que toma drogas ou qualquer coisa do gnero?
-O qu?
-Drogas. A Penny Schmidt, do piso trs, disse que ouviu isso a uma das enfermeiras do bloco operatrio... que o Shelton anda a tomar drogas.
-A velha Penny. Sempre com uma palavra simptica para toda a gente. Aposto que ela  capaz de descobrir porcaria num esterilizador.
Continuaram a rever os casos dos outros doentes daquele piso, quarto a quarto. Enquanto prestava ateno ao que estava a ser dito, Christine previa quais as enfermeiras 
que limitariam os seus relatrios aos factos, tal como estes eram: as anlises laboratoriais, os sinais vitais, assim como as que apresentariam algum comentrio 
relativo  aparncia e actividades dos doentes aos seus cuidados. Trs delas atribuam mais nfase aos nmeros, enquanto outras trs davam mais importncia s pessoas. 
Christine marcou cem por cento. apercebendo-se com alguma satisfao de que os relatrios orientados para o aspecto humano eram apresentados pelas enfermeiras cujo 
trabalho ela mais admirava. Gloria Webster no se inseria nesse grupo.
-Beall, imagino que vais ficar outra vez com o quatrocentos e doze, alis como sempre-comentou Gloria enquanto apagava um cigarro num fundo de um copo de matria 
plstica. Ela tinha por hbito tratar todas as enfermeiras da sua categoria pelos apelidos, o que se devia mais a um sentimento de camaradagem do que a qualquer 
esforo para manifestar dureza.-Bom, no h muito a acrescentar, excepto que as coisas esto ainda piores do que estavam ontem  noite, o que inclui a escara que 
a aflige, se percebes o que quero dizer. A temperatura e a tenso arterial mantm-se muito instveis. De duas em duas horas  necessrio que se faa uma suco nasotraqueal. 
Eu j tratei da escara, pelo que no ters de te preocupar com isso durante quatro horas. Jesus, que mal que aquela coisa cheira. Bem... calculo que no haja mais 
nada a acrescent ar. Tens algumma dvida ?
Christine lutou contra o impulso de Lhe responder como Lhe apetecia: "Sim, tenho uma. Como  que tu s capaz de falar dessa maneira de uma mulher que tem mais magia 
e mais sentimento numa s clula do que tu em todo o teu corpo?" Em vez disso, conteve o desprezo e a clera que sentia, limitando-se a abanar a cabea.
A passagem de informaes de um turno para o outro s levou mais dez minutos. Em seguida, as seis enfermeiras que trabalhavam no turno diurno vestiram as suas capas 
e foram-se embora. O testemunho dos cuidados mdicos havia sido passado.
Depois de todas terem sado da sala, Christine deixou-se ficar sentada com a papeleta de Charlotte, comeando a examin-la com toda a mincia. Todo aquele historial 
mdico deixava adivinhar um grande sofrimento. Pgina aps pgina de apontamentos, relatrios e administrao de medicamentos. A cronologia de todo um pesadelo mdico. 
Enquanto tomava algumas notas mais importantes num pequeno bloco de apontamentos, o sentimento de determinao de Christine aumentava gradualmente. Aquilo era suficiente. 
Tal como Peg dissera ao telefone. J chegava. Estava disposta a apresentar o caso de Charlotte Thomas perante a Irmandade.
Despendeu vrios minutos a passar a limpo os seus apontamentos, verificando-os com toda a mincia, para se certificar de que no havia omitido qualquer informao 
que pudesse ser importante. Sentindo-se satisfeita, abriu uma pequena agenda onde tinha endereos e nmeros de telefone, tendo copiado um destes para um pequeno 
pedao de papel. Mas ento hesitou. Sentia a boca ressequida. Deixou-se ficar sentada com uma expresso absorta, passando a ponta dos dedos por uma unha. "Vamos 
l a decidir, minha senhora", urgiu a si mesma. "Se tencionas levar isso para a frente, no estejas a vacilar." Nos instantes antes de se levantar da cadeira, ocorreu-lhe 
ao pensamento a imagem dos olhos de Charlotte. Aquela sensao de uma tranquilidade radiante, aliada a uma paz infinita, era ainda mais ntida do que antes. "...Sempre 
que tenha de saber realmente, oua o seu corao."
Ao fundo do corredor havia um telefone pblico que proporcionava uma certa privacidade devido a uma divisria em vidro. O corredor nas proximidades do aparelho encontrava-se 
deserto. Christine sentiu-se hesitar uma vez mais, apercebendo-se de que a sua determinao estava a esboroar-se. Talvez o comit nem sequer retribusse o telefonema. 
Era muito possvel que quando revissem o caso este nem sequer merecesse a aprovao de quem o avaliasse. Talvez...
Sentindo uma enorme tenso em todos os seus msculos, colocou o bocado de papel  sua frente e comeou a ligar o nmero. ao fim de dois toques da campainha, ouviu 
um clique que foi seguido por um breve sinal sonoro. Logo de seguida soou uma voz de mulher que no tinha a mnima modulao.
-Bom dia. Dez segundos depois de ter ouvido a minha voz, ouvir um sinal sonoro. Dispor de trinta segundos para deixar a sua mensagem, a hora a que telefonou, e 
o nmero de telefone onde poder ser contactado. Logo que possvel, o seu telefonema ser retribuido. Muito agradecida.
Christine aguardou pelo sinal sonoro.
-Daqui fala Christine Beall, do turno da noite. Da Ala Quatro Sul do Hospital Mdicos de Bston. Gostaria de submeter um paciente  vossa avaliao. O nmero da 
cabine telefnica  o cinco cinco, cinco, sete, um, oito, um. Neste momento so quinze horas e cinquenta minutos. Poderei ser contactada atravs deste telefone at 
s vinte e trs horas desta noite. Depois dessa hora poderei...-Antes de ter tido oportunidade de deixar o nmero de telefone de casa, ouviu-se um som abrupto quando 
o atendedor de chamadas interrompeu a ligao. Fez meno de voltar a ligar o mesmo nmero para poder concluir a sua mensagem. Mas, ento, sentiu-se assolada por 
uma incerteza que se renovara, voltando a colocar o auscultador sobre o descanso. "Se estiver destinado a que acontea, certamente que isso vir a concretizar-se, 
pensou Christine para consigo.

Harrison Weller olhava com uma expresso vazia para o tecto, sem se ter dado conta da entrada de Christine. No televisor Sony, de ecra reduzido, suspenso acima da 
cama por um brao metlico, via-se o logotipo e a msica de encerramento do programa A Luz Orientadora. Ele no prestava ateno nenhuma ao programa. Tinha setenta 
e cinco anos, mas as suas feies afiladas, de traos muito acentuados, mostravam a expresso serena de um rosto sem idade determinada.
-Mister Weller, como  que tem passado?-perguntou Christine, aproximando-se da cama do doente.-Porque  que tem os cortinados fechados? L fora est um dia lindo. 
A luz solar s Lhe fazia bem.
Ele olhou para ela com um sorriso que se via ser forado.
-O seu nome  Charlene, no  verdade?-perguntou.
-Mister Weller, sabe bem como  que eu me chamo. Desde que foi internado que eu venho quase todos os dias ao seu quarto. Chamo-me Christine.
-Disse-me que o dia estava soalheiro?-A voz de cana rachada de Weller trazia  mente de Christine um estudante liceal aspirante a actor, tentando imitar um homem 
de idade. Ele fora internado naquele piso por causa de uma fractura que sofrera na bacia, passando imediatamente a ser o doente preferido das enfermeiras. Embora 
ele no desse mostras de se sentir incomodado por ser o alvo do carinho delas, isso no significava que lhes retribusse. Era bastante frequente que se mostrasse 
confuso ou alheado de tudo o que o rodeava, um comportamento que tinha levado o seu cirurgio de ortopedia a classific-lo como senil.
Christine correu os cortinados, inundando o quarto com a luminosidade que fazia naquele fim de tarde. Ergueu Weller de forma a que este ficasse sentado, instalando-se 
junto dele numa posio que permitia ao doente ver o rosto dela. Durante breves instantes, o homem idoso semicerrou os olhos, aps o que esboou um sorriso rasgado.
 - Ora bem, e que bonita que voc  - disse ele ao mesmo tempo que estendia a mo e lhe dava um ligeiro belisco numa das faces.
Christine sorriu, tomando a mo dele nas suas.
 - Como  que a sua bacia se tem portado, Mister Weller?  - perguntou ela.
 - A minha qu?
 - A sua bacia - respondeu ela espaando as slabas e falando numa voz extremamente elevada. - O senhor foi operado  bacia. Quero saber se est a sentir algumas 
dores.
 - Dores? Na minha bacia?... No, no - replicou Weller quando ela j estava prestes a repetir a mesma pergunta. -  Nem uma dorzinha, excepto s vezes quando mexo 
o p para o lado esquerdo - acrescentou o doente.
Christine quase ficou sem respirao. Aquela era de longe a resposta mais elaborada que ele dera a alguma pergunta, desde que ela o conhecia. De chofre, compreendeu 
o que  que se estava a passar.
 - Mister Weller, por acaso costuma usar um auxiliar auditivo? - perguntou ela numa voz quase gritada.
 - Um auxiliar auditivo? - repetiu Weller na sua voz de cana rachada. -  claro que tenho um auxiliar auditivo. H j muitos anos que o tenho.
 - Porque  que ainda no o colocou?
 -  um bocado difcil colocar qualquer coisa que neste momento est numa gaveta em minha casa, no Lhe parece? -  retorquiu ele como se aquela deduo devesse ter 
sido mais do que bvia para ela.
 - E a sua mulher? Ela no pode trazer-lhe o aparelho para a surdez?
 - Quem, a Sarah? O artritismo tem-lhe dado tanto que fazer que ela ainda nem sequer conseguiu sair de casa para poder visitar-me no hospital.
 - Mister Weller, eu posso mandar algum a sua casa para ir buscar o seu auxiliar auditivo. Quer que eu faa isso?
 - Claro que gostaria muito que mandasse algum busc-lo, Charlene - respondeu ele apertando-lhe a mo. - E, j agora, diga-lhes que me tragam tambm os culos. 
A Sarah sabe onde  que eles esto. Sem eles no consigo ver nada  frente do nariz.
A expresso amistosa de Christine transformara-se num sorriso radiante.
 - Mister Weller, quem  que ajuda a Sarah nas tarefas domsticas enquanto ela est doente? - perguntou.
 - No tenho a certeza. A Annie Grissom. Vive ao nosso lado e sempre que pode d uma ajuda.
 - Eu posso enviar uma enfermeira a sua casa, Mister Weller. Caso ela conclua que a sua mulher necessita de quem a ajude, providenciar para que tenha uma empregada 
domstica.
 - Uma qu?
Christine esteve  beira de se repetir mas deteve-se a meio da frase, dando-lhe um abrao.
 - No se preocupe com isso. Eu trato de tudo - disse ela numa voz que era um misto de grito e de riso.
Bruscamente, Christine estremeceu e, com lentido, afastou os braos que a abraavam. Tinha a sensao estranha de que havia uns olhos que a observavam por detrs 
dela. Deu meia volta. Avistou Dorothy Dalrymple na ombreira da porta, a directora de todo o pessoal de enfermagem do hospital. A mulher devia rondar os cinquenta 
e cinco anos; tinha um rosto de querubim e um cabelo com um corte bastante curto. O seu uniforme expandia-se como se fosse uma massa de tundra coberta de neve, contendo 
um volume corporal que pesava aproximadamente cem quilogramas. Acima dos seus sapatos brancos e rasos de enfermeira viam-se uns tornozelos inchados. As dobras carnudas 
em redor dos olhos haviam-se aprofundado mais enquanto ela avaliava aquela cena.
De um salto, Christine levantou-se da beira da cama, comeando a ajeitar o uniforme. Apesar de conhecer Dalrymple desde que comeara a trabalhar no hospital, esse 
conhecimento limitara-se sempre aos contactos profissionais, o que fazia com que nunca se sentisse  vontade na presena da mulher. Talvez isso se devesse ao seu 
tamanho, que se impunha aos outros ou, possivelmente,  sua atitude de arrogncia. No podia dizer que ela no se tivesse mostrado suficientemente simptica e aberta 
para consigo.
A chefe das enfermeiras comeou a aproximar-se de Christine, detendo-se a menos de um metro dela e mantendo as mos na cintura.
 - Muito bem, Miss Beall - comeou ela a dizer num tom de reprovao, mostrando-se contudo incapaz de ocultar um sorriso um tanto de esguelha - . ser que me encontro 
perante uma nova tcnica de enfermagem, ou terei eu, inadvertidamente, perturbado um romance estival em franco florescimento?
Christine esboou um sorriso muito recatado, olhando para Weller.
 - Harrison - comeou ela a dizer numa voz suave - , eu bem te disse que acabaramos por ser descobertos. Muito simplesmente, no podemos continuar a encontrarmo-nos 
desta maneira. - Christine apertou-lhe as mos de uma forma que Lhe indicava no haver nada a temer, aps o que foi atrs de Dalrymple, que entretanto j sara do 
quarto.
Ao longo dos mais de quinze anos em que ela chefiara as enfermeiras dos Mdicos de Bston, Dotty Dalrymple tornara-se numa espcie de lenda, o que em grande parte 
se devia  proteco quase feroz que proporcionava "s suas enfermeiras". Sem nunca ter sido considerada uma pensadora brilhante, isso no obstava a que fosse bem 
conhecida no seio da comunidade mdica, no s devido ao seu carisma ursino, mas tambm porque a sua gmea univitelina, Dora, era a chefe das enfermeiras do Hospital 
Suburbano, localizado a pouco menos de vinte e cinco quilmetros a ocidente da cidade.
As duas eram conhecidas pelo nome das Manas Catatuas, apesar de nunca ningum se atrever a dirigir-se-lhes por essa alcunha. Ambas eram, tanto quanto qualquer pessoa 
sabia, as nicas directoras do pessoal de enfermagem, naquela rea da cidade, que continuavam a usar escrupulosamente os seus uniformes sempre que iam trabalhar. 
Era um simbolismo, ainda que pouco esttico, que contribua para a popularidade de que ambas gozavam.
Dalrymple colocou uma mo maternal sobre o ombro de Christine.
 - Ora vamos l a ver, Christine, o que  que foi tudo aquilo? - perguntou ela.
Em poucas palavras, Christine relatou a forma como havia descoberto as causas provveis da "senilidade" de Harrison Weller.
A chefe das enfermeiras partilhou do empolgamento que ela sentia.
 - Sabes... - comeou ela a dizer. - Eu passo tanto do meu tempo embrenhada na papelada, em negociaes laborais e poltica hospitalar que, por vezes, me passa por 
completo ao lado o que  efectivamente o trabalho de enfermagem. - Numa atitude de modstia, Christine acenou com a cabea. -  O entusiasmo que tu mostras pelo teu 
trabalho traz-me  recordao que, independentemente da pouca considerao que os mdicos nos possam mostrar, apesar do muito que possam menosprezar a nossa inteligncia 
ou a nossa capacidade de discernimento, ns continuamos a ser as pessoas que prestam directamente cuidados mdicos aos doentes. As que, na realidade, os conhecem 
como seres humanos, que eles so de facto. Estou firmemente crente que a maior parte dos doentes que conseguiram recuperar a sua sade deve essa recuperao aos 
cuidados das enfermeiras e no aos que Lhes so prestados pelos mdicos.
"E quanto queles que no conseguem recuperar?", apeteceu a Christine perguntar.
Por uns instantes, ambas percorreram o corredor em silncio.
 - Christine, tu s uma enfermeira muito especial - prosseguiu Dalrymple pouco depois, detendo-se e voltando-se para Christine. - Este hospital precisa de ti e de 
outras como tu. Espero que te sintas sempre  vontade para falares comigo sobre o que quer que seja que te preocupe. Seja o que for.
Em princpio, as palavras dela deveriam ter instilado segurana em Christine; contudo, havia algo indefinido na expresso da mulher que no se enquadrava no seu 
discurso. De sbito, Christine sentiu calafrios e uma sensao de mal-estar. Procurava uma resposta na sua mente, quando o telefone pblico ao fim do corredor comeou 
a tocar. Girou sobre os calcanhares como se o som da campainha tivesse sido o disparo de uma arma de fogo.
 - Pois bem, Christine, no me parece que aquele telefone tencione atender-se a si prprio - disse Dalrymple, comeando a dirigir-se para o aparelho.
 - Eu vou atender - apressou-se Christine a dizer atabalhoadamente, passando num passo rpido pela chefe das enfermeiras, que se mostrava espantada com a sua atitude.
Quando j se encontrava prxima do telefone, abrandou a passada, na esperana vaga de que este deixasse de tocar antes de ela poder atender; e, contudo, ao mesmo 
tempo sentia receio de que isso viesse a acontecer. Hesitou, aps o que agarrou no auscultador, levando a mo  algibeira onde guardara os apontamentos relativos 
a Charlotte Thomas. No sabia bem como, mas tinha a certeza que aquele telefonema era para sit
A voz que respondeu do outro lado da linha era a de uma mulher, cuja entoao inflexvel talvez se devesse a um ligeirssimo sotaque.
 - Queria falar com Miss Christine Beall, uma enfermeira de servio nesse piso.
 - Daqui fala Christine Beall - disse ela, tentando engolir, numa tentativa para afastar a secura que uma vez mais Lhe reaparecera na boca.
 - Miss Beall, o meu nome  Evelyn. Estou a telefonar-lhe em resposta  mensagem que deixou ao princpio da tarde. Represento o Comit Regional de Avaliao da Nova 
Inglaterra.
Com um olhar de cora amedrontada, Christine perscrutou o corredor. Dalrymple j se tinha ido embora. Encontravam-se presentes vrias pessoas, pessoal mdico e algumas 
visitas, embora ningum se encontrasse  distncia de poder ouvi-la.
 - Eu... eu tenho um caso que gostaria de apresentar para avaliao e recomendao - continuou ela numa voz gaguejada, sem ter bem a certeza de se recordar da sequncia 
que deveria ser dada  conversa.
 - Muito bem - replicou a mulher. - Vou comear a tomar apontamentos. Portanto, peo-lhe o favor de falar com clareza e devagar. No tenho a inteno de a interromper, 
salvo se for absolutamente necessrio e essencial. Faa o favor de comear.
As mos de Christine comearam a tremer enquanto colocava os apontamentos  sua frente. Decorreram trinta segundos, durante os quais os seus pensamentos e emoes 
desfilavam a uma tal velocidade que a impossibilitavam de articular as palavras. Raciocinou para consigo prpria que Charlotte desejava tanto pr cobro  sua situao 
que a sua atitude s poderia ser a mais correcta. Era imprescindvel que fosse a mais adequada. No entanto, algures bem no seu mago pairava a semente da dvida. 
S foi capaz de retomar a palavra depois de se ter convencido a si mesma de que, ainda que o caso fosse aprovado, em qualquer altura teria sempre a oportunidade 
de mudar de ideias.
- A doente em questo  Mistress Charlotte Thomas -  prosseguiu Christine num timbre lento, montono e factual, que esperava pudesse ocultar o estremecimento que 
sentia na voz. -  uma mulher de raa branca com sessenta anos de idade, uma enfermeira diplomada. A dezoito de Setembro, foi submetida a uma resseco Miles, assim 
como a uma colostomia devido a um cancro no clon. Desde o processo cirrgico que ela no tem andado nada bem. Eu conheo Mistress Thomas desde que foi internada, 
depois de ter sido diagnosticada em Agosto, o que me permitiu passar muitas horas a converser com ela, quer antes quer aps a operao. Sempre foi uma mulher atltica, 
active e vigorosa, tendo-me dito em vrias ocasies que seria incapaz de enfrentar a vida numa situao em que ficasse tolhida ou de invalidez devido s cores. Recentemente, 
ainda em Julho passado, ela trabalhava a tempo inteiro para uma agncia que presta cuidados mdicos ao domiclio.
Christine apercebeu-se de que se expressava um pouco incoerentemente. Sentia as mos fries e humedecidas. Soubera de antemo que aquilo no seria nada fcil. Naquela 
mesma manha, Peg tinha-lhe afirmado que no seria. No entanto, nunca imaginara que viria a sentir aquela espcie de tenso. E ainda se encontrava apenas no relatrio 
inicial do caso. E se eles viessem a afar a sua aprovao? E se realmente ela fosse forada a...
 - Miss Beall, faa o favor de continuer - instigou Evelyn. Nesse instante, Christine ouviu o som de passos prximo de sit Entrando em panico, voltou-se para descobrir 
a origem do rudo. - Miss Beall? Continua a? - perguntou a sua interlocutora.
Dotty Dalrymple encontrava-se a menos de um metro de distncia. "Meu Deus, o que  que estar a acontecer?"? perguntou Christine a si prpria. "Ter ela ouvido a 
minha conversa?"
 - Miss Beall, continua ao telefone?
Os ns dos dedos  volta do auscultador ficaram brancos.
 - Sim, sim, tie Evelyn - respondeu ela a custo - , aguarde s por um minuto, pode ser? A minha chefe quer falar comigo. - Pousou o brao em cima da bancada do telefone. 
Mesmo assim continuava a senti-lo a tremer.
- A voz era mais intima.
- Christine, ests a sentir-te bem? - perguntou Dalrymple num tom de voz que Lhe parecia ser demasiado suave, exageradamente despreocupado.  - Ests com um aspecto 
um pouco plido.
"Quantas mais explicaes  que ela pretender?", interrogava-se Christine. At que ponto  que as mentiras deveriam ir?
 - Oh, no. Sinto-me lindamente, Miss Dalrymple.  a minha tia. A minha tia Evelyn.
 - Desde que estejas a sentir-te bem... - retorquiu Dalrymple com um encolher de ombros. - Tu deste-me a impresso de estares prestes a saltar para fora da tua pele, 
quando o telefone comeou a tocar. H pouco, ao ver que tu ainda no tinhas regressado, comecei a ficar preocupada, pensando que talvez te tivesse acontecido alguma 
coisa...
Christine cortou-lhe a palavra com uma risada que, sem dvida, era demasiado forada.
 - No, est tudo bem. Trata-se... do meu tio. Ele foi operado hoje; tenho estado  espera de notcias do seu estado. Mas correu tudo bem.  - Mentiras, umas atrs 
das outras. No se recordava de qual tinha sido a ltima ocasio em que mentira at ento.
 - Diz  tua tia que me congratulo muito por a operao ter corrido pelo melhor.
 - S demoro mais uns minutos, Miss Dalrymple - redarguiu Christine numa voz sumida.
 - No tem importncia, fala durante o tempo que for necessrio. - Dalrymple brindou-a com um sorriso mecanizado e comeou a afastar-se, seguindo pelo corredor. 
Christine sentia-se como se estivesse prestes a vomitar. Os apontamentos relativos a Charlotte Thomas eram uma bola amachucada dentro do seu punho cerrado.
 - Evelyn, ainda est a? - perguntou ela numa voz que mal se ouvia.
 - Sim, Miss Beall. Agora j pode continuar?
Christine pensou "No!", mas retomou a palavra.
 - Sim... sim. J estou bem. S preciso de um segundo para organizar os meus apontamentos. - Sentia os dedos rgidos, parecendo que estes se recusavam a obedecer-lhe. 
Primeiro fora o telefonema de Peg, ao que se seguira a agonia sentida pela mulher de John Chapman, depois fora Charlotte, e por ltimo Miss Dalrymple que aparecera 
to inopinadamente e na pior ocasio possvel, dando a impresso de que a mantinha sob uma observao mais cerrada do que a que dedicava s outras enfermeiras. Acontecimentos 
que certamente no tinham qualquer ligao entre si, ou se esta existia seria quase imperceptvel; contudo, de sbito ela sentia-se quase paralisada, enquanto a 
sua imaginao tecia uma corda entranada de pnico que se mantinha apertada  volta do seu peito e garganta. Em movimentos desajeitados, Christine comeou a alisar 
os apontamentos em cima da pequena bancada, esforando-se por recuperar o domnio sobre si prpria.
 - A... a agncia de cuidados mdicos ao domiclio. Eu j Lhe tinha falado desta agncia? - O receio que se adivinhara na sua voz j tinha comeado a dissipar-se.
 - Sim, j mencionou - continuou Evelyn num tom cheio de pacincia.
 - Muito bem. Vamos a ver. Oh, sim, eu ia aqui. - As palavras saam-lhe estranguladas e sem a mnima coerncia. -  Mistress Thomas tem estado submetida a um tratamento 
de hiperalimentao atravs da tubagem interna subclavicular, o que j dura h quase duas semanas, para alm de continuar a ser medicada com antibiticos por via 
intravenosa, terapia pulmonar de hora a hora e oxignio contnuo. - Naquele momento, Christine deu-se conta de que tinha passado em branco uma pgina inteira. Na 
realidade, no tinha a certeza do nmero de pormenores que j mencionara. - Evelyn, eu... eu acho que omiti alguns aspectos. Posso voltar atrs para rever as minhas 
notas?
 - Pode fazer tudo o que Lhe parea ser melhor, minha querida. Ns havemos de conseguir deslindar todos os elementos. Agora, aconselho-a a descontrair-se, fornecendo-me 
todas as outras informaes que coligiu.
As primeiras palavras calorosas que a mulher proferira tiveram um efeito imediato. Christine respirou fundo, sentindo que grande parte da tenso que a afligira tinha 
desaparecido.
 - Muito obrigada - retorquiu ela com suavidade. A sensao de segurana que Evelyn Lhe instilara trouxera-lhe algo  recordao: ela no se encontrava a agir numa 
situao de isolamento. Fazia parte de um grupo, um movimento firmemente empenhado na obteno do bem supremo. Se o seu papel era difcil, por vezes, mesmo assustador, 
a situao era a mesma para o resto da "irmandade". Pela primeira vez, da sua voz trespassou uma nota de calma. - O que eu omiti foi o facto de ela ter sido obrigada 
a submeter-se a outra interveno cirrgica, logo aps a primeira, para que pudessem ser drenados vrios abcessos bastante volumosos na pelve. H uma semana, foi 
acometida por uma pneumonia; ontem  noite foi necessrio inserir-lhe um tubo nasogstrico, devido  possibilidade da existncia de uma obstruo de natureza intestinal. 
- Christine continuava a tremer; todavia, agora as palavras saam-lhe da boca com maior facilidade. - Recentemente, a doente comeou a sofrer de uma ferida, consequncia 
de uma presso enorme e dolorosa no osso sacro, pelo que passou a necessitar de Demerol vinte e quatro horas por dia. a par das terapias locais que so habituais 
nestas situaes. Desde ontem que as anotaes feitas pelo seu mdico na papeleta atestam que a pneumonia est a agravar-se. A despeito de todo este problemtico 
quadro clnico, ela est escalonada para receber cuidados intensivos de ressuscitao, no caso de o seu organismo falhar. - "Graas a Deus que estou quase a terminar", 
pensou Christine. - Mistress Thomas  casada, tem dois filhos e vrios netos. E com isto concluo a minha apresentao. - Soltou um profundo suspiro.
 - Miss Beall - atalhou Evelyn - , poder fazer o favor de me dizer se no seu historial mdico existem provas documentais que atestem a existncia de disseminao 
do tumor a outros rgos?
 - Sim, sim. Lamento muito. Passei em branco parte de uma pgina. Existe um pormenor. Um relatrio radiolgico. Trata-se de um exame feito ao fgado na semana passada. 
O radiologista diz: "Anomalias mltiplas sob a forma de cavidades consistentes com o tumor."
 - Qual foi o ltimo caso que teve em mos?
 - O nico caso. Foi h quase um ano. Mistress Thomas ser o meu segundo caso, se vier a concretizar-se. - Da ltima vez, as coisas no se tinham passado daquela 
maneira, pensou Christine. Fora uma maravilha e no um calvrio. Sentia as pernas sem aco. Instintivamente, olhou em seu redor  procura de uma cadeira.
 - Estou-lhe muito agradecida por nos ter telefonado -  acrescentou Evelyn - , assim como pela apresentao que fez do seu caso que, devo dizer foi excelente. O 
Comit Regional de Avaliao da Irmandade da Vida proceder a um estudo em relao ao estado da doente, aps o que entrar em contacto consigo num perodo de vinte 
e quatro horas. Entretanto, tal como est bem ciente, no deve tomar qualquer medida que seja de sua prpria iniciativa.
 - Eu compreendo. - O assunto estava prestes a terminar.
 - S mais uma coisa, Miss Beall - prosseguiu Evelyn. -  Qual  o nome do mdico dessa doente?
 - O mdico dela?
 - Sim - respondeu Evelyn.
 -  o doutor Huttner. Wallace Huttner, o chefe de cirurgia do hospital.
 - Muito obrigada - concluiu Evelyn.  - Manter-nos-emos em contacto consigo.



CAPiTULO 3

David Shelton tamborilava impacientemente com os dedos no brao do cadeiro, enquanto folheava uma edio de h trs meses de The American Journal of Surgery. O 
empolgamento e a expectativa que sentia perante a perspectiva de fazer a ronda da noite com Wallace Huttner haviam sido atenuados por uma espera que at ao momento 
se alongara por trs quartos de hora. A Huttner deveria ter-se-lhe deparado dificuldade inesperada no bloco operatrio.
Durante algum tempo, David andara de um lado para o outro na sala dos cirurgies, onde na altura se encontrava a ss, fechando portas de cacifos - um gesto que Lhe 
parecia, inexplicavelmente, repor alguma ordem naquela situao. Quarenta e cinco minutos passados numa sala deserta, tendo apenas por companhia um conjunto de cacifos, 
era um aspecto que no fazia minimamente parte do cenrio que concebera para aquele fim de tarde.
Sentindo uma preocupao crescente perante a probabilidade de Huttner se ter esquecido por completo do encontro marcado com ele, David despiu o fato que havia feito 
ressuscitar do mais recndito do seu guarda-fatos, especialmente para aquela ocasio, tendo optado por um conjunto de roupas verdes prprias para cirurgia, aps 
o que cobriu os sapatos de pala, j bastante usados, com proteces de papel, metendo dentro da zona do calcanhar o fio elctrico negro de ligao  terra. Ainda 
pensou em calar os seus sapatos de lona verde, que se destinavam  sala de operaes, mas rejeitou a ideia receando que os sapatos, um par novo e limpo, pudessem 
dar a impresso de que ultimamente no passara muito tempo no bloco operatrio, o que era uma verdade incontestvel.
O ritual de mudar de traje, passando a usar o de cirurgia, teve o efeito imediato de Lhe elevar o moral, que to abalado se encontrava. Colocando uma mscara de 
papel e uma touca para proteco dos cabelos, comeou a trautear distraidamente os acordes da abertura de A Virgem de Macarena, uma melodia que tinha ouvido pela 
primeira vez h muitos anos, anunciando a chegada de um toureiro numa corrida que tivera lugar numa arena na cidade do Mxico.
Subitamente, apercebeu-se daquilo que entoava e comeou a rir-se em voz alta.
 - Shelton, no h dvida de que ests completamente passado do juzo. A seguir vais exigir duas orelhas e o rabo, a troco de uma apendicectomia realizada com sucesso. 
- Parando em frente de um espelho, meteu dentro da touca vrios tufos de cabelo que Lhe haviam escapado, aps o que se dirigiu para O piso de cirurgia.
A Ala Cirrgica Dickenson, cujo nome era uma homenagem ao primeiro chefe de cirurgia do hospital, compunha-se de vinte e seis quartos que no possuam janelas, ocupando 
inteiramente o stimo e oitavo pisos do edifcio virado a oriente. Os relgios de parede, que davam a impresso de terem o dom da ubiquidade, propiciavam o nico 
vestgio da forma como a vida decorreria fora das paredes do hospital. No que respeitava a atmosfera, poltica, ordem social e at mesmo linguagem, a ala de cirurgia 
constitua um mundo dentro de um mundo, inserido num outro mundo.
Desde os seus primeiros dias de estudante de medicina, e at mesmo antes, David sempre sonhara em vir a fazer parte desse mundo. Adorava o som ensurdecido que vinha 
dos vrios equipamentos clnicos, das vozes sussurradas que se faziam ouvir pelos corredores de paredes imaculadamente pintadas, assim como a tenso que se verificava 
nas muitas horas de cirurgia meticulosa, os segundos de aco frentica que ocorriam nas crises em que estava em jogo a vida ou a morte. Naquele momento, e pela 
segunda vez na sua vida, o seu sonho estava prestes a realizar-se.
Examinando o corredor de azulejos de um verde-lima, viu alguns indcios de actividade somente em duas salas de operaes. As outras haviam sido meticulosamente limpas 
e preparadas para os primeiros casos da manh seguinte, aps o que as luzes se manteriam desligadas ao longo da noite.
Apostou consigo mesmo em como Huttner estaria a operar na sala  sua direita; o resultado foi perder um fim-de-semana em Acapulco na companhia de Meryl Streep.
 - Posso ser-lhe til? - perguntou-lhe a enfermeira que no dava assistncia directa ao cirurgio, falando-lhe da ombreira da porta. Ela usava uma bata verde de 
cirurgia que quase Lhe ocultava totalmente a constituio fsica, que mais se assemelhava  de um jogador de futebol de grande corpulncia. De entre uma touca de 
tecido com um padro florido que Lhe protegia os cabelos, e uma mscara que Lhe cobria a boca e nariz, ela observava-o com uns olhos de cor turquesa.
"Mostra-te seguro de ti prprio", pensou David. "No escondas uma consternao ligeiramente desabrida por no teres sido reconhecido." Tentava formular uma rplica 
que intimidasse a mulher, quando Huttner o fitou do seu lugar ao lado direito de uma mesa operatria.
 - Ah, David, seja bem-vindo - saudou ela em voz alta.  - Edna, este  o doutor Shelton. Por favor, arranje-lhe um escabelo. Coloque-o... ali, por detrs do doutor 
Brewster. -  Fez um acenar de cabea na direco do mdico estagirio, o qual Lhe prestava assistncia do outro lado da mesa.
David subiu para o escabelo e baixou o olhar para a inciso.
 - Tudo comeou como sendo uma simples sutura demasiado apertada de uma lcera que sangrava - comeou Huttner a explicar, sem se dar conta... ou, pelo menos, sem 
que o desse a conhecer, que j estava atrasado para a ronda aos doentes que haviam combinado. - Mas, depois de termos cortado, deparou-se-nos um pequeno problema, 
o que nos levou a decidir prosseguir com uma hemigastrectomia, e uma anastomose Bilroth. - David tomou mentalmente um apontamento da escolha dos pronomes utilizados 
por Huttner, tendo arquivado aquele conhecimento bem no fundo da sua mente.
Ao cabo de alguns segundos, o ritmo de trabalho na sala de operaes, que fora quebrado pela chegada de David, j se restabelecera. No foi preciso muito tempo para 
que David se apercebesse de que a destreza, poder de concentrao e capacidade de domnio que Huttner mostrava, eram extraordinrios. Ali no existiam palavras ou 
movimentos suprfluos. To-pouco se verificava qualquer aparncia exterior de indeciso. Embora existissem outros na sala de operaes a desempenhar os seus papis, 
ele era, sem margem para qualquer dvida, tanto solista principal como regente.
Subitamente, houve um par de tesouras que escaparam da mo de Huttner, quando a enfermeira que o assistia Lhas entregou. Tombaram no cho com estrondo que mais se 
assemelhava a uma exploso em pequena escala. Os olhos azul-acinzentados do cirurgio coruscaram.
 - Raios partam isto, Jeannie - exclamou ele com brusquido. - Importa-se de prestar mais um pouco de ateno ao que est a fazer?!
A enfermeira adquiriu uma postura rgida, tartamudeando um pedido de desculpas enquanto Lhe entregava outra tesoura, o que fez com todas as cautelas. Os olhos de 
David semicerraram-se ligeiramente. Do seu ponto de observao, que Lhe proporcionava uma certa vantagem, a passagem do instrumento cirrgico parecera-lhe ter sido 
devidamente adequada. Lanou um olhar para o relgio de parede. Dezanove horas e trinta minutos. Foi ento que se deu conta de que Huttner, provavelmente, teria 
estado a operar durante a maior parte de doze horas consecutivas.
Um minuto mais tarde, Huttner avaliou os resultados do seu trabalho, rodando a cabea para aliviar a tenso que sentia no pescoo.
 - Muito bem, Rick, ela  toda tua. Podes prosseguir com a sutura - instruiu ele, dirigindo-se ao mdico estagirio. -  As precaues so as normais num estado ps-operatrio. 
No me parece que ela tenha necessidade de ir para a Unidade de Cuidados Intensivos, mas voc deve fazer o que Lhe parecer melhor, quando ela estiver pronta para 
sair da sala de recuperao. Se houver qualquer complicao, deve contactar o doutor Shelton.  ele quem fica a substituir-me enquanto eu estiver no congresso vascular 
em Cape. Alguma dvida que queira esclarecer?
David julgou ter visto um vislumbre de respeito mais acentuado, aliado ao interesse, que se reflectiu no olhar da enfermeira que dera apoio ao cirurgio. Fosse verdadeira 
ou imaginria, aquela expresso reacendeu de imediato o empolgamento que os trs dias seguintes teriam reservado para si.
Huttner retrocedeu, afastando-se da mesa de operaes e comeando a despir as roupas de cirurgia ensanguentadas, assim como as luvas, o que fez num nico movimento; 
encaminhou-se para a sala dos mdicos com David, que seguia logo atrs de si. Em vez de se deixar cair em cima do sof que estivesse mais prximo, tal como David 
esperara que viesse a acontecer, Huttner encaminhou-se num passo casual para o seu cacifo, de onde retirou o seu cachimbo e uma bolsa de tabaco. Encheu e compactou 
o elegante cachimbo antes de se instalar num sof forrado a couro espesso. Fazendo um gesto com o cachimbo, indicou a David que se sentasse junto de si no mesmo 
sof.
 - H dois dias que o Turnbull deveria ter encaminhado aquela mulher para que fosse operada - disse ele, referindo-se ao mdico estagirio que no fora capaz de 
conter a ruptura na lcera. - Aposto que eu no teria sido forado a remover parte do estmago da doente, caso ele tivesse procedido dessa forma. - Huttner cerrou 
os olhos e massajou a cana do nariz com uns dedos que mais pareciam de porcelana, e cujas unhas estavam cuidadosamente arranjadas.
Com sessenta e poucos anos, Huttner era um homem de estatura elevada e constituio angular, que media uns bons centmetros mais do que um metro e oitenta, tendo 
uns cabelos negros onde se via a quantidade apropriada de fios grisalhos na regio da fronte; era, at ao mais nfimo pormenor, a figura de aspecto patrcio que 
as fotografias nos jornais reproduziam.
 - Chegaram-me aos ouvidos palavras elogiosas a respeito do seu trabalho, por parte das enfermeiras do bloco operatrio, David - acrescentou Huttner no sotaque bem 
cultivado e to caracterstico da Nova Inglaterra.
Palavras elogiosas. David passou vrios segundos a avaliar aquele cumprimento. Tratava-se de uma reaco em reflexo, que tinha a sua origem em quase oito anos de 
conversas condescendentes e colegas pseudo-solcitos. David no gostava daquela forma de actuao, embora tivesse acabado por se habituar. Tinha a certeza de que 
as palavras elogiosas de Huttner eram sinceras.
 - Obrigado - agradeceu ele. - Tal como teve oportunidade de ver hoje, algumas dessas pessoas nem sequer me conhecem. O que estou a tentar dizer  que um caso importante 
por semana, ou de quinzena a quinzena, no pode ser considerado como sendo uma base slida para se poderem tirar concluses. - As suas palavras no eram de amargura, 
expressando meramente o reconhecimento de um facto. David sabia que Huttner poderia realizar quinze ou mais operaes importantes, por cada uma das suas.
 - Pacincia, David, pacincia - aconselhou Huttner. -  Estou recordado de Lhe ter dito precisamente isso quando voc veio falar comigo pela primeira vez, a fim 
de me solicitar os privilgios especiais de que gozam os mdicos que fazem parte do quadro. No se deve esquecer de que, da mesma forma que os mdicos so constantemente 
elevados a pedestais, tambm ficam sujeitos a um exame minucioso constante. - Uniu a ponta dos dedos enquanto escolhia criteriosamente as suas palavras. - Os problemas 
semelhantes aos... enfim... queles por que voc passou no so esquecidos com muita facilidade pela comunidade mdica. Constituem uma ameaa, apontando para uma 
vulnerabilidade que a maior parte dos mdicos no deseja admitir ter. Voc deve continuar a limitar-se a executar um trabalho de qualidade e consciencioso, tal como 
tem vindo a fazer, e os casos comearo a surgir. - Com aquelas palavras, Huttner recostou-se para trs numa atitude pontifical, colocando as mos em redor do cachimbo.
 - Espero bem que sim - retorquiu David com um sorriso um tudo-nada forado. - Gostaria que soubesse o quanto me sinto agradecido pela confiana que depositou em 
mim, escolhendo-me para o substituir. Em termos pessoais, para mim isso tem um grande significado.
Com um gesto vago feito com o cachimbo, Huttner ignorou o cumprimento, embora a sua expresso sugerisse que este fora esperado, pelo que a sua ausncia no teria 
passado despercebida.
 - Isso no tem a mnima importncia, eu  que Lhe devo estar agradecido.  um grande alvio saber que os meus doentes tero um jovem empreendedor, como voc, que 
trate deles enquanto eu estiver fora. Se a memria no me atraioa, voc fez o seu estgio no Hospital White Memorial, no  verdade?
 - Sim, senhor. Em tempos, ocupei o lugar de chefe dos mdicos estagirios.
 - Nunca consegui ser aceite para esse programa - comentou Huttner, abanando a cabea num gesto que poderia ser interpretado como uma manifestao de melancolia. 
-  E deve tratar-me por Wally. Os "sim, senhor" que me so dirigidos todos os dias davam para encher a corte do rei Artur.
David acenou com a cabea, esboando um sorriso enquanto se impedia no ltimo instante de replicar com um "sim, senhor".
Dando um impulso ao corpo, Huttner ps-se de p.
 - Um duche rpido e depois transferirei para os seus cuidados os doentes dos dois pisos. - Lanou as roupas de cirurgia para dentro de um recipiente de lona; em 
seguida, tirou uma publicao mdica de dentro do seu cacifo, entregando-a a David. - D uma olhadela por este artigo escrito por mim sobre o mtodo de cirurgia 
drstica, onde eu abordo um mal no peito de natureza metasttica. Estou interessado em conhecer a sua opinio acerca deste assunto.
Com aquelas palavras, Huttner dirigiu-se para os chuveiros.
 - Voc joga tnis, David? - perguntou ele em voz alta antes de abrir a torneira. - Temos de combinar um dia para batermos umas quantas bolas, antes que o tempo 
comece a piorar.
 -  bastante frequente que no consiga distinguir entre o meu estilo de jogar tnis e a forma como fao halterofilia -  replicou David numa voz suficientemente 
baixa para ter a certeza de que Huttner no podia ouvir nada do que ele dissera. Folheou o artigo. A publicao em que fora inserido era um tanto obscuro. Huttner 
defendia o processo cirrgico radical, quer fosse aos seios, ovrios ou  glndula supra-renal, nos casos em que as doentes sofriam de um cancro da mama j muito 
disseminado. Aquele conceito no tinha nada de revolucionrio. Em determinadas circunstncias era bem aceite. No entanto, apesar de aquele tipo de doena se revestir 
de todo o horror que era sobejamente conhecido, a abordagem da cirurgia radical escrita em letra de forma, onde se avaliavam os ndices de sobrevivncia, trouxe 
 garganta de David um sabor a blis. Sobrevivncia. Seria esse efectivamente o factor base? Num gesto brusco, fechou a publicao e voltou a coloc-la dentro do 
cacifo de Huttner.
Atravs dos altifalantes anunciava-se que havia terminado a visita das vinte horas, na mesma altura em que os dois cirurgies iniciaram a ronda aos pisos do edifcio 
virado a ocidente. Algumas horas antes, David visitara os doentes que tinha no hospital: um garoto de dez anos que fora hospitalizado devido a uma hrnia, e Edwina 
Burroughs, uma mulher de quarenta anos, cujo emprego e quatro gravidezes lhe haviam provocado veias varicosas agravadas, as quais se encontravam contorcidas e enodadas, 
quais razes da rvore chamada baniano.
Wallace Huttner tinha mais de vinte e cinco doentes espalhados por trs edifcios afastados uns dos outros. Quase todos eles se encontravam em fase de recuperao 
aps operaes de grande risco. Em todos os pisos, a chegada de Huttner provocava imediatamente um grande impacte. As brincadeiras nas salas das enfermeiras cessavam 
no mesmo instante..As vozes baixavam de timbre. A enfermeira de servio materializava-se, sendo portadora de relatrios clnicos, preparada para acompanhar os dois 
mdicos na ronda aos doentes. As respostas a algumas perguntas ocasionais formuladas por Huttner eram gaguejadas, monossilbicas ou tinham a forma de uma torrente 
excessiva de informaes, articulada com nervosismo. ao longo das visitas aos doentes, Huttner mantinha uma atitude de cortesia, deslocando-se determinadamente da 
cabeceira de uma cama para a seguinte, sem manifestar o mnimo vestgio de cansao, o que David sabia que ele necessariamente teria de sentir. Sem dvida nenhuma 
que o homem era um espcime nico, reconheceu ele perante si prprio. Um verdadeiro fenmeno.
Decorrido pouco tempo, aquela ronda aos doentes comeou a adquirir um ritmo fcil de acompanhar. Huttner permitia que a enfermeira responsvel os conduzisse para 
a entrada de um quarto. Em seguida, agarrava na papeleta do doente que ela trouxera consigo, chegando-se  beira da cama. David, a enfermeira de servio e, com frequncia, 
uma outra enfermeira responsvel pela pessoa internada seguiam atrs dele. Logo depois, Hutther entregava a papeleta por abrir a David, apresentava-o ao doente, 
passando a sintetizar o historial clnico inicial do caso em questo, abordando o tipo de cirurgia utilizado e os tratamentos subsequentes, dando os pormenores numa 
linguagem mdica que ningum, para alm de um mdico ou de uma enfermeira, poderia ter compreendido por muito que se esforasse.
Finalmente, o cirurgio procedia a um breve exame clnico enquanto David dava uma olhadela pelo historial mdico, servindo-se de um bloco de apontamentos para registar 
os dados laboratoriais mais pertinentes, assim como a abordagem teraputica generalizada que Huttner administrava ao doente em questo, e o curso de tratamento a 
seguir. De uma maneira geral, David tentava no ser intrusivo, falando somente quando Lhe dirigiam a palavra, embora optasse por restringir as suas perguntas ao 
que parecia ser um mnimo razovel.
De tempos a tempos, lanava um breve olhar a Huttner. Tanto quanto Lhe era dado perceber, o homem parecia estar satisfeito por os seus doentes ficarem entregues 
a um mdico competente. A despeito disso, ao fim de pouco tempo David comeou a sentir um certo mal-estar. No obstante todas as lendas, a assistncia prestada pelos 
estagirios e as inquestionveis capacidades cirrgicas, talvez sem paralelo, Wallace Huttner era descuidado: as anotaes relativas aos progressos clnicos eram 
breves, sendo bastante frequente que carecessem de determinadas informaes; existiam ainda alguns resultados laboratoriais, deveras anmalos, que no eram detectados 
por muitos dias, at que algum reparasse neles e mandasse que fossem repetidos. Eram coisas de pouca monta. Quase imperceptveis. No entanto, era inquestionvel 
que se verificava aquele tipo de procedimento. No se tratava do gnero de descuido que poderia vir a afectar todos os casos; todavia, era inevitvel que se viesse 
a manifestar em determinada altura -  durante um internamento hospitalar prolongado ou numa segunda operao, podendo mesmo resultar numa morte.
"Ele deve estar a par disto", disse David para consigo prprio. "Ele sabe, mas at ao momento ainda no encontrou uma maneira de lidar com esses problemas." David 
concluiu que aquela situao no tinha nada a ver com falta de orgulho profissional, de interesse ou de eficincia: era por de mais evidente que Huttner possua 
essas trs qualidades. O que acontecia era que o homem se via forado a correr a muita coisa ao mesmo tempo. O nmero de casos clnicos era excessivo, para no mencionar 
o acrscimo de demasiados comits, grupos de trabalho e obrigaes de carcter docente. Qual o nmero de tarefas de que um homem se poderia ocupar ao longo de um 
s dia? Mais cedo ou mais tarde, o indivduo em questo ver-se-ia obrigado a estabelecer limites ou a fazer concesses, ou ainda... arranjar quem o ajudasse. Talvez 
Lauren tivesse razo, compreendeu David extremamente excitado. Era muito possvel que Huttner se encontrasse  procura de um associado. Ou talvez, David riu-se de 
si prprio, Huttner o houvesse seleccionado para cuidar dos seus doentes, acreditando que de todos os cirurgies que existiam no hospital ele fosse, muito plausivelmente, 
aquele que menos repararia naquelas negligncias mdicas. Mas tudo aquilo no interessava por a alm. Os descuidos e as omisses eram de somenos importncia. Ele 
examinaria todas as papeletas no dia seguinte, remediando todas aquelas pequenas falhas.
"Limita-te a manter-te de boca fechada", disse David a si mesmo. "S falta cobrir alguns casos, aps o que ficars inteiramente por tua conta."
Minutos depois, a deciso que David tomara de se manter calado foi desafiada. O doente era um homem j perto dos sessenta anos, cuja actividade profissional era 
a pesca, de nome Anton Merchado. Havia j vrias semanas que ele tinha sido internado no hospital, devido a uma massa abdominal. Huttner havia drenado e extirpado 
um quisto alojado no pncreas de Merchado, o qual se encontrava a recuperar muito bem, quando comeou a manifestar sintomas de uma infeco respiratria das vias 
superiores. Tendo dado as suas instrues por contacto telefnico, Huttner medicamentara o homem com tetraciclina, um antibitico que era muito utilizado.
O estado do doente deveria ter melhorado com aquela medicao, pensou David, uma vez que no havia mais qualquer meno  anomalia nos breves apontamentos de Huttner. 
Contudo, a terapia com o antibitico nunca chegara a ser anulada. Havia quase duas semanas que continuava a ser ministrada.
Ansioso por apressar a ronda aos doentes, Huttner apresentava a sua verso sumariada do historial mdico do homem, ao mesmo tempo que examinava o seu corao, os 
pulmes e o abdmen. David mantinha-se um pouco afastado ao lado do outro cirurgio, concentrando a sua ateno mais na papeleta do que naquilo que o colega mais 
velho Lhe dizia.
No dia anterior quele em que Merchado deveria de ter tido alta do hospital, fora acometido por uma diarreia grave. O diagnstico inicial de Huttner indicara uma 
virose entertica, mas, no decurso de alguns dias, o seu estado agravara-se para alm daquilo que uma simples infeco viral poderia ter causado. Comearam a surgir 
os primeiros sinais sintomticos de um caso de desidratao.
David passou dos apontamentos relativos ao desenvolvimento do estado de sade do doente para as anlises laboratoriais, voltando atrs. A preocupao crescente de 
Huttner manifestava-se todos os dias no nmero acrescido de instrues no sentido de serem efectuados mais exames de laboratrio, em conjunto com prticas de diagnstico, 
sem que nenhuma das medidas fosse conclusiva. Tinham-se intensificado os esforos que permitiam o acompanhamento do estado de sade de Merchado, que entretanto se 
deteriorara acentuadamente, no deixando lugar a qualquer dvida de que o homem se encontrava a piorar de dia para dia.
 medida que David continuava a ler os relatrios clnicos, na sua mente comeou a germinar uma ideia. Examinou pgina a pgina os resultados laboratoriais, procurando 
as concluses das anlises s fezes que haviam sido feitas ao longo de vrios dias consecutivos.
 - Pois bem, qual  a sua opinio? - perguntou Huttner, dirigindo-se a David. - David?...
 - Oh, peo desculpa - disse o interpelado erguendo o olhar. - Reparei que o homem ainda est a ser medicado com tetraciclina; eu s estava  procura de quaisquer 
sinais de que ele tivesse contrado estafilocolite, um efeito secundrio do tratamento. No  muito comum que isso acontea, mas...
 - Tetraciclina? - interrompeu Huttner. - H j vrios dias que eu telefonei a cancelar esse tratamento. Eles continuam a administrar-lhe o antibitico?
Por detrs de Huttner, enquadrada no raio de viso de David, a enfermeira de servio naquele piso acenou afirmativamente com todo o vigor.
 - Bom, no interessa - prosseguiu Huttner com uma ligeira hesitao. David quase conseguia ouvi-lo a interrogar-se se teria ou no dado essa ordem, ou se tinha 
apenas pensado em faz-lo. - As anlises s culturas deram todas resultados negativos. Talvez seja melhor voc anotar uma ordem para que cessem de Lhe administrar 
tetra. Se achar que  prefervel, mande fazer outra cultura.
David estava prestes a fazer o que o outro Lhe dizia, quando a sua ateno foi despertada pelos resultados pormenorizados da anlise a uma cultura. indicados ao 
fundo da pgina impressa a computador. a qual enumerava todos os resultados verificados no doente at  data.
9/24 ANALISE AS FEZES UM DESENVOLVIMENTO MODERADO, S. AUREUS, SENSIBILIDADES A SEREM INDICADAS POSTERIORMENTE
S. aureus, a forma mais virulenta da bactria. David cerrou os olhos por breves instantes, na esperana de que quando voltasse a olhar para o relatrio as palavras 
tivessem desaparecido misteriosamente. Levou vrios segundos para chegar  deciso de no mencionar aquela descoberta, tencionando corrigir o problema numa fase 
posterior. Mas a sua hesitao foi demasiado prolongada.
 - O que  que se passa, David? - perguntou Huttner. -  Descobriu alguma coisa de anormal?
"Raios partam isto!", praguejou ele para si prprio. Atravs dos seus pensamentos desfilaram uma dzia de respostas possveis, sendo estas avaliadas para logo de 
imediato serem rejeitadas. No havia nenhuma maneira fcil de contornar aquele assunto. No tinha como sair daquela situao embaraosa. Pelo canto do olho avistou 
duas enfermeiras, que se mantinham imobilizadas aos ps da cama. Dar-se-iam elas conta de que, dentro dos poucos momentos seguintes, o sucesso daquele fim de tarde 
e, possivelmente, a carreira de David poderiam desvanecer-se como fumo?
Para ele, toda aquela cena adquiriu contornos estranhamente semelhantes a um sonho. A sua mo a entregar com lentido a Huttner a papeleta de Merchado, o dedo a 
apontar para a linha escrita com letra de imprensa to ofensivamente impessoal... aces que haviam tido origem numa outra pessoa que no ele.
A expresso do olhar que David tivera a oportunidade de ver dirigido  enfermeira que ajudara Huttner no bloco operatrio cintilou nos olhos do cirurgio. Prenderam-se 
nos seus por uma fraco de segundos, aps o que o seu olhar assentou nas enfermeiras. Com um gesto brusco, entregou o relatrio clnico  enfermeira de servio 
ao piso.
 - Mistress Baird - disse ele numa voz rosnada. - Quero que averigue qual foi a pessoa responsvel por ter negligenciado chamar a minha ateno para este relatrio. 
Quem quer que seja, enfermeira ou secretria, quero que se dirija ao meu gabinete na segunda-feira logo de manh. Est a compreender bem o que eu acabei de Lhe dizer?
A enfermeira, uma mulher robusta e j com muita experincia profissional, a quem j coubera a sua quota-parte de guerras hospitalares, olhou para a pgina em questo, 
encolheu os ombros e abanou a cabea. David perguntava a si mesmo se Huttner teria a inteno de dar andamento quilo que, de uma maneira to evidente, no passava 
de uma tentativa para encontrar um bode expiatrio.
 - Continuemos, doutor Shelton - prosseguiu Huttner numa voz rspida. - Est a ficar tarde e ainda nos restam vrios doentes a examinar.
Eram quase vinte e duas horas quando ambos chegaram  Ala Quatro Sul, a fim de visitar o ltimo dos doentes de Huttner. Era Charlotte Thomas. Durante todo aquele 
fim de tarde e incio de noite, Huttner desviara-se da sua rotina previamente estabelecida.
 - Venha sentar-se um pouco na sala das enfermeiras, David - disse ele, agarrando na papeleta que a enfermeira de servio ao piso Lhe entregou. - A prxima doente 
 de longe o caso mais complicado que tenho em mos. Quero poder dispor de alguns minutos para rever consigo com algum pormenor o estado dela, antes de comear a 
examin-la. Talvez haja algum que possa trazer-nos uma chvena de caf. - Aquela ltima observao era dirigida, de uma forma bastante clara,  chefe das enfermeiras, 
a qual conseguiu esboar um vago sorriso de aquiescncia, o que fez a custo. - Fraco e sem acar, e para o doutor Shelton!...
 - Simples - respondeu David. Durante uns escassos segundos foi-lhe difcil ocultar um sentimento sombrio.
 - C vamos ns, doutor - continuou Huttner, passando a papeleta para as mos de David, sentado no outro lado da mesa.  - Examine os dados clnicos enquanto esperamos 
pelo caf.
Antes de ter lido uma nica palavra, David j se tinha apercebido de que Charlotte Thomas se encontrava num estado muito grave. O seu historial mdico era deveras 
volumoso. Comeou a recordar os seus dias de estagirio, pensando num nova-iorquino de estatura elevada e esgalgado, de nome Gerald Fox, o qual se encontrava um 
ano mais adiantado do que ele. Fox conseguira atingir a imortalidade, pelo menos no Hospital White Memorial, ao fotocopiar uma lista de mximas de definies cheias 
de cinismo, composta por trs pginas, a que dera o ttulo de "As Leis de Ouro da Medicina de Fox". Entre os seus muitos axiomas encontrava-se a definio de Um 
Caso Complicado ("Quando a combinao dos dimetros de todos os tubos inseridos no corpo de um doente excedem a medida do seu chapu"), Ginecologista ("O disseminador 
das supersties de velhotas") e Uma Doena Fatal ("Uma papeleta de hospital com mais de dois centmetros e meio de espessura").
O caf chegou no momento em que David comeara a leitura do historial referente ao internamento a par do exame clnico. '
 - Ah, Miss Beall, muito agradecido. Voc  um anjo misericordioso - dizia Huttner.
David soergueu o olhar que mantivera na papeleta. No era a mesma enfermeira a quem Huttner tinha pedido que Lhe trouxesse o caf; aquela era bastante mais jovem 
e ele nunca a tinha visto pelo hospital, ou pelo menos nunca reparara nela. Durante vrios segundos, todo o seu mundo consistiu apenas em dois olhos enormes, de 
formato amendoado e ligeiramente sombreados. Sentiu o seu corpo percorrido por um ardor suave. Os olhos perderam-se nos seus e sorriram.
 - Com que ento est voc de novo com a nossa senhora Charlotte, certo? - perguntou Huttner sem se dar conta do encontro silencioso que estava a ter lugar.
 - Hem? Oh, sim. - Christine quebrou a ligao, voltando-se para Huttner. - Ela no est com muito bom aspecto. Eu ofereci-me para Lhe trazer o caf, porque queria 
falar consigo sobre...
 - Mas que grosseiro que eu sou - interrompeu Huttner.  - Esta  Miss Beall e este  o doutor David Shelton. Talvez vocs dois j se conheam?
 - No - respondeu Christine numa voz frgida. Ela estava familiarizada com a falta de in tere s se que Hutt ne r mostrava sempre para com os conhecimentos e sugestes 
das enfermeiras. Com o passer dos anos, desistira de tentar partilhar o que sabia com o mdico. No entanto, o estado de Charlotte era suficientemente grave para 
a levar a fazer outra tentativa. Se ao menos o cirurgio concordasse em aliviar o tratamento agressivo que prescrevera. se cancelasse a ordem de ressuscitao, era 
muito possvel que ela no viesse a interferir, ainda que o Comit de Avaliao aprovasse a sua proposta. Consequentemente, Christine fizera a sua tentativa e, tal 
como seria de prever, o homem havia posto fim s suas palavras, o que desta feita levou a cabo com uma amenidade incua de carcter social. Apesar disso, Christine 
sentia-se firmemente determinada em dizer o que tinha a dizer. Era o tubo dele que se encontrava enfiado no nariz de Charlotte. Fora dele que emanara a ordem de 
prolongar o sofrimento da doente, independentemente de quaisquer que fossem os factos. Ele que brincasse aos tteres com os seus outros doentes, tanto quanto Lhe 
apetecesse, mas nunca com Charlotte. Ele seria obrigado a ouvi-la ou... os fios que o prendiam a ela seriam cortados. Christine engoliu o n de clera que se formara 
na sua garganta.
Huttner no acusou a frieza que se adivinhava na voz da enfermeira..
 - O doutor Shelton  quem vai ficar responsvel por todos os meus doentes, incluindo Mistress Thomas, durante alguns dias - informou Huttner.
Christine acenou com a cabea na direco de David, interrogando-se se ele teria autoridade para alterar o tratamento, excessivamente zeloso, que Huttner prescrevera 
para Charlotte; compreendeu de imediato que no existia a mnima hiptese de o chefe de cirurgia vir a permitir uma coisa dessas.
 - Doutor Huttner - comeou ela a dizer com determinao. - Gostaria muito de poder falar consigo, apenas por alguns minutos, sobre o estado da Charlotte.
 - No vejo qualquer problema nisso, Miss Beall - retorquiu o cirurgio olhando de soslaio para o seu relgio de pulso. - Porque  que no nos deixa acabar de rever 
os dados clnicos da Charlotte, para depois a examinarmos? Em seguida poder abordar o caso aqui com o doutor Shelton. Ele saber com exactido o tratamento que 
pretendo seja administrado a esta mulher. - Huttner afastou o olhar antes que a primeira chispa, qual adage, que os olhos de Christine pareciam expedir o tivesse 
atingido. David conteve o constrangimento que sentia, mas Christine j tinha girado sobre os calcanhares, abandonando o quarto sem mais delongas.
Huttner bebeu um gole de caf, retomando a conversa sem sequer fazer um gesto ou dizer uma palavra na direco da enfermeira que acabara de sair.
 - Mistress Thomas  uma enfermeira diplomada. Estou em crer que ter quase sessenta anos. - David lanou um olhar  data de nascimento registada na papeleta. A 
doente tinha quase sessenta e um. - O seu marido, Peter,  professor de Economia na Universidade de Harvard. Ela foi-me enviada pelo seu mdico assistente que suspeitou 
da existncia de um cancro no recto. H vrias semanas submeti-a a uma resseco Miles. O tumor era um adenocarcinoma que se estendia atravs das paredes intestinais.
"No entanto, todos os ndulos que extirpei apresentaram resultados negativos. Estou em crer que existe uma probabilidade excelente da limpeza que Lhe fiz poder ter 
eliminado todo o mal.
David ergueu o olhar da mancha de caf que limpava absortamente com o polegar. O ndice mdico, que se cifrava em cinco anos de sobrevivncia, aps a remoo de 
um cancro do recto com uma extenso daquela magnitude, era inferior a vinte por cento. Uma probabilidade? Certamente que sim. Uma "probabilidade excelente"? Recostou-se 
para trs, perguntando a si prprio se valeria a pena pedir a Huttner que clarificasse as razes do seu optimismo. Chegou  concluso de que no seria assisado question-lo 
fosse sobre o que fosse.
Confortavelmente envolvido no manto das suas prprias palavras, Huttner continuou com a sua apresentao do caso clnico.
 - Tal como d a impresso de ser sempre o caso, quando se trabalha com enfermeiras ou mdicos, tudo o que possa vir a acontecer de forma adversa, durante o perodo 
ps-operatrio, veio a concretizar-se. Em primeiro lugar, surgiu um abcesso plvico... Vi-me forado a voltar a operar a fim de o drenar, ao que se seguiu uma pneumonia. 
Depois apareceu-lhe uma grave ulcerao acima do osso sacro. Ontem comeou a mostrar indcios de obstruo intestinal, o que me forou a inserir-lhe um tubo. Esta 
medida parece estar a solucionar o problema, o que me leva a ter o pressentimento de que ela j conseguiu ultrapassar o pior.
Huttner entrelaou as mos em cima da mesa  sua frente indicando que a sua exposio do caso chegara ao fim. Entretanto, ao canto do seu olho direito tinha-lhe 
aparecido um tique quase imperceptvel. David pensou que o homem deveria estar a sentir-se absolutamente esgotado. Com uma sensao de mal-estar e ansioso por fazer 
qualquer outra coisa, alm de olhar para o outro, David voltou a concentrar a sua ateno na papeleta.
- E caso ela tenha necessidade de voltar a ser operada devido  obstruo intestinal? - perguntou ele, tendo comeado logo a rezar para que tal no viesse a suceder.
 - Nessa circunstncia, voc far aquilo que achar melhor em sua opinio. Fica inteiramente responsvel pelo bem-estar dos meus doentes - prosseguiu Huttner com 
alguma cerimnia.
David resolveu no levantar mais nenhuma questo. "O que quer que seja que pretendas saber, ters de o decifrar por ti prprio. Limita-te a ultrapassar esta noite."
Apesar daquela deciso, j comeara a afigurar-se-lhe um outro problema potencial. Ainda tentou encontrar uma soluo, embora houvesse chegado rapidamente  concluso 
de que somente Huttner  que se encontrava em condies de Lhe fornecer a resposta. A resoluo a que chegara destendeu-se, aps o que deu de si.
 - E se ela sofrer uma paragem cardaca? - perguntou David em voz baixa.
 - Que raio de coisa, homem, ela no vai entrar em nenhuma paragem cardaca! - ripostou Huttner com uma veemncia impressionante. Mas, logo depois, apercebendo-se 
da irracionalidade da sua irritao, respirou fundo, exalou o ar com lentido e acrescentou:  - Pelo menos, tenho esperana de que isso no venha a acontecer. Se 
for o caso, quero que ela seja reanimada por todos os meios ao seu alcance, incluindo a intubao por via traqueal, assim como a ligao a um ventilador, se tal 
for necessrio. Est a entender?
 - Certamente - redarguiu David. Voltou a olhar para a papeleta.
Se existia alguma crtica a fazer a Wallace Huttner, a falta de tratamentos aplicados a Charlotte Thomas no seria uma delas, do que no restava a mnima dvida. 
J haviam sido gastos milhares de dlares em anlises laboratoriais, cuidados hospitalares e exames radiolgicos. No obstante tudo isso, pelo menos no papel, a 
mulher parecia encontrar-se muito longe de "ter ultrapassado o pior".
 - Proponho que examinemos a doente. - O timbre de voz de Huttner manifestava mais uma ordem do que uma sugesto.
David estava prestes a acatar o que o colega mais velho Lhe dissera, quando reparou no relatrio referente ao exame ao fgado de Charlotte. As palavras parecia quererem 
saltar para fora da folha de papel: "Anomalias mltiplas sob a forma de cavidades hepticas consistentes com a existncia de tumor." David sentiu-se invadido por 
um entorpecimentO, enquanto olhava com fixidez para as palavras escritas  sua frente. S muito raramente  que tinha ouvido dizer que um doente houvesse sobrevivido 
por muito tempo, desde que existisse disseminao de clulas cancerosas do recto at ao fgado. Sem dvida nenhuma que, com aquele tipo de doena to disseminada, 
no havia maneira nenhuma de se justificar a terapia to agressiva que, sistematicamente, estava a ser administrada a Charlotte Thomas. Se,  semelhana do caso 
de Merchado, aquele relatrio clnico pecasse por omisses, no se sabia bem como, o que quer que restasse de qualquer eventual bom relacionamento com Huttner que 
David ainda mantivesse corria srios riscos de desaparecer com a mesma finalidade de uma exploso nuclear.
 - O que  que se passa desta vez, doutor! - perguntou Huttner com animosidade.
 - Oh... muito provavelmente nada de mais - respondeu David, desejando estar num outro lugar qualquer que no ali.  - Eu... hum... Estava s a ler o relatrio do 
exame heptico.
 - Ah!!! - A exclamao de Huttner abreviou-lhe as palavras. - Anomalias mltiplas consistentes com a existncia de um tumor, certo? - De sbito, o homem apresentava 
uma expresso mais feliz do que aquela que mostrara desde que se haviam encontrado. - Olhe para o nome do radiologista que nos elaborou esse relatrio. O doutor 
G. Rybicki, a anedota polaca ao vivo de toda a medicina radiolgica. Ele fez rigorosamente a mesma leitura num exame que fizemos antes da operao, o que me levou 
a examinar o fgado da doente com todos os cuidados quando ela esteve no bloco operatrio. Cheguei mesmo ao ponto de mandar fazer uma bipsia. So apenas quistos, 
David. Quistos mltiplos de natureza congnita, completamente benignos.
"At me dei ao trabalho de enviar ao Rybicki uma cpia do relatrio patolgico - continuou Huttner. - O mais provvel  nunca ter sequer olhado para ele, o que se 
pode inferir a partir da repetio da m interpretao que fez com base na sua leitura inicial. Talvez seja prefervel eliminarmos o relatrio dele do historial 
clnico da doente. - Amachucou a folha de papel, formando uma bola que arremessou para dentro do caixote do lixo. - Agora, caso no tenha mais perguntas a fazer, 
proponho que examinemos a mulher.
 - No tenho mais questes, Meritssimo. - Com aquelas palavras, David abanou a cabea numa expresso de perplexidade e sorriu, sentindo-se agradecido por Lhe ser 
permitido ver-se livre daquele aperto. Havia algo de indefinvel no sorriso rasgado de Huttner que contribua grandemente para dispersar as dvidas que David comeara 
a albergar a respeito do homem.
Ombro a ombro, ambos comearam a percorrer o corredor da Ala Quatro Sul, rumo ao quarto 412.



CAPITULO 4

A nica luminosidade que existia no quarto 412 era proveniente de uma luz de tratamento, com um formato curvo, dirigida para uma regio mesmo acima das ndegas de 
Charlotte Thomas. Huttner abeirou-se desse lado da cama com David, que ia logo atrs de si, tendo afastado a luz para trs cerca de trinta centmetros. Contraiu-se, 
mas logo em seguida obrigou-se a relaxar um pouco a sua postura. Espantado e at certo ponto divertido, David conteve um sorriso ao ver a reaco do homem; mas, 
ento, baixou o olhar para o motivo daquela atitude. A escara que Huttner descrevera como sendo "grave" era muito pior do que isso. Estava perante uma chaga aberta 
com um pouco mais de quinze centmetros de largura. Os tecidos musculares das paredes da cavidade estavam inflamadssimos, manchados de branco por uma cataplasma 
de secagem. Havia uma espcie de olho do tamanho de uma moeda no osso sacro, que fitava sem ver a partir do centro do ferimento.
Huttner fez o gnero de encolher de ombros que dizia: "Nada pior do que outras maleitas com que j nos tivemos de haver, no  verdade?"
David tentou fazer um comentrio, mas s foi capaz de abanar a cabea. J perdera o conto s escaras e demais ferimentos que tivera ocasio de ver, com origem nos 
males mais inconcebveis. Todavia, aquilo...
 -  o doutor Huttner, Charlotte - anunciou o cirurgio enquanto desligava a lmpada de tratamento e ligava a luz fluorescente, pouco intensa, no interior de uma 
cornija por cima da cabeceira da cama. Afastou o lenol dos ps at  cintura da doente e dirigiu-se para o outro lado da cama. David seguiu-lhe o exemplo, olhando 
para os sacos de solues intravenosas, para as correias que a mantinham imobilizada de lado, para o cateter das vias urinrias que saa por debaixo do lenol, observando 
tambm os tubos de oxignio e de suco. Compreendia a necessidade daqueles meios de tratamento, aceitando a sua presena sem sequer Lhes dedicar um segundo pensamento. 
Constituam tanto as ferramentas da sua actividade profissional quanto o gigantesco disco que continha as luzes, assim como os instrumentos de ao inoxidvel existentes 
na sala de operaes.
Contudo, nos segundos iniciais, a coisa em que reparou mais em relao a Mrs. Thomas foi o vazio que se reflectia no seu rosto - uma aura esttica indicadora da 
inexistncia de alma que se centrasse nos seus olhos, os quais o observavam atravs da luminosidade mortia com uma abstraco lacrimosa. At mesmo o som da sua 
respirao, semelhante a um choro suave e rtmico, provocava uma sensao de vazio.
Charlotte Thomas tinha "aquele olhar", de acordo com a classificao que David dava quela situao. Ela perdera todo o gosto pela vida, faltava-lhe aquele suplemento 
de energia essencial que permitia que se sobrevivesse a uma doena que ameaava a vida. A centelha, que muito frequentemente era a nica diferena entre um milagre 
mdico e as estatsticas da mortalidade, tinha-se dissipado por completo.
David perguntava a si prprio se Huttner se daria conta da mesma situao que ele observava, se sentiria o mesmo vazio. E ento, como se em resposta  sua pergunta, 
o cirurgio de estatura elevada ajoelhou-se junto da cama, fazendo deslizar a sua mo por baixo da cabea de Charlotte, posicionando-a para o lado, de molde a que 
ela pudesse olhar directamente para o seu rosto. Durante quase um minuto ou dois permaneceram naquela posio, mdico e doente, imobilizados num espao de tempo 
silencioso. David mantinha-se a uma distncia de mais de um metro, engolindo em seco numa tentativa para dissipar o peso que sentia alojar-se na sua garganta. A 
ternura que Huttner demonstrava era to genuna quanto surpreendente: fora-lhe revelada uma outra faceta daquele homem, que mais parecia ser um estranho caleidoscpio.
 - No se pode dizer que esteja a sentir-se nos pncaros do mundo, no  verdade? - disse Huttner finalmente.
Com dificuldade, Charlotte obrigou os seus lbios a unirem-se - uma tentativa de sorriso que no foi coroada de xito - e abanou a cabea. Huttner alisou-lhe os 
cabelos, afastando-os da testa e acariciando-lhe a face.
 - Ora bem, a sua temperatura hoje desceu quase ao normal, o que acontece pela primeira vez em algum tempo. Estou em crer que talvez estejamos a conseguir controlar 
essa infeco que tem no peito. - Continuou a conversar, misturando cuidadosamente as notcias encorajadoras com as perguntas que sabia de antemo seriam respondidas 
de forma negativa.  - As dores que sente nas costas abrandaram? - A resposta foi um outro abanar de cabea. - Bem, se as coisas melhorarem da forma que espero venha 
a suceder, estaremos em condies de poder retirar esse tubo do seu nariz dentro de um ou dois dias. Eu sei bem que Lhe causa muito mal-estar. Vou aproveitar enquanto 
a tenho virada desta forma para Lhe auscultar o peito, em seguida vou deit-la de costas, para poder examinar-lhe a barriga; vamos a ver se continua a fazer barulhos.
Examinou-a com rapidez, aps o que verificou o nvel dos fluidos nos sacos que continham as solues intravenosas, observando tambm o cilindro do cateter do dreno 
antes de se ajoelhar de novo  beira da cama.
 - Voc vai conseguir safar-se, Charlotte. Tem de acreditar nisso - concluiu ele com um tom intenso cheio de suavidade.
Desta vez Charlotte conseguiu esboar um sorriso de desanimo que acompanhou a sua resposta negativa.
 - Por favor, seja um pouco paciente e no desanime, acredite em que ser capaz de vencer a doena - implorou Huttner. - Eu percebo bem o sofrimento por que est 
a passar. Sob diversos aspectos,  to horrvel para mim como o  para si. Mas tambm sei que, pouco a pouco, est a chegar onde pretendemos. Quando mal d por si, 
estar a pr baton nos lbios, a arranjar-se para se encontrar com esses seus maravilhosos netos de quem tanto me falou. - O cirurgio fez uma pausa. No silncio 
que se estabeleceu, David observou o rosto do homem. As suas sobrancelhas mantinham-se franzidas, enquanto o queixo estava tenso que nem a corda de um arco. Dava 
a impresso de tentar. atravs de uma enorme fora de vontade, transplantar a energia e a esperana que se adivinhavam nas suas palavras. A mulher no mostrava qualquer 
tipo de reaco.  - Meu Deus. estava quase a esquecer-me -  acrescentou Huttner por fim. - Charlotte. tenho uma surpresa para si. Eu sei at que ponto  que deve 
estar farta de ver a minha fronha sorridente todos os dias. Pois bem, vai ver-se livre da minha presena por uns tempos.
"Estou de partida para uma conferncia a realizar em Cape que durar alguns dias. Este mdico muito bem-parecido  quem vai substituir-me. Ele foi o chefe dos mdicos 
estagirios do White Memorial h alguns anos. Eu nem sequer consegui ser aceite para fazer um estgio nesse hospital. Chama-se David Shelton. - Com um gesto, Huttner 
indicou a David que se aproximasse da cabeceira da cama.
David tomou o lugar de Huttner, apoiando os braos sobre o lenol e colocando o queixo sobre estes, tendo ficado a cerca de quinze centmetros da face de Charlotte. 
Foram precisos vrios segundos para que ela se concentrasse nele.
 - Eu sou o David, Mistress Thomas. Como est? - perguntou ele dando-se conta de que ela j tinha respondido  sua saudao descabida por vrias vezes. - Neste momento, 
necessita de alguma coisa em especial? Qualquer coisa que eu possa fazer por si? - Aguardou at ter a certeza de que no receberia resposta, aps o que fez meno 
de se erguer. Subitamente, Charlotte Thomas estendeu uma mo contundida e com um aspecto esponjoso, agarrando na sua com uma fora surpreendente.
 - Doutor Shelton, por favor oua o que tenho a dizer-lhe - pediu ela numa voz enrouquecida e entrecortada, num timbre que possua uma fora inesperada. - O doutor 
Huttner  uma pessoa maravilhosa e um mdico magnfico. Ele deseja tanto poder ajudar-me. Tem de fazer com que ele compreenda. No quero mais ajuda nenhuma. Tudo 
o que mais desejo  que tirem estes tubos do meu corpo e que me mantenham confortvel at que eu adormea. Tem de fazer com que ele compreenda isto. Por favor. Para 
mim, tudo isto  uma tortura. Um pesadelo. Faa com que ele entenda a minha situao.
Os seus olhos cintilaram por breves instantes, para logo se cerrarem. Respirou fundo vrias vezes, voltando a recostar a cabea na almofada. A sua respirao recomeou 
a fazer-se com mais lentido. A David pareceu que poderia parar de todo, mas, decorrido um minuto, a doente comeou a respirar num ritmo pouco regular, de uma forma 
estertorosa que se manteve inaltervel.
 - Vai ficar bem, Mistress Thomas - foi tudo o que David foi capaz de articular numa voz sussurrada, enquanto Huttner o agarrava por um brao e o conduzia para fora 
do quarto.
J no corredor, os dois homens olharam-se frente a frente. Huttner foi o primeiro a quebrar o silncio.
 - Isto  que foi uma noite que ambos tivemos, no acha?  - comentou ele com um sorriso de compreenso.
 - Sim... - respondeu David. Bateu com um p no cho. Apetecera-lhe ter dito algo mais, no fora um resqucio do receio que tinha de se poder ir abaixo em frente 
do homem de um momento para o outro.
Huttner examinou atentamente o seu rosto antes de retomar a palavra.
 - David, nunca se esquea de que, por vezes, os doentes que sofrem de doenas graves expressam o desejo de morrer, quando se encontram num estado de sofrimento 
debilitante. H j muito tempo que pratico medicina. J tive oportunidade de ver muitos enfermos to doentes como a Charlotte Thomas, ou ainda mais, que conseguem 
recuperar a sua sade. Esta mulher vai conseguir vencer a doena.  imperativo que ela receba um tratamento completo e agressivo e, caso seja necessrio, todo e 
qualquer meio de reanimao ao nosso dispor. Est a compreender?
 - Sim, senhor... quero dizer, sim, Wally - retorquiu David de uma maneira mecnica, uma vez que procurava na sua recordao a ltima vez em que tinha visto um doente 
de sessenta e um anos que houvesse recuperado de uma doena to grave, em que tantas funes do sistema eram afectadas, como aquela que tanto atormentava Charlotte 
Thomas.
 - Bom, isto quer dizer que estamos de acordo - continuou Huttner, radiante de prazer por ter feito prevalecer com sucesso o seu ponto de vista. - Vamos tratar de 
tomar nota de algumas instrues de terapia para esta mulher, aps o que poderemos dar o dia por encerrado.
Quando ambos se dirigiam para a sala das enfermeiras, David apostou consigo prprio uma viola e seis meses de lies de iniciao em como o ltimo momento crtico 
daquele fim de dia frentico havia ficado para trs.
Instantes depois, saiu da sala de visitas, situada ao fundo do corredor, um homem corpulento, que usava uma camisola de gola alta e um casaco desportivo de tweed, 
o qual comeou a encaminhar-se em direco aos dois. Ainda se encontrava a uma distncia de cerca de nove metros, e j adquirira a certeza de que tinha perdido outra 
aposta. A clera que a sua maneira de caminhar, de queixo firmemente estendido para a frente, no ocultava, espelhava-se no seu rosto avermelhado, bem como nos lbios 
lvidos que formavam uma linha. Os seus punhos mantinham-se posicionados na extremidade dos braos rgidos, vrios centmetros afastados do corpo.
David olhou de relance para Huttner, que mostrou vagos indcios de ter reconhecido o indivduo, sem deixar ver qualquer outra emoo.
 -  o professor Thomas? - perguntou David num murmrio.
Huttner respondeu afirmativamente com um breve acenar de cabea, continuando a andar em frente. David abrandou o passo e ficou a observar os dois homens que se iam 
aproximando um do outro, como se fossem dois adversrios numa peleja medieval. A grande arena do confronto entre os dois era o balco das enfermeiras, onde vrias 
destas profissionais, uma auxiliar e a secretria da enfermaria, permaneciam em silncio, quais espectadoras fascinadas.
 - Doutor Huttner, o que raio  que se passa aqui? - perguntou Thomas numa voz desabrida. - Disse-me que no haveria mais tubos, mas quando cheguei aqui deparou-se-me 
um tubo de borracha vermelha a sair do nariz da minha mulher, e que est ligado a uma maldita mquina.
 - Ora vamos l a ver, professor Thomas, acalme-se s por um minuto - retorquiu Huttner sem perder a calma. - Eu tentei telefonar-lhe ontem  noite, a fim de o manter 
ao corrente do que estava a acontecer, mas ningum atendeu. Passemos  sala de visitas e terei todo o gosto em conversar consigo sobre este assunto.
Thomas no deu sinais de abrandar a beligerncia da sua atitude.
 - No, vamos aclarar toda esta questo aqui mesmo, tendo estas pessoas como testemunhas. - Fez um gesto na direco das pessoas presentes. - Eu trouxe a Charlotte 
 sua consulta porque o nosso mdico assistente nos disse que voc era o melhor. No que me diz respeito, ser o melhor significa que o seja somente no bloco operatrio, 
mas tambm que seria o melhor para tratar da minha mulher, na sua qualidade de ser humano e no apenas como se ela fosse uma pea de... carnia sem quaisquer sentimentos.
A veemncia e a dor que emanavam da voz de Peter Thomas era deveras surpreendente. Junto do balco das enfermeiras, Christine Beall voltou-se cautelosamente para 
Janet Poulos, a enfermeira-chefe do turno da noite. Poulos retribuiu-lhe o olhar com uma expresso imperturbvel, respondendo-lhe com um acenar de cabea quase imperceptvel. 
Era uma mulher que tinha uma figura esbelta, aparentando ser uns dez anos mais velha do que Christine. Os seus cabelos negros mantinham-se apanhados num carrapito 
apertado, penteado que acentuava as suas feies alongadas e os olhos escuros, onde se reflectia uma expresso felina. Tinha uma cicatriz estreita paralela ao nariz, 
que imprimia, at mesmo ao seu sorriso mais caloroso, um ligeiro desdm, o que, inquestionavelmente, contribua para a reputao de que gozava entre o pessoal de 
enfermagem, sendo ela considerada uma pessoa sem o mnimo sentido de humor e que no fazia a mais pequena concesso.
Por seu lado, Christine via-a a uma luz completamente diversa, uma vez que fora Janet quem supervisionara o seu perodo de iniciao na Irmandade da Vida. O secretismo 
do movimento atingia tais propores que Janet continuava a ser o nico membro da Irmandade que ela conhecia pelo nome e pessoalmente. Aquele acenar de cabea indicava 
que Poulos tambm avaliava o drama que se desenrolava  frente de ambas.
 - Muito bem, professor - continuou Huttner num timbre de voz que no escondia uma ligeira irritao. - Se  isso que deseja, pois ento discutamos o assunto aqui 
mesmo. Tem mais alguma coisa a acrescentar ou prefere saber exactamente o que  que est a acontecer com a Charlotte?
 - Pode continuar - retorquiu Thomas, abrindo os punhos cerrados e encostando um cotovelo  superfcie lateral do balco alto, mesmo em frente de uma secretria 
de enfermaria absolutamente embasbacada.
Mostrando a atitude de pacincia condescendente de quem sabia de antemo que, mais cedo ou mais tarde, levaria a sua avante, Huttner passou em revista, de uma forma 
sistemtica as circunstncias que o haviam decidido a inserir em Charlotte Thomas um tubo para drenagem intestinal.
 -  muito possvel que para si esta necessidade no seja evidente - acrescentou ele numa voz mais suave - , mas estou em crer que os nossos tratamentos esto a 
comear a fazer efeito. Neste momento, a Charlotte poder estar prestes a atingir um ponto de viragem positivo a qualquer altura.
Peter Thomas baixou o olhar e retrocedeu meio passo. Naquele momento, David ficou com a sensao de que Huttner conseguira, de facto, conquistar o homem. E ento, 
como se em imagens ao retardador, Thomas ergueu a cabea abanando-a para a frente e para trs enquanto falava.
 - Doutor Huttner, eu estou convencido de que a minha mulher se encontra s portas da morte. Acredito nesta realidade e estou preparado at mesmo para a aceitar. 
Tambm estou em crer que, por causa daquilo que classifica como tratamento, ela se encontra a morrer milmetro a milmetro, sem o benefcio de uma s rstia de dignidade. 
Quero que os tubos sejam todos retirados.
Por detrs do balco, houve uma enfermeira que segredou qualquer coisa  outra prxima de si. Com um olhar que poderia ter congelado um vulco, Huttner silenciou 
a mulher.
Mostrando uma alterao instantnea na expresso do seu rosto, que quase se poderia chamar teatral, ele voltou a concentrar a sua ateno em Peter Thomas, exibindo 
um sorriso.
 - Professor, agradeo-lhe que fique ciente de que eu compreendo o que sente, de verdade que sim - afirmou o cirurgio. - Mas o certo  que tem de entender a minha 
posio e as minhas responsabilidades em relao a este assunto. Ambos abordmos esta questo quando trouxe a Charlotte  minha consulta pela primeira vez, tendo 
o senhor concordado que eu faria tudo o que achasse ser o melhor para ela. Sugeri que se obtivesse uma segunda opinio mdica, mas nessa altura achou que no havia 
necessidade de consultar mais nenhum mdico. Agora, aqui est o senhor a pr em dvida o meu tratamento. Vou dizer-lhe o que  que se pode fazer: aqui, mesmo ao 
meu lado, temos uma segunda opinio mesmo  mo de semear. -  Com aquelas palavras, Huttner fez um gesto na direco de David. - Este  o doutor Shelton.  um excelente 
cirurgio, embora jovem, tendo ocupado a posio de chefe dos mdicos estagirios de cirurgia no Hospital White Memorial. Acabmos de observar a Charlotte com todo 
o pormenor, dado que o doutor Shelton ser o responsvel pelos meus doentes durante os dias mais prximos. David, este  Peter Thomas. Agradeo-lhe que partilhe 
com ele a sua opinio em relao ao estado da Charlotte.
David estendeu a mo que Thomas apertou denotando alguma insegurana. Durante os poucos segundos em que os dois homens se avaliaram mutuamente, Thomas deu a impresso 
perceptvel de que comeara a acalmar-se.
 - Pois bem, doutor Shelton - disse ele por fim - , o que  que pensa quanto s probabilidades de recuperao da minha mulher?
David baixou o olhar por alguns instantes e fechou os olhos. Algures, num canto muito recndito da sua mente, havia uma voz que Lhe dizia insistentemente que, se 
ele fosse capaz de empatar aquela situao durante alguns minutos, o seu rdio-despertador comearia a tocar acordando-o do seu sonho. Com um esforo tremendo soergueu 
o olhar at prend-lo de novo no de Thomas.
 - Mister Thomas, acabei agora mesmo de rever o historial clnico da sua mulher, tendo-a observado pela primeira vez -  comeou ele a dizer com uma lentido deliberada. 
- Neste ponto da situao, -me absolutamente impossvel avaliar todo o seu estado de sade de uma maneira conscienciosa.
Thomas ainda abriu a boca para contestar aquilo que segundo a sua opinio fora uma resposta inadequada, mas David impediu-o de prosseguir, erguendo uma mo.
 - No entanto - continuou este ltimo - , posso adiantar-Lhe que considero a sua mulher como estando gravemente enferma, cuja nica hiptese de conseguir ultrapassar 
esta doena to crtica se encontra, no s no facto de receber os melhores tratamentos clnicos possveis, quer da parte do mdico quer do pessoal de enfermagem... 
os quais, diga-se de passagem, Lhe esto a ser ministrados, mas tambm no facto de ela ter fora de vontade para conseguir sobreviver. E esta  a parte que ainda 
no estou em condies de avaliar. Esta fora no provm somente do seu ntimo, mas tambm de si prpria e do doutor Huttner, assim como dos outros que Lhe dispensam 
cuidados e se preocupam com o seu bem-estar.
"Eu compreendo que o senhor gostaria de ouvir uma avaliao mais clnica quanto s perspectivas de vida mas, dadas as circunstncias, no me encontro em posio 
de poder satisfazer-lhe esse desejo.
Pelo canto do olho, verificou que a expresso radiante de Huttner reflectia toda a sua aprovao. "Deus seja louvado! Consegui safar-me desta!", foi tudo em que 
David conseguiu pensar. Mas ento, antes mesmo que Thomas tivesse oportunidade de replicar, ele sentiu uma centelha de clera contra si prprio. Nem sequer indicara 
o mais pequeno resquicio dos seus verdadeiros sentimentos, que eram sombrios, em relao s hipteses de recuperao de Charlotte.
Enquanto Thomas falava, aquela centelha comeou a ficar de um branco incandescente.
 - Na realidade, voc no est a ver a questo, pois no?  - perguntou Thomas, olhando  sua volta e mostrando uma expresso selvtica.  - Nenhum de vocs  capaz 
de compreender. H mais de trinta anos que a Charlotte e eu somos casados. Trinta anos cheios de felicidade. No Lhe parece que me assista algum direito de me opor 
 espcie de torturas por que ela tem obrigatoriamente de passar, com a finalidade de prolongar a agonia daquilo que, at h bem pouco tempo, foi uma vida extremamente 
enriquecedora e preenchida?
Desta vez, David no afastou o olhar. Durante vrios segundos, abateu-se sobre os presentes um silncio extremamente penoso. ao fim de algum tempo, comeou a falar. 
Na sua voz sentia-se a angstia por que passava, a par do poder da sua convico.
 - Que diabo! Eu tambm penso dessa maneira. Exactamente como voc, Mister Thomas. Sinto isso de uma forma bastante forte.
Uma vez mais, o silncio era agonizante. David sentiu os olhos de Huttner presos em si, tendo a sensao de que o mundo Lhe fugia debaixo dos ps. O seu tom de voz 
suavizou-se.
 - Mas tem de compreender - continuou ele. - Eu no sou o mdico principal da sua mulher, isso cabe ao doutor Huttner. Devo acrescentar que ele tem mais experincia 
do que eu prprio em todos os aspectos da medicina e da cirurgia.  a ele que cabe a ltima palavra em tudo o que diga respeito ao tipo de tratamento que a sua mulher 
dever ou no receber. Tenho a inteno de dar continuidade aos seus mtodos teraputicos, em tudo o que encontrar ao meu alcance.
 - Eu compreendo at bem de mais - ripostou Thomas lanando um olhar enfurecido a Huttner. - Compreendo inteiramente. - Girando sobre os calcanhares com tanta rapidez 
que esteve quase a perder o equilbrio, dirigiu-se num passo desabrido para o quarto da mulher. A exploso de temperamento a que o homem dera largas foi a ltima 
gota de gua para Huttner. Tinha sido um dia muito longo e esgotante. Deu alguns passos  retaguarda, posicionando-se de forma a abarcar David e todas as enfermeiras 
presentes no seu olhar.
 - Tenciono dizer isto apenas uma vez, no fazendo a mnima inteno de voltar a repetir. - A sua voz era a expresso de uma secura levada ao extremo. - Quero que 
a Charlotte Thomas receba um tratamento to agressivo quanto seja necessrio, com vista a salvar-lhe a vida. Ser que me fiz entender com toda a clareza? ptimo. 
Agora, todos vocs devero retomar as vossas tarefas. Doutor Shelton, talvez seja prefervel que v para casa um pouco. Restabelecer a ordem na minha prtica de 
medicina poder vir a provar ser uma experincia exaustiva, que recair em cima de si.
Com aquela tirada, comeou a percorrer o corredor num passo decidido, indo no encalo de Peter Thomas at ao quarto 412.
David ficou sozinho no meio do corredor. O grupo de enfermeiras que se encontravam por detrs do balco, a uma distncia de mais ou menos quatro metros, mantinha-se 
imobilizado e em silncio. Ele olhou em seu redor com o acanhamento caracterstico de um empregado de limpeza que tivesse sido apanhado a varrer um palco depois 
de a cortina subir inesperadamente, numa sala apinhada de espectadores. Durante alguns instantes, sentiu o impulso de desatar a correr. Mas ento, pelo canto do 
olho avistou Christine Beall que saa de detrs do balco, encaminhando-se na sua direco. Aquele no poderia ser considerado o momento triunfante que ele teria 
escolhido para um segundo encontro com a mulher.
 medida que ela se aproximava, afastou o olhar examinando a marca de um calcanhar deixada pelo seu sapato. Sentia os olhos dela que o examinavam de alto a baixo. 
Quando a tinha visto pela primeira vez, sentira-se cativado pela sua expresso suave, embora determinada. Agora, perante aqueles olhos de um castanho-dourado sentia 
um vago mal-estar.
Momentos antes de ela comear a falar, cheirou o seu perfume, uma ligeira sugesto a Primavera.
 - Doutor Shelton, todas ns estamos muito orgulhosas pela maneira como fez prevalecer aquilo em que acredita - disse ela numa voz suave. - No se preocupe. As coisas 
tm sempre uma forma de se solucionarem por si prprias.
As palavras que ela proferira. A entoao que Lhes imprimira. Aquela atitude no foi em nada o que David tinha esperado de Christine. Repetiu-as em pensamento, embora 
no Lhe parecesse que fosse capaz de apreender o significado que elas continham.
 - Obrigado... muito obrigado - retorquiu ele com alguma dificuldade, preparando-se para aqueles olhos antes de erguer a cabea. Quando finalmente o fez, Christine 
j tinha desaparecido. A actividade por detrs do balco das enfermeiras fora retomada, regressando ao normal, embora ela no se encontrasse presente.
David decidiu pr por escrito novas instrues relativas ao tratamento de Anton Merchado, antes de tentar esquecer aquele fim de dia que to desagradvel fora. Na 
manh seguinte j estaria por sua conta. Enquanto se afastava num passo lento, ocorreram-lhe  mente alguns pensamentos relativos ao dia seguinte, os quais se focavam 
na recuperao do controlo da sua vida, servindo para suavizar os acontecimentos desagradveis que haviam ocorrido ao longo das ltimas cinco horas.



CAPTULO 5

Oculta na ombreira de uma porta, Christine observava David que abandonava a Ala Quatro Sul. Aguardou at ter a certeza de que ele no regressaria, antes de comear 
a percorrer o corredor iluminado por uma luz fraca. O seu turno de trabalho estava prestes a terminar. Na sala das enfermeiras, tal com o acontcia em outras semelhantes 
em todos os pisos do hospital, o pessoal do turno da noite compilava os seus apontamentos, preparando a transio para o turno das vinte e trs at s sete da manh, 
aquele que era chamado o turno do cemitrio.
Dentro de menos de uma hora, haveria duzentas e sessenta e trs enfermeiras que sairiam do hospital, dirigindo-se para restaurantes, bares ou para as suas casas, 
onde os seus companheiros, muito frequentemente, estariam demasiado cansados para poderem satisfazer as suas obrigaes de amantes. Seriam substitudas por outras 
cento e cinquenta e quatro enfermeiras, que se esforariam por manter um equilbrio biolgico, inserido numa ocupao que exigia a tomada de decises de vida ou 
de morte, ao longo das horas em que a maior parte do mundo se encontrava adormecido.
Durante alguns instantes, Christine deixou-se ficar no corredor deserto, escutando o silncio clamoroso da noite que reinava no hospital. Os suspiros intercalados 
pela tosse. Os gemidos e as respiraes estertorosas que se faziam a custo. O rudo do fluxo de oxignio atravs de meia dzia de cilindros de segurana. O obediente 
sinal sonoro que vinha de um monitor, formando um dueto com o som sibilado de um ventilador irracional. E, nos quartos escurecidos, os doentes internados na Ala 
Quatro Sul eram trinta e seis, a braos com a sua prpria luta, uma luta que no tinha como objectivo a riqueza, o poder ou at a felicidade, mas muito simplesmente 
o regresso ao mundo fora daquelas paredes. O retorno s suas vidas.
Mais do que em qualquer outra altura do dia. era durante a noite que Christine sentia a extraordinria responsabilidade da sua profisso.  semelhana de qualquer 
outra actividade, a enfermagem tambm tinha a sua rotina. Contudo, para l da labuta enfadonha e das queixas, para alm do trabalho fatigante e da atitude depreciativa 
por parte de muitos dos mdicos, existiam, acima de tudo o mais, os doentes. Por vezes tinha-se a impresso de que havia uma conspirao silenciosa entre os mdicos, 
os funcionrios administrativos e as organizaes do pessoal de enfermagem, cujo nico objectivo era expungir das enfermeiras qualquer noo de que a sua responsabilidade 
primordial era cuidar desses mesmos doentes. Neste grupo de pessoas encontravam-se incluidas as prprias enfermeiras, estando muitas delas totalmente desprovidas 
do sentido de generosidade e de interesse, factores que em primeiro lugar as haviam levado a enveredar por aquela profisso.
Christine observou o corredor na direco da porta do quarto nmero 412. Em silncio, renovou o juramento de nunca vir a ceder perante o negativismo e a confuso. 
Jamais deixaria de se preocupar com os que sofriam. Se o compromisso que assumira perante A Irmandade da Vida era a nica maneira de honrar essa promessa, pois que 
assim fosse. De uma maneira qualquer, sabia que desde que fizesse parte da Irmandade, se encontraria a salvo das frustraes, e do sofrimento emocional, que haviam 
afastado tantas enfermeiras da enfermagem praticada em ospitais.
No que dizia respeito a Christine, o seu compromisso tivera incio num domingo. Fora do Hospital Mdicos de Bston, o dia fora aoitado por um vendaval de Inverno. 
No interior da sala das enfermeiras, na Ala Quatro Sul, tinha germinado uma outra espcie de borrasca. A maior parte da fria que ento grassara havia emanado de 
Christine, tendo sido toda canalizada contra um mdico de nome Corkins, o qual acabara de ordenar a realizao de uma traqueotomia numa mulher de oitenta anos que 
fora vitima de uma trombose fulminante que a deixara paralisada, parcialmente cega e incapaz de falar. Christine tinha passado horas a fio a tratar dessa doente. 
Apesar de a mulher de idade se encontrar incapaz de falar ou de se mexer, ela conseguia comunicar atravs dos seus olhos. Para Christine, a mensagem era suficientemente 
clara: "Por favor, permitam que eu adormea para sempre. Permitam que esta vida de inferno chegue ao fim." Agora, devido quela operao, o inferno continuaria indefinidamente.
Durante quase uma hora, Christine mantivera-se sentada na sala das enfermeiras, partilhando as suas lgrimas e a clera que sentia com Janet Poulos. Com todas as 
cautelas e gradualmente, Janet introduzira-a no conhecimento da existncia d'A Irmandade da Vida.
Ao longo dos dois dias que se seguiram  traqueotomia a que a mulher de idade foi submetida, Christine passara inmeras horas a discutir com Janet a situao deplorvel 
em que a doente se encontrava, enquanto em simultneo ia adquirindo cada vez mais informaes sobre A Irmandade. Durante toda a sua carreira de enfermagem, conseguira 
sempre achar alguma alegria, at mesmo nos aspectos mais desagradveis dos cuidados dirios a prestar aos doentes. No entanto, em cada minuto que passava a ajudar 
a prolongar a agonia daquela senhora idosa, a frustrao que Christine sentira ia aumentando de intensidade. O ter de desligar o ventilador hora a hora, a fim de 
permitir a suco do tubo. O virar do corpo com muita frequncia. A substituio dos cateteres das vias urinrias. As injeces intramusculares que eram administradas 
em profundidade. O facto de ter de tentar freneticamente manter-se atenta s escaras sucessivas que parecia no terem fim. E sempre aqueles olhos que no paravam 
de a fitar, olhando atravs dela, cuja mensagem era ainda mais desesperada do que anteriormente.
Por fim, o compromisso foi feito. Christine seguiu as instrues que Janet Poulos Lhe dera, tendo participado o caso da senhora de idade ao Comit Regional de Avaliao. 
Um dia mais tarte, deram-lhe a conhecer a sua aprovao, juntamente com as devidas instrues.
Quase no fim do seu turno de trabalho, ela entrara furtivamente no quarto da mulher idosa. O som ensurdecido do ventilador aliava-se, numa atmosfera fantasmagrica, 
com a ventania ululante do Inverno que se fazia ouvir no exterior. Na escurido, sentia os olhos da doente que a observavam. Inclinou-se sobre a cama, premindo as 
lgrimas que Lhe deslizavam pela face contra a fronte da mulher. Decorridos alguns momentos, apercebeu-se de que ela acenava com a cabea, uma vez e depois outra. 
Ela sabia! Fosse de que maneira fosse, ela compreendera. Com suavidade, Christine beijou-a na testa.
 - Gosto muito de si - segredou ela junto do ouvido da doente.
Ergueu uma mo e desligou o ventilador; depois, aguardou no meio da escurido durante cinco minutos, antes de voltar a lig-lo.
Decorridas quatro horas do turno seguinte, houve uma enfermeira que informou no ser capaz de sentir a pulsao, nem to-pouco conseguira obter uma leitura de presso 
arterial da doente. Chamaram um mdico estagirio, que depois de ter observado um trao a direito num electrocardiograma, declarou que a doente tinha falecido. Mais 
tarde, ainda nessa mesma manh, os dois filhos da mulher, extremamente aliviados por verem que o sofrimento da me havia chegado ao fim, trataram de levar o corpo 
para as instalaes de uma agncia funerria local. Por volta das onze da manh, aquela cama j estava ocupada por uma jovem mulher divorciada, a qual optara por 
se submeter a um aumento dos seios. Tal como as guas de um charco, momentneamente perturbadas por um seixo, o ambiente no hospital havia sido o mesmo de sempre, 
tendo desaparecido da sua superfcie os ltimos vestgios de ondulao das guas.
 - Christine?
A interpelada voltou-se na direco da voz. Era Janet Poulos.
 - Ests a sentir-te bem?
Christine acenou afirmativamente.
 - Parecia estares a posar para a capa da Nurse Beautiful'.
 - Seria mais apropriado o termo Nurse Troubled?.
 - Ests a referir-te  cena do Huttner com o professor? -  perguntou Janet.
 - Hum... hum.
 - Apetece-te falar sobre o assunto?
 - No - respondeu Christine. - Quer dizer, talvez um pouco. O que pretendo dizer  que tu s a nica que...
Erguendo uma mo, Janet silenciou-a.
 - No est ningum na sala das visitas - continuou ela, acenando com a cabea na direco da sala das enfermeiras.  - A julgar pelo que se passa ali, dispes de 
dez minutos antes de fazeres o relatrio do teu turno. Esta noite, a atmosfera por aqui tem sido um tanto ou quanto de loucura, no te parece? Ouvi dizer que surgiram 
alguns problemas depois de Mister Chapman ter sido encontrado morto - acrescentou Janet.
Enquanto ambas se dirigiam para a sala das visitas, Christine descreveu a reaco da viva destroada pelo desgosto da morte de John Chapman.
 - Porque  que te parece que ela decidiu arremessar com as flores pelo quarto? - perguntou Janet, abanando a cabea numa atitude de quem no queria acreditar no 
que ouvia.
 - Ela no se limitou a arremessar s com a jarra das flores. Tambm deu largas  sua fria com outros objectos. -  Christine sentou-se num sof e Janet optou pela 
cadeira  frente da colega.
 - Isso quer dizer que ela destruiu tudo?  - perguntou
esta.
 - Quase. Ainda conseguimos salvar duas jarras.
 - Oh?! - Janet agitou-se na sua cadeira.
 - Sim, e uma das coisas a que ela lanou mo pareceu-me um pouco estranha.
 - O que  que queres dizer com isso? - A pergunta foi feita num tom neutro, apesar de a postura e a expresso de Janet sugerirem mais do que um interesse passageiro.
Christine olhou para o seu relgio de pulso, mostrando-se impaciente. Tinha apenas cinco minutos at ter de fazer o seu relatrio.
 - Na verdade no se tratou de nada de mais. S que as flores na ltima jarra eram lrios, e o carto que as acompanhava dizia algo semelhante a "Com os melhores 
votos, Lily", mais nada.
 - Oh! - exclamou Janet com uma neutralidade que no se espelhava no seu olhar. Coou distraidamente a cicatriz que tinha junto do nariz, aps o que bruscamente 
mudou de assunto.
 - Ests a pensar em submeter o caso da mulher do Thomas  aprovao do Comit de Avaliao?
 - J tomei essa medida - disse pouco segura. -  ainda no sei se ela foi aprovada ou no. Bem vs, a Charlotte e eu comemos a desenvolver uma grande amizade, 
que  mtua...
 - Ora bem, permite-me que te cumprimente pela tua iniciativa - interrompeu Janet.
 - O qu? - perguntou Christine sem compreender.
 - S espero que o caso dela venha a ser aprovado.
 - Janet, tu no conheces a pessoa em questo... nem to-pouco a situao. Como  que poders dizer...
 -  possvel que eu no a conhea, mas em contrapartida conheo bem o doutor Huttner. De todos os sacanas pomposos e presumidos que esto convencidos que tm sempre 
razo, e que se escudam sistematicamente por detrs do raio do ttul o de doutor, o Huttner  o pior deles todos.
Aquele desabafo to veemente de Janet foi absolutamente inesperado. Durante breves instantes, Christine ficou sem fala. Sem dvida alguma que teria sido o zelo em 
excesso, e por vezes a agressividade dos mdicos, tudo com base no seu egocentrismo, os factores que haviam dado origem ao surgimento da Irmandade; todavia, no que 
respeitava a Christine, aquilo sempre fora um conflito de filosofias e nunca de personalidades.
 - O que... o que  que a presuno do Huttner tem a ver com o caso da Charlotte? - inquiriu ela, sentindo-se confusa e estranhamente apreensiva.
Janet acalmou-a com um sorriso rasgado.
 - Com a breca, calma a - disse ela, dando uma palmada amigvel no joelho da colega. - Eu estou do teu lado. Ou j te esqueceste? - Christine aquiesceu com um acenar 
de cabea, embora a incerteza no a houvesse abandonado. - Eu acredito firmemente na Irmandade e em tudo aquilo que fazemos, tal como acontece contigo. Por que outra 
razo  que eu te teria recrutado? Tudo o que eu tentei dizer-te foi que nos casos como o dessa Mistress Thomas o nosso benefcio ... a dobrar. Respeitamos os desejos 
da mulher, assim como os do marido, ao restabelecermos um pouco de dignidade na sua vida, ao mesmo tempo que temos a oportunidade de chamar a ateno de uma pessoa 
como o Huttner para o facto de ele no ser Deus.  verdade, no ?
Christine avaliou aquele conceito. descontraindo-se e retribuindo o sorriso da outra.
- Sim... calculo que seja isso mesmo. - Ergueu-se preparada para abandonar a sala de visitas.
 - Se precisares de qualquer apoio - acrescentou Janet - , podes contar com o meu. Estou convencida de que tomaste a medida adequada ao apresentares o caso dessa 
mulher; agora s depende do Comit de Avaliao cumprir a parte que Lhe cabe.
Christine acenou com a cabea, dando a entender a sua concordncia.
 - Sabes, Christine - continuou ela quando a colega j se encontrava perto da porta, fazendo uma pausa para poder examinar a expresso da mulher mais jovem - , no 
existe nada de imprprio quando se beneficia de qualquer coisa em que acreditamos. O bem que possa advir de qualquer tarefa no fica diminudo pelo facto de que 
talvez possamos, de uma forma qualquer, tirar algum proveito das nossas aces. Ests a compreender?
 - Eu... estou em crer que sim - mentiu Christine. -  Obrigada por teres conversado comigo. Quando souber, informar-te-ei daquilo que o comit decidir
 - Por favor no te esqueas de me manter ao corrente. E, Chris, quero assegurar-te de que estarei aqui, caso precises de mim.
Continuando a sentir um certo mal-estar, Christine apressou o passo em direco  sala das enfermeiras. Deteve-se do lado de fora da porta, tentando recompor-se. 
A exploso de Janet em relao ao assunto de Wallace Huttner deixara-a perplexa, embora aquilo no fosse to perturbador como inicialmente Lhe parecera ser. Havia 
vrios anos que Janet fazia parte da Irmandade; com certeza absoluta que j Lhe havia passado pelas mos um determinado nmero de casos. O propor levar a cabo uma 
morte, at mesmo uma morte por eutansia, era um assunto que se revestia de uma enorme tenso emocional e que afectaria as entranhas de qualquer pessoa. ao longo 
dos anos , a necessidade de se enfrentar as mesmas decises vezes sem conta, haveria de, inevitavelmente, ter o seu preo, fosse sob que forma fosse. No caso de 
Janet, concluiu Christine, aquilo assumia o aspecto de uma certa agressividade, dirigida aos que faziam com que aquelas opes deveras extraordinrias fossem uma 
necessidade inevitvel.
Lanou um olhar pelo corredor a tempo de avistar Janet, que entretanto entrava no elevador. A mulher era uma excelente supervisora e, ainda mais importante do que 
esse aspecto, uma enfermeira dedicada aos mais verdadeiros ideais da sua profisso. Nos momentos que precederam a sua entrada na sala das enfermeiras, Christine 
sentiu um ressurgimento do seu orgulho devido aos segredos que partilhava com a sua "irm".



CAPTULO 6

Carl Perry tentou couraar-se contra a dor que sabia de antemo Lhe trespassaria a garganta; em seguida, engoliu com todas as precaues possveis. As dores, na 
realidade quase qualquer grau de dor, seriam preferveis quele maldito babar contnuo que se verificava desde que os plipos, tumores ou o que quer que fossem, 
tinham sido extirpados das suas cordas vocais. Seria obrigado a passar mais dois dias acamado, em que ficaria submetido  administrao de fluidos por via intravenosa 
e a ter de escrever bilhetinhos, a fim de poder comunicar, at que o perigo de as suas cordas vocais virem a inchar, obstruindo-lhe a garganta, passasse de todo. 
Pelo menos, fora isso o que o doutor Curtis Lhe explicara.
Estendeu a mo e tocou no adesivo que mantinha o tubo intravenoso no seu devido lugar, no antebrao direito. Havia vrios plos que se espetavam da pele, levando-o 
a sibilar uma praga contra a enfermeira que Lhe inserira o tubo, cuja negligncia deixara passar aquela regio sem a barbear.
"Adesivo, tubo intravenoso: queixar-me aos mdicos, Administ. Hosp.", garatujou ele num bloco de apontamentos, arrancando a folha que se foi juntar s outras de 
contedo similar, que rapidamente estavam a encher uma gaveta.
Agarrou no pequeno espelho colocado sobre o tabuleiro de frmica do hospital e comeou a examinar-se. At mesmo com os arranhes que os instrumentos de Curtis Lhe 
haviam provocado aos cantos da boca, gostou daquilo que viu. Um par de olhos de um profundo azul, uma pele bronzeada apenas com os vincos suficientes, um queixo 
de linhas quadradas e uns dentes perfeitos. A sua aparncia fsica era aquela com que a maior parte dos homens de quarenta e oito anos sonhava poder vir a ter. As 
mulheres tambm se apercebiam do seu aspecto, at mesmo as mais jovens. Lutavam pela oportunidade de poder passar umas escassas horas na sua companhia, no alojamento 
que ele mantinha permanentemente no Hotel Ritz. Para no mencionar o facto de todas elas regressarem a suas casas satisfeitas.
Mas que ideia to perfeita que fora o ter dado incio ao rumor que circulava nos bares onde as pessoas solteiras costumavam ir, de acordo com o qual, a rapariga 
que fosse a melhor na cama ganharia um Porsche livre de qualquer encargo; todos os anos haveria uma premiada, cortesia dos Motores Estrangeiros Perry. At era muito 
possvel que ele o viesse a fazer, no dia em que perdesse a sua boa aparncia fsica.
Sentindo-se enfadado e desconfortvel entre os lenis transpirados, accionou o controlo  distncia do televisor, desligando-o com a mesma rapidez com que o ligara. 
No havia programa nenhum para alm do noticirio das vinte e trs horas, que comeara a ser apresentado em todos os canais. Massajou a parte da frente das calas 
do seu pijama de seda azul, sentindo a pulsao de uma ereco. No, ainda no, decidiu ele. "Espera at estares pronto para adormecer, altura em que o poders fazer."
Naquele momento, entrou no quarto uma enfermeira, que fechou cuidadosamente a porta atrs de si. Era a mesma que se tinha sentado na beira da sua cama a falar com 
ele, na noite anterior  operao. J era entrada nos anos, talvez tivesse uns quarenta, calculou ele, apesar de ter um corpo que se recusava a desistir. Perry sentiu 
imediatamente uma agitao sbita no rgo flcido que tinha debaixo da mo, tendo recomeado a massajar-se a si prprio sob os lenis, visualizando a enfermeira 
nua, com a sua bela figura, deitada na sua cama de hotel,  espera dele.
 - Como  que se sente, Mister Perry? - perguntou ela com suavidade. Encontrava-se a menos de trinta centmetros do doente. Numa atitude convidativa, sabia ele.
Por um momento, sentiu-se dividido pelo dilema de ter de deixar de se tocar, afim de poder escrever umas palavras. Finalmente garatujou: "Sinto-me ptimo, minha 
doura, e voc, como est?"
 - H alguma coisa que eu possa fazer por si antes de largar o servio esta noite? - perguntou ela, aproximando-se uns escassos centmetros.
Com o olhar, Perry procurou a mo esquerda da enfermeira, para ver se ela usava aliana de casamento. No era o caso, mas isso pouco teria acrescentado  sua fantasia 
em plena florao. "Isso depende...", escreveu ele.
 - De qu?
A atazan-lo, tentadora... era o que ela estava a fazer. Ele decidiu correr o risco. "De tratarmos do assunto agora ou depois de eu ter alta!"
Ainda hesitou se deveria mencionar ou no o Porsche de borla, mas acabou por rejeitar a ideia como sendo desnecessria.
 - Fazemo-lo sozinhos, ou acha que devmos convidar a sua mulher para nos fazer companhia?
Na sua nova abstraco cheia de leviandade, imaginava-a com as pernas estendidas para cima, mantendo os calcanhares apoiados contra a parede acima da sua cama. "A 
minha mulher no me compreende", escreveu ele, entrando no jogo e acrescentando  frase um pequeno rosto sorridente, que desenhou ao fundo da pgina.
 - Muito bem. Quando se sentir um pouco melhor, havemos de voltar a esse assunto - disse ela. - Sou forada a admitir que a ideia de passar uns bons bocados consigo 
j me ocorreu ao pensamento. - Comeou a brincar com o boto de cima do seu uniforme e, durante alguns instantes, Perry pensou que ela estaria disposta a desaboto-lo 
para seu benefcio.
" s voc dizer quando", acrescentou ele  sua nota, levando a mo livre  coxa da enfermeira, que acariciou.
 - Dentro em pouco - continuou ela esboando um sorriso e afastando-se do seu alcance. - Primeiro tenho aqui dois presentes para si. Um  do seu mdico e o outro 
 de mim prpria. Qual  que deseja receber primeiro?
Deliberadamente, Perry escreveu: "O seu."
A mulher saiu do quarto, regressando pouco depois com qualquer coisa que ocultava atrs das costas. Perry respirou com sofreguido, ao reparar na forma como o uniforme 
da enfermeira estava repuxado  largura dos seios. De certeza que o soutien devia ser grande. Ergueu o olhar at  face radiante da mulher, reparando, pela primeira 
vez, numa cicatriz estreita que corria quase paralela a um dos lados do nariz. Uma pequena imperfeio, decidiu ele. Contudo,  luz de velas e com um pouco de maquilhagem, 
puf!, aquela cicatriz dissipar-se-ia.
Depois de o ter mimoseado com um longo olhar cheio de deliberao, a enfermeira, numa atitude teatral, afastou as mos que mantivera atrs das costas. Trazia um 
ramo de flores. Umas flores de um prpura garrido e cintilante.
"Maravilhosas", escreveu Perry.
 - So jacintos - elucidou a enfermeira.
Depois de uma breve inspeco  procura de uma jarra, ela colocou as flores dentro de um pequeno mictrio que se encontrava em cima da mesa-de-cabeceira. Perry retraiu-se 
ao ver a forma um tanto grosseira como ela quebrava a atmosfera amorosa que reinava naquele momento. Talvez ela apreciasse o sexo aberrante, pensou ele, sem se sentir 
muito certo de estar na disposio de entrar no jogo de outra pessoa.
"E o segundo presente?", escreveu ele.
 - Trata-se apenas de um novo medicamento. - Ela movimentava-se a poucos centmetros do rosto do doente, enquanto exibia uma seringa cheia de lquido translcido 
que retirara de uma algibeira, comeando a inject-la dentro do tubo de alimentao intravenosa.
Perry estendeu a mo e, uma vez mais, agarrou-a pela regio posterior da coxa. Desta feita, ela no fez qualquer tentativa para se afastar dele. Subitamente, ele 
sentiu um estranho aperto no peito. A fora com que Lhe agarrava a perna enfraqueceu, aps o que em menos de um minuto se desvaneceu de todo. Com dificuldade e sentindo 
um pnico crescente, voltou a cabea para cima e ficou a olhar para a enfermeira. Ela mantinha-se imobilizada, olhando para ele com um sorriso complacente. Perry 
ainda tentou gritar, mas s conseguiu articular um som sibilado que Lhe saa das cordas vocais inchadas e paralisadas.
O ambiente tornou-se to pesado e espesso como melao. Independentemente de todos os esforos que ele fazia, no era capaz de obrigar o ar a entrar nos seus pulmes. 
O seu brao esquerdo mantinha-se flcido e intil por cima da beira da cama.
 - Tem o nome de pancuronium - disse a enfermeira com uma expresso afvel. -  um sucedneo do curare de aco rpida. Tal como se fossem dardos envenenados. Bem 
v, a sua mulher compreende-o muito melhor do que aquilo que voc julga, Mister Perry. Ela entende-o to bem que est disposta a partilhar connosco uma boa poro 
do seu seguro de vida, a fim de o eliminar da sua existncia de uma vez por todas.
Perry ainda tentou replicar-lhe, mas j nem sequer conseguia pestanejar. Tinha a impresso de que todos os objectos existentes no quarto estavam cobertos por uma 
pelcula turva enquanto gradualmente aquela sensao de pnico dava lugar a um sentimento de euforia que o desligava de tudo o que sucedia em seu redor. Atravs 
de uns olhos que naquele momento se mantinham imveis e cuja viso era cada vez mais desfocada, observava a enfermeira a desabotoar cuidadosamente os dois primeiros 
botes de cima do seu uniforme, expondo o rego profundo que Lhe unia os seios.
 - No se preocupe com as flores, Mister Perry. Eu certifico-me de que elas sejam postas dentro de um pouco de gua.  - Aquelas foram as ltimas palavras que ele 
ouviu.
Janet Poulos colocou o brao de Perry sobre a cama, inspeccionou o corredor da Ala Trs oeste, mergulhado numa semiobscuridade, e com toda a calma abandonou aquele 
piso. Quando a porta das escadas se fechou depois de ela ter passado, cedeu perante o sorriso que Lhe brincara nos lbios desde o momento em que injectara o que 
havia restado do pancuronium. O dia havia sido inacreditavelmente rentvel para O Jardim. Tal como Dahlia prometera que seria. Em primeiro lugar, havia sido o desempenho 
de mestre da parte de Lily e agora fora a sua vez, Hyacinth, que se sara no mnimo to bem como a outra. Riu-se, pondo-se a ouvir o eco do seu rir a reverberar 
pelo poo das escadas, naquela altura deserto.
J no seu gabinete, na Ala Um Norte, Janet instalou-se por detrs da sua secretria, cerrando os olhos enquanto revivia mentalmente a cena que tivera lugar no quarto 
de Carl Perry. O sentimento de poder - de controlo mximo - fora, no mnimo, to empolgante como o que sentira  beira da cama do doente. Era uma sensao de excitao 
que ela,  semelhana de todas as outras d'O Jardim, havia descoberto atravs d'A Irmandade da Vida. A Irmandade, com o seu elevado esprito de nobreza, era excelente 
para algumas pessoas, reflectiu Janet; todavia, a criao de Dahlia, O Jardim, fora fruto de uma inspirao, na mais pura acepo da palavra. O facto de elas poderem 
ser remuneradas, na realidade muito bem pagas, pelos seus esforos, era um aspecto que servia para adoar aquele jogo. Janet abenoou Dahlia por ter feito com que 
Hyacinth revivesse.
E ento, tal como acontecia com tanta frequncia depois de ter tratado de um caso que dissesse respeito  Irmandade ou ao Jardim, Janet comeou a pensar no homem 
- o primeiro homem que a possura, o nico homem que ela alguma vez tinha amado. Naquele momento seria ele um professor de cirurgia, de acordo com os planos que 
em tempos fizera? Por que motivo  que ele no voltara a telefonar depois daquela noite? Bom, certamente que ele agora a teria visto a uma luz diferente. Ela tambm 
era detentora de poder. Tanto quanto o mais poderoso cirurgio do mundo. Se ao menos ele pudesse v-la, haveria de... Janet encolheu os ombros.
 - Quem  que se interessa por isso? - perguntou ela em voz alta. - Seja como for, quem diabo  que se importa?
Agarrou no telefone. Chegara a altura de partilhar a excitao do dia com Dahlia.



CAPTULO 7

J passava das onze e meia quando o turno de servio na Ala Quatro Sul concluiu o seu relatrio, dando lugar ao turno das onze da noite s sete da manh, o qual 
ficaria de servio durante o resto da noite. Christine Beall apanhou o mini-autocarro Pinkerton at ao Lote C do parque de estacionamento. Sentindo-se exausta, declinou 
um convite para tomar uma bebida que as quatro enfermeiras que seguiam com ela no autocarro Lhe haviam dirigido, tendo optado por ir directamente para casa.
A pouco mais de trinta quilmetros de distncia, no subrbio dormitrio de Wellesley, o Dr. George Curtis bebia dois dedos de conhaque, aps o que regressou ao quarto 
num passo arrastado, saindo do seu estdio de paredes forradas com painis de carvalho. A sua mulher, que entretanto ligara o candeeiro da mesa-de-cabeceira, confortavelmente 
encostada a vrias almofadas, olhou para ele com uma expresso de ansiedade.
 - Ento, como  que correu a conversa com Mistress Perry? - perguntou ela.
O Dr. Curtis deixou-se cair em cima da beira da cama e suspirou de alvio.
 - Ela ficou bastante abalada, mas, se tivermos tudo em considerao, d-me a impresso de estar a aguentar-se muito bem. Ofereci-me para ir a sua casa a fim de 
falarmos sobre o assunto. No entanto, ela respondeu-me que no seria necessrio, alegando que tinha gente em casa. Melhor do que tudo o mais. ela no fez qualquer 
aluso ao querer que se efectuasse uma autpsia.
A mulher do mdico mostrava-se perturbada.
- O que  que queres dizer com "melhor do que tudo o mais"? Passa-se alguma coisa de anormal?
 - Bem... a julgar pelo que o mdico de servio me disse, o Perry... Das duas uma: ou sofreu um ataque das coronrias ou sangrou para as cordas vocais, na regio 
que eu operei. Em qualquer dos casos, a mulher poderia intentar um processo judicial por negligncia mdica, com base no facto de ele dever ter sido assistido na 
Unidade de Cuidados Intensivos. Na ausncia de uma autpsia, ela no ter nada de concreto que possa alegar, pelo que no ter fundamento para um processo judicial: 
e eu digo "Amen" a isso.
 - Amen - repetiu a mulher enquanto desligava o candeeiro e se virava, aproximando-se mais do marido.

Christine conduzia com lentido, manobrando o volante com gestos maquinais, sem se dar conta do movimento de trfego automvel em seu redor. Nos passeios iluminados 
pelos candeeiros de rua, o mundo noctvago da zona mais degradada da cidade encontrava-se numa actividade fervilhante. As prostitutas e os que viviam de expedientes, 
os drogados e os bbedos, lado a lado com os amontoados de homens jovens que se reuniam  entrada dos bares. Aquele era um mundo que habitualmente exercia um grande 
fascnio sobre Christine, mas, naquela noite, toda a actividade daquelas pessoas Lhe passou despercebida. Na sua mente visualizava uma cena inteiramente diversa.
Tinha a ver com um jogo de tnis. Duas mulheres num campo cujo relvado era de um verde-esmeralda. Ou talvez houvesse apenas uma, uma vez que nunca via as duas em 
simultneo. Somente uma figura vestida de branco que saltitava, a qual efectuava umas jogadas energticas e perfeitas.
Completamente embrenhada naquela viso, passou inadvertidamente uma luz vermelha, entrando numa via ampla que a levaria para fora da cidade.
De sbito, Christine apercebeu-se da razo por que aquela imagem Lhe parecia ser um jogo. Com cada investida, cada jogada, o rosto da mulher mudava de identidade. 
Primeiro aparecia-lhe a face de Charlotte Thomas, radiante e rindo-se de excitao de cada vez que pontuava; em seguida era o rosto retrado e descorado da sua prpria 
me, uma mulher holandesa de carcter inflexvel, cuja devoo que dedicara aos seus cinco filhos tinha acabado por a desgastar ao ponto da sua morte ter sido bastante 
prematura.
As jogadas faziam-se cada vez com maior rapidez, e em cada uma destas verificava-se uma alterao relmpago na fisionomia da jogadora, at que pouco mais era alm 
de uma mancha de contornos pouco definidos.
Subitamente Christine olhou de relance para o conta-quilmetros. Seguia a uma velocidade de quase cento e trinta quilmetros por hora. Segundos mais tarde, passou 
velozmente por um sinal da estrada. Seguia numa direco que era bastante a oposta da de sua casa.
Tremendo de uma forma quase incontrolvel, aplicou os traves a fundo, imobilizando a viatura na berma da estrada; a sua respirao era arquejante como se tivesse 
acabado de correr uma maratona. Decorreram vrios minutos at estar em condies de poder fazer inverso de marcha, retomando o percurso at casa.
Quando chegou  rua sossegada e bordejada por rvores, onde vivia com as suas parceiras de apartamento havia dois anos, j era quase meia-noite. A deciso de procurarem 
um apartamento em Brookline fora unanime.
 -  uma parte antiga da cidade com um corao jovem -  fora a forma como Carole D'Elia classificara aquela rea, referindo-se aos milhares de estudantes e de gente 
jovem que j encetara uma carreira profissional e que residiam nas confortveis vivendas de dois andares e prdios de apartamentos.
Decorridas trs semanas em que haviam procurado casa, descobriram, tendo-se apaixonado imediatamente, o apartamento num rs-do-cho de uma vivenda pintada de branco 
e castanho para duas famlias. A senhoria, uma viva de cabelos azulados, de nome Ida Fine, vivia no andar de cima. No dia seguinte ao da mudana, encontraram uma 
grande panela de sopa, que fora deixada do lado de fora da porta, anunciadora da inteno de Ida em adoptar as trs raparigas. De incio, Christine no se sentira 
nada agradada com aquela intruso na vida das trs; todavia, Ida era irreprimvel - embora habitualmente tivesse a sabedoria suficiente para sentir quando  que 
a sua permanncia excedia o perodo de tempo em que era bem-vinda.
Christine, Carole e Lisa Heller tinham personalidades bastante diferenciadas, apesar de parecer terem sido talhadas para viver em conjunto. Carole, uma desembaraada 
advogada especializada em direito criminal, era a que tinha a cargo o pagamento das compras, enquanto a Christine cabia a tarefa de fazer as compras, assim como 
tratar de outros assuntos essenciais do dia-a-dia caractersticos de uma vida em comum. Lisa, uma agente de compras da Filene, era a orientadora das actividades 
de carcter social.
Com um gemido de alvio e de fadiga, Christine abrandou a velocidade do Mustang, subindo pelo caminho de acesso  casa, onde estacionou no seu lugar habitual ao 
lado do VW em mau estado de Lisa. A garagem de dois lugares estava to cheia de "tesouros", os quais Ida prometia constantemente deitar fora, que no seu interior 
nunca houvera lugar para mais nada alm das bicicletas das trs. Enquanto contornava a casa at  fachada, Christine reparou, pela primeira vez, nas luzes intensas 
que se viam atravs das janelas de todas as divises. Uma festa. A ltima coisa no mundo que naquele momento ela desejaria ter de suportar.
 - A Lisa ataca de novo - resmungou para si prpria, abanando a cabea.
O cheiro inconfundvel a marijuana chegou-lhe s narinas assim que abriu a porta. Vindo da sala de estar, chegou-lhe o som da msica de um lbum dos Eagles  mistura 
com o tilintar dos copos, em conjunto com meia dzia de conversas que eram travadas em simultneo. Procurava na sua mente um lugar para onde pudesse ir sub-repticiamente, 
e onde Lhe fosse possvel passar o que restava da noite, quando Lisa saiu inesperadamente da sala de estar.
Era trs anos mais nova do que Christine e cerca de quinze centmetros mais alta; Lisa usava aquilo que se tornara no uniforme no oficializado da casa: calas de 
ganga bem coadas e uma camisa de homem largueirona, que fora surripiada a um antigo namorado. O seu rosto tinha uma perptua expresso intelectual, quase piedosa, 
e que invariavelmente dava a impresso de atrair os homens que se interessavam por Mahler e alimentao orgnica, duas coisas que Lisa detestava de igual modo.
 - Ah! A filha prdiga regressou ao lar - disse ela, rindo-se  socapa.
Existia algo em Lisa que desarmava qualquer pessoa, o que, at mesmo em relao a Christine, tinha sempre o condo de fazer com que os momentos mais sombrios parecessem 
mais suportveis.
 - Lisa - retorquiu ela, esboando um sorriso - , quantas pessoas  que esto a dentro?
 - Oh, oito ou dez, ou talvez mesmo doze.  difcil cont-las porque, compreendes, algumas no so verdadeiramente pessoas.
 - Bem, ento, faz-me um favor - implorou Christine. -  Vai buscar um bocado de corda e o teu casaco de guaxinim, e v se consegues fazer com que eu passe pela porta 
disfarada do teu irlands de caa aos lobos, ou qualquer coisa do gnero. Eu s quero ir para a cama.
 - Ah! A cama - exclamou Lisa com uma expresso sonhadora, procurando o apoio da parede. - No h-de faltar muito para que todo o Gallo Chablis e a esplndida droga 
colombiana que esto ali dentro nos forcem todos a ir para a cama. A nica questo que ainda se pe  quem  que se deitar com quem. A propsito do que...
 - Lisa, ele est a dentro?
 - To certo como a prpria vida. No sei se sabes que foi ele quem trouxe a droga.
Na fisionomia de Christine desenhou-se um esgar. Jerry Crosswaite pairava qual constipao irritante. Sacudiu a cabea.
 - A culpa  minha - acrescentou ela com uma expresso de pesar deveras teatral. - A minha regra mais importante e fui eu quem a infringiu.
 - Que regra  essa? - perguntou Lisa, pontuando as suas palavras com um soluo de embriaguez.
 - Nunca sair mais do que uma vez com um homem que tenha chapas de matrcula personalizadas no seu carro, para mais com o seu nome, sinal de vaidade. - As duas amigas 
deram uma gargalhada e abraaram-se.
Apesar de a presena de Jerry ainda Lhe fazer passar alguns momentos agradveis, estes comeavam a tornar-se cada vez mais raros e mais intervalados. O que acontecia 
desde a deciso unilateral, a que ele chegara, de que ambos haviam sido "feitos um para o outro". Jerry montara toda uma campanha, a fim de fazer de Christine "A 
Mulher do Executivo Snior Mais Jovem dos Financiamentos na Histria do Boston Bank and Trust". Durante vrias semanas, ele tinha-a submetido a uma autntica barragem 
de rosas, prendas e chamadas telefnicas. Para grande pesar de Christine, sentimento este cada vez mais crescente, Carole e Lisa haviam-se sentido to fascinadas 
pelo romantismo daqueles pretextos de amor que tinham conseguido minar os seus esforos no sentido de desencorajar todo aquele ardor amoroso.
 - Chrissy, pra de te queixar - dizia Lisa naquele momento. - Quer dizer... tu j passaste dos trinta anos e ele  um homem muito simptico, para alm de ser possuidor 
de um Alfa. Que mais  que qualquer rapariga poderia desejar?
Christine no tinha bem a certeza se a amiga estava a brincar com ela ou no.
 - Lisa, o homem tem menos facetas do que uma folha de papel...
 - Bem, doura, eu no correria com ele da minha cama -  retorquiu Lisa.
 - Mantm-te por c, Heller, vers que ainda ters oportunidade de ver se realmente ests a falar a srio. - Christine passou por ela e dirigiu-se para a sala de 
estar.
Jerry Crosswaite pousou o seu copo com vinho e desenvolveu esforos, que se faziam por etapas, para se levantar do sof com a inteno de a saudar. Christine obrigou-se 
a esboar um sorriso, fazendo um gesto para que ele se deixasse ficar onde estava. Na sala encontravam-se mais doze pessoas, muitas das quais tinham um aspecto ainda 
mais gelatinoso do que Jerry.
 - Brutal - resmungou Christine ao mesmo tempo que no foi capaz de conter um sorriso dirigido a Carole D'Elia, extremamente embrenhada num jogo da sua criao, 
a que dera o nome de "Scrabble para Drogados". Nesta verso, que s poderia ser jogada com o auxlio de marijuana, qualquer palavra, verdadeira ou inventada, contava, 
desde que pudesse ser satisfatoriamente definida perante os outros jogadores.
Carole chamou-a.
 - Ol, Chrissy, tu s a nica que tem algum bom senso por aqui. Aproxima-te e serve de rbitro numa dvida que temos. Z-O-T-L  ou no o substantivo de um arranjo 
decorativo com salamandras mortas?
 - Absolutamente - anuiu Christine, dando-lhe um abrao pelas costas.
Nenhuma das mulheres que partilhavam aquela casa fumava marijuana com regularidade, mas de tempos a tempos, e durante as festas, esta substncia materializava-se 
muito simplesmente e, com bastante frequncia, nessas ocasies a droga era parte integrante. Apesar da relativa falta de actividade que se verificava na sala de 
estar, pairava um ambiente de vitalidade que Christine sentia sempre que se encontrava na companhia das suas colegas de apartamento. Chegou  concluso de que a 
presena delas seria o tnico ideal para aquele dia to esgotante. Ainda que isso significasse ter de suportar a presena de Jerry Crosswaite.
 - A propsito - disse Carole. - Telefonaram para ti ainda no h muito tempo. Era uma mulher qualquer. Disse que voltava a ligar. No deixou mais nenhuma mensagem.
 - Era uma mulher de idade? Jovem? - perguntou Christine sem esconder a ansiedade que sentia.
 - Sim - respondeu Carole com um acenar de cabea definitivo, acabando o resto do seu vinho e tomando nota dos seus treze pontos.
Entretanto, Crosswaite l conseguira atravessar a sala num passo vacilante, aproximando-se por trs de Christine e colocando as mos em cima dos ombros dela. Esta 
girou sobre os calcanhares como se Lhe houvessem tocado com ganchos de pendurar peas de carne.
 - Ei, acalma-te, Christine, sou s eu - disse ele.
Tinha despido o casaco do seu fato Brooks Brothers, tendo desabotoado o colete, uma atitude que para ele era o mximo no que dizia respeito a uma postura completamente 
relaxada. Somente a rede de artrias finas e vermelhas nos seus olhos  que desmentiam aquela imagem de playboy, que ele tanto gostava de projectar.
 - Ol, Jerry - saudou Christine. - Lamento muito no ter estado presente na festa at agora.
Com um gesto amplo, ele abarcou a sala.
 - Que diabo, tu no perdeste a festa. A festa  que tem estado  tua espera. A Lisa disse-me que gostaste do colar. Fico satisfeito com isso.
Christine olhou  sua volta procurando Lisa para Lhe lanar um olhar furibundo.
 - Quem me dera que tu parasses de me mandar coisas. Eu... eu no me sinto bem em aceitar as tuas ofertas.
 - Mas a Lisa disse-me...
Ela interrompeu-o, tentando expressar-se numa voz calma. 
- Jerry, eu sei bem o que  que a Lisa te disse, assim como a Carole. Mas a verdade  que eu no sou nenhuma delas. V bem, tu s realmente um homem bastante simptico. 
Elas tm-te em muita considerao, o mesmo acontecendo comigo mas o certo  que tenho vindo a sentir-me muito pouco  vontade, por causa de algumas das prendas que 
me tens oferecido, ao que se deve acrescer muitas das suposies que tens vindo a arquitectar.
 - Queres ser um pouco mais especfica? - perguntou Crosswaite, deixando adivinhar um tom de hostilidade na sua
voz.
Christine mordeu o lbio inferior, decidindo consigo prpria que no estava com disposio para confrontaes.
 - Esquece o que eu acabei de dizer - limitou-se ela a dizer. - Poderemos resolver todo este assunto noutra ocasio qualquer, numa altura em que tenhamos um pouco 
mais de privacidade e um pouco menos de vinho.
 - No, Chris, eu quero discutir o assunto agora mesmo. - Todo o domnio que Crosswaite pudesse ter sobre si prprio desapareceu por completo. - No sei bem qual 
 o teu jogo, mas tu conduziste-me a um ponto em que este relacionamento se tornou realmente importante para mim. Agora, assim de chofre, apresentas uma atitude 
de frigidez. - O timbre de voz do homem era suficientemente elevado para que as suas palavras chegassem at aos ouvidos dos mais sonolentos que se encontravam na 
sala. Os olhares de constrangimento iam de um para o outro, ao mesmo tempo que Lisa e Carole se levantavam com a inteno de intervir. No entanto, o bancrio continuou: 
- Para comear, no se pode dizer que tu sejas exactamente um tigre na cama, mas, do mal o menos, estavas l. Agora, sem qualquer explicao, sempre que eu estou 
perto de ti pareces a porra de um glaciar. Exijo que me ds uma explicao! - Todos os presentes se imobilizaram de espanto.
Christine retrocedeu um passo e levou as mos s ancas, mantendo os punhos fortemente cerrados.
O rudo da campainha do telefone quebrou o silncio que se abatera sobre a sala.
Carole dirigiu-se apressadamente para a cozinha.
 - Chrissy,  para ti - chamou ela passados alguns segundos. -  a mesma mulher que telefonou h pouco.
Christine relaxou os punhos e baixou os braos, antes de afastar o olhar da figura de Crosswaite.
Havia trs pessoas na cozinha. Com um nico olhar, Christine correu com elas para a sala de estar. Em seguida, agarrou no auscultador.
 - Daqui fala Christine Beall - anunciou ela ainda com alguma rispidez na sua voz.
 - Christine, fala a Evelyn do Comit Regional de Avaliao. Podemos falar sem correr o risco de ser interrompidas?
 - Posso, sim. - Christine instalou-se no banco alto de slida madeira que encontrara na feira da ladra de Gloucester, e a que posteriormente dera os ltimos acabamentos.
 - A Irmandade da Vida louva a sua grande preocupao e profissionalismo - anunciou a mulher com toda a solenidade.  - A sua proposta com referncia a Mistress Charlotte 
Thomas foi aprovada.
Na cozinha em silncio, Christine comeou a tremer, ainda que muito ligeiramente,  medida que cada palavra caa como se fosse uma gota de gua tombando sobre um 
solo seco e endurecido.
 - O mtodo que foi seleccionado ser o de sulfato de morfina por via intravenosa, a ser ministrado na altura mais apropriada durante o seu turno de trabalho amanh 
ao incio da noite - continuou a mulher. - A ampola de morfina, assim como a respectiva seringa, estaro por baixo do assento da frente do seu automvel amanh de 
manh. Por favor certifique-se de que a porta do passageiro da frente fica aberta esta noite. Depois de o embrulho ter sido colocado no devido lugar, essa porta 
ser trancada.
"Pretendemos que voc administre a medicao sob a forma de uma nica injeco rpida. Depois do processo consumado, no h qualquer necessidade de se manter no 
quarto  espera. Por favor, desfaa-se da ampola e da seringa de uma maneira segura e sem deixar o mnimo vestgio. De acordo com os nossos regulamentos, quando 
acabar o seu turno de trabalho no hospital, far o favor de telefonar para o atendedor de chamadas, onde deixar gravado o relatrio do seu caso. Todos ns partilhamos 
a esperana, e acreditamos em que chegar o dia em que o nosso trabalho possa ser do conhecimento geral. Nessa altura, os relatrios do teor do seu, os quais compreendem 
quase quarenta anos deste tipo de aco por parte de enfermeiras espalhadas por todo o pas, passaro a poder ser adequadamente louvados, sendo alvo dos elogios 
que tanto merecem. ao transmitir o seu relatrio no tem a mmima necessidade de repetir o historial clnico da doente. Tem alguma pergunta que gostasse de fazer?
 - No - respondeu Christine em voz baixa. Os ns dos seus dedos estavam brancos de tanto apertar o auscultador. -  No tenho pergunta nenhuma a fazer.
 - Sendo assim, muito bem - retorquiu a mulher. - Miss Beall, quero dizer-lhe que Lhe assiste todo o direito de sentir um grande orgulho pela dedicao que mostra 
perante os seus princpios, assim como pela sua profisso. Boa noite.
 - Muito obrigada. Boas noites - retribuiu Christine. Mas j estava a falar para uma linha que Lhe dava o sinal de ligao cortada.
Com o olhar virado para a porta fechada que dava para a sala de estar, Christine agarrou num casaco de malha verde de Lisa, que se encontrava pendurado nas costas 
de uma cadeira. Em movimentos silenciosos, saiu pela porta das traseiras do apartamento.
O firmamento da noite era infinito. Christine estremeceu ao sentir a frialdade do Outono, agasalhando-se melhor no casaco. Vindo da rua mais prxima, ouviu o rugir 
do motor de um automvel que dobrava uma esquina.  medida que o rudo se perdia na distncia, um silncio to profundo quanto a noite comeou a envolv-la. Ergueu 
o olhar para as estrelas -  sis incontveis, sendo cada um deles a me de mundos. Ela era um mero fragmento, menos do que um momento e, contudo, a deciso que tomara 
parecia-lhe ser gigantesca. A presso que sentia na garganta e no peito dificultavam-lhe a aco de engolir. O pnico, a incerteza e um profundo sentido de isolamento 
apertavam-na como se fossem um torno, enquanto ela se deslocava num passo lento em direco ao seu carro, abrindo a porta do lado do passageiro da frente.
Christine contornou uma vez a p o quarteiro deserto, percurso que voltou a repetir. Oculta dos olhares indiscretos sentou-se num muro baixo feito de pedra situado 
do outro lado da rua onde ficava o apartamento, tendo permanecido a observar a partida das ltimas pessoas que haviam estado na festa e que finalmente tinham decidido 
ir para as suas casas; as luzes que se viam atravs das janelas comearam a ser desligadas. Com um ltimo olhar alongado ao cu que parecia pontilhado de jias, 
suspirou e dirigiu-se para casa. Tudo o que restara na sala de estar eram uns quantos copos meio cheios, iluminados por uma s luz de fraca intensidade, a qual fora 
deixada ligada pelas suas colegas de casa, para quando chegasse.
Christine desligou o candeeiro. J se tinha despido ainda mesmo antes de chegar ao seu quarto. Colocando-se em frente do toucador, soltou os cabelos compridos cor 
de areia, sacudindo-os para os soltar e comeando a escov-los em movimentos lentos, enquanto ia contando as vezes que levava a escova  cabea.
"Sempre que tenha realmente necessidade de saber..." As palavras de Charlotte dominavam os seus pensamentos, enquanto se encaminhava para a cama.
S quando dobrou a coberta para trs  que viu o sobrescrito que fora colocado em cima da almofada.
Leu a mensagem que ele continha; sentia o corpo rgido e amachucou o papel, formando uma pequena bola apertada que arremessou para o cho.
Dizia: "Christine, fui-me embora. Talvez para sempre. Se te apetecer, poders telefonar, mas s o deves fazer quando tiveres qualquer coisa de relevante a dizer. 
Jerm,."



CAPITULO 8

David comeou o seu primeiro dia na qualidade de substituto de Wallace Huttner a identificar uma pea musical de Berlioz como sendo da autoria de Mendelssohn, apesar 
de ter recuperado alguma vantagem momentos mais tarde, pressentindo que do lado de fora da sua janela se desenrolava um dia de mudanas.
No ar fazia-se sentir alguma frialdade, o que o impedia de ficar a suar profusamente, facto que Lhe agradava bastante sempre que corria em paralelo ao rio. A oriente 
encontrava-se um sol anmico, que gradualmente ia perdendo o controlo que tentava adquirir sobre a manh, dando lugar a um exrcito de nuvens pesadas e sombrias 
que Lhe ganhava terreno, tendo cada uma delas contornos brancos e brilhantes. O dia espelhava o seu estado de esprito: a ronda aos doentes feita na noite anterior, 
na companhia de Huttner, havia-o deixado com um vago sentimento de mal-estar e um pressgio que no augurava nada de bom e que nem a noite de um sono inquieto a 
par do exerccio matinal haviam sido capazes de dispersar completamente.
Tinha planeado fazer a ronda da manh nos mesmos moldes que ele e Huttner tinham adoptado na noite anterior; contudo, logo depois de ter chegado ao hospital, sentiu-se 
invadido de uma impacincia crescente que o impelia a desejar ver de imediato como Anton Merchado estava a reagir ao seu novo regime de tratamento.
A fisionomia curtida e bronzeada do pescador desfez-se num sorriso rasgado assim que David entrou no quarto. Com aquele sorriso nico, as apreenses que David sentira 
a respeito daquele dia desvaneceram-se.
 - Consegui fazer um cagalho, doutor! - informou a voz grave, deixando adivinhar todo o orgulho de uma me a quem tivesse acabado de nascer um filho. - Foi esta 
manh. Um cagalho maravilhoso que caiu na gua. Doutor, os meus agradecimentos nunca sero suficientes. Nunca pensei que voltasse a fazer outro.
 - Pois bem, no comece j a ficar todo excitado, Mister Merchado - acautelou David, mal conseguindo controlar o seu prprio entusiasmo. - No h dvida de que est 
com muito melhor aspecto do que ontem  noite, mas no me parece que a diarreia tenha desaparecido de todo. Pelo menos, ainda no.
 - A minha febre tambm baixou e as guinadas de dor desapareceram quase totalmente - acrescentou Merchado enquanto David Lhe apalpava o abdmen, procurando regies 
de sensibilidade e auscultando por alguns momentos com o estetoscpio.
 - Parece-me que est tudo bem - concluiu David, voltando a colocar o instrumento dentro do bolso da sua bata branca - , mas ainda no pode ingerir comida slida. 
Deve restringir-se a uns quantos goles de lquidos, e a vrios dias de novos fluidos administrados por via intravenosa e antibiticos. Poder informar a sua famlia 
de que ter de ficar internado no hospital durante s mais uma semana, se as coisas continuarem a correr bem. Talvez tenha de ficar um pouco mais.
 - Importa-se de ser o meu mdico assistente depois de eu ter alta? - perguntou o doente.
 - No, somente por alguns dias. Depois, o doutor Huttner regressar. Voc tem muita sorte por o ter como seu mdico, Mister Merchado. Ele  um dos melhores cirurgies 
que conheo.
 - Talvez seja... mas, por outro lado,  possvel que no.  - O olhar semicerrado e o sorriso, que denotavam sensatez, diziam que no tinha a inteno de aprofundar 
aquele assunto.  - Mas pelo sim pelo no,  melhor dar-me o seu carto. Eu tenho uma data de familiares que Lhe ho-de bater  porta, para que voc Lhes faa uma 
operao qualquer. Mesmo que no tenham necessidade de fazer nenhuma.
Com uma careta risonha que no mostrava todo o deleite que sentia, David saiu do quarto e consultou a lista de doentes que ainda tinha de examinar da parte da manh. 
Os nomes enchiam as duas faces de uma ficha onde ele os escrevera a letra de imprensa. A alegria fazia com que se sentisse efervescente. Haviam sido os anos em que 
ele no se permitira, nem sequer em sonhos, pensar em vir alguma vez a ter uma tal quantidade de casos. Quando se aproximava do fim do corredor, deu um grito de 
jbilo e foi a danar que transps a porta. Atrs de si, duas enfermeiras rolias e de aspecto matriarcal observavam as suas manifestaes de alegria, aps o que 
trocaram vrios olhares e expresses de reprovao antes de se dirigirem pomposamente para as tarefas que as aguardavam.
A ronda aos doentes iniciada por David era mais excitante do que qualquer outra coisa que ele tivesse feito em medicina de h muitos anos a esta parte. At mesmo 
Charlotte Thomas dava a impresso de ter melhorado um tudo-nada, embora o simples facto de a poder ver com a vantagem da luz do dia pudesse ter alguma coisa a ver 
com essa impresso. A cabeceira da sua cama fora articulada num ngulo de quarenta e cinco graus, o que permitia a uma auxiliar de enfermagem dar-lhe  colher pedaos 
nfimos de gelo, um de cada vez. David tentou determinar por vrias maneiras como  que ela se sentiria; todavia, a nica resposta que conseguia obter da doente 
traduzia-se num sorriso enfraquecido, acompanhado de um ligeiro acenar de cabea. Examinou-lhe o abdmen, retraindo-se por dentro ao verificar a total ausncia de 
actividade intestinal. Ainda no havia causa para entrar em pnico, mas, em cada dia que passava sem que se verificassem quaisquer sons no abdmen, aumentava as 
probabilidades de vir a ser necessrio fazer outra operao. Por um breve momento, David ainda pensou em impedir at mesmo a ingesto dos pedacinhos de gelo; ento, 
com um ltimo olhar a Charlotte, decidiu deixar as coisas na mesma situao em que as encontrara.
Chegado ao balco das enfermeiras, comeou a escrever um alongado relatrio de acompanhamento clnico, assim como prescreveu um tratamento que, tinha ele esperanas, 
pudese vir a melhorar o estado clnico da doente. Quando terminou j eram quase treze horas. Tinha vinte minutos para poder comer uma sanduche e tomar um caf, 
antes de ir para o seu prprio gabinete. Entretanto tinham passado cinco horas e trinta minutos num espao de tempo que Lhe parecia no ter existido. Tentou recordar-se 
da ltima vez em que aquilo Lhe acontecera, tendo-se apercebido que muito provavelmente teria sido h oito anos. Nunca, reflectiu ele com tristeza, desde o acidente.
At mesmo as horas despendidas da parte da tarde no seu gabinete, as quais por vezes haviam sido morosas de uma forma embaraosa, foram naquele dia agradavelmente 
caticas, devido s frequentes chamadas telefnicas vindas das enfermeiras do bloco hospitalar, que desejavam esclarecer qualquer pormenor das prescries ou problemas 
entretanto surgidos.
Precisamente s cinco da tarde, quando a porta se fechava depois da sada do ltimo doente que fora  sua consulta, a enfermeira que assistia David no seu gabinete 
de consulta, Mrs. Houllhan, chamou-o.
 - Doutor Shelton, tem um telefonema da doutora Armstrong. A secretria dela vai estabelecer a ligao. Pode atender na linha trs.
 - Muito engraada - gritou David do seu gabinete. Ele s tinha uma linha telefnica: por acaso o nmero acabava em trs. Era agradvel ver que Houllhan estava a 
desfrutar daquele dia to movimentado tanto quanto ele prprio.
 - Vou-me embora para preparar alguma coisa de comer para a minha prole. Boa noite, senhor doutor - despediu-se ela falando em voz alta.
 - Boas noites, Houllhan - retribuiu David.
Alguns momentos mais tarde, surgiu na linha a voz da Dra. Margaret Armstrong. Na sua qualidade de primeira mulher a ser nomeada para chefe do servio de cardiologia 
de um dos hospitais mais importantes, Armstrong granjeara quase tanta notoriedade no seu campo de medicina como Wallace Huttner no seu. De todos os mdicos que faziam 
parte do quadro clnico do Hospital Mdicos de Bston, ela sempre se mostrara a mais cordial e cooperante para com David, muito em especial durante o seu primeiro 
ano. Embora ela canalizasse os seus doentes, quase exclusivamente, para os cirurgies cardiovasculares ou, sempre que apropriado, para Huttner, aquela mdica tinha 
enviado alguns casos a David, o que fizera em vrias ocasies, tendo-se dado ao trabalho de Lhe enviar sempre uma nota de agradecimento pelos cuidados excelentes 
que ele prestava aos seus doentes.
 - David? Como  que vo as coisas? - perguntou ela.
 - Hoje foi um dia muito movimentado, mas todos os minutos me agradaram extraordinariamente, doutora Armstrong. - Talvez devido  postura nobre, o ar aristocrtico 
que envolvia a mulher, ou talvez  diferena de vinte e tal anos de idade que os separava, qualquer que fosse a razo, David nunca sentira o impulso, nem uma s 
vez, de se dirigir a Margaret Armstrong pelo seu primeiro nome. To-pouco fora encorajado a faz-lo.
 - Pois bem, estou a telefonar-lhe numa tentativa de o tornar ainda mais atarefado para si - continuou Armstrong. -  Para ser absolutamente honesta para consigo, 
primeiro telefonei para o gabinete do Wally Huttner, mas foi com grande satisfao que fui informada de que voc estava a substitui-lo.
 - Obrigado. Ento, o que  que temos?
 - Trata-se de um senhor de idade, de nome Butterworth... Mais concretamente, Aldous Butterworth. J tem setenta e sete anos, mas continua alerta e lpido que nem 
um cachorrinho. Ele estava a recuperar muito bem na sequncia de uma interveno cirrgica de pouca monta s coronrias, at que h pouco tempo, de repente, comeou 
a queixar-se de formigueiros e dores na perna direita. Deixou de sentir o que quer que fosse das virilhas para baixo.
 - Ser uma embolia? - inquiriu David mais por cortesia do que por sentir qualquer incerteza com referncia ao diagnstico.
 - Na minha opinio acho que  isso mesmo, David. A perna j comeou a mostrar alguma descolorao. Est com disposio para nos pescar um cogulo?
 - F-lo-ei com todo o prazer - retorquiu David, radiante. - J Lhe chamou a ateno para os riscos em que ele incorrer?
 - Sim, mas no seria m ideia se voc tambm abordasse esse aspecto com ele. David, tenho de confessar que me sinto um pouco preocupada por causa de uma anestesia 
geral num homem de idade to avanada. Acha que seria possvel fazer...
David sentia-se to excitado por culminar o seu dia com um caso de grande importncia que no hesitou em interromp-la.
 - Oper-lo apenas com uma anestesia local? Absolutamente.  a nica forma de realizar essa operao.
 - Eu sabia que podia contar consigo - disse Armstrong.  - Ficarei ansiosa por saber como  que as coisas correro. O Aldous  um velho amigo muito querido, para 
alm de ser meu doente. Oua, dentro de uma hora vai reunir-se um comit executivo e, sendo eu chefe do pessoal mdico desta casa de loucos, necessariamente vou 
ter de estar presente. Est de acordo em que nos encontremos algures mais l para o fim do dia?
 - Com certeza - concordou David. - Ainda tenho de examinar vrios doentes antes de dar o dia por concludo. E que tal se nos encontrssemos na Ala Quatro Sul? Tenho 
uma doente nessa enfermaria cujo estado de sade entrou num colapso total. At  possvel que voc me d alguma sugesto.
 - Ser com todo o prazer que tentarei - anuiu Armstrong. - s oito horas est bem para si?
 - s oito horas - ecoou David.
Mos escrupulosamente lavadas e unidas  sua frente numa medida de proteco, David retrocedeu para a Sala de Operaes Nmero Dez, onde o ajudaram a vestir uma 
bata de cirurgia, aps o que ele comeou a fazer os preparativos para conduzir e orquestrar a sua prpria sinfonia. Aldous Butterworth, de figura pequena e aspecto 
vulnervel, encontrava-se estendido em cima da estreita mesa de operaes.
David deu instrues para que o p direito do doente fosse colocado dentro de um saco de plstico transparente, a fim de que continuasse visvel sem que contaminasse 
o seu campo de interveno cirrgica. O p tinha a cor do mrmore branco.
Por meio de injeces pequenas, comeou a entorpecer a regio direita da virilha do homem. Sem ter qualquer tipo de pulsao que o pudesse orientar, David sabia 
que a artria femoral poderia situar-se a uns dois centmetros ou pouco mais do local onde faria a inciso. Um nico erro de clculo e ele ver-se-ia perante uma 
operao to difcil que uma segunda inciso seria o nico recurso possvel. "Concentra-te no que ests a fazer", pensou ele. "Tenta ver." Ocultos debaixo da mscara 
de proteco, os cantos da sua boca ergueram-se num pequeno sorriso sabedor. Encontrava-se pronto para comear.
 - Bisturi, por favor - pediu ele, retirando o instrumento da mo da enfermeira que o assistia. Fez uma pausa e cerrou os olhos, absorvendo a electricidade que envolvia 
aquele momento. Pouco depois abriu-os, examinando os rostos de expectativa que o observavam, enquanto aguardavam que ele desse incio  interveno cirrgica. Com 
um ligeiro acenar de cabea ao anestesista e um ltimo olhar ao p exangue de Butter worth, fez a sua inciso. A epiderme tense abriu-se imediatamente, expondo a 
artria femoral.
 - Mesmo em cheio - murmurou o cirurgio.
Ao cabo de alguns minutos, a artria rgida devido  ocluso provocada pelo cogulo, encontrava-se isolada e sob controlo, por meio de duas tiras de gaze colocadas 
a uma distncia de cerca de dois centmetros e meio entre si. David fez uma pequena inciso na parede do vaso sanguneo entre os dois pedaos de gaze. Suavemente, 
comeou a inserir ao longo do interior da artria, em direco ao p, um tubo comprido e estreito, em cuja extremidade havia uma bolha por insuflar. Quando concluiu 
que a extremidade se encontrava na posio correcta, insuflou a bolha e com todas as precaues retirou-a atravs da inciso. Antes de David ter a oportunidade de 
soltar a bolha, comearam a aparecer cerca de sessenta centmetros de cogulo escurecido e de consistncia fibrosa. Repetindo o processo na direco oposta, procedeu 
 remoo do cogulo mais espesso que havia sido o grande responsvel por aquela ocluso sangunea. Seguiu-se uma irrigao com uma substncia destinada a liquefazer 
o sangue, aps o que ele estava pronto para suturar. Apertou as faixas de gaze a fim de impedir o fluxo de sangue atravs da artria, e em seguida suturou a inciso 
que fizera no vaso sanguneo com uma srie de pontos nfimos.
Pela segunda vez em menos de vinte minutos, David partilhou um olhar de fugida com cada uma das pessoas presentes na sala operatria. S ento  que respirou fundo 
e, mantendo-se em silncio, conteve a respirao e soltou os dois pedaos de gaze. Instantneamente, o p de Butterworth foi percorrido por um fluxo que Lhe deu 
a colorao da vida. Da equipa mdica presente ouviu-se um grito de triunfo. Uma operao perfeita, de acordo com os textos mdicos. Toda aquela interveno cirrgica 
correra na perfeio. Sentindo-se absolutamente maravilhado, o cirurgio deu as boas novas a Butterworth, despertando-o do sono em que o homem estivera mergulhado 
durante toda a operao.
 - "Isso  que foi realmente um trabalho excelente, doutor Shelton. Efectivamente, foi um trabalho excelente, doutor Shelton. Isso  que foi um trabalho verdadeiramente 
excelente, doutor Shelton. " - David repetia incessantemente as palavras da enfermeira que o assistira, a qual tinha muita experincia. tentando reproduzir com exactido 
a mesma inflexo que ela imprimira  sua voz. "Talvez devesses telefonar-lhe, pedindo-lhe que repita as palavras uma vez mais, de forma a poderes diz-las exactamente 
com a mesma entoao", aconselhou ele a si prprio. J ditara os resultados ps-operatrios, aps o que tomara um duche e se vestira. Naquele momento, j comeara 
a percorrer o corredor que o levaria  Ala Quatro Sul, decidido a partilhar com a Dra. Armstrong as notcias da bem sucedida operao a que submetera Butterworth.
Olhou para o seu relgio de pulso. Passavam dez minutos das oito da noite. O segundo dia sucessivo em que ficava no hospital at tarde. O que Lhe acontecia pela 
primeira vez, desde que comeara a fazer parte do corpo de cirurgia havia dezoito meses.
Verificou que Margaret Armstrong j chegara ao piso, tendo-se sentado por detrs do balco das enfermeiras, onde partilhava o caf e se entretinha numa conversa 
trivial com Christine Beall, na companhia da chefe das enfermeiras do turno, Winnie Edgerly. Quando David se aproximou do grupo, os seus olhos foram atrados por 
Christine. O seu olhar e o seu sorriso parecia dizerem-lhe ao mesmo tempo um milhar de coisas diferentes. Ou talvez aquilo fossem palavras suas, os seus prprios 
pensamentos, e no dela. O rosto de Lauren, de uma perfeio de jia, atravessou-lhe a mente momentneamente; todavia, aquela imagem dissipou-se quando os olhos 
de um castanho-dourado se prenderam nos seus.
 - Ol, David - saudou a voz da Dra. Armstrong num timbre de jovialidade, libertando-o daquele feitio. - J se fala por todo o hospital a respeito do novo p do 
meu pequeno homem. Um bravo para si. Aproxime-se, vamos brindar  sua operao cheia de xito com uma chvena deste caf. - Lanou um olhar para o interior da chvena, 
fez uma careta e acrescentou: - Se  que, de facto, isto  caf.
A mdica vestia uma saia preta e uma camisola de caxemira de um azul-claro. A nica pea de joalharia que usava era um alfinete de peito simplex, em ouro e com o 
formato de uma borboleta. A bata branca dava-lhe pelo joelho e mantinha-se desabotoada: o tipo de vestimenta que, a ttulo no oficial, era reservada apenas para 
os professores ou para aqueles que gozavam de uma antiguidade suficiente na comunidade docente.
Os seus cabelos escuros e ondulados tinham um corte bastante curto, num estilo que se adequava perfeitamente aos seus olhos de um azul cintilante, assim como s 
feies de um traado impecvel. A sua pessoa encontrava-se envolta numa urea de energia, que suscitava de imediato respeito e ateno. Um artigo que havia sido 
escrito h j alguns anos, sobre os contributos que ela dera no seu campo da medicina, granjeara-Lhe o nome de "Grande Dama da Cardiologia Norte-Americana"; na altura 
s tinha cinquenta e oito anos.
Enquanto David abrangia a cena que decorria no balco das enfermeiras, foi forado a reflectir no relacionamento animado e -vontade que existia entre a Dra. Armstrong 
e as duas enfermeiras. Bastante o oposto daquilo que se verificava com o Dr. Wallace Huttner, at mesmo depois de se levar em considerao o facto de a mdica ser 
uma mulher. O contraste acentuou-se ainda mais quando ela se levantou e Lhe serviu uma chvena de caf.
Apresentou-o s duas enfermeiras como sendo o "heri do dia" e, com uma piscadela maliciosa dirigida a Christine, acrescentou que David era, tanto quanto ela sabia, 
um homem livre. O visado corou e cobriu os olhos sentindo-se genuinamente embaraado, compreendendo ao mesmo tempo que evitava qualquer outro contacto visual com 
Christine, o que fazia com toda a deliberao. Segundos mais tarde, Armstrong incitara-o a descrever ao pormenor a interveno cirrgica que realizara em Butterworth. 
Pelo menos momentneamente, o perigo tinha passado.
Rona Gold, uma auxiliar de enfermagem, juntou-se ao grupo na altura em que David se servia de canetas com tinta azul e vermelha, para desenhar imagens que ilustravam 
a sua operao.
David compreendeu que era bem patente o conhecimento que Armstrong j possua de todas as mincias referentes  interveno cirrgica, das quais, plausivelmente, 
se inteirara atravs de uma das enfermeiras presentes no bloco operatrio. No entanto, sempre que a ocasio se Lhe deparou, ela encorajou-o a prosseguir.
 - Bom... - disse a mdica finalmente. - Quando vinha para aqui, parei na sala de recuperao com intuito de ver o Aldous e ele no se recorda de nada. Manteve-se 
adormecido durante toda a cirurgia. Ali estava ele, correndo o risco de perder uma perna, ou pior ainda, e dorme durante toda a operao. Essa  que  a ideia que 
eu tenho de uma boa anestesia local...  ou no ?
 - Eu acho que o pus a dormir quando Lhe tentei explicar aquilo que ia fazer - atalhou David.
Armstrong partilhou com as trs enfermeiras uma gargalhada de apreciao antes de retomar a palavra.
 - David, voc mencionou o facto de ter uma doente num estado complicado, aqui na Ala Quatro Sul. A Charlotte Thomas, no  verdade?
 - Na realidade, assim foi - redarguiu David.  - Para alm de ser uma cardiologista, tambm l os pensamentos dos outros?
- Nada que seja to extico como isso. As enfermeiras e eu deduzimos que ela era a nica doente neste piso que se ajusta  sua definio. Assim, aproveitei a oportunidade 
para examinar a sua papeleta.
 - E ?...
 - E voc tem toda a razo. Ela est a chegar rapidamente a um estado terminal. De facto, s tenho uma observao a acrescentar aos resultados anotados esta manh, 
o que, diga-se de passagem, voc fez de uma maneira excelente, onde foca os inmeros problemas de que ela sofre. A sua Mistress Thomas manifesta, a adicionar a tudo 
o mais, sinais evidentes de doena nas artrias coronrias, o que se encontra bem patente no ltimo electrocardiograma. Pelo menos, de acordo com a interpretao 
que eu fao desse exame - acrescentou a mdica com modstia. - Na realidade, no tenho nada de relevante que possa contribuir de forma positiva ao que j est a 
ser posto em prtica. Parece-lhe que a obstruo intestinal venha a exigir uma nova explorao cirrgica?
 - Meu Deus, espero que no - disse David. - Isso significa que seria a terceira interveno cirrgica de grandes propores a que ela seria submetida em menos de 
trs semanas.
 - Doutor Shelton, gostaria de Lhe fazer uma pergunta -  interveio Christine.
 -  cinco, cinco, cinco. dois, oh, um, seis - replicou ele com toda a prontido.
 - O que  isso?
 - O meu nmero de telefone! - retorquiu David, apercebendo-se de imediato que deveria ter tentado conhecer mais da maneira de ser de Christine Beall antes de a 
expor ao seu sentido de humor.
Gold e Edgerly soltaram uma pequena risada, embora Christine no houvesse esboado o mais nfimo sorriso.
 - Isso no tem graa nenhuma - redarguiu ela. - Eu estou  preocupada com uma mulher muito doente e que est num sofrimento muito grande... A Charlotte Thomas...
David tartamudeou um pedido de desculpas, que ela ignorou.
 - Aquilo que eu quero saber - prosseguiu Christine -  por que motivo, uma vez que ela sofre de tantos problemas incurveis e para os quais aparentemente no existe 
soluo, o doutor Huttner ordenou que Lhe fossem aplicados todos os meios de reanimao. Muito em especial, depois do que aconteceu na noite passada.
 - Na noite passada? - perguntou a Dra. Armstrong. -  O que  que sucedeu ontem  noite?
David hesitou, sem saber bem a quem  que ela se dirigia. Christine recostou-se mais para trs, fitando-o com uma expresso de expectativa enquanto aguardava a sua 
verso dos acontecimentos.
 - Bem - comeou ele finalmente. - O marido de Mistress Thomas e o doutor Huttner tiveram uma discusso sobre a abordagem de tratamento agressivo e sobre a razo 
por que Huttner optou assim em relao ao estado de sade da doente. O marido mostrou-se frustrado e, diria eu, mais do que um pouco encolerizado. O que calculo 
seja bastante compreensvel, apesar de no deixar de ser algo que todos ns estamos acostumados a ter de enfrentar.
 - Como  que o Wally lidou com o assunto? - Armstrong inclinou-se mais para a frente, mostrando o interesse que o assunto Lhe despertava, enquanto distraidamente 
fazia rolar entre as mos a chvena de caf.
 - To bem como seria de esperar dadas as circunstncias, penso eu - retorquiu David. -  possvel que ele tenha tido uma reaco um tudo-nada excessiva. Manteve-se 
fiel s suas teorias filosficas. Recusou-se a alterar o seu mtodo de tratamento independentemente do quanto Thomas, que se encontrava debaixo de uma presso e 
tenso que eram por de mais evidentes, Lhe exigiu que o fizesse. Finalmente, o Huttner acabou por me arrastar para o assunto; receio muito que a minha opinio e 
a maneira como a expressei no tenham correspondido exactamente quilo que ele desejava ouvir. - David conseguiu esboar um sorriso que traduzia pesar, ao aperceber-se 
da pouca exactido do que acabara de dizer.
- E qual  a sua opinio a respeito de todo este caso clnico David?
A voz da Dra. Armstrong era suave. Na sua expresso via-se uma abertura que Lhe assegurou que, da parte dela, no haveria qualquer espcie de recriminao.
 - Eu acho que a situao  uma grande... merda, se me permite a expresso - respondeu ele. - O que pretendo dizer  que  sempre mais difcil uma pessoa decidir-se 
a no utilizar um determinado tratamento num doente do que prosseguir com a terapia por meio de todos os mtodos que a medicina pe ao nosso dispor: toda uma multiplicidade 
de mquinas e operaes ao nosso alcance.  por essa razo que acabamos por ficar com um nmero to elevado de doentes que continuam a viver, embora o seu estado 
seja pouco mais do que vegetativo.
"Pessoalmente - continuou o cirurgio - , devido ao facto de ter tido oportunidade de observar vrios membros da minha famlia morrerem de uma morte prolongada e 
dolorosa, parece-me que existem ocasies em que o mdico deve tomar uma deciso: exercer conteno e deixar que a natureza retome o seu curso. No est de acordo 
comigo?
Exercer conteno... Deixar que a natureza retome o seu curso... Existia algo naquelas palavras, na maneira como haviam sido articuladas. Margaret Armstrong cerrou 
os olhos enquanto elas repercutiam na sua mente, aps o que deu lugar a outras palavras. Outras palavras proferidas na voz de uma rapariguinha.
"Est tudo bem, mezinha... Eu estou aqui, mam."
 - No est de acordo comigo, doutora Armstrong?
"Mezinha, diga-me o que  que posso fazer para a ajudar... Continua a doer muito? Diga-me o que  que posso fazer para a ajudar... Por favor, diga-me o que  que 
posso fazer..."
 - Doutora Armstrong?
 - Oh, sim - replicou ela por fim. - Ora bem, David. Receio estar bastante mais de acordo com a abordagem do doutor Huttner do que com a sua. - Durante quanto tempo 
 que ela se teria mantido abstrada daquilo que se passava em seu redor? Estariam eles  espera que Lhes desse uma explicao?
 - O que  que quer dizer com isso?
"No,", decidiu a mdica para consigo. No haveria lugar a qualquer explicao.
-  forma como eu vejo as coisas, no seguimento da sua filosofia, qualquer mdico seria confrontado constantemente com a necessidade de desempenhar o papel de Deus. 
Sendo forado a decidir quem  que viveria e quem  que morreria. Uma espcie de Nero da medicina. Polegares erguidos e aplica-se um tubo intravenoso. Polegares 
para baixo e no o fazemos.
David respondeu com uma carga emotiva de um vigor tal que, momentneamente, tambm o deixou deveras surpreendido.
 - Eu acredito que a responsabilidade principal de qualquer mdico no se traduz numa batalha constante contra a morte, mas sim no fazer tudo o que estiver ao seu 
alcance com a finalidade de minimizar a dor e melhorar a qualidade de vida dos seus doentes. O que pretendo dizer - prosseguiu ele com um pouco menos de veemncia 
-  o seguinte: devemos ns utilizar todos os tratamentos, todo o tipo de operaes a que seja possvel submeter um doente, at mesmo quando sabemos de antemo que 
existe apenas uma probabilidade num milho, ou mesmo uma em dez milhares, de que Lhe vir a ser benfico? - No silncio que se seguiu s suas palavras, ele apercebeu-se 
de que, uma vez mais, se servira de um canho verbal, onde uma simples fisga ou uma luva de veludo seriam mais apropriadas.
Nesta altura da conversa, Winnie Edgerly, uma mulher de poucos rodeios e um tanto rude, a qual rondaria os cinquenta anos, sentiu-se impelida a participar na discusso.
 - Eu dou o meu voto  doutora Armstrong - afirmou ela com toda a firmeza. - Eu no quereria que me retirassem quaisquer tubos, ainda que as hipteses de sobrevivncia 
fossem mmimas. Quer dizer, quem  que sabe o que  que poder acontecer ou o que  que possivelmente surgir no ltimo minuto, e que possa dar algum contributo. 
 verdade ou no?
 - Ora vamos l a ver, no quero que me interprete mal, Mistress Edgerly - retrucou David, tendo o cuidado de tentar minimizar cautelosamente a intensidade do seu 
tom de voz. - Eu no estou a defender que se devam retirar quaisquer tubos de quem quer que seja. O que eu argumento  que, em primeiro lugar, devamos pensar duas 
vezes, ou mesmo mais do que duas, antes de inserirmos os tubos no organismo de qualquer pessoa. Sem dvida alguma que eles do o seu contributo, mas em contrapartida 
tambm podem prolongar inutilmente a agonia. O que eu acabei de dizer contribui para que as minhas convices tenham ficado mais claras?
Edgerly acenou afirmativamente, apesar da sua expresso dar a entender que no estava nada de acordo.
 - Portanto, David, onde  que tudo isto se aplica  sua Mistress Thomas? - perguntou a Dra. Armstrong por fim.
 - No se aplica - respondeu ele incisivamente. - O programa de tratamento a ser ministrado a Mistress Thomas foi delineado de forma bastante explcita pelo doutor 
Huttner. Cabe-me a responsabilidade de o seguir  risca dentro de tudo o que se encontrar ao meu alcance. E a respeito deste assunto no h mais nada a argumentar.
Armstrong fez meno de estar prestes a acrescentar qualquer coisa; nesse momento, o sistema de altifalantes acima deles comeou a fazer-se ouvir, chamando David 
s urgncias.
 - No h fome que no d em fartura - comentou ele com um sorriso de expectativa dirigido  Dra. Armstrong.
 - Mas aposto que voc no se sente nada incomodado em empanturrar-se desta forma - retorquiu ela com afabilidade. - Sinto-me muito feliz por si, David.
 - Muito obrigado, doutora Armstrong. - Bebeu o resto do seu caf. - Quero agradecer-lhe por tudo.
Com um acenar de cabea na direco de Edgerly e de Gold, ao que se seguiu um olhar prolongado a Christine, David encaminhou-se para o servio de urgncias.
Christine deixou-se ficar sentada em silncio por detrs do balco das enfermeiras, enquanto as outras se dispersavam, seguindo cada uma a caminho das suas tarefas. 
No seu rosto via-se uma expresso intrigada e irnica; levou a mo direita  algibeira do casaco de malha e, durante um minuto ou dois, apalpou a seringa e a ampola 
de morfina que embrulhara num leno antes de as guardar no bolso. Em seguida, ergueu-se e comeou a percorrer o corredor em direco ao quarto 412, forando-se a 
mostrar uma expresso de indiferena.



CAPTULO 9

 - Tambm trata de mos, doutor Shelton? - perguntou Harry Weiss, o mdico de servio, senhor de nariz adunco, que havia chamado David ao Servio de Urgncias, o 
qual poderia ter obtido com a maior das facilidades o papel de Ichabod Crane na produo de The Legend of Sleepy Hollow.
 - Mostre-me o que  que tem para mim - disse David.
O Servio de Urgncias encontrava-se no estado habitual do caos caracterstico do fim do dia. incio da noite. Viam-se duas dzias de doentes em vrios graus de 
desconforto e clera contra o hospital, os quais permaneciam sentados na apinhada sala de espera. As macas passavam rapidamente por eles, qual carga de navios num 
porto movimentado, transportando a sua carga humana a caminho do Servio de Radiologia, para a ala de observao de pouca durao ou para um quarto de internamento. 
Ouvia-se o tocar da campainha de vrios telefones. ao mesmo tempo que se travavam uma dzia de conversas em simultneo, que parecia competirem umas com as outras 
para se fazerem ouvir. David apanhou trechos de vrios dilogos enquanto o mdico de servio o conduzia ao Servio de Traumas Oito.
 - O que  que pretendia dizer com isso de no poder ter os resultados at daqui a uma hora? Este homem est a esvair-se em sangue. Precisamos deles imediatamente... 
Mistress Ramirez, eu compreendo como  que est a sentir-se, mas no posso fazer nada para a ajudar. Muito simplesmente, at este momento no deu entrada nenhum 
Juan Ramirez no Servio de Urgncia... Agora vai sentir uma ligeira picada de agulha...
O doente para quem David fora chamado era um trabalhador de cerca de quarenta anos, o qual perdera um breve, mas inquestionavelmente violento, encontro com a sua 
motosserra. As duas metades superiores de dois dos seus dedos tinham desaparecido completamente, enquanto um terceiro se mantinha suspenso do primeiro n por um 
pedao de tendo. Era uma outra situao em que no haveria vencedores, pensou David para consigo prprio, enquanto examinava a mo mutilada. Trocou umas breves 
palavras com o homem, o qual deixara de suar profusamente, embora a sua tez continuasse com a colorao de ossos branqueados. Pouco depois, conduziu o mdico de 
servio s urgncias, um jovem excessivamente nervoso, at ao corredor. Cabia a David a deciso de ser ele prprio a reparar as leses, ou a gastar o tempo necessrio 
para explicar o processo ao mdico estagirio. Optou por gastar o tempo, recordando-se das muitas ocasies noite adentro em que outros cirurgies haviam despendido 
o seu tempo a ensin-lo. Decorreu quase meia hora at se sentir confiante, sabendo que Weiss se encontrava em condies de ser ele prprio a tratar da reconstruo 
da mo lesionada.
Quando David saiu do elevador na Ala Quatro Sul, e enquanto se dirigia para o quarto 412, achou bastante invulgar o silncio que reinava no piso. Uma exploso de 
gargalhadas que veio da sala das enfermeiras indicou-lhe que elas deveriam estar a fazer o intervalo para tomar caf, pelo menos algumas delas. Pensou em Christine 
Beall, sentindo algumas esperanas de a ver sair de um dos quartos enquanto ele percorria o corredor.
Somente a imagem dela era o suficiente para Lhe reacender uma sensao estranha. "Portanto, ela tem um aspecto interessante e uns olhos pouco vulgares", pensou David. 
"E a Lauren  maravilhosa e possui uns olhos inacreditveis. Ests a reagir desta maneira porque ela est fora e mais nada. Tens de reconhecer que em Lauren tens 
tudo aquilo que sempre quiseste numa mulher: beleza, inteligncia e sentido de independncia. Certo?" Certo. A lgica encontrava-se toda ali, preto no branco e irrefutvel. 
Contudo, algures nos recnditos da sua mente, havia uma voz a medo que Lhe repetia: "Pensa de novo... pensa de novo..."
As luzes no quarto de Charlotte Thomas mantinham-se desligadas. David deteve-se junto da ombreira da porta, olhando fixamente atravs da escurido, tentando focar 
o olhar na cama. A mquina de drenagem gastrintestinal, regulada para suco intermitente, emitia o seu rudo abafado, parava e recomeava de um modo tranquilizador. 
As bolhas de oxignio atravessavam a gua da garrafa de segurana fixa  parede. Debateu consigo mesmo se deveria ou no perturbar o seu sono a fim de examinar factos 
que na melhor das hipteses, sabia ele de antemo, se manteriam inalterveis. Finalmente, entrou no quarto, dirigindo-se para a cama, onde ligou a luz fluorescente 
acima da cabeceira.
Charlotte permanecia deitada de costas, mostrando um meio sorriso no seu rosto tranquilo. Foram necessrios vrios minutos para que David se desse conta de que ela 
no respirava.
Num gesto instintivo, estendeu a mo para o pescoo a fim de verificar a pulsao na cartida. Por um breve instante pensou que a sentia, mas compreendeu que se 
tratava do bater do seu prprio corao, o qual pulsava na ponta dos seus dedos. Com ambos os punhos desferiu uma pancada forte no meio do peito de Charlotte. Em 
seguida, fez-lhe respirao boca a boca por duas vezes, o que acompanhou com vrias compresses rpidas sobre o esterno. Uma outra verificao na cartida no revelou 
a mnima pulsao.
Correu para a porta, dando o alarme.
 - Tragam a mquina de reanimao! - gritou ele para o corredor deserto. - Tragam a mquina de reanimao! - Regressou a correr ao quarto, recomeando as tentativas 
de ressuscitao feitas por uma s pessoa.
Passaram trinta segundos, num espao de tempo que Lhe pareceu ser o de um ano, antes de Winnie Edgerly entrar de rompante no quarto, empurrando o carrinho onde trazia 
a mquina de reanimao. No mesmo instante, a pessoa de servio ao sistema de altifalantes, alertada pelo balco das enfermeiras, anunciou a emergncia.
 - Pedido de mquina de reanimao para a Ala Quatro Sul. Mquina de reanimao para a Quatro Sul. Mquina de reanimao para a Quatro Sul.
Segundos mais tarde, o quarto 412 comeou a encher-se com pessoal mdico e mquinas. Edgerly inseriu um tubo curto para passagem do ar na boca de Charlotte, comeando 
a fornecer-lhe respirao o melhor que podia com uma bomba de ar para o efeito. David continua a fazer as compresses cardacas external. Entretanto, entrou uma 
auxiliar de enfermagem num passo apressado, a qual se dirigiu humildemente para um dos lados do quarto, aguardando que algum Lhe dissesse o que devia fazer. Surgiram 
mais duas enfermeiras todas afogueadas, seguidas de Christine, que empurrava um carrinho onde transportava um aparelho que servia para fazer electrocardiogramas. 
As correias do equipamento foram fortemente apertadas aos pulsos e tornozelos de Charlotte.
Entretanto, apareceu um dos mdicos de servio, seguido logo de outro que vinha atrs; ambos precedidos pelo anestesista de servio que chegara finalmente. Era um 
homem gigantesco de ascendncia oriental que se apresentou como sendo o Dr. Kim. Este substituiu Edgerly  cabeceira da cama, lanando um olhar a David, o qual passara 
a tarefa das massagens cardacas a um dos mdicos de servio, tendo-se ele prprio encarregado de manobrar o cardigrafo.
 - Quer que a intube? - perguntou o Dr. Kim. Como resposta, David acenou afirmativamente com a cabea.
 medida que o quarto se ia enchendo com a chegada de mais pessoas, onde se incluam os tcnicos laboratoriais e de inalao, Kim comeou a executar a sua tarefa. 
Agarrou num laringoscpio de ao inoxidvel, inserindo o ngulo a direito da lmina iluminada em profundidade na garganta de Charlotte, e ergueu-o contra a base 
da lngua da doente, a fim de reveler as delicadas meias-luas prateadas das suas cordas vocais.
 - Dem-me um tubo sete ponto cinco - pediu ele  enfermeira que ao seu lado Lhe dava assistncia. O tubo de plstico transparente, cujo dimetro era de seis milmetros 
e trinta e cinco, tinha uma bolha de plstico por insuflar presa exactamente acima da extremidade. Com toda a percia, o homem gigantesco fez deslizar o tubo entre 
as cordas vocais de Charlotte, comeando a introduzi-lo at  traqueia. Serviu-se de uma seringa para insuflar a bolha, selando a rea em redor do tubo para no 
permitir folgas de ar. O passo seguinte foi aplicar a bomba negra Ambu de respirao manual  parte exterior do tubo, permitindo a passagem do oxignio, comeando 
depois a fornecer ar a Charlotte ao ritmo de trinta respiraes por minuto.
Christine mantinha-se  direita de David, observando enquanto ele tentava centrar a agulha do cardigrafo. De imediato, o seu olhar fixou-se no traado ascendente 
e descendente executado pelo estilete. Existia ritmo - um ritmo persistente e regular. "Oh, meu Deus, ele est a faz-la reviver!", pensou ela. Os seus pensamentos 
gritavam as palavras. Aquela era a nica possibilidade que ela nunca levara em linha de conta, e que naquele momento estava a concretizar-se. Com cada uma das batidas, 
ocorria-lhe  mente uma nova imagem de horror. Charlotte ligada a um ventilador. Mais tubos. Dia aps dia. infindveis, em que uma pessoa se interrogava se o crebro 
privado de oxignio da mulher voltaria a despertar. O que  que ela tinha feito?
Por fim, comeou a endireitar o papel que flua da mquina, qual jacto de lava, formando um amontoado aos ps de David. O traado entrecortado por linhas de ritmo 
continuava.
 - Pare por uns segundos! - gritou David ao mdico estagirio, para que este interrompesse os impulsos das compresses cardacas, o que Lhe permitiria uma leitura 
fiel fornecida pela mquina.
Logo de imediato, desapareceram as oscilaes da agulha, sendo estas substitudas por um traado hesitante. O padro de respirao fora artificialmente induzido: 
uma mera resposta aos esforos do mdico estagirio.
Christine fizera uma interpretao errnea do cardigrafo. Sentiu-se prestes a sucumbir.
 - O ritmo dela assemelha-se a uma fibrilhao enfraquecida. Por favor, continue com as compresses. - A voz de David era firme mas calma. Christine sentiu que recuperava 
algum domnio sobre si prpria. - Christine, faa o favor de se preparar para Lhe aplicar quatrocentos joules.
Aquela ordem comeou a registar-se com lentido no seu crebro. Com demasiada morosidade.
 - Miss Beall! - chamou David numa voz vociferada.
 - Oh, sim, senhor doutor.  para j. - Christine, num passo apressado, dirigiu-se para a mquina de desfibrilhao. Estaria algum a observar os seus movimentos? 
No era capaz de se obrigar a erguer o olhar, enquanto girava o boto regulador da mquina para quatrocentos. A substncia gelatinosa de contacto comeou a esguichar 
de um tubo, cobrindo a superfcie das duas almofadas de ao e entregando-as a David.
Com um gesto, este indicou ao mdico de servio que se afastasse. Em seguida e com rapidez, fez presso com uma das almofadas ao longo do interior do seio esquerdo 
de Charlotte, enquanto a outra foi colocada a cerca de sete centmetros abaixo do sovaco esquerdo.
 - Toda a gente afastada da cama! - gritou ele. - Prontos? Agora!
Descomprimiu o boto vermelho no cimo da almofada da mo direita. Ouviu-se um som ensurdecedor e ressonante quando os quatrocentos joules de electricidade atravessaram 
o peito de Charlotte, percorrendo o resto do seu corpo. Como se fossem uma marioneta, os seus braos sofreram um impulso na direco do tecto, aps o que tombaram 
flacidamente sobre a cama. O seu corpo arqueou com rigidez por breves instantes, para logo em seguida se imobilizar. O traado produzido pelo cardigrafo no mostrou 
qualquer alterao.
O mdico estagirio retomou as compresses cardacas, mas ao cabo de pouco tempo fez um gesto na direco do estudante de medicina que se encontrava perto, indicando-lhe 
que se sentia cansado. Os dois trocaram rapidamente de posio.
De imediato, David comeou a dar ordens para que fosse administrada medicao a Charlotte atravs dos tubos por via intravenosa, bicarbonato para neutralizar o acrscimo 
de cido lctico existente no sangue e nos tecidos, assim como adrenalina que serviria para estimular a actividade cardaca, ministrando-lhe at mesmo glucose, prevendo 
a hiptese de os nveis de acar terem baixado demasiado por qualquer razo. No houve a mnima alterao. Foi-lhe dada outra injeco de adrenalina, logo seguida 
por mais quatrocentos joules de contrachoque. A reaco continuava a ser nula. Clcio, mais bicarbonato, ao que se seguiu um quarto choque. Naquele momento, o cardiograma 
mostrava uma linha a direito. At mesmo a fibrilhao enfraquecida havia desaparecido. O mdico estagirio voltou a ocupar o seu lugar, substituindo o estudante 
e continuando com as compresses. Na cabeceira da cama, o anestesista corpulento continuava a apertar implacavelmente o saco Ambu, que pouco mais parecia do que 
uma pequena bola malevel nas suas mos enormes.
 - Introduzam uma agulha cardaca numa ampola de adrenalina, por favor - ordenou David. A despeito de uma injeco dada atravs do tubo intravenoso subclavicular 
ter como destino o corao, era muito possvel que a extremidade, de uma maneira qualquer, se houvesse desalojado. David colocou uma mo ao longo da regio esquerda 
do esterno de Charlot servindo-se da ponta dos dedos para contar no sentido descendente o espao de quatro costelas, enquanto segurava numa ampola de adrenalina 
com a outra mo; em seguida introduziu a agulha, que media cerca de onze centmetros e que j se encontrava inserida na ampola, perfurando directamente o peito de 
Charlotte. Quase instantneamente, no interior da ampola comeou a entrar um jacto de sangue escurecido. Tinha acertado em cheio. A agulha alojara-se algures no 
corao. Por detrs de David, Christine sustinha a respirao, mantendo o olhar afastado.
David comeou a injectar a adrenalina. Durante um breve momento, a agulha do cardigrafo comeou a saltar impulsionada pelo seu prprio movimento. Foi ento que 
reparou no estudante de medicina, cujo corpo oscilava para a frente e para trs, tocando inadvertidamente no brao esquerdo de Charlotte, de todas as vezes que ele 
oscilava. Com um gesto, indicou ao estudante que se afastasse da cama. De imediato, o traado da mquina comeou a delinear uma linha a direito.
Christine sentia que a tenso que pairava no quarto tinha comeado a dissipar-se. Mantinha o olhar preso no cho. Tudo estava prestes a terminar.
David olhou para o anestesista, encolhendo os ombros numa atitude que perguntava: "Tem alguma sugesto?"
Com uma expresso de placidez, o Dr. Kim retribuiu-lhe o olhar.
 - Tenciona abrir-lhe o trax?
Durante breves instantes, David ainda contemplou aquela hiptese.
 - Como  que esto as pupilas dela? - Sabia que estava a tentar ganhar tempo.
 - Fixas e dilatadas - respondeu Kim.
David olhou para um dos cantos do quarto. Fechou apertadamente os olhos, abrindo-os pouco depois. Finalmente, avanou e desligou o cardigrafo.
 -  tudo. Agradeo a toda a gente a ajuda que me prestaram. - Aquele agradecimento foi tudo o que ele conseguiu dizer.
Os presentes comearam a sair do quarto. David deixou-se ficar durante algum tempo, baixando o olhar para o corpo sem vida de Charlotte. Apesar dos tubos e das equimoses, 
assim como das queimaduras circulares no seu peito, provocadas pelas correntes elctricas, existia algo de indefinidamente belo e de grande serenidade que envolvia 
a mulher.
Finalmente, ela tinha paz.
De sbito, algum do impacte de tudo o que tinha sucedido nos ltimos minutos comeou a registar-se na sua mente. A palma das suas mos e os sovacos comearam a esfriar 
com a transpirao.
Enquanto David abandonava o quarto 412, com a inteno de telefonar a Wallace Huttner, sentia-se a tremer. Bem fundo no seu ntimo alojara-se um sentimento que Lhe 
provocava calafrios e que, de uma maneira que Lhe era desconhecida, tinha tocado na ponta de um pesadelo. Lanou um olhar fugaz ao relgio de parede. Durante quanto 
tempo  que haviam tentado reanim-la? Quarenta e cinco minutos? Uma hora?
 - Que raio de diferena  que isso faz? - resmungou para si prprio, enquanto se sentava por detrs do balco das enfermeiras para anotar a morte de Charlotte Thomas 
na sua papeleta.
 - Est a sentir-se bem? - perguntou Christine numa voz suave, ao mesmo tempo que Lhe colocava  frente uma chvena de caf espesso.
 - Hem? Oh, sim, estou bem. Obrigado - retorquiu David apoiando o queixo sobre a superfcie do balco e examinando de perto o copo de uma matria sinttica. - Obrigado 
pelo caf.
 - Lamento muito por si que ela no tenha conseguido sobreviver - disse ela.
David continuava a olhar para o copo, como se procurasse resposta para um qualquer mistrio de natureza csmica.
 - Potssio! - exclamou ele de chofre.
Christine, que j tinha comeado a deslocar-se, afastando-se daquele silncio que Lhe causava constrangimento, voltou-se para ele.
 - O que  que tem o potssio?
 - Houve qualquer coisa que no bateu certo naquele quarto, Christine - respondeu David soerguendo o olhar. - Estou a referir-me a algo que ultrapassou o que  bvio. 
 provvel que eu esteja enganado, mas no tenho memria de alguma vez ter de lidar com uma paragem cardaca onde no pudesse vir a obter uma s rstia que fosse 
de actividade cardaca... at mesmo depois de ter decorrido algum tempo entre a paragem e a utilizao da mquina de reanimao. Merda! Quem me dera que tivssemos 
tido tempo para verificar o nvel de potssio no organismo da Charlotte. Potssio, clcio... no sei o que  que foi, mas o certo  que fiquei com a sensao de 
que havia algo que fugia ao normal.
 - Agora j no  possvel obter-se o nvel de potssio? - perguntou Christine.
 - Claro que sim, mas neste momento no serviria para grande coisa. Durante a tentativa de ressuscitao e depois da morte, o potssio que se encontra nos tecidos 
liberta-se para o fluxo sanguneo, pelo que habitualmente e nestas circunstncias os nveis so bastante elevados. - David cerrou os punhos numa demonstrao de 
frustrao.
 - Em primeiro lugar, como  que o nvel de potssio no seu organismo se poderia ter descontrolado? - perguntou Christine sentindo um aperto no corao.
 - Existem muitas maneiras. - David encontrava-se demasiado absorvido nos seus pensamentos, para ter reparado na alterao que se verificara no semblante de Christine. 
- O colapso sbito dos rins, um cogulo sanguneo, at mesmo um erro de medicao... Agora qualquer destas hipteses no faz a mnima diferena. O mais provvel 
 eu estar muito longe da verdade dos factos. A morte  a morte. - Foi ento que se apercebeu da angstia por que ela estava a passar. - Eu... lamento muito - acrescentou 
David. - Eu no disse isso com inteno alguma. Receio bem que a agradvel tarefa de telefonar ao doutor Huttner, que est em Cape, me deixa um pouco abalado. No 
me parece que este seja o gnero de notcias que ele aprecie que eu reserve at ao seu regresso ao hospital. E que tal se um dia destes ambos nos sentssemos e tivssemos 
uma conversa sobre Mistress Thomas? De acordo?
 - Numa outra ocasio, talvez sim... - sussurrou Christine para si prpria desviando o olhar.
David procurou o nmero de telefone que Huttner Lhe dera. Depois das dificuldades habituais com a telefonista do hospital, a sua ligao foi estabelecida. A saudao 
de Huttner no deixou dvidas de que estivera a dormir.
 - Grande comeo - resmungou David para consigo, erguendo o olhar para o tecto como se procurasse algum auxlio celestial. - Doutor Huttner, daqui fala David Shelton 
- disse ele para o bocal do aparelho.
- Sim, o que  que se passa, David? - At mesmo naquelas parcas palavras iniciais existia um timbre de impacincia.
Naquele momento, David compreendeu que deveria ter deixado aquele telefonema para o dia seguinte.
 - Trata-se da Charlotte, doutor Huttner, a Charlotte Thomas. - Sentia-se como se a lngua Lhe inchasse com toda a rapidez, tendo j adquirido o tamanho de uma toranja.
 - Ora bem, o que  que se passa com ela?
 - H cerca de hora e meia, ela foi encontrada na cama sem pulso. Tentmos ressuscit-la atravs da mquina de reanimao durante quase uma hora, mas no obtivemos 
qualquer resultado. Ela faleceu, doutor Huttner.
 - O que  que pretende dizer com o tentaram ressuscit-la? O que raio  que aconteceu, homem? Eu examinei-a esta manh antes de ter partido. O seu estado pareceu-me 
ser suficientemente estvel.
David no previra que a conversa com Huttner decorresse com facilidade, mas tambm no esperara a ecloso de uma guerra. Sentiu a lngua passar do estado de toranja 
para o de uma melancia.
 - Eu... eu no sei bem o que aconteceu - replicou ele. - Talvez uma concentrao excessiva de potssio. Ela teve um perodo de fibrilhao fraca, o que acusou no 
cardiograma, e depois mais nada. Uma linha a direito. Apesar de todos os nossos esforos. Absolutamente nada.
 - Uma concentrao excessiva de potssio? - A voz de Huttner deixava adivinhar mais perplexidade do que clera. - No passado ela nunca teve quaisquer problemas 
com os nveis de potssio.
 - Quer que eu telefone a Mister Thomas? - perguntou David por fim.
 - No, deixe esse assunto comigo. Seja como for, o que sucedeu  precisamente o que ele pretendia. - A voz de Huttner enfraqueceu, para logo recuperar uma intensidade 
renovada. - O que pode fazer por mim  entrar em contacto com Ahmed Hadawi. o chefe de patologia. Diga-lhe que amanh quero que ele faa uma autpsia a essa mulher. 
Pretendo saber com toda a exactido o que  que aconteceu. Se' por qualquer razo, o Thomas no der o seu consentimento, eu prprio me encarregarei de informar o 
Hadawi de que a autpsia foi cancelada. Diga-lhe que amanh, s oito horas em ponto, estaremos na sala de autpsias com a autorizao por escrito assinada pelo Peter 
Thomas. Boas noites.
 - Boa noite - retribuiu David um minuto depois de Huttner ter desligado o telefone. Pousou o auscultador e acrescentou para si: - Deus nos valha.
O balco das enfermeiras no tinha movimento nenhum: estava deserto  excepo da presena de David e da secretria do piso, a qual fazia grandes esforos para parecer 
ignorar a presena do mdico. Mantendo os olhos fechados, este permaneceu sentado enquanto massajava a fronte, esforando-se por equacionar o misto de emoes desagradveis 
que se apoderara da sua pessoa. Confuso? Sem dvida que sim, o que era bastante compreensvel. Depresso? Talvez um pouco. Tinha acabado de perder uma doente. Solido? 
Que diabo! O quanto ele desejava que Lauren estivesse em casa.
Contudo, havia algo mais. Qualquer coisa vaga e difusa. De concentrao difcil. Mas de facto existia algo indefinido, um outro sentimento que no era capaz de identificar. 
Decorreram vrios minutos at David ter comeado a compreender. Subjacente a todas as suas reaces, a todas as emoes, havia uma vaga nvoa de receio. A tremer, 
por razes que no se Lhe apresentavam com um mnimo de clareza, ligou o nmero de Lauren, desligando s depois de o telefone ter tocado pela dcima vez. Embora 
ainda tivesse assuntos por concluir no hospital, sentia uma necessidade urgente de sair dali para fora. Decidiu que telefonaria a Hadawi de sua casa.

Christine encostou-se  ombreira da porta, observando David que abandonava o hospital. No sentia quaisquer dvidas quanto  rectido daquilo que fizera; no entanto, 
o desencorajamento que ele mostrava era-line doloroso.
Mais tarde, escusou-se de elaborar o relatrio de turno, comeando a percorrer o corredor deserto em direco ao telefone pblico. O nmero que ligou no era o mesmo 
que usara no dia anterior. Deus do cu, teria passado somente um dia? Daquela vez no foi atendida por nenhuma voz: apenas um clique e um sinal.
 - Daqui fala Christine Beall do Hospital Mdicos de Bston - comeou ela a dizer numa entoao deliberadamente monocrdica. - Em nome dos cuidados mdicos aplicados 
com compaixo, e no seguimento das instrues emanadas d'A Irmandade da Vida, a dois de Outubro, ajudei a pr cobro ao sofrimento e s cores irremediveis de Mistress 
Charlotte Thomas. o que fiz atravs de uma injeco de sulfato de morfina aplicado por via intravenosa. O prolongamento de um sofriment  humano desnecessrio deve 
ser banido e eliminado sempre que possvel. A dignidade da vida humana, assim como a de uma morte humana, devem ser preservadas a todo o custo. Fim do relatrio.
Desligou o telefone; mas, num impulso irreprimvel, voltou
a agarrar no auscultador, ligando o nmero de Jerry Crosswaite. ao ouvir o som da voz do homem, o impulso desapareceu de imediato.
 - Est l? - atendeu ele. - Est... Est?
Num gesto lento, Christine desligou o aparelho.
Oculta pelas sombras em que o fundo do corredor se encontrava mergulhado, Janet Poulos observou Christine escusar-se da elaborao do relatrio de turno, a fim de 
fazer o telefonema que Janet tinha a certeza seria para informar o resultado do caso de Charlotte Thomas.
 - Devias sond-la em relao ao Jardim - urgira Dahlia.
 - Tem cuidado com o que dizes, mas no deixes de a sondar. Janet contrapusera com o argumento de que Beall ainda
era muito novata n'A Irmandade, razo por que no se encontrava preparada para O Jardim; no entanto, Dahlia insistira em que ela avanasse.
 - No te esqueas - argumentara ela - do que te teria
acontecido h trs anos, se eu tivesse decidido que tu no estavas preparada. Tanto quanto me recordo, antes de eu te telefonar andavas tu a pensar em acabar com 
a tua prpria vida. De facto, Janet encontrara-se para l da fase de pensar. No momento em que Dahlia Lhe fizera aquele telefonema, ela j tinha colocado mais de 
cem comprimidos para dormir em cima da colcha da cama. O desprezo que sentia por si prpria, aliado a um sentimento de impotncia, haviam-na arrastado para o limiar 
do suicdio.
Durante vrios anos ela tinha vivido no dio - dio contra
os mdicos de uma maneira geral, embora fosse especificamente dirigido a um deles. Janet filiara-se n'A Irmandade, com a finalidade de utilizar a organizao para 
conseguir pr no seu lugar determinados mdicos. Nos casos onde tal foi necessrio, chegara ao ponto de fabricar dados sobre os doentes, a fim de obter a aprovao 
do Comit Regional de Avaliao, bem como as suas recomendaes.
No entanto, ao cabo de seis anos e de quase duas dzias de casos, o pouco nimo que conseguira dessas actividades acabou por se dissipar.
E foi ento que, com um simples telefonema, tudo se alterou. De uma maneira qualquer, Dahlia tivera conhecimento das anlises laboratoriais e dos exames radiolgicos 
falsificados, estando tambm inteirada do dio que ela nutria pelos mdicos e pelo poder que estes detinham, encontrando-se tambm a par de muitos pormenores ntimos 
da sua vida. Todavia, tratavam-se de aspectos que no Lhe interessavam.
No decurso dos anos que precederam a sua filiao n'O Jardim, Janet comeou a ser iniciada lentamente. De tantas em tantas semanas, Dahlia transmitir-lhe-ia o nome 
de um determinado paciente no Nordeste, o qual fora aprovado pela Irmandade para ser sujeito a uma eutansia. Ento, Janet organizava um encontro com a famlia sofredora 
do doente, oferecendo-lhes uma morte misericordiosa para o ente querido, a troco de um pagamento substancial. O contrato, depois de celebrado, era ento honrado 
pela enfermeira d'A Irmandade que inicialmente submetera o caso a avaliao, sem que esta tivesse conscincia do acordo.
Era uma diversificao maravilhosa e lucrativa; no entanto, O Jardim tinha muito mais, substancialmente mais, de reserva para Hyacinth. Havia outras flores a desabrochar 
no seio do Hospital Mdicos de Bston. Uma destas, Lily, fora transplantada pela prpria Janet das fileiras d'A Irmandade. Decorrido um curto perodo de tempo, ambas 
as mulheres foram incumbidas de outras responsabilidades, primordialmente na rea a que Dahlia se referia como sendo a de "contacto directo com os doentes". Tinham 
deixado de estar vinculadas aos casos d'A Irmandade: a eutansia deixara de ser uma preocupao; os novos casos tinham provado ser mais compensadores em todos os 
sentidos. John Chapman e Carl Perry haviam sido apenas dois destes ltimos.
Enquanto Christine ligava o nmero, Janet comeou a aproximar-se dela. Dahlia chegara  concluso que, depois da Beall se ter visto a braos com um caso to traumtico 
como o de Charlotte Thomas, era possvel que ela j se encontrasse receptiva  sua proposta. Hyacinth continuava a manter srias reServaS. Estava disposta a conversar 
com a mulher, mas somente at que as suas prprias desconfianas fossem confirmadas. Beall necessitava de sofrer ainda mais alguns anos de agressividade verbal por 
parte dos mdicos, os quais, com mais frequncia do que era de esperar, eram por si prprios armas mortferas. Ela estava a precisar de mais uns quantos casos d'A 
Irmandade em que no haveria lugar a agradecimentos.
Nessa altura, haveriam fortes probabilidades de se encontrar preparada.
Christine deu pela aproximao de Janet e aguardou.
 - J est feito? - perguntou esta com solenidade. Christine acenou afirmativamente. - Podemos falar por uns minutos? - Uma vez mais, a resposta foi um acenar de 
cabea.
Em silncio, ambas se encaminharam para a sala de visitas. Christine deixou-se cair em cima do sof e desta vez Janet sentou-se junto da colega.
 - Nunca  fcil, no  verdade! - Janet dobrou uma perna debaixo do corpo, observando Christine quando esta comeou a mexer numa lasca de madeira solta numa das 
extremidades do tampo da mesa.
 - Eu estou bem, Janet. De verdade que sim. Tenho bem conscincia daquilo que fiz, de que aquilo que fazemos  o mais correcto. Eu compreendo at que ponto  que 
a Charlotte desejava acabar com o seu sofrimento. Um cancro disseminado por todo o fgado, enquanto o doutor Huttner s pretendia continuar a enfiar-lhe tubos pelo 
corpo dentro. Foi a medida certa. - A sua voz denotava tenso, embora estivesse sob controlo.
 - De mim no ouvirs qualquer objeco, rapariga - retorquiu Janet, estendendo a mo para apertar a da colega, num gesto que pretendia instilar-lhe confiana. Christine 
retribuiu-lhe o gesto caloroso. -  s uma lstima, e nada mais, que tenhamos de ser ns quem deve arcar com toda esta maldita responsabilidade. - Christine respondeu-lhe 
com um acenar de cabea, seguido de um encolher de ombros que exprimia o pesar que sentia.
Talvez Dahlia tivesse razo; Janet optou por ir um pouco mais longe.
 - Toda essa responsabilidade e no fim que vantagens  que isso nos traz? Nenhuma.
Christine voltou-se para a outra com uns olhos que coruscavam.
 - Janet! O que  que pretendes dizer com isso? Nada?
Altura de bater em retirada, concluiu Janet. Pelo menos uma vez na vida, Dahlia fizera um mau julgamento de caracteres. A chama idealista e ingnua que ardia no 
corao de Beall ainda no se extinguira. Esforou-se bastante por olhar de frente para Christine.
 - O que quero dizer  que ao fim de todos estes anos, depois de todas as centenas, que agora calculo que j andem pelos milhares, de recrutas d'A Irmandade, nada 
se alterou na postura da classe mdica.
 - Oh... - exclamou Christine sentindo-se mais tranquilizada.
- Por conseguinte, at que as coisas venham a sofrer uma transformao, teremos de continuar a fazer aquilo que achamos ser a nossa obrigao. Certo?
 - Sem dvida.
 - Ouve, Christine. Vamos jantar as duas um dia destes, est bem? Ns duas temos muito em comum, mas este no  exactamente o lugar apropriado para que possamos 
discutir os interesses que ambas partilhamos. V o teu horrio que eu farei o mesmo. Combinaremos qualquer coisa para estes dias mais prximos. De acordo?
 - Por mim, est bem. Janet, quero agradecer-te o teu interesse. Peo desculpa por ter sido brusca contigo. O dia tem sido um inferno, o que me leva a sentir to 
irritada.
Janet sorriu-lhe calorosamente.
 - Quando no puderes descarregar na tua "irm", com quem  que poders fazer? Certo?
 - Certo.
 - Tenho de ir tratar da Charlotte - concluiu Janet levantando-se do sof. - O marido informou que no tenciona vir v-la. Sempre que precisares de desabafar, podes 
telefonar para minha casa. - Com aquelas palavras, a enfermeira comeou a afastar-se. No mnimo dos minimos, Dahlia teria conhecimento de que ela tentara. Mas acontecia 
muito simplesmente que Beall ainda no estava preparada. Era uma lstima.
Christine regressou  sala das enfermeiras a tempo da concluso do relatrio de turno. Sentindo-se inquieta e saturada com a enfermagem e com o Hospital Mdicos 
de Bston, encOstoU-se a uma parede at o caso do ltimo doente ter sido discutido? aps o que saiu antes de qualquer das suas colegas.  sua frente, esperando pelo 
elevador, encontrava-se Janet acompanhada de uma auxiliar de enfermagem. Entre as duas em cima de uma maca, encontrava-se o corpo de Charlotte Thomas coberto por 
um lenol.
Hipnotizada com aquela cena e pelo reflexo de si prpria que Lhe imprimira, Christine ficou a olhar enquanto a maca era manobrada para o interior do ascensor. S 
depois de as portas se fecharem  que ela conseguiu mover-se de novo.



Captulo 10

As "lets de ouro da Medicina" de Fox definiam patologista como sendo "o especialista que aprende tudo ao atalhar caminho, para chegar directamente ao corao do 
assunto sem deixar uma pedra por voltar (de rim ou de bexiga)".
Como de costume, a recordao de uma das definies imortais de Gerald Fox conseguiu extrair um sorriso dos lbios de David. O que aconteceu apesar do desconforto 
que sentia perante a perspectiva de ter de assistir  autpsia de Charlotte Thomas.
J se tinha atrasado dez minutos; todavia, sabia que nada estaria concludo, com a excepo, talvez, da preparao do corpo de Charlotte e da primeira inciso. Embora 
as observaes de Fox habitualmente acertassem em cheio, David nunca esperara que a sua mxima, cheia de cinismo, a respeito dos patologistas correspondesse inteiramente 
 verdade. Recuou no tempo, recordando-se da primeira vez que estivera exposto  patologia forense, por ocasio de uma palestra dada pelo mdico legista do distrito, 
antes de o grupo de David, composto por estudantes de medicina do segundo ano, ter sido conduzido apressadamente para uma sala onde assistiriam  sua primeira autpsia.
 - A causa da morte, senhoras e senhores - dissera o patologista j de idade - , isto , aquilo que nos  pedido, no campo da medicina forense, que determinemos 
para os nossos colegas do foro judicial e demais mdicos. Na realidade, ningum, para alm de Deus, sabe quais so as causas que determinam a morte de uma pessoa. 
Absolutamente ningum. Em lugar disso, aquilo que ns podemos determinar so as condies em que se encontra cada um dos rgos do corpo de um doente, na altura 
da sua morte. A partir destes conhecimentos, estaremOs aptos a deduzir, com alguma preciso, o motivo que provocou a interrupo das funes cardacas, pulmonar 
ou cerebral.
"Por exemplo, se uma pessoa morreu por causa da bala de uma arma de fogo que lhe tenha perfurado o corao, poderemos afirmar com bastante segurana que a morte 
se ficou a dever a uma paragem cardaca, com origem num ferimento em profundidade sofrido pelo prprio msculo do corao. Mas... e o que dizer em relao ao doente 
que sofre de uma doena, como por exemplo o cancro?  possvel que sejamos capazes de localizar tecidos cancerosos no fgado, no crebro, nos pulmes ou em outros 
rgos e, sem dvida alguma, sob um aspecto poder-se- dizer que a causa da morte teve origem cancergena. No entanto, a determinao de uma morte imediata  quase 
impossvel. Ter o corao parado porque foi envenenado por alguma substncia, ainda desconhecida, segregada pelas clulas cancerosas? Ou teria a falta de um volume 
de fluxo suficiente, devido a razes que talvez no se relacionem com o prprio cancro, teria ela sido a causa de uma tal perturbao no sistema circulatrio, ficando 
o corao impedido de continuar a funcionar e limitando-se a parar?
"Todos vs devem ter estes aspectos bem presentes na vossa mente, sempre que se vos deparem diagnsticos como o de "cancro", "enfisema" ou "arteriosclerose", em 
que seja atribuda qualquer destas causas  morte de um paciente. E muito plausvel que tenham sido a causa que levou  morte, mas no que diz respeito  causa directa 
dessa mesma morte... isso, meus amigos, continua a ser um grande mistrio na grande maioria dos casos.
Um mistrio. David hesitou do lado de fora das duas portas de vidro opaco onde se lie SALA DE AUTPSiAS em letras folheadas a ouro. Uma noite sem dormir, a par de 
um incio de manh catico, haviam-no deixado tenso e com uma certa sensao de mal-estar. A perspectiva da autpsia a Charlotte servia apenas para agravar aquele 
estado de esprito.
Havia ainda que ter em conta a pessoa de Huttner. Cape Cod encontrava-se apenas a uma distncia de pouco mais de cento e dez quilmetros, suficientemente perto para 
ele poder fazer a viagem de automvel naquela manh, sem dificuldades de maior. Quanto ao ele vir a optar por regressar ou no ali, depois de ter assistido  autpsia, 
isso j era uma histria muito diferente. David apostou consigo mesmo uma muito receada visita ao dentista, a qual j devia ter sido feita h bastante tempo, em 
que Huttner optaria por permanecer em Bston, onde retomaria os cuidados a serem prestados aos seus clientes. Ainda pensou em inverter a aposta, de forma a que pelo 
menos fosse forado a enfrentar a novacana e a broca, no caso de vir a perder os ltimos dois dias da sua aventura. No entanto, no fim acabou por decidir que, no 
caso de vir a perder poderia submergir a sua desgraa de uma visita ao mercador de dentes, juntamente com outras desgraas mais substanciais.
Ao entrar na sala, David sentiu picadas profundas de vapor de formalina no interior das suas narinas. Deparou-se-lhe um espao, extenso em comprimento, que media 
quase vinte e cinco metros de um extremo ao outro. O tecto era alto, havendo um excesso de luzes fluorescentes que, em parte, colmatavam a inexistncia de quaisquer 
janelas. Viam-se sete mesas de ao onde eram realizadas as autpsias; cada uma delas fora munida de uma mangueira para fornecimento de gua e um sistema de escoamento, 
equipamento este que se encontrava espaado a intervalos regulares sobre o cho revestido de linleo da cor do marfim. Para alm da mangueira, que era utilizada 
para a lavagem dos rgos durante a autpsia, assim como para limpar a mesa depois desta concluda, todos os postos de trabalho tinham o seu prprio lavatrio, um 
quadro de ardsia e uma balana suspensa. Embutido no cho viam-se grandes nmeros vermelhos de um a sete, os quais marcavam individualmente cada uma das mesas. 
Isto , com a excepo do posto de trabalho nmero quatro.
Em ambos os lados dessa mesa, haviam sido instaladas ao alto seis fileiras de bancos corridos de madeira, idnticos aos que se viam nos ginsios dos liceus. Em determinadas 
ocasies, estes encontravam-se pejados de estudantes, cujo estado de esprito atravessava vrias fases de perturbao ou de fascnio. Havia outras alturas em que 
eram ocupados por grupos de mdicos estagirios, de patologia ou de cirurgia, que se esforavam por estudar as capacidades de dissecao de um patologista veterano. 
O posto de trabalho nmero quatro era o ponto central das actividades que tinham lugar na Sala de Autpsias do Hospital Mdicos de Bston.
s oito horas e quinze minutos da manh do dia trs de outubro, os postos de trabalho nmero um, quatro e seis encontravam-se em plena actividade, enquanto no posto 
de trabalho nmero dois se via um corpo embrulhado num lenol. Wallace Huttner encontrava-se de p, com os braos cruzados  frente do peito, junto do posto de trabalho 
nmero quatro. Os bancos estavam vazios, exceptuando a presena de um mdico estagirio destacado para colocar o cadver em cima da mesa dots, acompanhado por trs 
estudantes de medicina. EnquantO David se aproximava, avistou a boca aberta de Charlotte Thomas, assim como o rosto de um branco cerceo. Mordeu o lbio inferior 
e engoliu um jacto de bills, concluindo que seria prefervel concentrar-se nas outras partes da anatomia do cadver. Ele era capaz de encarar razoavelmente qualquer 
autpsia, desde que a visse sob a perspectiva do estudo das diversas partes do corpo. Quanto mais prximo ele se permitisse aproximar do aspecto humano, mais desagradvel 
se Lhe tornava todo aquele processo.
Ahmed Hadawi, um homem de estatura baixa, pele escura e movimentos rpidos, senhor de umas mos excepcionalmente desproporcionadas, j tinha feito a inciso inicial, 
encontrando-se com os braos at aos cotovelos metidos na cavidade torcica, atarefado na separao dos rgos abdominais e do peito, soltando-os das ligaes que 
os mantinham presos ao pescoo e s paredes do corpo. Enquanto prosseguia, dava uns estalidos abafados com a lngua, sons que acompanhavam o seu trabalho, mas para 
alm disso no se via qualquer manifestao de emoo ou expresso. Ocasionalmente, debruava-se mais sobre o cadver, murmurando algumas palavras para um gravador 
que era operado atravs de um pedal.
Huttner acenou com frieza em resposta  saudao de David. A sua postura e maneira de agir no mostravam qualquer resqucio da atitude do mdico quase paternal, 
descontraido e interessado, que se sentara com David na sala dos cirurgies havia apenas trinta e seis horas. Depois daquele seco acenar de cabea, voltou a concentrar 
toda a sua ateno no processo de dissecao, evitando cuidadosamente qualquer outro contacto visual com David. Este olhou para o homem com uma atitude de impotncia. 
Em seguida, tal como acontecia com tanta frequncia em situaes difceis, a faceta macabra do seu sentido de humor assenhoreou-se da situao. "Se ele se abraar 
com mais fora", pensou David, "talvez se quebre num milhar de bocados, permitindo-me cuidar dos seus doentes at que algum cole os bocados do seu corpo."
Nesse momento, lanou outro olhar de fugida ao rosto de Charlotte. "Pra com isso, Shelton!", gritou mentalmente a si prprio. "Isto no tem graa nenhuma. Pra 
com isso!" Aquela bofetada mental foi o suficiente. Distribuiu o seu peso por ambos os ps por vrias vezes, movimentando-se de um lado para o outro, at que finalmente 
se aquietou, concentrando toda a sua ateno no mdico patologista.
 - Ora vamos l ver. Estamos prontos para dar uma olhadela a umas quantas coisas - disse Hadawi. O mdico estagirio desceu do banco, a fim de poder ter um ngulo 
melhor de observao, enquanto Huttner se abraava ainda com mais fora, quando o patologista comeou a apontar o estado anatmico de cada um dos rgos de Charlotte, 
tal como estes se haviam encontrado no momento da sua morte.
 - O corao - comeou ele - est moderadamente alargado, tendo havido engrossamento do msculo e dilatao nos ventrculos. Podemos ver uma pequena perfurao recente 
que foi feita atravs do ventrculo esquerdo posterior, o que presumo seja o resultado da injeco intracardaca que foi dada com toda a preciso pelo doutor Shelton, 
o que  de louvar.
David pensou que o momento talvez fosse apropriado para um modesto sorriso e um ligeiro acenar de cabea, mas ento compreendeu que ningum olhava para si. Ainda 
assim, sorriu e acenou.
 medida que continuava a dissecar, o patologista de estatura baixa ia falando.
 - Existe um estreitamento bastante substancial, e num estado bastante avanado, em todas as artrias coronrias, embora no existam provas  primeira vista da existncia 
de leses recentes, aspecto que seria indicador da possibilidade de um enfarte do miocrdio. - A interpretao que Margaret Armstrong fizera do electrocardiograma 
de Charlotte acertara em cheio, concluiu David para consigo. - No entanto, no devemos esquecer-nos de que as provas de uma enfartao grave... digamos, que tenha 
ocorrido num espao menor do que vinte e quatro horas... Bem, essas provas frequentemente s so visveis atravs de um exame ao microscpio do prprio tecido muscular 
do corao e, mesmo assim, s se conseguirmos acertar na seco certa de tecido. Logo que esses diapositivos tenham sido examinados quero ser informado imediatamente 
- ordenou Huttner e, ao que tudo indicava, dirigia-se a David, mais pela necessidade de tecer uma qualquer espcie de comentrio do que por outro motivo.
Hadawi ergueu o olhar para o cirurgio e, sem qualquer outra manifestao de o ter ouvido, concentrou a sua ateno nos pulmes. Logo de imediato, o grau de eficincia 
profissional do patologista subiu vrios pontos na considerao de David, o que se reflectiu na sua expresso. Tanto num pulmo como no outro verificava-se que mais 
de metade do seu volume se encontrava consolidada, o que se devia  sobrecarga do fluido proveniente de uma infeco. Ainda que no houvessem existido quaisquer 
outros problemas, parecia ser inteiramente plausvel que Charlotte nunca viesse a conseguir sobreviver quela pneumonia fulminante.
O que restou do exame aos rgos era mais impressionante, principalmente devido quilo que no revelou. Dependendo, como  evidente, das observaes realizadas ao 
microscpio dos ndulos linfticos abdominais, Hadawi anunciou que no havia sido capaz de encontrar qualquer prova de cancro residual no corpo da mulher. Os quistos 
no fgado, os quais haviam sido erroneamente diagnosticados pelo radiologista Rybicki, estavam disseminados por todo o rgo, tendo sido encontradas bolsas similares 
cheias de fluido nos dois rins.
 - Encontramo-nos perante uma multiplicidade de quistos do parnquima renal e heptico - continuou Hadawi a ditar para o seu gravador.
Finalmente, o patologista afastou-se da mesa.
 - Ainda me restam algumas coisas a fazer neste corpo - anunciou ele - , mas no tero qualquer relevncia no que descobri at agora. Para todos os efeitos e propsitos, 
Wally, podemos dar esta autpsia por concluda. Mais significativo do que tudo o mais que eu te possa dizer,  o facto de a escara de que esta mulher sofria, por 
estar acamada, j ter comeado a espalhar-se por debaixo da pele, ao ponto de eu duvidar que, at mesmo com enxertos mltiplos de pele, viesse alguma vez a sarar. 
A infeco nos ossos sacros j se tinha iniciado, sendo quase impossvel de tratar.
"A arteriosclerose das coronrias, de que ela sofria' j estava num estado bastante avanado, o que me leva a assumir que a sua morte se deveu provavelmente a uma 
paragem cardaca. Tenho a inteno de indicar como causa da sua morte um colapso cardiovascular, secundado pelas infeces de natureza pulmonar e como consequncia 
da escara. Tambm  inquestionvel que ela sofria de um mal adicional, devido em parte  pequena obstruo intestinal que a afligia, o que, tal como tiveste oportunidade 
de verificar, foi provocado pelas aderncias que tiveram origem na interveno cirrgica mais recente.
 - Doutor Hadawi, doutor Huttner, talvez pudssemos sentar-nos aqui, uma vez que gostaria de ter resposta a algumas dvidas - atalhou David. No conseguia suportar 
a ideia de ter de discutir o caso de Charlotte junto do seu corpo j dissecado.
Hadawi respondeu-lhe com um breve sorriso arreganhado de compreenso, sentando-se num dos bancos em escada. Por seu lado, Huttner, que continuava a manter os braos 
cruzados em frente do torso, seguiu os dois sem esconder uma certa relutncia. David aferiu a expresso do rosto do homem, classificando-a como sendo algo que se 
situava entre o desprezo e a fria. Em parte alguma dos seus olhos, ou na sua maneira de estar, se vislumbrava um s vestgio de simpatia ou de pesar. Independentemente 
da doena subjacente, Charlotte Thomas fora internada no hospital como doente de Huttner, tendo sido operada e vindo a perecer. O que atribua ao caso a classificao 
de mortalidade ps-operatria. A interveno cirrgica a que fora submetida, e as muitas complicaes que da advieram, seriam debatidas em pormenor durante as mesas 
redondas onde habitualmente eram discutidas as mortes cirrgicas. O que no poderia ser considerado como uma perspectiva que agradasse quele homem, compreendeu 
David. Ele encontrava-se muito mais acostumado a fazer as perguntas do que a ter de Lhes responder.
 - Vamos a ver, David - continuou Hadawi - , o que  que est a perturb-lo em relao ao que viu?
 - Bem, grande parte da minha preocupao concentra-se no corao, que se mostrou to renitente em responder a tudo o que Lhe fiz com os mtodos de reanimao.  
muito possvel que, pura e simplesmente, tenha decorrido demasiado tempo entre o momento em que ela sofreu a paragem cardaca e a altura em que comecei a tentar 
reanim-la. No entanto, no  essa a convico com que fiquei. Pergunto a mim mesmo se haver a hiptese de os seus nveis de potssio, no sei bem como, se terem 
elevado em demasia, tendo dado origem a uma arritmia cardaca que Lhe foi fatal.
 - Existe sempre essa probabilidade - replicou Hadawi pacientemente. - Eu tive o cuidado de guardar vrias colheitas de sangue. Terei todo o prazer em analisar os 
nveis de potssio. No entantO' h que ter em mente os limites de exactido desse tipo de anlise realizada ao sangue postumamente... muito em especial, no caso 
da colheita ser proveniente do corpo de uma pessoa a quem foram aplicadas compresses cardacas externas prolongadas.
Finalmente, Huttner falou. No constitua surpresa nenhuma para David o facto de ele no estar disposto a render-se sem que antes se batesse pelos seus pontos de 
vista.
 - V bem, Ahmed - comeou ele. Os segundos e terceiro dedos de uma mo agitavam-se para cima e para baixo na direco do homem, embora Hadawi no mostrasse qualquer 
sinal exterior de se sentir ofendido com aquele gesto. - No me sinto completamente satisfeito com estas concluses. Aqui o doutor Shelton tem uma certa razo. Uma 
vez que no se detecta nada de evidente num exame grosso modo, que possa explicar a morte repentina desta mulher, isso quer dizer que deveramos fazer um exame mais 
minucioso, antes de se concluir como causa da sua morte algo de to pouco especfico como uma paragem cardiovascular. Talvez tenha havido uma enfermeira que a medicou 
erroneamente, provocando-lhe uma qualquer espcie de reaco alrgica de natureza anafilctica. A sua alergia  penicilina era do conhecimento geral.
Era por de mais evidente que Hadawi estava habituado a lidar com o ego de Huttner. Limitou-se a um encolher de ombros.
 - Se quiseres, terei todo o prazer em mandar fazer uma anlise aos nveis de penicilina encontrados na sua corrente sangunea - retorquiu ele. - Desejas que se 
proceda a qualquer outro exame?
Huttner agarrou naquela oportunidade de evitar uma apresentao nas mesas redondas de mortes cirrgicas, tal como um marinheiro em vias de se afogar, se agarraria 
a um bocado de madeira que passasse por ele  deriva. Um erro de medicao propiciar-lhe-ia uma absolvio imediata.
- Sim, existem outras coisas que na minha opinio deveriam ser feitas - continuou Huttner numa voz com um timbre professoral, intercalando vrias pausas cheias de 
significado. Na realidade, o homem dava a impresso de estar a saborear as suas prprias palavras. - Estou em crer que deveramos efectuar uma despistagem completa 
s substncias qumicas. aos nveis de antibiticos, toxinas, electrlitos... em suma, tudo o que seja de natureza qumica.
 - Sem que tenhamos previamente uma noo daquilo que procuramos, devo dizer-te que esse processo ser excessivamente dispendioso - retorquiu Hadawi numa voz suave, 
como se antecipasse a erupo que se seguiria  objeco que apresentara de maneira to delicada.
 - Que se lixe o dinheiro, homem! - vociferou Huttner com os dedos a descreverem gestos ainda mais rpidos do que anteriormente. - Estamos a falar de uma vida humana. 
Limita-te a fazer o raio dos exames e a entregar-me os resultados.
 - Como queiras, Wally - anuiu Hadawi.
Huttner acenou numa manifestao de satisfao, fazendo meno de estar prestes a afastar-se. Quando passou por David, fez estalar os dedos.
 - Estava quase a esquecer-me, David - disse ele por cima do ombro. - O Congresso Vascular de Cape no  nada daquilo que prometia ser. Decidi no regressar. Quero 
agradecer-lhe a ajuda que me deu ontem. Parece-me que vai realizar-se um congresso em Janeiro a que me interessa assistir. Talvez nessa altura possamos combinar 
para que voc me substitua de novo.
De acordo com o que David pensava, o tom da sua voz tinha tanta sinceridade como a de Dom Juan dizendo: "Claro que terei todo o respeito por ti amanh de manh."



Captulo 11

Na escolha de um hospital,  semelhana do que fazia em relao a todos os outros aspectos da sua vida, o senador Richard Cormier no delegava a tarefa em ningum. 
Enquanto muitos dos polticos em Washington consideravam um smbolo de estatuto social o facto de se receberem cuidados mdicos no Bethesda Naval ou no Walter Reed, 
Cormier ignorou as objeces dos seus adjuntos, insistindo em ser operado pelo Dr. Louis Ketchem no Hospital Mdicos de Bston.
 -  sempre prefervel confiar nos da nossa espcie - argumentou ele. - O Louis  um velho cavalo de batalha, tal como eu prprio. Ou  ele que me corta ou recuso-me 
a ser cortado.
As paredes do quarto de Cormier estavam cobertas do cho ao tecto com cartes, havendo vrias caixas de carto que continham mais umas quantas centenas, ordenadamente 
empilhadas a um canto. Para alm de uma enfermeira e do senador, a presena de uma secretria e de dois adjuntos contribuam para que estivesse criado um ambiente 
no quarto to catico como o que reinava constantemente no seu gabinete em Washington.
 - Senador Cormier, tenho de Lhe dar os medicamentos pr-operao, o que significa que todas estas pessoas vo ter de sair do quarto. - A enfermeira, uma matrona 
corpulenta de nome Fuller, exprimia apenas o grau de autoridade suficiente para que o senador acatasse o seu pedido.
Cormier passou os dedos pelos cabelos bastos e grisalhos, semicerrando os olhos na direco da enfermeira.
 - S mais dez minutos.
 - Dois - contraps ela com toda a firmeza.
- Cinco. - A negociao trouxe aos olhos de Cormier uma centelha de vivacidade.
 - De acordo, cinco - anuiu ela. - Mas um s minuto a mais e usarei a agulha quadrada para Lhe injectar este medicamento. - Com aquelas palavras, comeou a sair 
apressadamente do quarto; chegada  porta, fez meia volta para lanar um olhar a Cormier que dizia que falava a srio. O senador dirigiu-lhe um piscar de olhos.
 - Muito bem, Beth, est na altura de guardar tudo isso - disse ele  sua secretria. - No se esquea de que quero que envie uma nota de agradecimento a toda a 
gente que indicou o remetente no sobrescrito dos cartes. Ontem assinei o que me pareceu ser um milhar, mas, no caso de se acabarem, mande imprimir mais algumas, 
que eu assinarei depois da operao. Gary, telefone ao Lionel Herbert e diga-lhe que apanhe um avio at aqui, para termos uma reunio depois de amanh. Informe-o 
ainda de que deve vir preparado para fazer algumas concesses em relao ao projecto de lei da energia ou, por Deus, o contrrio significar que o seu chefe ter 
de voltar  estaca zero, o mesmo acontecendo quela gente do petrleo de quem ele  to diabolicamente amigo. Bobby, telefone  minha sobrinha e diga-lhe que estou 
bem, que no se preocupe e, acima de tudo, ela que no se sinta preocupada por no ter encontrado ningum com quem pudesse deixar as crianas, afim de poder estar 
aqui comigo. Eu prprio tenciono telefonar-lhe assim que me deixarem chegar perto do meu telefone. Outra coisa... Bobby, tomou nota do nome de todas as pessoas que 
me enviaram flores? Quero enviar a cada uma delas uma mensagem pessoal. Parece-lhe que iria ferir as sensibilidades de alguma delas, se Lhes pedisse que me enviassem 
guloseimas da prxima vez? Este lugar parece uma agncia funerria, alm de que tem o cheiro caracterstico de um bordel.
Bobby Crisp, um jovem advogado esperto e rpido de raciocnio, sorriu para o seu chefe.
 - Deve estar a sentir mais confiana em mim, senador - disse ele. - Esta  apenas a quarta vez que me disse para fazer a mesma coisa. A verdade  que, quando comecei 
a trabalhar para si, dizia o mesmo sete vezes. J tratei de tudo. Assim que estiver em condies de escrever, terei a lista pronta para Lhe entregar, o que muito 
provavelmente acontecer trinta minutos depois de acordar da anestesia, se  que eu o conheo. A propsito, conhece algum que se chame Camellia?
- Quem? - perguntou Cormier.
 - Camellia. Est a ver aquelas flores brancas e cor-de-rosa em cima da mesa? Chegaram esta manh com uma nota que dizia apenas: "Obrigada por tudo. Camellia."
 - Homens - comentou Beth, desdenhosa. - Aquelas flores brancas e cor-de-rosa como Lhes chamaste so camlias. Deixa-me ver essa nota. - Comeou a ler e encolheu 
os ombros. - Realmente  tudo o que diz.
 - Muito agradecido por teres confirmado - redarguiu Crisp com mordacidade. - Durante todo o curso de direito, as minhas notas em leitura foram sempre muito baixas.
 - Ora vamos l ver... Vocs dois acalmem-se - interveio Cormier. Esfregou o queixo. - Camellia  um nome suficientemente estranho para que eu no o tivesse esquecido. 
Camlias oferecidas pela Camellia, no ?... - A sua voz interrompeu-se ao tentar estabelecer uma ligao entre o nome e a pessoa. Finalmente, abanou a cabea. - 
Pois bem, imagino que um pequeno lapso de memria aqui e ali  um preo pequeno a pagar pela frustrao que sou capaz de causar no senado, servindo-me do resto da 
minha senilidade. Quem quer que ela seja, ter de continuar a viver sem a minha nota de agradecimento.
Naquele momento, Mrs. Fuller reapareceu  entrada do quarto.
 - Eu disse cinco minutos e j passou mais do que isso - acentuou ela. - Estou pronta a jurar que o senhor  o doente mais obstinado e impertinente que alguma vez 
me passou pelas mos.
 - Muito bem, muito bem, j acabmos - retorquiu Cormier, fazendo um gesto para que os outros trs sassem do quarto. - Sabe, Mistress Fuller, se no adoar o seu 
temperamento dentro em pouco, passar da classe dos cruzeiros elegantes para a categoria dos navios de combate. - Sorriu para a enfermeira, acrescentando: - Mas, 
mesmo assim, continuar a ser a minha enfermeira preferida. Agora v com muita calma ao espetar essa agulha.
A enfermeira limpou com lcool a regio da ndega esquerda de Cormier e deu-lhe a injeco que continha o medicamento pr-operatrio. Quinze minutos mais tarde, 
o senador comeou a sentir a boca seca. sendo invadido por uma sensao de que o seu corpo no Lhe pertencia.  semelhana da luz de um farol, as luzes de tecto 
do corredor passavam por si com toda a rapidez, enquanto era levado de maca para o bloco operatrio.
Louis Ketchem era um mdico com uma vasta experincia de estatura elevada e ombros encurvados, que exercia a actividade de cirurgio havia mais de vinte e cinco 
anos. Durante esse perodo, j realizara centenas de operaes  vescula biliar. Nenhuma Lhe tinha corrido to bem como a do senador Richard Cormier. A remoo 
do saco inflamado e cheio de pedras no tinha oferecido qualquer problema,  excepo da quantidade de sangue proveniente do fgado adjacente. Tal como procedera 
em centenas de ocasies, ordenou que se fizesse uma unidade de transfuso de sangue, durante a ltima meia hora da interveno cirrgica.
O anestesista, John Singleberry, agarrou no recipiente de plstico que continha o sangue que a enfermeira, uma jovem mulher de nome Jacqueline Miller, Lhe entregara. 
Verificou por duas vezes o nmero do saco, antes de o aplicar ao tubo intravenoso. A fim de apressar a transfuso, envolveu o saco com o sangue numa almofada de 
ar, comeando a apert-la. Cormier, profundamente anestesiado e a receber oxignio atravs de um ventilador, dormia um sono despovoado de sonhos, enquanto o sangue 
fluia pelo tubo abaixo em direco ao seu brao, qual serpente de uma tonalidade carmim.
No mesmo instante em que o sangue comeou a fluir por baixo da coberta de papel verde, Jacqueline Miller afastou-se. A droga que Lhe haviam dito que utilizasse, 
aquela que injectara no interior do recipiente de plstico, era ouabama, a forma mais poderosa e de aco mais rpida de digitalis, uma droga que desaparecia to 
rapidamente da corrente sangunea, sem deixar quaisquer vestgios da sua presena quando submetida a uma anlise qumica, que at mesmo a dose macia que ela utilizara 
era virtualmente impossvel de detectar. O espao de trs minutos era tudo o que a ouabama requeria para actuar.
Sem qualquer aviso prvio, o traado do monitor do ritmo cardaco passou de lento e regular para um estado absolutamente catico. John Singleberry olhou para a luz 
dourada que oscilava para cima e para baixo no ecr do monitor acima de si, passando vrios segundos com os olhos fixos nele sem querer acreditar no que via.
- Mas que grande merda, Louis! - gritou Singleberry. - Ele entrou em fibrilhao!
Ketchem, que no se Lhe deparava uma paragem cardaca na sala de operaes havia muitos anos, ficou como que paralizado, com as duas mos no interior do abdmen 
de Cormier. As suas instrues, quando finalmente foi capaz de as dar, foram inadequadas. No fora o expediente das enfermeiras, incluindo Jacqueline Miller, podiam 
ter decorrido vrios minutos sem que se verificasse uma aco firme da sua parte. Com muda rapidez, comearam a ser inseridas compressas esterilizadas no interior 
da inciso, tendo sido aplicados dois contrachoques que no mostraram quaisquer resultados positivos. Segundos mais tarde, a leitura no monitor era a de uma linha 
direita.
Sem qualquer aviso, Ketchem agarrou num bisturi e alongou a inciso que havia feito, prolongando a abertura atravs do fundo do diafragma de Cormier. Meteu a mo 
por essa abertura e agarrou no corao do homem, comeando a apert-lo em movimentos rtmicos. Entretanto, houve uma enfermeira que foi a correr em busca de auxlio, 
embora todos os que se encontravam presentes na sala de operaes j soubessem que aquela iniciativa seria intil; estava tudo terminado. Ketchem continuava a comprimir, 
mas pouco depois parou e olhou para o monitor. Viu uma linha a direito. Continuou a fazer mais algumas compresses.
Durante vinte minutos no desistiu, sem que conseguisse obter a mnima actividade na luz dourada. Finalmente, interrompeu os seus esforos. Durante mais de um minuto 
ningum se mexeu naquela sala. Ketchem mordeu o lbio inferior, olhando por cima da mscara para o corpo do amigo. Ento, aproximaram-se duas enfermeiras que o agarraram 
pelos braos, ajudando-o a afastar-se da mesa de operaes e conduzindo-o para a sala dos cirurgies.
Tendo-se posto de lado, afastada dos demais, Jacqueline Miller cerrou os olhos. receando que eles pudessem reflectir o sorriso excitado que ocultava por detrs da 
mscara. A maior aventura de toda a sua vida estava a chegar ao fim coroada de triunfo. Oh. claro que fora Dahlia quem Lhe dissera onde teria de ir e o que dizer, 
mas tinha sido ela quem efectivamente consumara o acto. A pequena Jackie Miller, fazendo o que bem quis de um dos mais ricos e poderosos homens em todo o mundo da 
indstria petrolfera.
Sentia um formigueiro de excitao devido ao que acontecera: desde a sua adolescncia, passada numa habitao esqulida, at ao encontro secreto em Oklahoma com 
o presidente da Beecher Oil. Que diria Mr. Jed Beecher se soubesse que a mulher que estava a dar-lhe instrues, a mulher que auferiria o seu quarto de milho de 
dlares, a mulher que Lhe ditava todos os seus movimentos, tinha acabado de efectuar a sua primeira viagem a bordo de um avio?
Em silncio, Jacqueline celebrava a boa fortuna que trouxera Dahlia e O Jardim  sua vida. Continuava a saber muito pouco quer de um quer do outro, mas presentemente 
isso era coisa que no lhe interessava em nada. Quando Dahlia estivesse pronta para revelar a sua identidade, ela f-lo-ia e, portanto, no havia mais nada a acrescentar 
quanto a esse assunto. Desde que o empolgamento e os pagamentos mensais continuassem a verificar-se com regularidade, Camellia estava disposta a fazer tudo o que 
Lhe fosse pedido, mantendo os olhos e os ouvidos bem abertos para os casos que poderiam vir a ter interesse para O Jardim. Em relao a  Irmandade da Vida, muito 
simplesmente, a organizao teria de sobreviver sem mais qualquer participao de Jackie Miller. Tinham-se acabado as borlas.
Mxico, Jamaica, Grcia, Paris, Jacqueline assinalou mentalmente todos aqueles lugares. S mais um caso como aquele e ela estaria em condies econmicas de poder 
visit-los todos. As brochuras eram de fazer perder a cabea.
Atrs dela, sobre a estreita mesa operatria, tapado com um lenol at ao pescoo, o senador Richard Cormier tinha o mesmo aspecto que mantivera ao longo de toda 
a operao. Com a nica diferena de que o seu sono vazio de sonhos duraria para toda uma eternidade.



Captulo 12

 - Minhas senhoras e meus senhores, se todos ocuparem os vossos assentos, ser-nos- possvel comear a albergar esperanas de que possamos chegar ao fim deste inqurito, 
dentro de um perodo de tempo razovel.
Semelhante a uma rainha do cinema j idosa, o Anfiteatro Morris Tweedy, do Hospital Mdicos de Bston, conseguira manter-se ao ritmo da presso inexorvel que acompanhava 
a passagem dos anos, o que fora feito com graciosidade e estilo. A despeito de se encontrar inegavelmente deteriorada em pequenos pormenores, a acolhedora sala abobadada 
de conferncias continuava a manter com altivez a sua magnificncia, no cimo da Ala Oeste, a qual j fora objecto de trabalhos de renovao em trs ocasies. Em 
tempos idos, os setenta e cinco bancos corridos daquele espao, dispostos em socalco, conhecido por "o amfi", conseguiram acomodar quase todo o pessoal mdico do 
hospital: enfermeiras, mdicos e estudantes de medicina. No entanto, em 1929, depois de quase cinquenta anos de servio, fora substitudo por um anfiteatro consideravelmente 
mais espaoso e construdo na cav
e da Ala Sudeste, deixando de ser a sala de conferncias mais ampla do hospital, destinada tambm a outras ocasies formais.
No decurso de horas interminveis passadas em discusses acaloradas, ocasies essas em que haviam sido sopesados os prs e os contras que envolviam a demolio daquelas 
paredes de um verde-jade. os argumentos foram interrompidos abruptamente em 1952' quando o corpo legislativo estadual Lhe atribuiu o estatuto de marco histrico. 
As clarabias com vitrais, os assentos de madeira de aspecto severo e as figuras em baixo-relevo reproduzindo momentos cheios de significado na histria da medicina 
foram assim preservados para as geraes vindouras de mdicos estagirios ansiosos por mostrarem os seus mritos.
Porm, apesar de um sculo de servio ininterrupto, o Anfiteatro Morris Tweedy jamais presenciara uma sesso com as caractersticas daquela, em que se havia reunido 
um grupo de cinquenta homens e mulheres. Eram vinte horas; um domingo, dia cinco de Outubro, dois dias depois do exame pstumo ao corpo de Charlotte Thomas.
Na sua qualidade de chefe do pessoal mdico do hospital, Margaret Armstrong sentava-se por detrs de uma pesada mesa de carvalho macio, de frente para os assentos 
colocados em forma de meia-lua. ao seu lado, fazendo vrias tentativas para imprimir alguma ordem  sala, encontrava-se o tenente John Dockerty. Era um homem magro 
que usava umas roupas sempre amarfanhadas, prestes a atingir os cinquenta anos. Envergava um fato de fazenda de gabardine que dava a impresso de ser. pelo menos, 
dois tamanhos acima da sua medida. Os seus olhos de um verde mortio sondavam o anfiteatro, aps o que se concentraram numa pilha de papis que colocara sobre a 
mesa  sua frente. Quando baixava o olhar, algumas madeixas do seu cabelo ralo de um castanho-avermelhado tombavam-lhe sobre um dos olhos. Com um gesto absorto, 
o detective afastava-as para trs, para repetir o mesmo ritual momentos mais tarde.
O seu aspecto, um tanto ou quanto languido, de uma quase distraco total, sugeria que ele j fora ao encontro da maior parte de tudo o que existia na vida que pudesse 
ser visto. De facto, ele j contava com mais de quinze anos ao servio das foras policiais de Bston, perodo de tempo em que se aplicara no refinamento dessa maneira 
de estar, ao mesmo tempo que aprendia qual a melhor forma de a utilizar em seu benefcio.
Voltou a olhar para a sala e comeou a falar com Margaret Armstrong, articulando as palavras atravs do canto da boca.
 -  bvio que este grupo de gente est mais vocacionado para dar ordens do que para receb-las.
Margaret soltou uma risada que dizia estar de acordo com ele, aps o que bateu por vrias vezes com um bloco de apontamentos sobre a superfcie da mesa.
 - Querem fazer o favor de se sentarem? - disse ela em voz alta. - Caso no possamos dar a nossa cooperao ao tenente Dockerty, no mnimo dos mnimos, temos a obrigao 
de Lhe mostrar boas maneiras. - Em menos de um minuto, todos os presentes tomaram os seus lugares.
O administrador do hospital encontrava-se sentado numa das extremidades laterais do anfiteatro, rodeado pelos seus assistentes. Era um homem panudo e de trato afectado, 
o qual fugira de sua casa em Brooklyn com a idade de dezassete anos. tendo mudado o seu nome de Isaac Lifshitz para Edward Lipton. Durante vrios anos conseguira 
manter o seu emprego, fazendo com que os seus inimigos estivessem sempre uns contra os outros, o que pusera em prtica com tal artimanha que nenhum deles jamais 
conseguira formar uma frente unida que Lhe desse o apoio suficiente para correr com ele da administrao do hospital.
Na extremidade oposta do anfiteatro sentavam-se os membros. homens e mulheres, da direco do hospital. Os homers, um grupo homogneo e de aspecto patrcio, estavam 
bastante mais preocupados com o impacte que a sua posio na direco pudesse ter na listagem do Quem  Quem do que com a influncia que exerciam sobre o Hospital 
Mdicos de Bston. O homem de raa negra que fazia parte da direco por mero simbolismo s se distinguia dos outros pela cor da sua pele, enquanto as quatro mulheres 
no tinham nada que as distinguisse entre sit O inqurito assinalava a primeira vez em que aqueles vinte e quatro membros, que formavam o conselho de direco, se 
encontravam todos presentes numa reunio.
A meio da coxia central, sentava-se Wallace Huttner acompanhado de Ahmed Hadawi, assim como dos outros membros do Comit Executivo do Corpo Mdico. Fazendo parte 
desse grupo sentado logo  direita de Huttner, encontrava-se Peter Thomas.
A parte posterior do anfiteatro era o domnio das enfermeiras. Havia um grupo de oito. todas com roupas normais, com a impresso de formar uma roseta em redor de 
Dotty, a qual apresentava uma aparncia vulcnica com o vestido negro de grande simplicidade. Janet Poulos tambm se encontrava presente, juntamente com Christine 
Beall e vrias outras enfermeiras da Ala Quatro Sul, onde ce incluia Angela Martin.
No lado direito do anfiteatro, vrias filas atrs de Edward Lipton III, sentava-se David. Manteve-se sozinho at quase ao ltimo minuto, quando Howard Kim, o anestesista 
que ajudara na reanimao fracassada de Charlotte Thomas, desceu as escadas no seu passo pesado, instalando o seu corpo corpulento junto do de David.
John Dockerty tinha elaborado a lista dos convidados da noite. Por seu lado, a Dra. Armstrong tratara dos preparativos adicionais.
 - Quero agradecer a todos por terem vindo - comeou Dockerty. - Tm de me acreditar quando vos digo que os inquritos, como o que pedi para esta ocasio, ocorrem 
com muito mais frequncia na srie Columbo e nos romances da Agatha Christie do que no trabalho do dia-a-dia das foras policiais. No entanto, tenho a inteno de 
prosseguir com a mxima rapidez que for possvel no caso de Charlotte Thomas, em que todos se encontram envolvidos de uma maneira ou de outra. Pondo a questo nestes 
termos, devo dizer que a teatralidade nunca foi o meu prato forte. Todavia, esta reunio parece-me ser a forma mais eficaz de me permitir reunir as informaes preliminares 
de que necessito, enquanto ao mesmo tempo mantenho elucidadas todas as partes interessadas. ao longo dos dias mais prximos, contactarei alguns de vs com a finalidade 
de conduzir averiguaes individuais.
O detective olhou para Margaret Armstrong, a qual acenou num gesto de aprovao para com as suas palavras de abertura. Em seguida, passando a mo pelos cabelos para 
os colocar no seu devido lugar, Dockerty chamou Ahmed Hadawi, indicando-lhe um assento que ficava do outro lado da mesa de carvalho, num ngulo que permitia ao patologista 
olhar para ele sem que fosse forado a virar totalmente as costas aos que assistiam a reunio.
 - Doutor Hadawi, quer fazer o favor de nos explicar a natureza do seu envolvimento no caso de Charlotte Thomas? - perguntou Dockerty.
Hadawi espalhou umas quantas folhas com apontamentos  sua frente, aps o que tomou a palavra.
 - No dia trs de Outubro procedi a um exame clnico pstumo ao corpo da mulher em questo.  primeira vista, esse exame revelou que ela tinha uma escara agravada, 
devido ao facto de se encontrar acamada h muito tempo, localizada acima do osso sacro, para alm de um estreitamentO, moderadamente avanado, da artria coronria, 
assim como uma pneumonia extensiva. A minha impresso inicial foi que ela tinha morridO por causa de uma paragem cardaca sbita, a qual fora provocada pelas infeces 
de que sofria, a par das suas condies de sade que, de uma maneira geral, eram gravemente debilitantes' o que teve como origem as duas intervenes cirrgicas 
a que havia sido submetida.
 - Doutor Hadawi, essa continua a ser a sua impresso? - perguntou Dockerty.
 - No, no. Os mdicos da falecida, o doutor Wallace Huttner e o doutor David Shelton, assistiram  autpsia. Ambos pediram uma anlise qumica pormenorizada ao 
sangue do cadver.
 - Peo-lhe que me esclarea um ponto, doutor Hadawi - interrompeu o detective. - No  costume fazerem-se rotineiramente essa espcie de exames qumicos em cada 
um dos... hum... doentes?
Hadawi esboou um sorriso sarcstico, colocando as mos entrelaadas sobre a mesa.
 - Quem me dera que isso fosse possvel - retorquiu ele. - Infelizmente, os exames pstumos tm de ser custeados pelo estabelecimento hospitalar envolvido, devendo 
acrescentar-se que so muitssimo dispendiosos, uma vez que compreendem estudos histofisiolgicos bastante sofisticados, diverso apoio logstico e tudo o mais que 
seja necessrio. Embora jamais omitamos deliberadamente uma anlise ou exame ao microscpio que sejam importantes, ns' os que trabalhamos no Servio de Patologia, 
temos a obrigao, apesar disso, de equilibrar o nosso zelo com a capacidade de discernimento, o que nos permitir manter-nos dentro dos limites do nosso oramento. 
- Fez uma pausa de alguns momentos, lanando um olhar prolongado e hostil na direco de Edward Lipton III.
 - Faa o favor de continuar - disse Dockerty, tomando algumas notas no bloco de apontamentos que tinha  sua frente.
 - Das muitas anlises qlnicas que foram realizadas, houve duas que apresentaram resultados com ndices elevadamente anormais - continuou Hadawi depois de consultar 
as suas notas. - A primeira destas, feita ao nvel do potssio, cifrava-se em sete ponto quatro, quando o limite mximo normal  de cinco ponto zero. A segunda dizia 
respeito ao ndice de morfina encontrado no sangue de Mistress Thomas, o qual se situava bastante acima da quantidade normal que deveria ser encontrada no organismo 
de um doente a quem so ministradas as doses habituais de sulfato de morfina, com a finalidade de atenuar as dores.
 - Doutor Hadawi,  capaz de nos dizer qual a sua opinio com referncia a essas concluses? - A voz de Dockerty no deixava adivinhar o mais leve vestgio de tenso.
 - Ora bem, a minha impresso no que respeita ao nvel potssico excessivo, e agradeo-lhe que considere isto como sendo apenas a minha opinio pessoal,  de que 
este foi induzido artificialmente a tal ndice, o que se dever ao efeito das ocorrncias verificadas nos tecidos durante e logo aps a paragem cardaca. Por seu 
lado, a subida do nvel de morfina j  uma histria completamente diversa. Sem qualquer dvida, o ndice que se encontrou no cadver desta mulher  desmesuradamente 
elevado. Embora seja possvel que tal no tenha acontecido, este era suficientemente elevado para, com toda a facilidade, ter provocado a interrupo do processo 
respiratrio, o que, em ltima anlise, poder ter sido a causa da morte.
Dockerty passou alguns segundos a pentear os cabelos distraidamente com os dedos.
 - Doutor, deduzo pelas suas palavras que a morte foi causada por uma dose excessiva de morfina. - Hadawi acenou afirmativamente. - Diga-me se, na sua opinio, uma 
dose dessa magnitude poderia ter sido administrada acidentalmente.
Hadawi ficou com uma respirao entrecortada, fitou o detective por breves instantes e abanou a cabea.
 - No - respondeu. - No estou em crer que isso fosse possvel.
No anfiteatro no se via o mais pequeno movimento. Durante vrios segundos, Dockerty permitiu que aquele silncio sepulcral se mantivesse.
 - Este aspecto, minhas senhoras e meus senhores - prosseguiu por fim o detective num timbre suave de voz - , faz com que a morte de Charlotte Thomas seja classificada 
de homicdio. Este assassnio  o que nos levou a reunirmo-nos aqui. - Uma vez mais o silncio pairou naquele espao. Desta feita, Hadawi agitou-se desassossegadamente 
no seu assento, mostrando-se ansioso por dar a sua participao por terminada.
- Muito obrigado pelo seu contributo, senhor doutor!
- agradeceu-lhe Dockerty. Enquanto Hadawi se levantava para se retirar. o detective acrescentou: - S mais um pequeno pormenOr. O senhor mencionou que os testes 
qumicos foram feitos por ordem dos mdicos de Mistress Thomas, ah... - LanOU um olhar de relance aos seus apontamentos - Sim... Os doutores Huttner e Shelton. 
Recorda-se de qual deles  que, especificamente, deu instrues para a realizao dessas anlises?
Os olhos escuros de Hadawi semicerraram-Se ao perscrutar o rosto de Dockerty, procurando algum sinal quanto ao significado daquela pergunta. Por fim, com um encolher 
de ombros que denotava perplexidade respondeu:
 - Bem, se a memria no me atraioa, foi o doutor Shelton quem pediu a anlise ao nvel do potssio. Os restantes exames foram efectuados por instrues do doutor 
Huttner.
Com um gesto Dockerty indicou ao patologista que regressasse ao seu lugar entre os que assistiam  reunio, enquanto murmurava outro agradecimento. Examinou os presentes 
por breves instantes.
 - Doutor Shelton? - chamou o detective quando j tinha comeado a desviar o olhar.
Howard Kim elevou uma manpula macia e deu uma palmada nas costas de David quando este passou  frente do seu corpo volumoso, deslocando-se de lado em direco 
 coxia. Havia vinte e quatro horas que David tivera conhecimento dos resultados anormais da anlise feita ao sangue, tendo mesmo ouvido pelas enfermarias os rumores 
mais inconcebveis, os quais diziam estar em curso uma qualquer investigao policial. Apesar de a Dra. Armstrong no Lhe ter dito que ele seria chamado a prestar 
declaraes' no se sentiu nada surpreendido por ser convocado pelo detective.
Dockerty sorriu. apertou-lhe a mo com firmeza, indicando-lhe com um gesto que se sentasse no lugar acabado de vagar por Hadawi; em seguida, mostrando-se um tanto 
desinteressado, levou-o a que descrevesse minuciosamente todos os acontecimentos que haviam ocorrido logo aps a paragem cardaca de Charlotte Thomas. Gradualmente, 
as declaraes de David foram-se tornando mais fluentes e animadas. O estilo de conversa de Dockerty fazia com que ele se expressasse com maior facilidade. ao cabo 
de pouco tempo, David partilhava informaes com o detective de aspecto mal aprontado da mesma maneira descontrada que dois amigos teriam mostrado em amena cavaqueira 
numa qualquer cervejaria. Mas, a certo ponto, sem alterar a cadncia e o tom em que a conversa era travada, o detective retomou a palavra.
 - Diga-me, doutor Shelton. Pelo que me foi dado entender, pouco antes de Mistress Thomas ter sido encontrada por si, tendo o senhor verificado que ela no respirava 
nem tinha pulso, o senhor havia trocado impresses com a doutora Armstrong, aqui presente, acerca dela e de outro doente em estado grave, conversa em que tambm 
participaram algumas enfermeiras, nomeadamente... ah, sim... - continuou ele consultando os seus apontamentos. - Ah, as enfermeiras Edgerly, Gold e Beall. Importa-se 
de me elucidar quanto ao que foi dito ao longo dessa troca de impresses?
Durante cinco segundos, dez ou talvez mesmo quinze, David sentiu-se incapaz de proferir qualquer palavra. Aquela conversa no se enquadrava. No fazia o mnimo sentido, 
a no ser que... A sua mente examinava num turbilho todas as implicaes da pergunta que Dockerty fizera a Hadawi, em que o detective quisera saber qual dos mdicos 
 que tinha ordenado as anlises que posteriormente tinham revelado o nvel excessivo de morfina no organismo do cadver. O mesmo sentimento de receio, indefinvel 
e to imperceptvel, que manifestara a sua presena entre as emoes do mdico na noite em que fora  Ala Quatro Sul, invadia-o naquele momento de forma contundente. 
A sua fronte comeou a latejar. Sentiu as mos rgidas e entorpecidas. "Mas que grande merda! Ele anda atrs de mim! Ele prepara-se para me dar caa!"
Naquele momento, apercebeu-se de que os olhos de Dockerty tinham mudado da forma lquida para a do ao, mantendo-se presos em si, sondando e avaliando, penetrando 
o seu corpo. David dava-se conta de que estava a levar muito tempo - de facto, um perodo de tempo excessivo - a reagir  pergunta do detective. Respirou fundo e 
tentou banir o pnico que se apossara de si. "Descontrai-te e tenta no fazer uma leitura to sinistra de tudo isto", pensou ele. "Limita-te a dizer ao homem aquilo 
que ele pretende saber."
 - Doutor Shelton, est recordado do incidente a que estou a aludir? - Sob a pacincia elaborada que se sentia na voz de Dockerty, adivinhava-se um timbre cortante.
Ainda antes de responder, David pressentiu que as suas palavras sair-lhe-iam da boca com uma entoao gaguejada e atabalhoada. O que veio a acontecer. Expressando 
os seus pensamentos de forma incoerente e intercalando vrias hesitaes, comeou a falar.
 - Eu limitei-me a dizer-lhes que... um doente que se encontra... debaixo de um grande sofrimento e com muito poucas esperanas de poder vir a recuperar do mal que 
o aflige, poderia... poderia ser tratado com alguma conteno. Especialmente, se os mtodos teraputicos estabelecidos forem... particularmente dolorosos ou... desumanizados... 
tal como ser ligado a um ventilador. - Contrariou com toda a sua fora de vontade a ansiedade de dizer mais, evitando conscientemente o tipo de discurso que reflectiria 
pnico, o qual resulta muitas vezes do facto de se tentar elucidar uma explicao antecedente.
Em movimentos lentos, Dockerty correu a ponta da lngua pelos dentes; comeou a tamborilar com a extremidade de borracha do seu lpis sobre o tampo da mesa. Coou 
a cabea.
 - Doutor Shelton - prosseguiu o detective ao fim de algum tempo - , no sabe que a no aplicao de tratamentos a um doente  uma forma de morte misericordiosa? 
Mais concretamente, de eutansia?
 - No, no me parece que seja qualquer forma de matar. - Por baixo do receio que sentia, comeou a surgir o travo da clera. A sua voz tornou-se mais tensa. As 
palavras assomavam-lhe  boca com demasiada celeridade. - , isso sim, o exerccio de uma prtica clnica com sensibilidade e de boa qualidade. Tem tudo a ver com 
o ser-se um bom mdico. Por amor de Deus, eu nunca advoguei que se desligasse um ventilador, nem to-pouco a administrao de qualquer substncia fetal, em relao 
a um s paciente que fosse.
 - Nunca? - Dockerty lanou a palavra com suavidade.
 - Raios partam isto! - explicou David. - Tenente, j aturei mais do que o suficiente das suas insinuaes! - Naquele momento abstrara-se por completo de todos 
os que se encontravam presentes no anfiteatro. - Caso tenha alguma acusao a apresentar, deve faz-lo de imediato. E, enquanto concretiza isso, aproveite para explicar 
por que motivo fui eu quem repetiu incessantemente que havia algo que no jogava certo em todo o processo de reanimao. Por que  que fui eu a pessoa que pediu 
a anlise ao nvel do pot... - A palavra imobilizou-se-lhe na boca. Compreendeu, mesmo antes de Dockerty ter recomeado a falar, onde  que o detective queria chegar. 
- Maldio! - sibilou ele entre dentes, dando largas  sua frustrao.
 - Eu tive a oportunidade, doutor Shelton, de falar de fugida com alguns dos outros mdicos e enfermeiras que estiveram consigo no quarto da Charlotte Thomas, aquando 
da tentativa de reanimao. Tal como o senhor, algumas dessas pessoas sentiram-se perturbadas ao perceberem que havia qualquer coisa que no era absolutamente normal. 
ao que tudo indica, o problema foi por de mais evidente para no ter escapado  ateno de outros, alm de si. Quer eles tivessem ido to longe como pedir que fossem 
realizadas anlises ao sangue desta mulher, quer no,  um aspecto que jamais viremos a conhecer, uma vez que o senhor se Lhes antecipou. Pelo menos no que diz respeito 
ao potssio, foi precisamente o que fez.
 - E est a tentar dizer que eu procedi assim com a finalidade de me salvaguardar, e com o intuito de que ningum pensasse em qualquer outra coisa, como por exemplo 
na morfina? - Dockerty limitou-se a um encolher de ombros. - Isso  ridculo! Quero dizer que essa suposio  uma verdadeira loucura - gritou David.
 - Doutor Shelton - retorquiu o detective com toda a calma - , por favor, tente controlar-se. Eu no estou a acus-lo, nem a qualquer outra pessoa, seja do que for.
 - Por enquanto - ripostou David com brusquido.
 - Desculpe, mas no entendi o que disse?
 - Nada. J perguntou tudo o que me tinha a perguntar? - retorquiu David.
 - J sim, muito obrigado. - Uma vez mais, a postura de Dockerty era to mecnica como se tinha mostrado ao longo da maior parte do inqurito.
Enquanto David regressava ao seu lugar, reparou que a meio da coxia central Wallace Huttner permanecia sentado, olhando-o fixamente com uns olhos de expresso metlica. 
Involuntariamente, sentiu-se estremecer.
Dockerty sussurrou algo  Dra. Armstrong durante alguns segundos, aps o que chamou Dorothy Dalrymple. A chefe das enfermeiras conseguiu levantar-se a custo do seu 
lugar, executando os movimentos laterais de uma rolha a sair do gargalo de uma garrafa. Depois de se ter libertado do assento, desliZOU pela coxia com uma graciosidade 
paradoxal. Trocou um apertO de mo cheio de feminilidade com Dockerty, aps o que se instalou na cadeira de carvalho, exibindo um sorriso que dizia estar pronta 
a comear
Dockerty levou-a a descrever o aspecto de Charlotte Thomas no dia anterior  sua morte, tal como se encontrava sumariado nos apontamentos elaborados pelas enfermeiras.
 - O relatrio das enfermeiras  feito geralmente no final de cada turno de trabalho - explicou Dalrymple. - Por conseguinte, os apontamentos referentes ao turno 
da noite de dois de Outubro, s foram escritos depois da morte da doente. No entanto, a enfermeira que nessa noite tinha a seu cargo Mistress Thomas, Miss Christine 
Beall, viu-a s dezanove horas, aproximadamente duas horas antes do falecimento. O seu relatrio, elaborado de uma maneira excelente,  bem claro ao dizer que a 
paciente se encontrava, e passo a citar, "alerta, com sentido de orientao e um tudo-nada menos deprimida do que se mostrara ultimamente". Miss Beall acrescentou 
ainda que os seus sinais vitais, pulso, respirao, temperatura e tenso arterial encontravam-se todos estveis. - Neste ponto das suas declaraes, Dalrymple virou 
os seus ombros macios na direco da assistncia, olhando para a zona onde as enfermeiras se mantinham agrupadas. - Miss Beall - chamou ela - , tem alguma coisa 
a acrescentar ao que eu acabei de dizer ao tenente?
Christine, que se sentira extremamente deprimida e alheada dos acontecimentos em seu redor desde a exploso temperamental de David, no prestava ateno ao desenrolar 
dos acontecimentos. Havia menos de vinte e quatro horas que ela se inteirara da existncia de morfina no corpo de Charlotte. A informao fora-lhe dada atravs do 
telefone por Peg, a enfermeira que Lhe tinha pedido que avaliasse o estado de sade de Charlotte Thomas.
 - Christine, quero mant-la a par de tanto quanto ns sabemos daquilo que est a passar-se no hospital, sem que no entanto voc se sinta preocupada por motivos 
desnecessrios - dissera-lhe a mulher. - Amanh  noite vai ter lugar uma espcie de inqurito relativo a este caso, de acordo com as informaes que me foram facultadas. 
Vo enviar um detective ao hospital. No entanto, a sua "irm" a Janet Poulos, reviu os seus apontamentos na papeleta da doente. Ela est convicta de que no existe 
nada nesse documento que possa implic-la, seja de que forma for. Estamos em crer que essas averiguaes no produziro quaisquer resultados, pelo que ser de pouca 
durao. Acreditamos tambm que a morte de Charlotte Thomas ser atribuda s aces de qualquer pessoa, cujo nome e motivos jamais viro a ser descobertos. Todas 
as actividades d'A Irmandade, que tm lugar no seu hospital, sero reduzidas indefinidamente, pelo que dentro de pouco tempo todo esse assunto dever ser esquecido. 
Voc no corre qualquer perigo, seja este de que natureza for, Christine... Por favor acredite no que estou a dizer-lhe.
Christine, com os lbios fortemente cerrados, olhava, absorta, para a abbada dourada e azul quando Dalrymple se Lhe dirigiu.
Afastada por vrios lugares, Janet Poulos observava sem poder fazer nada, com todos os msculos tensos perante a perspectiva de Christine se pr de p, fazendo a 
sua confisso aos gritos para que todos os presentes a ouvissem, no prosseguimento do que gritaria o nico outro nome d'A Irmandade de que tinha conhecimento: o 
de Janet. Deus do cu, como ela desejava que tivesse havido um perodo de aviso suficiente para poder ter telefonado a Dahlia. Esta teria sabido com exactido a 
melhor maneira de lidar com aquele assunto.
O olhar de Janet afastou-se de Christine, concentrando-se no lugar onde Angela Martin se encontrava sentada, a qual mantinha os seus frios olhos azuis na cena que 
se passava mais abaixo de si; os seus cabelos dourados mantinham-se no seu lugar num penteado impecvel. A mulher era totalmente desprovida de nervos. Mesmo que 
fosse o seu nome o que Christine Beall conhecesse, Janet duvidava que Angela se mostrasse minimamente perturbada. Durante aproximadamente dez anos ambas haviam sido 
membros d'A Irmandade, sem nunca terem travado conhecimento pessoalmente. Agora eram melhores amigas; partilhando o empolgamento e as compensaes que Lhes advinham 
d'O Jardim e tecendo especulaes acerca da mulher que as reunira.
Janet perscrutou o anfiteatro, interrogando-se sobre se Dahlia teria arranjado maneira para que estivessem presentes outros olhos e ouvidos para alm dos de Hyacinth 
e de Lily. Reconheceu que, muito possivelmente, esse seria o caso.
A mulher continuava a no passar de uma voz sussurrada ao telefone; todavia, Janet sentia-se impressionada pela sua lgica plena de frieza, assim como pela sua fonte 
de informaes que parecia ser inesgotvel. Devido a ela, O Jardim crescia com estabilidade, tanto em outros hospitais como no Mdicos de Bston. Em todos os lugares 
onde existisse um membro d'A Irmandade da Vida, havia uma flor em perspectiva. Dahlia acreditava mais nisso do que em qualquer outra coisa. As directrizes de base 
das duas organizaes eram as mesmas: enfermeira e doente a ss num quarto. Talvez ela se tivesse mostrado demasiado precipitada em relao a Christine Beall, embora 
continuasse a ser uma mulher com uma capacidade de discernimento quase perfeita, a qual Janet desejava desesperadamente vir a conhecer.
Encontrando-se impotente de momento, Janet recostou-se mais para trs no seu assento, limitando-se a observar os acontecimentos.
 - Miss Beall? - voltou a chamar Dalrymple. Entretanto, Winnie Edgerly acotovelou Christine. - Perguntei-lhe se tinha alguma coisa a acrescentar quilo que eu j 
disse ao tenente.
Christine engoliu em seco. Uma vez e depois outra. Apesar disso, quando tentou falar s Lhe assomou  boca um som abrasivo semelhante ao de uma folha de lixa. Aclarou 
a garganta, apertando mais os braos da sua cadeira.
 - Lamento muito - disse ela com dificuldade. - No tenho mais nada a acrescentar.
Janet soltou um suspiro de alvio e cerrou os olhos. Beall conseguira ultrapassar aquela situao adversa.
Christine baixou o olhar at ao lugar onde David permanecia sentado; este mantinha a cabea apoiada na palma de uma das mos, mostrando um olhar vazio que no se 
despregava de Dalrymple e de Dockerty. Ela sentia tanto quanto via o seu isolamento. Na realidade, apercebeu-se de que ela prpria tambm se encontrava isolada. 
No obstante os telefonemas de Peg, apesar das palavras de Janet e do conhecimento que tinha de que A Irmandade da Vida Lhe dava todo o apoio, Christine sentia-se 
como se estivesse  deriva. Naquele momento. almejava poder correr para ele, instilando-lhe confiana fosse de que maneira fosse. Para Lhe dizer que ela, acima de 
toda a gente, sabia que ele no tivera nada a ver com a morte de Charlotte Thomas.
- Vai correr tudo da melhor maneira - murmurou Christine para consigo prpria, o que repetiu vezes sem conta. - Limita-te a deixar estar as coisas como esto e tudo 
ir compor-se. - Forou-se a concentrar a sua ateno nos acontecimentos que se desenrolavam um pouco mais abaixo de si.
 - Miss Dalrymple - continuou Dockerty - , tem consigo uma lista dos medicamentos que foram administrados a Charlotte Thomas?
A interpelada acenou que sim.
 - Ela estava a ser medicada com Cloramphenicol, o que  um antibitico, e Demoral, um analgsico.
 - Nada de morfina?
 - Nada de morfina - ecoou ela com um abanar de cabea para dar mais nfase s suas palavras.
 - Nada de morfina - repetiu Dockerty, deixando que a palavra ficasse a pairar no ar, embora nem por isso a sua voz deixasse de ser sobejamente elevada para que 
todos os presentes a ouvissem. - Diga-me - prosseguiu o detective - ,  plausvel que uma das enfermeiras, ou qualquer outro membro do pessoal hospitalar tenha conseguido 
apoderar-se de sulfat o de morfina em quantidades como as que o doutor Hadawi sugeriu terem sido administradas a Mistress Thomas?
Dalrymple ponderou cuidadosamente a pergunta antes de falar.
 - A resposta  sua pergunta ser, como  lgico, que qualquer pessoa pode lanar a mo a qualquer droga, desde que possa dispor da quantia suficiente em dinheiro, 
estando disposto a procurar fora dos canais legais para atingir os seus objectivos. No entanto, eu diria que  virtualmente impossvel a uma das minhas enfermeiras, 
ou a qualquer outra pessoa conseguir apoderar-se de mais do que uma quantidade nfima dos narcticos existentes no hospital. Bem v, em cada um dos pisos s existe 
uma quantidade muito reduzida de narcticos injectveis, o que  estritamente controlado por duas enfermeiras em cada mudana de turno, uma do grupo que tenha acabado 
o seu servio e outra daquele que vai comear a trabalhar. A enfermeira que supervisiona o turno da noite tem acesso ao armazm do hospital, mas, at mesmo a, os 
narcticos encontram-se fechados  chave com a maior segurana, e s os farmacuticos do hospital  que possuem a chave.
"Portanto - concluiu ela, mudando a posio do corpo rotundo na cadeira e entrelaando as mos, formando uma bola rechonchuda - , partindo do princpio que estamos 
a debater a forma legal, somente um mdico ou um farmacutico  que poderia obter uma quantidade substancial de morfina de uma s vez.
Dockerty acenou com a cabea, voltando a conferenciar numa voz murmurada com a Dra. Armstrong
 - Miss Dalrymple - continuou ele pouco depois - , os apontamentos das enfermeiras indicam se houve ou no quaisquer visitantes que tivessem ido ao quarto de Charlotte 
Thomas na noite da sua morte, no  verdade?
 - As visitas aos quartos dos doentes, para alm dos mdicos, no so habitualmente registadas no relatrio das enfermeiras. Todavia, estou em posio de Lhe poder 
dizer que no foi mencionada qualquer visita.
 - Nem sequer a do mdico que encontrou Mistress Thomas sem respirao e sem pulso? - perguntou Dockerty.
A expresso que se reflectia no rosto de Dalrymple indicava que aquela referncia dbia, por parte do detective, no merecia em nada a sua aprovao.
 - No - respondeu ela numa voz ponderada. - No houve qualquer meno relativa  entrada do doutor Shelton no quarto da doente. Apesar disso, apresso-me a acrescentar 
que a maior parte das enfermeiras fazia um intervalo nessa altura, precisamente no momento em que se verificou a paragem cardaca. Nessa ocasio no havia ningum 
no piso que pudesse ter dado conta da sua chegada.
Dockerty deu a impresso de ignorar aquele ltimo aspecto.
 -  tudo, muitssimo obrigado - agradeceu o detective. Enquanto ele indicava com um gesto  mulher que poderia regressar ao seu lugar, David mostrou-se inflamado 
de novo.
 - Tenente, eu estou a ficar farto disto tudo? - Num passo pouco seguro, ps-se de p' agarrando-se s costas da cadeira  sua frente.  sua esquerda, o rosto de 
lua cheia de Howard Kim ergueu-se na sua direco, exibindo uma fisionomia impassvel. - No sou capaz de compreender porque  que pensa aquilo que pensa, ou at 
mesmo at que ponto  que pretende chegar, mas permita-me que declare, aqui e agora, que eu jamais admmistraria uma droga, ou um tratamento, a um doente com o nico 
objectivo de o prejudicar fosse de que maneira fosse. - Nos segundos que se seguiram  sua tirada David ouviu de novo a sua pequena voz mental, a qual Lhe dizia 
que, uma vez mais, ele navegava ao sabor das suas prprias palavras, seguindo ao encontro de um redemoinho.
"Senta-te, por amor de Deus", insistia a voz. "Ele no tem meios para te poder prejudicar, meu idiota. Somente tu  que podes prejudicar-te a ti mesmo. Senta-te 
e cala a boca!"
A raiva e o pnico que cada vez eram maiores abafavam o som daquela voz. As suas palavras eram estranguladas.
 - Porqu eu? Certamente que existiro outros... o marido da falecida, familiares ou amigos, que tenham estado nesse quarto antes de mim. Por que razo  que est 
a acusar-me?
 - Doutor Shelton - redarguiu Dockerty numa voz neutra. - Eu no o acusei de nada. J Lhe disse isso h pouco mas dado que foi o senhor quem trouxe a questo a lume, 
nessa noite, o professor Thomas assistia a um seminrio. Encontravam-se presentes vinte e trs estudantes. Decorreu das dezanove s vinte e duas horas. E, tanto 
quanto ele sabe, no estavam programadas quaisquer visitas  mulher. Agora, se achar que j respondi cabalmente s suas questes, talvez possamos dar continuidade 
ao...
 - No! - gritou David, exaltado. - Todo este inqurito  um embuste. No passa de um qualquer simulacro de um tribunal perverso. Um estudante do primeiro ano de 
direito poderia conduzir uma averiguao mais imparcial do que esta. Se a sua inteno  arrastar-me para qualquer coisa, ento faa-o num tribunal onde, no mnimo 
dos mnimos, voc ter de responder perante um juiz. - David interrompeu-se, esforando-se por encontrar um resqucio de domnio pessoal. Dentro da sua mente, a 
voz retomou o seu discurso.
"No ests a ver, meu palerma, todo este inqurito foi uma cilada para que fizesses precisamente aquilo que fizeste at agora. Eu bem tentei dizer-te que mantivesses 
a cabea fria, mas tu nem sequer sabes como fazer isso, no  verdade?"
 - Muito bem - continuou Dockerty. - Parece-me que por agora j ouvimos o suficiente. Num futuro prximo, entrarei em contacto com alguns de vs, o que ser feito 
individualmente. Agradeo a todos o terem estado presentes. - Murmurou algumas palavras finais dirigidas  Dra. Armstrong e, em seguida, reuniu os seus apontamentos 
e deixou o anfiteatro, sem sequer lanar um olhar  figura petrificada em que David se transformara.
Quando finalmente este se acalmou o suficiente para largar as costas de madeira do assento  sua frente e olhar em seu redor, o Anfiteatro Morris Tweedy encontrava-se 
quase vazio. Christine e as outras enfermeiras j se tinham ido embora. Tal como o fizera Howard Kim. Quando examinou a parte de trs da sala, o seu olhar encontrou 
o de Wallace Huttner. Os olhos do cirurgio de estatura elevada estreitaram-se. Em seguida, com um abanar desdenhoso de cabea, voltou-lhe costas e encaminhou-se 
para a sada, seguindo de brao dado com Peter Thomas.
David deixara-se ficar sozinho, fitando a tabuleta de luzes vermelhas que dizia SADA por cima da porta do fundo, quando sentiu uma mo que Lhe tocava no ombro. 
Girou sobre os calcanhares e o seu olhar foi ao encontro dos olhos azuis, de expresso preocupada, de Margaret Armstrong.
 - Est a sentir-se bem? - perguntou a mdica.
 - Sim, com certeza, magnfico. - No fez qualquer tentativa para acalmar a rouquido no seu tom de voz.
 - David, lamento tanto tudo aquilo que sucedeu aqui. Se eu soubesse que o tenente Dockerty iria atirar-se a si com tanta violncia, jamais teria permitido que esta 
reunio se tivesse realizado. Ele s me disse que queria examinar o grau de espontaneidade das reaces de vrias pessoas. Acontece que voc foi uma delas. De sbito, 
voc entrou em erupo, no me tendo dado a mnima oportunidade de... - A mdica desistiu de tentar explicar. - Veja bem, David - continuou ela ao fim de algum tempo. 
- Eu gosto bastante de si, o que aconteceu desde o primeiro dia em que voc comeou a trabalhar neste hospital. S Lhe peo que me d a oportunidade de poder dizer 
o que tenho a dizer. Depois de tudo o que acabou de Lhe acontecer, eu sei que isso no ser nada fcil, mas, por favor, faa uma tentativa. Eu s pretendo ajud-lo.
David olhou para ela; conteve a clera que o invadia e acenou que sim.
 - Que tal conversarmos um pouco no Popeye's? - O sorriso dela era sincero e caloroso.
 - Pois seja, vamos at ao Popeye's - aquiesceu David agarrando no seu casaco. Lado a lado, os novos aliados deixaram o hospital.
O Popeye's, um marco local, j vira quase trinta anos de mdicos e enfermeiras que levavam os seus problemas, assim como as suas vidas, para as suas mesas. Do lado 
de fora do bar, um reclame de luzes de non garridas - motivo de orgulho e alegria da gerncia - representava as personagens extraidas das histrias aos quadradinhos, 
as quais iam em perseguio de Wimpy, que levava os braos cheios de hamburgers, cena que abrangia toda a largura da fachada do edifcio. Quando entraram, David 
avistou quatro das enfermeiras que haviam estado presentes no inqurito. Nem Dotty Dalrymple nem Christine Beall se encontravam entre elas.
 - H anos que eu no vinha aqui - comentou a Dra. Armstrong depois de ambos se terem instalado a uma mesa do fundo. - O meu marido fez-me a corte em algumas destas 
mesas compartimentadas. No h nada que tenha mudado realmente, com a excepo daquele reclame espalhafatoso do lado de fora, na fachada.
David reparou que ela no usava aliana de casamento.
 - O seu marido est vivo? - perguntou ele.
 - No, ele morreu h oito... no, h nove anos.
 - Sim, sim, que estupidez da minha parte - retorquiu David, recordando-se que ele,  semelhana de toda a gente do Hospital Mdicos de Bston, sabia que a mdica 
era a viva de Arne Armstrong, um neurofisilogo de renome mundial e um possvel laureado com o Prmio Nobel, houvesse vivido o tempo suficiente para poder completar 
o seu trabalho. - Lamento muito.
 - No seja disparatado... - atalhou a Dra. Armstrong, detendo-se a meio da sua frase quando uma loura de boa figura, que usava uma saia curta preta e uma camisola 
vermelha colada ao corpo, se aproximou para Lhes perguntar o que tomavam. - Eu quero uma cerveja, de presso. E aqui o meu namorado? - Sorriu a David.
 - Uma Coca-Cola - disse ele. - Dupla e com muito gelo.
A empregada de mesa afastou-se e Armstrong ps-se a olhar para David.
 - Nem sequer... com tudo o que Lhe aconteceu esta noite?
Ela sabia.  claro que ela sabia. Toda a gente estava a par. Mas ela no estava a p-lo  prova. Da sua voz transpirava, compreendeu David, um sentimento de respeito.
 - J passaram quase oito anos desde que bebi a ltima gota de lcool. Ou que tomei uma plula - acrescentou ele. - Ser preciso muito mais do que aquilo que o Dockerty 
possa vir a arranjar contra mim para eu voltar de novo a isso. Apesar de saber que os meus dentes acabaro por se evaporar devido a toda a Coca-Cola que consumo. 
- A sua voz esmoreceu. Ocorreu-lhe  mente o pensamento do detective como que a observ-lo placidamente atravs do corpo, ao que se seguiram as imagens de outras 
confrontaes a que ele fora forado a fazer frente ao longo dos anos, desde que Ginny e Becky haviam morrido.
Como se lesse os seus pensamentos, Armstrong prosseguiu.
 - David, voc sabe que eu estou ao corrente de muito do que aconteceu no passado. - Ele acenou que sim. - Pelo que voc deve estar bem ciente de que o tenente Dockerty 
tambm est a par desses factos. No tenho bem a certeza de como  que ele se inteirou de tanto em to pouco tempo, mas  inquestionvel que ele se mostra bastante 
eficiente no seu trabalho, pelo menos  o que me parece. E voc sabe que um hospital no passa de uma gigantesca casa de telhados de vidro. A vida de todos  assunto 
que diz respeito a todos os outros, e aquilo de que as pessoas no conseguem falar mal com um certo grau de certeza, habitualmente, so capazes de arranjar formas 
de preencher as lacunas.
David soltou uma nica gargalhada de pesar.
 - J anteriormente me vi na situao de ser o centro dos rumores de um hospital - retrucou ele. - Eu sei com toda a exactido o que  que quer dizer. No entanto, 
desta feita no se trata apenas de algumas especulaes inofensivas. Eu jamais me decidiria a prejudicar quem quer que fosse, quanto mais cometer um assassnio.
 - No tem necessidade de me dizer isso - replicou a mdica. - Eu j acredito em si. Tal como Lhe disse antes, parece-me que o tenente Dockerty  muito bom no trabalho 
que faz. Estou firmemente convicta de que esse aspecto vir a ser-lhe benfico. Tenho a impresso de que ele no  o gnero de indivduo que parar, at se encontrar 
perante um caso a toda a prova.
Entretanto, chegaram as bobidas que tinham pedido. David sentiu-se grato por ter a oportunidade de interromper aquela conversa por alguns minutos.
 - Talvez fosse prefervel eu deixar de exercer voluntariamente as minhas funes, at que todo este assunto seja esclarecido - alvitrou ele por fim.
Armstrong bateu com o fundo da caneca sobre a mesa derramando algum do lquido e provocando uma expresso de perplexidade no casal que se sentava a uma mesa prxima.
 - Raios o partam, meu jovem - exclamou ela - , nunca ao longo de toda a minha vida, encontrei algum que fosse tanto o seu pior inimigo quanto voc  de si prprio. 
Com base em tudo aquilo que ouvi esta noite, e naquilo que acreditO ser a verdade, o nosso amigo tenente ter de desenterrar muito mais em termos de provas incriminatrias, 
antes de eu permitir a quem quer que seja, incluindo voc prprio, que tome qualquer medida no sentido da sua suspenso de actividade. E, se por acaso voc pensa 
que eu no possuo essa espcie de poder por estas bandas, ento  melhor que me observe atentamente.
O sorriso que David esboou assomou-lhe aos lbios com mais facilidade do que acontecera durante toda a noite.
 - Estou-lhe muito agradecido - disse ele. - Muitssimo obrigado.
 - Ora bem, deixemo-nos disso. - Ela lanou um olhar ao seu relgio de pulso. - Este velho pssaro tem um dia muito agitado amanh no hospital. Portanto, sugiro 
que consideremos a noite por terminada. Havemos de ter oportunidade de voltar a conversar. Entretanto, voc tem de se obrigar a descontrair-se um pouco mais. Seja 
paciente. As pessoas como o detective Dockerty, entre as quais se inclui o seu amigo Wallace Huttner, no se Lhes pode dizer grande coisa. Eles prprios  que tm 
de deslindar os assuntos. - Com aquelas palavras Armstrong alisou uma nota de cinco dlares que havia colocado sobre a mesa e, sem esperar pelo troco, encaminhou-se 
para o seu automvel acompanhada de David.
Quando entrou e desceu o vidro da janela, David recomeou a falar.
 - Eu j me repeti em tantas ocasies, que s vezes tenho a impresso de que sou um disco riscado, mas... muito obrigado. Imagino que no existam palavras mais adequadas 
para exprimir o que sinto. Estou-lhe deveras agradecido.
 - Preocupe-se apenas em ter cuidado consigo, David - retorquiu a mdica - , a fim de conseguir ultrapassar esta situao adversa sem grandes contrariedades. Esses 
sero os nicos agradecimentos de que preciso.
David ficou a olhar enquanto o automvel se afastava e desaparecia ao virar da esquina; depois comeou a andar numa atitude absorta para o lote adjacente do parque 
de estacionamento onde deixara o carro. Este, um Saub amarelo que comprara havia menos de um ano, encontrava-se apoiado sobre as jantes. Os quatro pneus haviam sido 
maldosamente golpeados. No painel lateral do lado do condutor, estava escrita a palavra AssAssiNo, desenhada de forma grosseira a tinta em aerossol vermelha.
 - Uma casa grande com telhados de vidro - resmungou David enquanto olhava para aquele acto de vandalismo. - Foi voc quem o disse, minha senhora. Um estupor de 
um grande animal sob a forma de uma casa de vidro.



Captulo 13

Barbara Littlejohn esperava havia apenas um minuto do lado de fora do terminal da TWA, quando o txi chegou. O que foi o tempo suficiente para que o clime agreste 
daquele fim de dia. em Nova Inglaterra, Lhe penetrasse nas roupas, enregelando-lhe as articulaes e fazendo com que a pele ficasse to contraida que Lhe doa. O 
voo de Los Angeles j tinha sido suficientemente punitivo, pensou ela, mas aquilo... Continuava a tremer quando o txi passou pela portagem, circulando em marcha 
lenta devido ao grande aglomerado de trnsito e entrando no Tnel Sumner, a passagem hmida e cheia de gases emitidos pelos tubos de escape, que ligava a zona leste 
de Bston com o centro da cidade. Quando por fim conseguiram sair da baixa j tinha comeado a chover.
Barbara insistiu em que o taxista tomasse o caminho que a deixasse o mais prximo possvel do hotel Copley Plaza. Entrou apressadamente no vestbulo, perguntando 
a si prpria como  que em tempos achara o clima na Nova Inglaterra encantador e fantstico.
Era uma mulher atraente prestes a atingir o fim da casa dos quarenta; tinha uma estatura elevada e tez bronzeada, sendo quase to magra como nos dias em que frequentara 
a escola de enfermagem, altura em que trabalhara como modelo para poder custear as suas despesas. O recepcionista do hotel, embora fosse no mnimo dez anos mais 
novo do que ela, despiu-a com os olhos.
 - Eu fao parte da Fundao Donald Knight Clinton - anunciou ela, ignorando o olhar de soslaio que o homem Lhe lanara. - A reunio do conselho de direco vai 
ter lugar?
- Oh, sim, minha senhora. s vinte horas no salo trinta e trs no primeiro andar. Os elevadores so do outro lado do vestbul  - Olhou para o seu saco de viagem. 
- Tenciona ficar alojada no hotel esta noite? - perguntou ele, lanando-lhe o mesmo olhar de soslaio.
 - No, obrigada, ficarei em casa de pessoas amigas. - Afastou-se deixando o homem entregue s suas fantasias.
Entretanto, entraram duas mulheres, uma de Chicago e a outra de Dallas, as quais avistaram Barbara quando chegaram ao vestbulo, alcanando-a j no elevador. Houve 
uma troca de olhares breve mas calorosa, aps o que as trs subiram ao primeiro andar.
Era segunda-feira; ainda nem sequer tinham decorrido vinte e quatro horas desde que se realizara o inqurito no Hospital Mdicos de Bston. As mulheres ali reunidas, 
ao todo dezasseis, haviam reorganizado apressadamente os seus horrios de trabalho a fim de poder participar na reunio que teria lugar no Copley; eram oriundas 
de todas as partes do pas: Nova Iorque, Filadlfia, So Francisco, Miami. Participavam naquela reunio porque Peggy Donner as tinha convocado. A outra razo da 
sua comparncia era o empenhamento que dedicavam  organizao, uma vez que eram directoras regionais d'A Irmandade da Vida.
O salo com o nmero 133 era luxuoso. As paredes estavam revestidas de veludo amachucado de um verde-seco; viam-se algumas litografias de cavalos de linhas alongadas, 
as quais reproduziam imagens das corridas de Punchestown realizadas em 1862. Havia ainda uma mesa de reunies no centro do salo; o mobilirio era complementado 
por uma outra de apoio num dos lados, assim como um grande sof de couro verde, exageradamente estofado, situado por baixo de uma janela isolada.
Barbara trocou apertos de mo com as que tinham chegado primeiro - procedendo a uma contagem rpida. Doze. As quatro que vinham de Bston estavam atrasadas - nmero 
em que se incluia Peg.
 - No h caf? - perguntou Barbara sem se dirigir a ningum em especial, enquanto abria a sua pasta de onde extraiu um processo volumoso assinalado pela designao 
Fundao Clinton, colocando-o  cabeceira da mesa de madeira polida.

A animao no tardaria a subir. O seu sentido de humor quebrou a tenso que reinava na sala, embora aquela pausa fosse transitria. A convocao daquela reunio 
de emergncia no tinha precedentes e, de todas as que se encontravam presentes, somente Barbara  que sabia ao pormenor qual a finalidade desta. Olhou para o seu 
relgio. Vinte horas e dez minutos. A reunio trimestral que costumavam realizar s muito raramente  que comeava para alm da hora marcada. Mas aquele assunto 
fora organizado por Bston e, embora ela tivesse agendado outros aspectos que tencionava abordar, teria de esperar.
Em vrias partes do salo, formando pequenos grupos que conversavam em voz abafada, as mulheres partilhavam novidades respeitantes s suas famlias,  sua carreira 
de enfermagem e aos estabelecimentos hospitalares onde trabalhavam. Eram oriundas de mundos onde cada uma delas era detentora de uma posio de relevo, poder e influncia. 
Susan Berger, a enfermeira coordenadora do Consrcio Hospitalar de So Francisco, travava uma conversa trivial com June Ullrich, a qual era a directora de estudos 
de mercado da maior empresa farmacutica do pas. Elas sabiam, tal como todas as outras, que deviam as suas posies de prestgio ao envolvimento que mantinham com 
A Irmandade da Vida. Funcionando atravs da sua actividade visvel, a Fundao Donald Knight Clinton, a organizao publicava mensalmente um boletim informativo, 
no qual se actualizava a situao de vrios projectos de natureza filantrpica, da iniciativa d'A Irmandade, assim como informava os particulares relativos a lugares 
superiores no campo da enfermagem que se encontrassem em aberto e para os quais os membros da organizao teriam preferncia.
Na sua qualidade de directora coordenadora d'A Irmandade, Barbara Littlejohn tambm acumulava o cargo de directora da Fundao Clinton, o que era acompanhado de 
meio milho de dlares de donativos, que eram feitos voluntariamente todos os anos pelas enfermeiras pertencentes  organizao. Embora fosse ela a detentora dos 
ttulos, a influncia e muito do poder continuavam nas mos de Peggy Donner. Barbara voltou a ver as horas, espalhando os apontamentos que trouxera sobre a mesa. 
Dentro de mais cinco minutos ela iniciaria a sesso, quer Peg estivesse presente quer no.
Nesse preciso momento, o paquete, um homem com cara de fuinha e cabelos cheios de brilhantina, entrou com um carrinho onde vinha o caf. Estendeu uma toalha sobre 
a mesa de apoio. distribuindo as chvenas, os talheres e o bule do caf, o que fez com gestos onde abundavam os floreados. Para toque final. saiu do salo onde regressou 
logo depois com um arranjo floral para centro de mesa, o qual colocou com toda a cerimnia entre as chvenas meticulosamente distribudas.
 - Flores - comentou Susan Berger. - Ora bem,  a primeira vez que isto acontece. A Peggy deve estar a tentar amansar-nos para outro dos seus esquemas. Mas no h 
dvida que so muito bonitas.
O paquete sorriu, como se o cumprimento Lhe fosse dirigido pessoalmente. Ainda passou alguns momentos a desempenhar o papel de figura central, dando os ltimos retoques 
ao arranjo floral, aps o que retrocedeu em direco  porta do salo, continuando a exibir o seu sorriso. No obstante os seus esforos, o recipiente continuava 
a dar a impresso de estar a extravasar de dlias. As flores advertiam que O Jardim se manteria vigilante e  escuta; o rebento procedia  avaliao do progenitor. 
Era um aviso que somente uma das pessoas presentes na reunio  que estaria em condies de compreender.
Ruth Serafini, a directora robusta e dinmica da Escola de Enfermagem do Hospital White Memorial, foi a primeira do grupo de Bston a chegar. Peggy Donner disseminara 
o movimento na regio de Bston e, embora este se houvesse espalhado com celeridade aos restantes hospitais por todo o pas, a representao de Bston continuava 
a ser, de longe, a maior. Eram necessrias trs directoras, incluindo Ruth, s para supervisionar as actividades nos estados da Nova Inglaterra. Peggy deixara de 
se envolver pessoalmente nas operaes do dia-a-dia.
 - As outras ainda vo demorar muito tempo? - perguntou Barbara depois de um breve aperto de mo.
 - No fao a minima ideia. Fiquei presa no trfego. - Ruth serviu-se de uma chvena de caf, aps o que se sentou  mesa.
 - Peo desculpa a todas pelo atraso - disse Barbara finalmente. - Acho que deveriamos comear, a fim de tratarmos primeiro dos assuntos relacionados com a fundao. 
S passaram seis semanas desde a ltima reunio, pelo que esta noite no ser apresentado nenhum relatrio financeiro. - As enfermeiras que ainda permaneciam de 
p ocuparam os seus lugares. Barbara examinou o grupo, olhando para cada uma individualmente e dirigindo-lhes um sorriso. O quo longe elas tinham chegado, desde 
os tempos em que formavam um pequeno grupo de enfermeiras, que costumavam reunir-se na casa de Peggy com o propsito de partilhar as suas vises e ideais, o que 
mais tarde daria origem  estruturao d'A Irmandade. Enquanto se preparava para iniciar os trabalhos, chegaram as duas que ainda faltavam. A primeira, Sara Duhey, 
era uma mulher de raa negra de grande beleza, diplomada em cuidados de enfermagem especialmente dedicados aos doentes em estado crtico. A segunda era Dotty Dalrymple
 - Bem-vindas - saudou Barbara calorosamente. - No h nada como chegar com vinte minutos de atraso  nossa prpria festa.
 - No  nossa, Barb - atalhou Dalrymple. - A festa  da Peggy. Ela chegar dentro em pouco. Quer que tu ds seguimento a quaisquer assuntos que tenhas a abordar.
 - Muito bem - Barbara deu uma olhadela pelos assuntos que tinha agendado. - Est aberta a sesso. Em primeiro lugar temos os relatrios de progressos dos centros 
rurais de sade. As consultas externas tiveram um acrscimo de quase cem por cento, tanto nas clnicas do Kentucky como nas da Virgnia do Oeste. As enfermeiras 
que administram esses estabelecimentos asseguram-nos que, dentro de um ano, estes sero completamente autnomos. - As directoras aplaudiram aquelas notcias; as 
duas que se encontravam sentadas junto de Tania Worth de Cincinnati bateram-lhe amigavelmente nas costas. Aqueles centros haviam sido obra sua, tendo sido aprovados, 
em grande parte, devido ao empenhamento que ela Lhes dedicara. Tania mostrava uma expresso radiante.
A discusso passou rapidamente a outros assuntos: os centros de dia para os filhos de enfermeiras que trabalhavam, equipamento moderno para hospitais cujos financiamentos 
eram insuficientes, bolsas de estudo com vista a nveis mais avanados de enfermagem, num esforo para melhorar a imagem e as funes das enfermeiras hospitalares. 
Susan Berger apresentou um breve relatrio do que havia sido feito em todo o pas, quanto  elaborao de documentos que expressassem as ltimas vontades, o que 
proporcionaria a cada pessoa o direito de limitar, atempadamente, as medidas de prolongamento de vida a serem utilizadas, em caso de doena grave. At  data, esses 
esforos, concebidos havia muito tempo por Peggy Donner' tinham tido muito pouco xito.
- Por ltimo, embora no seja menos importante - continuou Barbara - , recebemos uma carta da Karen. Algumas de vocs nunca tiveram oportunidade de a conhecer, mas 
ela fez parte da direco durante vrios anos, antes de o marido ter sido nomeado para a Embaixada Americana em Paris. Ela manda cumprimentos e deseja que todas 
estejamos bem de sade. Em menos de dois anos, conseguiu ascender ao lugar de assistente da chefe das enfermeiras do hospital onde trabalha. - Vrias das mulheres 
mais velhas aplaudiram aquelas notcias. Barbara sorriu. - Parece - prosseguiu ela - que a Karen conseguiu localizar quatro membros d'A Irmandade, a partir de uma 
lista que eu Lhe enviei das que se mudaram para a Europa. Diz ela que esses membros da nossa organizao se encontram muito perto de estabelecer um comit de avaliao, 
mas no so capazes de chegar a um acordo quanto  lngua que deve dar o nome  sucursal europeia: inglesa, francesa, holandesa ou alem.
 - Talvez devssemos levar em considerao como  que o nome "A Irmandade" soaria em esperanto - sugeriu uma das presentes.
As directoras riam-se daquela sugesto quando Peggy Donner entrou no salo. Fez-se imediatamente silncio.
No meio daquele mutismo, Peggy estabeleceu deliberadamente contacto visual com cada uma das mulheres. Quase que de uma maneira relutante, pelo menos foi essa a impresso 
com que se ficava, a seriedade da sua expresso deu lugar a uma de orgulho. Aquelas eram das mais amadas dos seus vrios milhares de filhas.
 - O facto de vos poder ver de novo eleva o meu esprito, como nada mais o poderia fazer. Peo desculpa pelo meu atraso. - Dirigiu-se para a cabeceira da mesa, detendo-se 
junto do enorme arranjo de dlias. Os seus lbios esboaram um sorriso enigmtico. Ento, seleccionou uma flor branca em boto de grande pureza e magnificncia, 
que manteve nas mos enquanto mostrava uma fisionomia pensativa. Por fim, com um olhar na direco de Barbara, a qual confirmou que chegara a altura Peggy assumiu 
a conduo dos trabalhos.
- J decorreram quase quarenta anos, quarenta anos, desde que quatro enfermeiras, que no se encontram entre ns, e eu prpria formmos a sociedade secreta que haveria 
de se transformar na nossa Irmandade. A Charlotte Thomas morreu no Hospital Mdicos de Bston. Quando nos conhecemos o nome dela era Charlotte Winthrop, nessa altura 
ela era apenas uma finalista do curso de enfermagem, embora fosse um elemento extremamente vital e muito especial. A Charlotte manteve-se activa na nossa organizao 
durante somente maiS ou menos uma dcada. Contudo, durante esse perodo ela foi uma das pessoas responsveis, tanto como qualquer outra, pelo nosso extraordinrio 
desenvolvimento.
"Foi acometida por uma doena terminal, estado de sade que se agravou devido a uma escara de dimenses cavernosas, tendo expressado perante mim o desejo desesperado 
que tinha pela liberdade que a morte Lhe traria. Tambm manifestou esse desejo ao seu mdico assistente, mas,  semelhana do que acontece com tanta frequncia na 
sua profisso, ele fez ouvidos de mercador, continuando a utilizar os mtodos de tratamento mais agressivos, com o propsito de prolongar a agonia irremedivel por 
que ela estava a passar.
"H vrios dias, chamei  nossa Irmandade uma jovem enfermeira de qualidades excepcionais, Christine Beall, pedindo-lhe que avaliasse a situao da Charlotte, a 
fim de ser apresentada posteriormente ao nosso Comit Regional de Avaliao. Por vrias razes, tanto pessoais como profissionais, foi-me impossvel tratar desse 
assunto pessoalmente. O comit aprovou e recomendou a administrao de morfina por via intravenosa. Como consequncia de uma srie de circunstncias imprevisveis 
e adversas, realizou-se uma autpsia invulgarmente minuciosa, a qual veio a revelar um ndice de morfina no sangue muito acima dos valores normais.
As enfermeiras mantinham-se sentadas num grande mutismo, enquanto Peggy descrevia em traos largos a investigao que se seguira, assim como a reunio que tivera 
lugar no Anfiteatro Tweedy por iniciativa de John Dockerty. Enquanto falava, ela andava de um lado para o outro, servindo-se distraidamente do arranjo floral como 
uma espcie de adereo. A entoao que dava  voz era constante e calma, cingindo a apresentao apenas aos factos. S quando comeou a discutir David Shelton  
que se percebeu alguma emoo nas suas palavras.
Comeou a descrever o passado do mdico com grande mincia. acentuando as dificuldades que se Lhe haviam deparado, em consequncia da sua habituao ao lcool, juntamente 
com os estupefacientes, A sua voz, bem como a expresso do rostO, no ocultava o desprezo que sentia.
 - Trata-se de um homem jovem deveras perturbado - afirmOu ela categoricamente. - Um indivduo que prestaria um grande servio  comunidade mdica se se afastasse 
dela de uma vez por todas.
A passada de Peggy adquiriu um ritmo mais rpido, enquantO procurava as palavras mais adequadas
 - Minhas irms - continuou ela com uma fisionomia inflexvel - h mais de vinte anos que o nosso sistema dos Comits Regionais de Avaliao foi estabelecido. ao 
longo de todos estes anos, j lidmos com mais de trs mil e quinhentos casos. sem que se tenha verificado qualquer indcio do mais pequeno envolvimento da nossa 
parte, ou de qualquer outra pessoa. Existem todas as razes possveis, e imaginrias, para se poder acreditar que a situao ocorrida em Bston jamais voltar a 
acontecer. Infelizmente, sucedeu desta vez. Desde o incio da investigao policial que eu me tenho mantido em contacto com o tenente Dockerty. Embora ele suspeite 
da culpabilidade deste Shelton na morte da Charlotte, o detective no est cem por cento convencido. Cada vez mais, ele vai ficando ciente do relacionamento especial 
que existia entre Christine Beall e esta doente. Ele at j mencionou a possibilidade de ela se submeter a um teste poligrfico.  evidente que eu nunca permitirei 
uma coisa dessas!
Pela primeira vez, vrias das enfermeiras sentadas  volta da mesa trocaram olhares de preocupao. Nenhuma delas a tinha visto alguma vez to prxima de perder 
o controlo. A atmosfera que reinava no salo comeou a ficar cada vez mais opressiva.
 - Ns somos uma irmandade - continuou Peggy. - O nosso juramento  to sagrado e imutvel como se fosse um pacto de sangue. Sempre que uma de ns sofre, todas ns 
devemos partilhar da sua dor. Quando uma de ns se encontra sob a ameaa de ser exposta, tal como acontece presentemente com a Christine, temos a obrigao de acorrer 
de imediato em seu socorro. Eu e cada uma de vs temos o direito de esperar esse comportamento por parte das nossas irms. Temos a obrigao de a proteger! - A voz 
da mulher elevara-se numa estridncia estrangulada, onde se detectava um timbre de desespero. Durante algum tempo reinou o silncio, quebradO apenas pelo bater pesado 
da chuva contra os vidros da janela por detrs dela. Na sala, a sensao de mal-estar deu lugar  tenso e, para algumas das presentes, a um pressentimento de mau 
agouro. As ptalas da flor que Peggy amarfanhara na mo comearam a tombar para o cho.
Barbara Littlejohn levantou-se da sua cadeira a fim de restabelecer o controlo da situao.
 - Peggy, queremos agradecer o teu contributo - disse ela, tentando ocultar a tenso que se adivinhava na sua voz.
- Sabes bem que todas ns nutrimos os mesmos sentimentos que tu prpria pela organizao. Sem sombra de dvida que estamos firmemente empenhadas em proporcionar 
 Christine Beall todo o apoio que estiver ao nosso alcance. - Esperava contra todas as suas expectativas, que a confiana que tentava instilar tivesse algum impacte 
sobre o que Peggy estava prestes a exigir. O olhar vazio da mulher disse-lhe o contrrio.
 - Eu quero que esse homem venha a ser inculpado. - As palavras de Peggy, que mal eram audveis, foram articuladas atravs de dentes cerrados.
As outras mulheres ficaram de boca aberta para ela, sem quererem acreditar no que estavam a ouvir. Dotty Dalrymple ocultou o rosto com as mos.
 - O que  que est para a a dizer? - perguntou Susan Berger, a primeira a reagir. Da sua voz emanava um sentimento de alguma clera e de incredulidade.
Peggy lanou-lhe um olhar de poucos amigos; todavia, Susan no afastou os olhos.
 - Susan, eu quero aliviar a presso a que neste momento a Christine Beall se encontra sujeita. No temos maneira de saber o que  que poder acontecer-lhe, assim 
como  nossa Irmandade, caso a Polcia tente demolir as suas defesas. Eu trabalhei muito para no permitir que nos suceda uma coisa dessas. O nosso trabalho  demasiado 
importante. Quero a aprovao do conselho de direco, o que me permitir tomar as medidas necessrias, com o objectivo de proteger a Christine, assim como os nossos 
interesses. Com um pouco de empeenho da nossa parte, tenho a certeza de que conseguiremos convencer a Polcia da culpabilidade do doutor Shelton. Levando em considerao 
o seu passado, o mais grave que lhe pOderia acontecer seriam alguns meses internado num hospital qualquer, a par de um ano ou dois em que seria afastado da mediCina 
O que me parece ser um preo baixo a pagar por...
 -  Peggy, no posso estar de acordo com uma coisa dessas  -  afirmou Ruth Serafini.  - No me interessa o que esse Shelton possa ter feito. Qualquer coisa dentro 
desses moldes atenta contra a dignidade da vida de um homem, para alm de estar em total oposio a tudo o que ns defendemos. - As suas palavras provocaram murmrios 
de aprovao e de apoio da parte de bastantes das enfermeiras presentes. Serafini olhou em redor da mesa. Das quinze mulheres havia sete que dariam o seu apoio a 
Peggy, independentemente daquilo que ela Ihes pudesse pedir. E quanto s outras? Numa votao a diferena seria diminuta. Ruth continuou, numa tentativa para fazer 
prevalecer o seu ponto de vista. - E se deixarmos que as coisas sigam o seu curso normal  espera de ver o que acontece? Caso venha a ser necessrio, poderemos proporcionar 
 Christine Beall os meios financeiros suficientes, para alm de advogados e tudo o mais de que ela possa vir a precisar. Neste ponto da situao nem sequer existe 
a certeza de que...
 - No! - A palavra mais parecia uma bofetada. Ruth Serafini afastou-se do olhar de Peggy, como se este expedisse dardos contra o seu peito. Peggy reforou o seu 
ataque. -  No ests a compreender? A pouco e pouco, no interessa o quo esforadamente ela possa resistir, a Christine acabar por falar de ns  Polcia.
"No ests a ver as distores que seriam publicadas pela imprensa? Seriam a nossa runa. Isso poria fim ao nosso sonho para todo o sempre. Jamais permitirei que 
isso venha a suceder - Arremessou a flor mutilada para cima da mesa, voltando-se para a janela. Os seus ombros soergueram-se de to arquejante que era a sua respirao. 
Durante algum tempo, o nico som que se ouvia era o da sua respirao ofegante e a msca fantasmagrica da tempestade de Outono. E, contudo, quando Peggy se voltou 
de novo para a mesa, sorria. A sua voz era suave. - Minhas irms, h um ano apresentei-vos um plano por meio do qual poderamos, por fim, informar o pblico da nossa 
existncia, assim como da tarefa sagrada que chammoS a ns. De posse da gravao de vrios milhares de relatrios de casos, provenientes das enfermeiras mais qualificadas 
e respeitadas espalhadas por todo o mundo, conclu que poderamos organizar uma campanha, com vista a uma aceitao numa escala alargada, que aqueles que mais se 
opem quilo em que ns acreditamos no teriam outra opo para alm de aceitar de bom grado. Isso teria sido o ponto culminante do trabalho de toda uma vida, tanto 
para mim como para todas
vs.
"Tal como se encontra estipulado nos nossos estatutos, submeti a minha proposta  vossa votao. Sa derrotada. Tal como  da minha maneira de ser, aceitei os desejos 
da nossa Irmandade. Quero afirmar-vos neste momento que, caso esta noite no decidirmos agir com vista a proteger esta mulher das ameaas que impendem sobre ela, 
no hesitarei em avanar com esse plano, em vez de arriscar uma divulgao sensacionalista, distorcida e aviltante por parte da Polcia e da imprensa. Estou disposta 
a tornar estas gravaes pblicas. Encontram-se em meu poder... todas elas, e no hesitarei em faz-lo.
As que estavam sentadas em redor da mesa trocaram olhares inquietos. Aqueles relatrios gravados eram o pacto de sangue que as unia inexoravelmente. Uma vez apresentados 
- dado que todos aqueles testemunhos eram provenientes de uma enfermeira - no havia maneira de ela renunciar ao compromisso que mantinha com o movimento. Desde 
os primrdios da organizao que isso ficara estabelecido. Inicialmente, eram apresentados por escrito, mas numa fase posterior passaram a ser gravados. Todas as 
que se encontravam presentes tinham sido responsveis por eles - algumas por vrias vezes - e agora Peggy propunha-se torn-los do domnio pblico. Qualquer tipo 
de desafio que ainda restasse entre as directoras dissipou-se por inteiro.
 - Barbara, gostaria que se procedesse a uma votao que me desse a autoridade para poder fazer tudo o que seja necessrio, com a finalidade de me assegurar de que 
o doutor Shelton venha a ser incriminado - continuou Peggy, dirigindo-se a Barbara Littlejohn - , a fim de proteger os interesses da Christine Beall, assim como 
os d'A Irmandade da Vida.
Barbara sabia de antemo que qualquer outro argumento adicional no produziria resultados positivos. As expresses que se reflectiam nos rostos que via  volta da 
mesa secundavam a concluso a que chegara. Com lentido, Sara Duhey ergueu o brao. Seguindo uma determinada ordem, o olhar de Barbara chamou cada uma das enfermeiras 
a votarem; uma a uma, todas as mos se levantaram. O voto de apoio  proposta era unanime.
Quebrand  o silncio que se seguiu, Dotty Dalrymple aclarou a garganta, fazendo uso da palavra pela primeira vez.
 - Peggy, tal como tu ests bem ciente, a Christine Beall  uma enfermeira que faz parte da minha equipa de trabalho. Com o decorrer do tempo, tive oportunidade 
de a conhecer bastante bem, embora ainda no tenha decidido p-la ao corrente do compromisso que assumi para com A Irmandade. Tal como tu acabaste de descrever, 
ela  uma enfermeira extraordinria, dedicada aos ideais que todas ns partilhamos. Podemos ns estar seguras de que ela permitir que esse homem responda pelos 
actos de que ela prpria  responsvel, independentemente das decises que possamos tomar aqui, esta noite?
Aquela pergunta estivera no pensamento de todas as enfermeiras que ali se encontravam
 - Esse aspecto, Dorothy, deve ser da nossa responsabilidade... tua e minha. Quando a ocasio for a mais apropriada, tu ters de falar com ela. Explicar-lhe a situao 
como s tu poders fazer. Eu sei que conseguirs com que ela compreenda.  muito possvel que te vejas forada a partilhar o teu segredo com ela, mas estou em crer 
que ela merece essa prova de confiana. Caso venha a ser necessrio, eu e todas ns aqui presentes estamos dispostas a p-la ao corrente do nosso segredo. Esta soluo 
parece-te ser aceitvel?
 - H j muito tempo que te conheo, e bem de mais, para te perguntar se tenho qualquer alternativa - retorquiu Dalrymple com um sorriso. - Eu falarei com ela.
Peggy acenou com um gesto de satisfao, retribuindo o sorriso.
Na verdade, Dorothy Dalrymple conhecia Peggy bastante bem. Desde o incio que Dotty acompanhara a sua ascenso profissional, chegara ao ponto de ter tido influncia 
na sua deciso de entrar na escola mdica, na altura em que isso tinha sido suficientemente difcil para as mulheres de uma maneira geral, quanto mais para uma enfermeira. 
Havia seguido atentamente o extraordinrio sucesso de Peg no campo da cardiologa, o que ela culminara com o casamento com um dos mais famosos cientistas e defensor 
dos direitos humanos em todo o mundo. Observara-a a assumir a chefia do pessoal mdico de um dos mais prestigiados hospitais do pas.
Ela sabia, to certo como sabia que existia o nascer do Sol que Margaret Donner Armstrong poderia atingir qualquer objectivo que se propusesse alcanar. A sentena 
que haviam votado, quanto ao destino de David Shelton, era como se j tivesse sido concretizada.
Com umas escassas palavras de despedida, Barbara Littlejohn deu a sesso por encerrada. Enquanto fazia as suas despedidas, Dotty deteve-se junto do elaborado arranjo 
floral, debruando-se para poder cheirar a sua fragrncia acentuada, e para tocar ao de leve numa ptala suave ao tacto. Em seguida, lanando um ltimo olhar a Peggy 
dirigiu-se para a porta.
O salo esvaziou-se rapidamente. ao fim de pouco tempo, restavam apenas duas pessoas: Peggy Donner, olhando com serenidade atravs da janela, e Sara Duhey, que parou 
j do lado de fora da porta, aps o que retrocedeu. Ainda se encontrava a uma distncia de cerca de trs metros quando, sem se voltar, Peggy comeou a falar.
 - Sara, que simptico da tua parte teres ficado para trs.  to raro que tenhamos uma oportunidade de poder conversar.
A mulher de raa negra, de figura esbelta, imobilizou-se, tendo reparado no seu prprio reflexo no vidro da janela.
 - Com que ento  assim que a Peggy Donner granjeou a reputao de algum que tem olhos na nuca.
 -  uma das maneiras - continuou Margaret Armstrong, voltando-se e mostrando um sorriso caloroso. Fora ela quem pessoalmente tinha recrutado Sara. - Detecto uma 
expresso conturbada nesses teus olhos maravilhosos, Sara. Ests preocupada com o que aconteceu aqui esta noite?
 - Um pouco. Mas no foi por isso que fiquei para poder falar contigo.
 - Oh?...
 - Peggy, h alguns dias, o John Chapman morreu no teu hospital, devido a uma reaco alrgica fulminante... provavelmente como consequncia de qualquer medicamento, 
de acordo com o que se diz. Por acaso, j tinhas ouvido falar dele e do trabalho que realizou? - Armstrong acenou afirmativamente. - Pois bem, havia vrios anos 
que eu conhecia John. Fiz parte de tantos comits juntamente com ele que j Lhes perdi o conto
 - E?...
 - Bom. falei com vrias pessoas a respeito da sua morte... bem vs. gente que faz parte da minha comunidade. Pelo menos uma delas est convencida de que no houve 
nada de acidental na sua morte.  muito provvel que possas imaginar at que ponto o Johnny era um espinho cravado no flanco de muita gente importante, o que vinha 
a acontecer h uns anos a esta parte.
 - Minha querida, de cada vez que uma pessoa importante ou com influncia morre, existe sempre algum que formulou uma teoria que explica o motivo por que essa ocorrncia 
nunca poderia ter sido natural ou acidental. Invariavelmente, esse tipo de teorias so um completo disparate.
 - Eu compreendo - replicou Sara - e espero que tenhas razo em relao a este caso. Jamais viremos a saber ao certo uma vez que a religio que o Johnny perfilhava 
probe autpsias. Foi a mulher dele que me deu essa informao. Ela insistiu para que isso ficasse escrito em grandes letras vermelhas na folha da frente da sua 
papeleta, juntamente com uma srie de coisas a que ele era alrgico.
 - Onde  que tu pretendes exactamente chegar? - perguntou Armstrong agitando -se numa de monstrao de mal-estar.
 - Peggy, h um homem que me disse ter ouvido dizer que o Johnny Chapman nunca haveria de deixar com vida o Hospital Mdicos de Bston. O que veio a verificar-se 
ser verdade. Ento, dois dias depois de o Johnny subitamente ter entrado em anafilaxia, em consequncia da qual veio a morrer, o senador Cormier foi acometido de 
uma paragem cardaca fatal quando estava na mesa operatria. Os papis dizem que morreu de um ataque cardaco, mas tambm mencionam que, devido ao facto de o ataque 
ter sido instantaneamente fatal, no se detectou qualquer leso relevante de natureza cardaca aquando da autpsia.
 - Sara, continuo sem entender onde  que...
 - Peggy, dois dos casos que vieram parar-me s mos atravs dA Irmandade envolveram a administrao de ouabana atravs de via intravenosa. Ambos deram a impresso 
de terem sido ataques do corao.  absolutamente impossvel detectar essa droga. No ser possvel que tenha havido algum que...
- Minha menina, estou em crer que j vi mais do que o suficiente. As tuas insinuaes so de muito mau gosto, para alm de serem bastante despropositadas. Mas, ainda 
pior do que isso,  o facto de serem feitas numa altura em que o nosso movimento tem necessidade de uma unidade absoluta.
 - Peggy, por favor - atalhou Sara Duhey assumindo uma postura rgida. - No te irrites comigo. No  minha inteno criar qualquer problema. Tudo o que eu pretendo 
saber  se poder existir algum no teu hospital que esteja a servir-se dos nossos mtodos. Continua a haver mais membros d'A Irmandade no corpo de enfermagem do 
Mdicos de Bston do que em qualquer outro hospital do pas.
 - E eu conheo pessoalmente cada uma dessas enfermeiras - retorquiu Armstrong. - Todas elas so profissionais de grande qualidade, para alm de serem pessoas de 
uma grande verticalidade. Agora, a no ser que tenhas algo mais concreto do que aquilo que me apresentaste at aqui, eu sugeriria... no, insistiria, que guardes 
para ti prpria essas ideias que no tm qualquer cabimento. Temos preocupaes muito mais prementes, tu e eu, a comear pelo homem que constitui uma ameaa a toda 
a nossa organizao. - Armstrong apercebeu-se do impacte da sua exploso temperamental e suavizou o seu tom de voz. - Sara, depois deste assunto do Shelton estar 
resolvido, teremos oportunidade de discutir as tuas preocupaes mais pormenorizadamente. Ests de acordo?
 - De acordo - respondeu Sara Duhey depois de observar atentamente a mulher mais velha, acenando com a cabea num gesto de concordncia.
As duas mulheres deixaram juntas o salo 133. No exterior. a tempestade intensificara-se, dando origem a que o vento fustigasse com tal violncia que sacudia os 
edifcios.



Captulo 14

 - Uma lenda que tinha o hbito de se parecer com um coelho.. - David repetiu aquelas palavras sucessivamente, enquanto examinava as sries de linhas que, numa sequncia 
arbitrria, tinham aparecido no tecto da sua sala de estar.
 - ... tinha o hbito engraado de se parecer com um coelho. - Onde  que ele lera aquilo? Quais eram as palavras exactas? No interessava, decidiu David. Nenhuma 
das fendas se assemelhava em nada a um coelho. Alm do mais, o zelador do prdio dissera que haviam de ser tapadas com gesso, pelo que o que ele estava a fazer no 
tinha qualquer sentido.
Virou-se para o lado, colocou um brao debaixo da cabea e ps-se a olhar atravs da janela. O contorno dos edifcios do outro lado do beco ondulavam por entre as 
btegas de chuva intensa e gelada.
J haviam passado quase dois dias desde aquela sesso de pesadelo com o detective Dockerty. Na manh seguinte ao inqurito, David tentara dar seguimento s suas 
tarefas no hospital, de acordo com o que era a sua rotina habitual. Fora como se tivesse trabalhado numa cmara frigorfica. Era impossvel que algum vrus se houvesse 
espalhado mais depressa pelas enfermarias do que os rumores da acusao implcita que havia sido proferida contra si. A maior parte das enfermeiras e demais pessoal 
mdico faziam todos os esforos para no se cruzarem com ele. Algumas pessoas falavam em sussurro sempre que passavam por si, tendo havido uma enfermeira que se 
dera ao desplante de apontar na sua direco. Os poucos que falavam com ele escolhiam as suas palavras com as mesmaS cautelas de um soldado a atravessar um campo 
minado.
Ao incio da tarde, David no conseguira suportar aquele ambiente por mais tempo. Aldous Butterworth e Edwina Burroughs eram os nicos doentes que ele tinha no hospital. 
No que dizia respeito a Buttenvorth, ele voltara a ser essencialmente um problema da Dra. Armstrong. A circulao sangunea na perna que fora operada fazia-se melhor 
do que na outra. Edwina Burroughs mostrava-se desejosa de poder ir para casa e, muito provavelmente, estava to preparada para ter alta naquela altura como o estaria 
na manh seguinte. David escreveu uma nota na papeleta de Butterworth, para que a Dra. Armstrong arranjasse algum que Lhe removesse os pontos dentro de trs dias; 
em seguida, prescreveu a medicao que Edwina teria de tomar e deu-lhe alta.
Caminhava de cabea baixa, seguindo em direco  sada principal, quando foi de encontro a Dotty Dalrymple. Ambos trocaram pedidos de desculpa.
 - Vai para o seu gabinete? - perguntou ela.
David lutou contra o impulso de mentir, face quela demonstrao de cortesia.
 - No - respondeu. - Cancelei tudo o que tinha para o resto do dia. Na verdade, estou de sada para casa.
Sentiu-se surpreendido ao ver a expresso de preocupao e de interesse nos olhos da mulher. Embora ambos se conhecessem, nunca tinham conversado alongadamente.
 - Doutor Shelton, quero que saiba o quanto me sinto perturbada por tudo o que aconteceu ontem  noite. - Ela era, apercebeu-se David, a primeira pessoa que, em 
todo o dia Lhe fizera qualquer comentrio franco sobre a sesso no anfiteatro.
 - Tambm eu - replicou ele entre dentes.
 - Nunca tivemos a oportunidade de nos conhecermos mutuamente a fundo, mas eu j ouvi as minhas enfermeiras falarem muito acerca do seu trabalho; devo acrescentar 
que tudo o que elas disseram foi bastante elogioso para si. - O rosto de David contraiu-se no simulacro de um sorriso. - As minhas palavras no Lhe servem de grande 
consolao, no  isso em que est a pensar? - perguntou ela. O sorriso de David rasgou-se mais; mostrava-se mais relaxado. Dalrymple encostou um brao carnudo  
parede. - Receio muito que no tenha grande coisa a dizer-lhe que se possa traduzir em noticias mais animadoras. Contudo, posso inform-lo que o tenente Dockerty 
esteve esta manh no hospital a fim de falar comigo. O seu nOme veio  conversa mas s de uma maneira fugidia; se Lhe servir de algum alento, digo-lhe que na minha 
opinio ele no est nada convencido de que voc seja o culpado, apesar de todo aquele circo a que assistimos na noite passada.
 - A julgar pelas reaces de que fui alvo esta manh nas enfermarias, Miss Dalrymple, atrevo-me a dizer que, se for esse o caso, ele encontra-se includo numa minoria 
nfima. De sbito, comecei a sentir tanto controlo sobre a minha vida como um rato de laboratrio. Neste momento, o detective Dockerty situa-se numa posio muito 
inferior na minha lista de pessoas preferidas.
 - Imagino que, se eu me encontrasse na sua posio, muito possivelmente sentiria mais ou menos a mesma coisa - ataLhou Dalrymple. Fez uma pausa como se procurasse 
as palavras que pudessem prolongar aquela conversa. Finalmente, encolheu os ombros, fez um gesto de despedida dando os bons dias ao mdico e comeou a afastar-se.
Ela j tinha comeado a percorrer o corredor, encontrando-se a vrios passos de distncia, quando David decidiu ir no seu encalo.
 - Miss Dalrymple, por favor - chamou ele. - Se puder dar-me mais um minuto de ateno, existe uma coisa que talvez possa fazer para me ajudar. - A chefe das enfermeiras 
abrandou o passo, girou sobre os calcanhares num movimento lesto e esboou um sorriso de expectativa. - Na noite passada, tinha consigo a papeleta da Charlotte Thomas 
- continuou David. - Se fosse possvel, gostaria que ma emprestasse por um dia. No fao a mais pequena ideia daquilo que devo procurar. No entanto, existe algo 
nessa papeleta cuja leitura no me parece que bata certo.
A expresso de Dalrymple ensombrou-se.
 - Lamento muito, doutor Shelton - retorquiu ela. - A papeleta que eu tinha ontem  noite era somente uma fotocpia. O tenente  que possui o original - continuou 
ela com alguma hesitao. - Neste momento, nem sequer tenho essa cpia. - David ficou a olhar para ela com um semblante intrigado. Sentia-se perturbado pela maneira 
como ela parecia sopesar cada uma das palavras antes de as proferir. - Eu... ah... entreguei-a, senhor doutor... esta manh... Wallace Huttner e o marido da mulher... 
e um advogado. Vieram ter comigo com uma ordem do tribunal para que eu Lhes entregasse a cpia da papeleta. Aparentemente, foi a nica que o detective deu autorizao 
que se tirasse.
David sentiu as mos a esfriarem. Delas saiu um calafrio que Lhe percorreu todo o corpo. Restavam-lhe muito pOUcas dvidas quanto ao que eles se propunham fazer: 
mover-lhe um processo por negligncia mdica. Nenhuma outra explicao fazia o mnimo sentido. Ele tinha um seguro no valor de um milho de dlares. Peter Thomas 
queria estar preparado para agir logo que fosse tomada qualquer medida contra si. David estremeceu. Para culminar tudo o resto, Thomas tencionava process-lo por 
negligncia mdica. E o seu prprio chefe de cirurgia estava a ajud-lo a levar essa inteno a cabo.
Dalrymple estendeu a mo, fazendo meno de Lhe tocar no ombro, mas depois deu a impresso de ter mudado de ideias.
 - Lamento muito, doutor - concluiu ela com frieza. -Quem me dera ter o poder de Lhe facilitar as coisas, mas o certo  que no tenho.
 - Obrigado - retorquiu David num resmungo, cerrando os lbios para conter qualquer exploso temperamental, aps o que se dirigiu num passo apressado para a sada 
do hospital.
Quando chegou a casa, todas as suas emoes se encontravam veladas por uma espcie de mortalha, o que traduzia toda a frustrao que sentia. Percorreu o apartamento 
por diversas vezes. Pouco depois, sentindo-se avassalado por um sentimento de impotncia, atirou-se para cima da cama e agarrou no telefone. Tencionava telefonar 
 Dra. Armstrong ou a Dockerty, ou at mesmo a Peter Thomas. Falaria com algum, desde que isso o fizesse sentir que estava a fazer qualquer coisa. Todavia, a indeciso 
impedia-o de ligar o nmero. A sua agenda com os nmeros de telefone encontrava-se sobre a mesa-de-cabeceira. Abriu-a e comeou a folhe-la, esperando de todo o 
seu corao que Lhe saltasse  vista o nmero de algum. O de qualquer pessoa que o pudesse ajudar.
A maior parte das pginas estava em branco.
Tinha o nmero de telefone dos irmos, um na Califrnia e o outro em Chicago. Mas ainda que ambos se encontrassem na porta ao lado, ele no Lhes teria telefonado. 
Depois do acidente, depois do lcool e das plulas e, por ltimo, o hospital. pouco a pouco ambos o tinham afastado das suas vidas. Tudo o que restava em termos 
de contacto era um telefonema de seis em seis meses e os cartes de boas-festas.
Tambm tinha o telefone de alguns conhecimentos que fizera no Hospital White Memorial. Alguns deles, de vez em quando e ao longo dos ltimos oito anos, convidavam-no 
para algumas festas. David era uma pessoa divertida. conquanto que fosse divertido t-lo por perto. Quanto mais ele se arriscara falar do percurso que a sua vida 
fizera entretanto, mais escassos se haviam tornado esses convites. De qualquer desses Conhecimentos no valeria esperar que viesse alguma ajuda.
Na vida de um mdico, segmentada pelo ensino liceal, universidade, anos de finalista num hospital, estgio e casamento, ao que se segue o nascimento dos filhos e 
o estabelecimento de uma prtica de clnica, as amizades sinceras eram bastante raras. Para David, o facto de ter sido forado a reconstituir tantos passos tornara 
impossveis as amizades chegadas.
A mortalha do isolamento tornou-se mais pesada. No havia ningum. Ningum. Com a excepo de Lauren, e esta encontrava-se a uma distncia de oitocentos quilmetros, 
possivelmente, a almoar naquele mesmo momento com algum congressista e... "Espera!" Existia algum. Havia Rosetti. Durante dez anos, sempre que David se sentia 
em baixo ou necessitava de um conselho amigo, houvera sempre Joey Rosetti. Joey e tambm Terry. ao longo dos meses em que se relacionara com Lauren, ele no tivera 
oportunidade de estar muitas vezes com eles; no entanto, Joey era o gnero de amigo para quem essa ausncia no teria qualquer significado.
Sentindo-se excitado, David procurou o nmero do Bar Zona Norte de Joey que ligou de imediato. Ainda que Rosetti no Lhe pudesse dar conselho nenhum - o que era 
duvidoso, uma vez que ele tinha sempre conselhos para tudo - , poderia encoraj-lo, o que provavelmente acompanharia por uma ou duas piadas mais recentes. Por si 
s, a perspectiva de poder falar com o amigo j era animadora.
Uma voz concisa e grave que atendeu no Bar Zona Norte informou-o de que Mr. Rosetti no podia atender de momento. A animao desapareceu imediatamente da voz de 
David.
 - Daqui fala o doutor Shelton. o doutor David Shelton - repetiu ele imprimindo mais nfase ao ttulo, de uma maneira que utilizava apenas para fazer reservas de 
mesa em restaurantes ou quartos de hotel, ou ainda para poder ultrapassar a barreira da telefonista de um hospital que no Lhe fosse familiar - Eu sou um grande 
amigo de Mister Rosetti. Pode dizer-me a que horas  que ele volta ou onde  que o posso encontrar?
A voz chamou algum sem se dar ao incmodo de tapar o bocal do auscultador.
 - Ei, tenho ao telefone um mdico qualquer. Diz que  um amigo de Mister Rosetti. Posso dizer-lhe onde  que ele foi?
Passados poucos minutos, a mesma voz voltou a falar com David.
 - Ah, doutor, Mister Rosetti e a mulher foram para casa na margem norte. Esta noite ainda viro ao bar.
David ouviu a voz que Lhe perguntava se desejava deixar alguma mensagem, mas j estava prestes a desligar o telefone. Em menos de um minuto, aquela inrcia e o silncio 
tornaram-se-lhe insuportveis. Meramente devido ao desespero que sentia, decidiu telefonar a Wallace Huttner. Quando o aparelho comeou a tocar, lutou contra a vontade 
de desligar, premindo fortemente o auscultador contra o seu ouvido. Quando Huttner atendeu, j ele sentia a orelha a latejar.
 - Sim, doutor Shelton, o que  que se passa? - O tom de distnciamento na voz do homem poderia ser medido em anos-luz.
 - Doutor Huttner, estou muito preocupado e perturbado por tudo o que aconteceu na noite passada, assim como com outras coisas de que tive conhecimento hoje mesmo 
- comeou David a dizer com alguma dificuldade. - Eu... eu gostaria de saber se existe alguma hiptese de podermos ter uma conversa breve sobre este assunto.
 - Bem... acontece que tenho a papelada do gabinete muito atrasada e... - disse Huttner hesitante.
 - Por favor! - interrompeu David. - Peo desculpa por ter elevado a voz, mas, por favor, oua o que tenho a dizer-Lhe. - Fez uma pausa por breves instantes, suspirando 
de alvio ao verificar que Huttner no apresentava mais objeces. Esforando-se por manter uma certa coerncia nas suas palavras e falando pausadamente, continuou: 
- Doutor Huttner. eu tive conhecimento de que ajudou Mister Thomas e o advogado dele a obter uma fotocpia da papeleta da Charlotte. No sei como. mas  absolutamente 
imperativo que acredite em que eu no tive nada a ver com o assassnio da mulher.  mUito possvel que eu Lhe tenha dado a impresso, assim como a outras pessoas, 
que sou a favor da morte misericordiosa, mas isso no corresponde  verdade. Eu... eu preciso da sua ajuda, da ajuda de qualquer pessoa, a fim de conseguir convencer 
o Peter Thomas e o detective dessa verdade. Eu... - Naquele momento, David compreendeu o quo mal concebido fora o seu telefonema. Na realidade, no tinha uma ideia 
clara daquil  que desejava dizer ou perguntar. Huttner pressentiu exactamente a mesma coisa.
 - Doutor Shelton - retrucou ele com uma condescendncia que no ocultava a frieza - , por favor, tente compreender. Nunca me passou pela cabea consider-lo culpado 
ou inocente. Esta manh limitei-me a fazer um favor a um velho amigo que sofre um grande desgosto. Nada mais.
Velho amigo? David esteve quase a rir-se estrondosamente. Ainda no havia muitos dias que Peter Thomas deixara bem patente que os dois mal se conheciam. Agora j 
eram velhos amigos. Apertou o auscultador com mais fora, obrigando-se a ouvir o que Huttner ainda tinha para Lhe dizer.
 - ao princpio da manh, o detective veio falar comigo; parece-me que ele est a proceder a uma averiguao muito minuciosa com respeito a todo este assunto. Permita-me 
que Lhe sugira que nos limitemos a aguardar, a fim de vermos qual a direco por onde enveredaro as suas investigaes. No caso de tal como afirma, no ter nada 
a ver com a morte da Charlotte, tenho a certeza de que o tenente estar em condies de vir a provar esse facto. E. agora, se no tiver mais nenhuma questo...
David desligou o telefone sem Lhe dar rplica.
Quando acordou s cinco e trinta da manh seguinte, ainda com as roupas vestidas, sentia os msculos da mandbula doridos.
David entreteve-se durante quase uma hora a contar os segundos entre os relmpagos que se viam no beco e o subsequente trovejar. Trs clculos sucessivos deram exactamente 
o mesmo resultado: a descarga elctrica encontrava-se a aproximadamente dois quilmetros de distncia. Em aferio com as decepes que os ltimos dois dias Lhe 
haviam trazido, o seu triunfo matemtico proporcionava-lhe a sensao de ter ganho uma medalha olmpica. Passou os quinze minutos seguintes a ler um livro de bolso 
a cujo enredo no prestou a mnima ateno. Dois a levantar os halteres. Mais alguns com a leitura do livro. Deu-se conta de que aquelas eram as aces, ao acaso 
e de ansiedade, de uma pessoa que no tinha lugar algum para onde se dirigir. A mesma espcie de inquietude que havia caracterizado as primeiras semanas da sua hospitalizao 
no Instituto Briggs.
Ps-se a olhar para o telefone, a pensar se deveria ou no tentar de novo telefonar a Lauren. J tinha experimentadO no incio do dia: o seu nmero de telefone de 
casa e at mesmo o dos hotis em Washington onde ela habitualmente se alojava Disse a si prprio que dentro em pouco ela estaria de regresso. "Se no for ainda hoje, 
certamente que ser amanh." O nico contacto que haviam tido, depois de ela ter ido para fora reduzia-se a uma breve conversa que tivera lugar pouco antes da sesso 
hedionda no anfiteatro com Dockerty. Lauren telefonara para explicar que no estaria num stio certo, uma vez que fora incumbida de fazer a cobertura das reaces 
das pessoas na sequncia da morte do senador Cormier. De facto. confessara ela, a razo principal que a levara a ligar (para alm de ter dito que era "S para dizer 
ol") fora para saber se David poderia falar com as pessoas do seu hospital, a fim de obter qualquer informao que no fosse do domnio pblico, que se relacionasse 
com aquela tragdia to repentina. Nessa altura, ele sentira-se seguro de que teria possibilidade de descobrir alguma coisa de interesse. Como  evidente, nessa 
ocasio no tivera qualquer maneira de adivinhar que, dentro de escassas horas, ele se transformaria num pria no seio do Hospital Mdicos de Bston.
David dirigiu-se  cozinha para beber um pouco de gua. aps o que foi  casa de banho para beber mais alguma.
Lauren dissera que naquele dia estaria em Springfield a fim de fazer a cobertura do funeral. Acrescentara que possivelmente, depois da cerimnia, ainda se manteria 
por ali durante mais um ou dois dias. Talvez ela pudesse telefonar para combinarem encontrar-se em Springfield. At era possvel que fossem os dois at Nova Iorque 
de automvel ou... ou talvez mesmo at Montreal.
Movimentos ao acaso. pensamentos ao acaso.
Voltou a abrir o romance de mistrio cuja leitura recomeou por mais algum tempo, mas ento chegou  concluso de que faltavam as ltimas dez pginas ao livro em 
mau estado. A sua reaco foi quase nula - limitou-se a um encolher de ombroS - dirigindo-se num passo arrastado para o chuveiro, o seu segundo duche do dia. Quando 
abriu a torneira da gua quente, a campainha do telefone comeou a tocar.
Saiu apressadamente para o corredor, dirigindo-se at ao quarto.
 - Ei, por onde  que tens andado? - perguntou ele com a respirao arfante. - Tenho estado preocupado contigo. Nem sequer sabia ao certo em que cidade  que estarias.
 - David, daqui fala a doutora Armstrong. Voc est a sentir-se bem?
 - Hem?! - Oh, mas que grande gaita! - Peo-lhe desculpa, doutora Armstrong. No, estou ptimo. Estava  espera de um telefonema da Lauren e... hum... ela  a mulher 
com quem eu...
 - David? Pare por um minuto e descontraia-se. Prefere que eu telefone mais tarde?
 - No, no, eu estou ptimo. De verdade. - Esticou mais o fio do telefone para poder chegar  cmoda, tirando de uma gaveta um par de calas de cirurgia. Depois 
de as vestir, suspirou e deixou-se cair em cima da cama. - Para Lhe dizer a verdade, no estou a sentir-me nada bem. Tenho estado para aqui sentado durante todo 
o dia. Metade do tempo limito-me a esperar, enquanto a outra metade  passada a decifrar aquilo por que estou  espera.
 - Mas no?... - Ela deixou que a pergunta pairasse no ar.
 - No, nem sequer estou prximo - retorquiu ele soltando uma gargalhada forada. - Nem sequer uma plula ou uma gota do que quer que seja alcolico. Eu disse-lhe 
na outra noite que no havia nada que me levasse de regresso a esse caminho. - De facto a vontade manifestara-se em diversas ocasies... Ainda que vagamente, estivera 
bem presente. Esses momentos nunca tinham chegado a durar o tempo suficiente para poderem representar uma ameaa de vulto; contudo, depois de terem passado tantos 
anos' o mnimo indcio dessa necessidade era deveras assustador.
 - ptimo. Fico satisfeita por ouvi-lo dizer isso - continuou Armstrong - Quero afirmar-lhe o quanto lamento sinceramente ter levado tanto tempo a voltar a contact-lo.
- Eu compreendo - atalhou David, na esperana de poder poupar-lhe qualquer justificao que a deixasse pouco a vontade relativamente ao turbilho de adversidade 
que o rodeava, assm como a ela prpria, no hospital. - H alguma...
 - Para Lhe ser franca, no. Desde domingo que o nossO amigo tenente tem estado presente em diversas ocasies. Vem sempre ter comigo ou com o Ed Lipton, para que 
saibamos que anda por aqui, mas isso  mais ou menos tudo
 - Pela minha parte, ontem encontrei por acaso Miss Dalrymple, e aproveitei para Lhe pedir uma fotocpia da papeleta da Charlotte Thomas. Pensei que talvez me surgisse 
alguma ideia luminosa se pudesse examinar os dados clnicos
 - E Miss Dalrymple entregou-lha?
David no se apercebeu do ligeiro trao de interesse sbito que se revelava na voz da mdica.
 - No. Mas acho que ela teria acedido caso ainda se encontrasse em seu poder. - Em traos largos, David descreveu a conversa que travara com Dotty Dalrymple, aps 
o que passou ao telefonema subsequente que fizera a Huttner.
 - Portanto - retorquiu ela depois de uma curta pausa - os abutres comearam a descrever o seu voo circular.
David sorriu com amargura perante aquela imagem.
 - Descrevem crculos e aguardam - corroborou ele. - Sinto-me to absolutamente tolhido de ps e mos. S queria poder fazer qualquer coisa que mostrasse a todos 
eles que continuo vivo e a lutar, mas nem sequer sou capaz de encontrar um pau com que possa acenar.
 - Eu compreendo bem o que  que sente - redarguiu ela. - Se eu estivesse no seu lugar, deixava-me ficar quietinha a ver como  que as coisas iro desenrolar-se.
 - Muito provavelmente ter toda a razo, doutora Amstrong, mas, infelizmente, a passividade nunca foi um dos meus pontos mais fortes. Se no for eu a fazer qualquer 
coisa que deslinde toda esta trapalhada, quem  que o far?
 - F-lo-ei eu, David - afirmou a mdica.
 - O qu?
 - Eu disse-lhe na noite em que conversmos que faria tudo o que estivesse ao meu alcance.
 - Eu no me esqueci - disse David.
 - Pois bem, eu tenho uma pessoa amiga no Departamento de Pessoal, que concordou em procurar nos dados do computador do hospital a existncia de alguns casos de 
doentes antigoS com problemas mentais ou de estupefacientes, ou ainda com cadastro prisional. Enfim, esse gnero de irregularidade.
 - Mas isso  uma ideia excelente! - exclamou David sem esconder o seu entusiasmo. - E que tal o antigo emprego da Charlotte na clnica de enfermagem?
 - Tambm podemos tentar essa probabilidade - anuiu a Dra. Armstrong.
 - E as enfermeiras que se diplomaram na escola de enfermagem que ela frequentou? E... e os activistas que se batem pelos direitos dos doentes? Vontades expressas 
em vida? Enfim, coisas desse teor. E...
 - Isso  que ! Acalme-se um pouco, David. Em primeiro lugar, as primeiras coisas. Voc deixe-se ficar num local onde eu possa contact-lo, e veja se luta contra 
esse impulso de autodestruio que est a sentir. Eu encarregar-me-ei do resto... no se preocupe. Tenciona regressar ao trabalho?
 - Amanh. Pensei que talvez tente amanh. Qualquer coisa  prefervel a deixar-me estar para aqui sentado, como tenho estado, a pensar na morte da bezerra. Graas 
a si, agora ser-me- muito mais fcil concentrar-me no trabalho, sabendo que, pelo menos, est a ser feita qualquer coisa.
 - Est a ser feita qualquer coisa - ecoou Armstrong.
Margaret Armstrong colocou o auscultador no descanso, olhando atravs da porta parcialmente aberta do seu gabinete, para observar os doentes que aguardavam na sala 
de espera: meia dzia de problemas complexos que ela, quase de certeza absoluta, diagnosticaria e de que trataria sem grandes obstculos. At mesmo depois de passados 
tantos anos, as suas prprias capacidades continuavam a deix-la perplexa.
 - Mezinha, por favor. Diga-me o que  que posso fazer para a ajudar
Agora ela compreendia. Possua os conhecimentos e o poder; entendia. Mas como  que se teria podido esperar que ela soubesse nessa altura o que  que estava certo? 
No passara de uma rapariguinha que mal tinha quinze anos feitos.
 - Mata-me! Por amor de Deus; por favor, mata-me.
 - Mezinha, por favor. No sabe o que est a dizer. Deixe-me ir buscar qualquer coisa que Lhe tire as dores. Quando se sentir melhor, j no dir essas coisas. 
Tenho a certeza que sim.
- No, minha doura. No existe nada que possa aliviar -me. H vrios dias que no h nada que me tire estas dores. Mas tu podes ajudar-me.  foroso que me ajudes.
 - Mam, eu tenho medo. No sou capaz de pensar como deve ser. Aquela senhora ao fundo do corredor no pra de gritar, e eu no sou capaz de pensar como deve ser. 
Estou to assustada. Eu... eu odeio este lugar.
 - A almofada. S tens de a colocar em cima do meu rosto e fazeres tanta fora quanta te seja possvel. No ser preciso muito tempo.
 - Mezinha, por favor. Eu no sou capaz de fazer uma coisa dessas. Tem de haver outra maneira. Qualquer coisa. Por favor, ajude-me a compreender. Ajude-me a saber 
o que devo fazer...
Entretanto, a recepcionista de Margaret Armstrong tocou vrias vezes atravs do intercomunicador; sem obter resposta resolveu dirigir-se ao gabinete e bateu  porta.
 - Doutora Armstrong?
A porta abriu-se para trs; a recepcionista apercebeu-se imediatamente de que deveria ter sido mais paciente. Encontrava-se perante uma daquelas ocasies em que 
a chefe de cardiologia se achava totalmente embrenhada nos seus pensamentos. Uma dessas alturas em que ela ficava sentada, enquanto mantinha um pequeno pedao de 
pano nos dedos, olhando fixamente numa atitude abstracta para um ponto qualquer do gabinete. O que acontecia com pouca frequncia e por perodos de tempo que no 
duravam muito.
Com suavidade, a recepcionista fechou a porta, regressando  sua secretria. Minutos mais tarde, ouviu o besouro do intercomunicador.
A conversa que tivera com Margaret Armstrong e o plano de aco que haviam estabelecido, embora no primasse pela estruturao, injectaram uma nota de optimismo 
no dia de David. Alguma msica para rgo de Bach, a par de vinte minutos vigorosos, quase violentos, a levantar halteres transformaram o estado de esprito de David. 
Tomou duche, vestiu-se e deitou-se ao comprido enquanto passava uma vista de olhos por uma publicao mdica. De repente, ouviu uma chave que era metida  fechadura 
da porta da frente. Saiu disparado para o corredor e j se encontrava perto da porta quando Lauren entrou em casa. Envergava uma gabardina e um chapu de feltro 
mole, mas sob qualquer outro aspecto parecia ter acabado de sair de uma festa num jardim. O seu vestido azul de um tecido leve colava-se-lhe ao corpo, dando a impresso 
de que isso aContecia mais por mero acaso do que pelo corte. No colo de um bronzeado de Outono, brilhava um fio fino de ouro.
Naqueles primeiros momentos, tendo-se imobilizado enquantO olhava para ela, no havia mais nada que interessasse a David. Mas ento, quando se concentrou no rosto 
dela, Lauren afastou o olhar. Subitamente, David sentiu-se assustado at com o pensamento de Lhe tocar.
 - Bem-vinda a casa - saudou ele com insegurana, estendendo uma mo a medo na direco dela. Lauren agarrou-a e aproximOu-se dele; todavia, no havia calor nenhum 
no seu abrao. A frieza que ela mostrava e a fragrncia do seu perfume, a mesma fragrncia que ela usara na manh em que partira, encheram-no de um sentimento de 
vazio e de apreenso. - No fazia a mnima ideia de quando  que tencionavas regressar - acrescentou ele, na esperana que qualquer coisa na resposta dela dissipasse 
aquele sentimento.
 - Quando te telefonei aqui h dias disse-te que ficaria detida por causa da histria do Cormier - retorquiu ela, sentando-se numa das poltronas da sala de estar. 
David reparou que ela tinha evitado o sof. - Que merda de coisa que tinha de acontecer - continuou ela. - De todas as pessoas que eu alguma vez entrevistei em Washington, 
o Dick Cormier era o nico em que eu confiava realmente. O que acontecia com toda a gente. O seu funeral foi muito comovente. O Presidente fez um discurso, assim 
como o presidente do Supremo Tribunal e...
David no conseguia aguentar por mais tempo a tenso que sentia dentro de si, no suportando tambm a conversa banal por que ela enveredara. demonstrando algum nervosismo.
 - Lauren - atalhou ele - . h mais qualquer coisa, no  verdade? Quer dizer. no se trata apenas do assunto do senador. Existe qualquer outra coisa que est a 
roer. Por favor, fala comigo. Estou... estou a sentir um grande mal-estar por causa do ambiente que reina nesta sala neste momento. Tenho muita coisa a contar-te. 
mas em primeiro lugar temos de desanuviar um pouco esta atmosfera.
Pensou que se trataria de um outro homem. Lauren tinha conhecido outro homem. Na sua expresso, no conseguia ler nada que desencorajasse essa suspeita. Ela ps-se 
a olhar atravs da janela, mordendo o lbio inferior. Por breves instantes David pensou que ela estava prestes a chorar, mas, quandO Lauren finalmente recomeou 
a falar, na sua voz adivinhava-se muito mais um sentimento de irritao do que de tristeza
 - David - comeou ela a dizer. - Quando cheguei a casa havia um polcia  minha espera. Passei mais de duas horas numa esquadra, respondendo a perguntas que me 
foram feitas por um tal detective Dockerty e, por sinal, algumas delas eram bastante pessoais, a teu respeito e tambm sobre o nosso relacionamento.
 - Esse Dockerty disse-te qual o motivo do interrogatriO? - perguntou David, sentindo-se aliviado por se ter enganado quanto  existncia de outro homem.
 - Apenas superficialmente - respondeu Lauren com um abanar de cabea. - De incio, ele mostrou-se bastante simptico, mas pouco depois as suas perguntas comearam 
a ser cada vez mais directas... mais e mais ofensivas. Por fim, no fui capaz de me conter e disse-lhe que me recusava a continuar a falar com ele sem que fosse 
na presena de um advogado. A maneira como ele falou deu a entender que tu te encontravas verdadeiramente doente do juzo e que eu, no sei bem como, estava a proteger-te. 
David, eu no posso correr o...
 - Raios partam o homem! - vociferou David. - Quando tudo isto terminar, ele ser obrigado a responder por toda esta merda. J aguentei tudo o que consigo suportar. 
- Os seus punhos estavam esbranquiados, mantendo-se fortemente cerrados contra as coxas. - Lauren, esta situao tem sido um verdadeiro pesadelo. O homem anda a 
exercer uma espcie qualquer de vingana. Desde o primeiro minuto que entrou em aco, tem andado atrs de mim como se estivesse cego. Eu no fiz nada de mal. Ele 
agarrou num monte de merda constitudo por provas circunstanciais e tem tentado moldar esses dados de forma a formular um caso qualquer contra mim. - David encontrava-se 
quase a perder o domnio sobre si prprio. Teve a percepo disso, mas foi incapaz de se conter. Umas a seguir s outras, as palavras jorravam-lhe da boca; a ltima 
era sempre mais elevada e esganiada do que a anterior. - Eu sou capaz de aguentar a trampa que ele tem arranjado no hospital. Isso sou eu capaz de suportar. Mas 
arrastar-te a ti para o assunto... O sacana est a ir longe de mais. - naquele momentO, David comeou a andar pesadamente de um lado para o outro na sala, enquanto 
batia com o punho contra o flanco.
 - David, por favor! - gritou Lauren. - Ests a agir de uma maneira prpria de loucos. Por favor, v se consegues controlar-te. Assusta-me ver-te nesse estado
David deteve os seus passos, obrigando-se a abrir as mos. Antes de recomear a falar, respirou fundo.
 - Peo-te desculpa, minha querida. Lamento muito. Primeiro, temos um excesso de brincadeiras, para logo ser a loucura que  demasiada. - A custo, esboou um pequeno 
sorriso. - Calculo que eu seja... de mais, certo? - Deixou-se cair desamparad  em cima do sof. - Lauren, importas-te de me abraar por uns momentos? - perguntou 
ele estendendo-lhe as mos.
Lauren apertou os lbios. Olhou para o cho e abanou a cabea.
 - David, temos de falar.
 - Nesse caso, diz o que tens a dizer. - David colocou as mos juntas em cima das coxas.
 - O nosso servio de informaes tem gente por toda a parte, David, incluindo nas foras policiais de Bston. Os assuntos desta natureza, ser interrogada na esquadra 
e tudo o mais... O meu chefe  muito conservador e inflexvel. Se este assunto Lhe chega aos ouvidos...
 - Jesus Cristo! - explodiu David. - Quem te ouvir falar dir que eu estou a fazer tudo isto com o nico fito de te prejudicar. No s capaz de compreender que eu 
no fiz nada de mal? Meu Deus, aqui estou eu a ser assediado sem trguas por um monomanaco, correndo o srio risco de vir a perder a minha carreira ou mais ainda, 
e a minha namorada est preocupada por poder vir a sentir-se constrangida perante o seu chefe no escritrio. Isto  de doidos.  uma loucura absoluta!
 - David... - A voz de Lauren era baixa e comedida devido  clera que a assolava. - Eu j te disse por inmeras vezes o quanto me desagrada a etiqueta de "namorada". 
Agora, faz o favor de te acalmares e tenta compreender tambm qual  a minha posio no meio de tudo isto.
Incapaz de articular uma nica palavra, David s conseguia olhar para ela. enquanto abanava a cabea.
Lauren endireitou o vestido, sentando-se rigidamente com as costas bem direitas; foi ao encontro da expresso de incredulidade de David com um ar de desafio.
 - Eu sei que ficars satisfeito em ouvir que, de todas as coisas com que tens de te preocupar, o ter de aturar o jantar danante na Sociedade das Artes na prxima 
quinta-feira no ser uma delas. Depois de o tenente me ter levado a casa, o Elliot May telefonou para me perguntar se eu tinha intenes de ir ao jantar. Eu sabia 
at que ponto  que essa perspectiva te desagradava; por isso, aproveitei a oportunidade para te libertar desse peso. - A fria que se reflectia nos olhos dela era 
assustadora. Obrigou os lbios a esticarem-se para a frente, fazendo um beicinho de orgulho ferido e voltando-se para a janela.
David levantou-se do sof e aproximou-se dela. Naquele momento terrvel que parecia ter parado no tempo, sentiu que perdia todo o controlo que tinha sobre si. Cerrando 
os punhos, avanou outro passo.
Bruscamente, a campainha do trio do prdio comeou a tocar. David girou sobre si mesmo e, num passo entre o cambaleado e o arrastado, dirigiu-se para o intercomunicador 
instalado na parede do corredor.
 - Sim? - gritou, premindo o boto do aparelho.
 -  o tenente Dockerty, doutor Shelton. - Vinda de quatro andares mais abaixo, a voz do detective no soava com nitidez. - Posso subir, por favor?
 - Resta-me qualquer outra escolha? - perguntou David enquanto premia o boto que abria a porta da rua.
Durante os trinta segundos seguintes, o nico som que se ouvia era o da respirao de David: golfadas de ar frenticas e de armagura que, gradualmente, iam adquirindo 
um ritmo mais normal  medida que ele se esforava por se recompor.
Durante os ltimos dois dias, tinha estado  espera de receber uma visita de Dockerty. Era tpico do homem ter aparecido numa ocasio daquelas. Ouvia o barulho do 
maquinismo do elevador que subia, oscilante. Permanecendo junto da porta, David abanou a cabea num gesto desdenhoso ao ouvir o ruido dos cabos sujeitos a tenso. 
O ascensor antiquado levava mais de um minuto para fazer a viagem at ao quarto andar. Um segundo estrpito, seguido de um ruido chocalhado da porta automtica interior, 
assinalou a chegada do detective. David saiu do seu apartamento no momento em que Dockerty cOrria a pesada porta exterior do elevador. Vinha acompanhado de um agente 
uniformizado de elevada estatura.
 - DOutor Shelton, este  o agente Kolb - apresentou o detective. - D-nos licena que entremos? - Aquilo era mais uma ordem do que uma pergunta. David pensou fugazmente 
em Lauren. mas encolheu os ombros conduzindo os dois homens para a sua sala de estar
 - Miss Nichols - saudou Dockerty com um acenar de cabea. embora no fizesse meno de Lhe apresentar Kolb.
 - Se me do licena - retorquiu Lauren com formalidade, levantando-se da poltrona e agarrando na garbardina - eu j estava de sada.
J dera um passo em direco  porta quando a voz de Dockerty a deteve.
 - Parece-me que seria prefervel que ficasse, Miss Nichols. - Os olhos desta estreitaram-se ao fitarem-no. O seu corpo adquiriu uma postura rgida quando ela regressou 
 poltrona de onde acabara de se levantar
No ntimo de David, comeou a formar-se um sentimento de pnico e de confuso.
Dockerty olhava com fixidez para o cho, mantendo-se naquela posio por alguns segundos num silncio total; pouco depois, levou a mo a uma das algibeiras do casaco 
de onde retirou um bloco de apontamentos com capa de manila. Os impressos no interior eram verdes.
 - Doutor Shelton - prosseguiu o detective entregando o bloco a David - , reconhece isto?
David comeou a folhear o bloco, respondendo numa voz gagueJada.
 - Sim, so do meu bloco de impressos C dois, vinte e dois. Mas no estou a ver o que  que...
 - Servem para requisitar narcticos, no  verdade? - perguntou Dockerty.
 - Sim, mas...
 - Foram impressos com o seu nome, no  assim?
 - J chega! - As palavras foram proferidas com clera. - J aguentei o que tinha a aguentar. Importa-se de me dizer que  que deseja ou... ou o melhor  ir-se embora. 
- David quase gritava. Dentro das suas entranhas, no interior do seu peito, estavam a formar-se ns monstruosos cada vez mais apertados.
Enquanto o polcia de estatura elevada lhe lia os seus direitos escritoS num carto, AS palavras do homem suavam-lhe aos ouvidos, arrastadas e incoerentes, David 
observava como se aquilo no tivesse nada a ver consigo, sendo ele apenas um mero espectador, enquanto os braos uniformizados se estendiam na direco dos seus 
pulsos, que foram algemados atrs das costas. O pedido de desculpas que Dockerty apresentava por ser obrigado a usar as algemas, quase se perdeu no zunido crescente.
David sentia-se desorientado, e to assustado que tinha a
impresso de estar prestes a perder toda a sua capacidade de
raciocnio. Tentou soltar-se.
Mortificada e atordita, Lauren afastou-se quando David, necessitando que o ajudassem a manter-se de p, era conduzido na direco da porta.
- Doutor Shelton, avisei todas as farmcias da cidade no sentido de me informarem do nome de todas as pessoas que tenham comprado morfina injectvel durante o ltimo 
ms.
- Apresentou um nico impresso verde que tirou do bolso do peito do casaco. - Este impresso C dois, vinte e dois foi utilizado para a compra de trs ampolas de sulfato 
de morfina' as quais foram adquiridas na Farmcia Quigg em Roxbury Oeste Tem a data de dois de Outubro, o dia em que Charlotte Thommas foi assassinada. Este impresso 
pertence-lhe, doutor Shelton?
 - Esta assinatura no  a minha - afirmou David; num gesto automtico arrancou o papel das mos do detective. Olhou com fixidez para o que estava escrito no impresso 
e fechou os olhos. Havia anos que era o alvo de brincadeiras, ele prprio dissera piadas sobre o assunto, por causa do gatafunho que era a sua assinatura. "Qualquer 
chimpanz sem escrpulos poderia prescrever medicamentos aos meus doentes", dissera ele em tempos, gracejando. A assinatura no C222 Doderia ter passado pela sua 
secretria sem que ele Lhe dedicasse um segundo de ateno.
 - Talvez sim - replicou DocKerty numa voz sem qualquer
entoao. - Mas eu desconfio que seja sua. Bem v, doutor ainda h mais. O mandado que obtive, para poder passar uma busca ao seu gabinete, permitiu-me no s ficar 
de posse dos seus impressos mas tambm disto. - Voltou a levar a mo  algibeira de onde tirou uma pequena fotografia emoldurada a dourado. - Mister Quigg, da farmcia, 
identificou-o de forma bastante positiva nesta fotografia, afirmando que foi o senhor quem comprou a morfina no seu estabelecimento.
David olhou para a fotografia. Nunca conseguira desfazer-se dela. Retratava toda a famlia David, Ginny e Becky que na altura tinha trs anos de idade. Becky... 
numa pose junto dos barcos que navegavam entre os cisnes do Jardim Pblico de Bston. Fora tirada apenas dois meses antes do acidente.
Por alguns instantes, Dockertv deu a impresso de estar intrigado.
 - David Shelton, dou-lhe voz de priso pelo assassnio de...
Aquelas palavras abateram-se sobre David como se fossem marteladas. Comeou a sentir na cabea um zunido agudo e extremamente elevado. Tentou libertar-se daquele 
rudo.
DockertY fez meno de seguir atrs dele, mas ento voltou-se:
 - Ele vai precisar de um advogado, Miss Nichols - disse
ele com uma fisionomia sombria. - Se eu estivesse no seu lugar, certificar-me-ia de que contratava um dos melhores. - Com um breve acenar de cabea, comeou a percorrer 
o corredor.
O vento tinha-se acalmado, mas a chuva pesada e fria continuava a cair. Dockerty colocou um bluso de tecido sinttico em redor dos ombros de David, correndo o fecho 
 frente at ao pescoo. Mesmo com aquela precauo, quando o arrastaram pela curta distncia at ao carro-patrulha, ele ficou completamente encharcado. Atravs 
de vises aberrantes e sem ligao entre si David observava os eventos que rodeavam a sua deteno prisional. As luzes azuis estroboscpicas de aspecto fantasmagrico 
que brilhavam no tejadilho do automvel... formas perfeitas de diamantes nfimos que se reflectiam na rede metlica... os pees, cheios de frio, que tentavam proteger-se 
das btegas de chuva, aconchegando mais as suas roupas, o que via atravs do pra-brisas e da rede metlica  sua frente. David observava tudo aquilo como que em 
imagens ao retardador. Uma sequncia de diapositivos grotescos.

- Esvazie as algibeiras, meu filho, est a ouvir-me? Rapaz?... Aqui est a carteira. Tira toda a treta de que precisas da carta de conduo... D-me a sua mo direita, 
primeiro o polegar... Aqui, deixe-se ficar aqui... Agora a outra mo.
Oua l,  s um nmero. Deixe isso pendurado a.. Olhe bem em frente... agora vire a cabea para o lado... no, assim desta maneira... A trs est vazia. Ponham-no 
l...
Em seguida eram os barulhos. O entrechocar de metal com metal... um som estrondoso... O elevador?
 - No, aqui no...
No podia ser o elevador... msica... vinda de onde?... de onde  que a msica viria?... Mais vozes...
 - ... aqui chefe, para aqui... uma luz, preciso de outra luz. A merda do meu cigarro est todo ensopado... A que horas  que  a porra do jantar? Eles aqui nem 
nos do de comer, ou qu?...
Finalmente, as faixas largas e desfocadas... para cima e para baixo em frente dele. Gradualmente, as manchas pouco ntidas estreitaram-se e escureceram... Barras! 
Eram barras!
Uma vez mais, o crescendo do zunido na cabea. Imagens de outras barras, outras redes divisrias de arame, que explodiram deflagrando atravs da sua mente.
 - No! Por favor, meu Deus, no! - gritou ele. Girou sobre si prprio e caiu de joelhos junto da sanita;  garganta assomavam-lhe arrancos de vmitos incontrolveis, 
que se misturavam com a gua j turva devido aos desinfectantes.
Mal se apercebendo da blis que ardia nas narinas e na garganta, David arrastou-se pelo cho de pedra, iando-se para cima de uma tarimba de estrutura metlica. 
Mergulhou num sono cheio de frialdade e desinquieto, muito antes de os soluos de choro terem desaparecido.



Captulo 15

 - Est na hora de irmos, meu filho. Este copo contm um pouco de Listerine. Espalha um pouco de gua fria pelo rosto e bochecha com isto durante um minuto. Vers 
que te ajuda a despertar.
Com dificuldade, David conseguiu entreabrir os olhos; uma fenda apenas. A sua primeira viso da manh foi a mesma que tivera na noite anterior. Barras. Desta feita, 
as barras brancas e azuis manchadas de suor da fronha da sua almofada, por baixo do rosto.
O agente era um homem de aspecto imponente, que rondaria mais ou menos os cinquenta anos, com uma barriga que se mantinha suspensa uns quantos centmetros por cima 
do cinto das calas. Encontrava-se encostado  ombreira da porta da cela observando com toda a pacincia enquanto David se levantava e limpava dos olhos as ramelas 
do sono da noite.
 - Consegues falar, meu filho? - perguntou o polcia.
David acenou que sim e olhou para o homem por entre olhos semicerrados, aps o que levou  boca o desinfectante bocal. O agente no dava a impresso de estar com 
muita pressa. pelo que David levou um minuto a espreguiar-se, tentando livrar-se da tenso que sentia nos msculos das costas e do pescoo, ao mesmo tempo que se 
esforava por ter alguma percepo da sua pessoa. Pelo menos de momento, o terror e a confuso da noite anterior iam-se dissipando. Em seu lugar tinha uma sensao 
estranha, embora fosse bastante apaziguadora de bem-estar. Com os joelhos unidos, inclinou-se para a frente . colocou a ponta dos dez dedos sobre o cho. "Estou 
em paz". pensou ele. "Este buraco de merda, toda esta loucura e aqui estou eu sentindo-me em paz."
Foi ento que Lhe ocorreu  memria. Tinha-se passadO num acampamento de Vero. Ele tinha onze - no, doze
anos na altura. Sentira uma caimbra repentina enquanto nadava afastado da jangada. Num instante deu consigo no fundo com as dores a invadirem-lhe as entranhas, sentindo 
a gua que forava o seu caminho at aos pulmes. E ento, com a mesma rapidez com que haviam comeado, o terror e as dores desapareceram. No seu lugar, surgira 
o mesmo sentimentO de paz alheado de tudo. Ele encontrava-se prestes a morrer - ento e agora - , a morrer sem que houvesse nada que o pudesse evitar.
As bochechas avermelh adas do sargento inch aram-se com um sorriso rasgado.
 - Fico satisfeito por ver que ests a sentir-te melhor - disse ele. - Os rapazes da noite ficaram preocupados. Disseram que tu no foste capaz nem de segurar numa 
moeda, quanto mais fazeres o telefonema que eles te permitiram fazer. - ao ver que David no Lhe respondia, acrescentou: - Ests a sentir-te melhor, no  verdade?
 - Oh, sim. Estou a sentir-me bem, obrigado - respondeu David numa voz distanciada, continuando a testar o seu corpo e sentimentos, numa tentativa para detectar 
sofrimento. - Hum... seja como for, onde  que eu estou?
 - Na Esquadra do Distrito Um - respondeu o guarda. Olhou para David com uma preocupao acrescida.
 - Ests na do Distrito Um de Bston. Ests a compreender o que te digo? - David acenou afirmativamente. - Agora devemos pr-nos a caminho. Tens de ser apresentado 
em tribunal. O juiz e as outras pessoas que estiverem no tribunal ajudar-te-o. No te sintas preocupado.
David olhava para o homem com uma curiosidade divertida, enquanto este fechava a algema  volta do seu pulso direito, levando-o depois para fora da cela. Sorriu 
com cortesia ao prisioneiro de raa negra e cabelos grisalhos que ficara preso pela outra algema. Calmamente, com um olhar que mais parecia uma fuga musical, focou 
a sua ateno nas mos algemadas - uma branca e outra negra - , seguindo atrs delas para o assento de trs do carro-patrulha.
 - O meu nome  Lyons - apresentou-se o homem de raa negra quando a viatura se ps em marcha. - Reggie Lyons. - O seu rosto que denotava sabedoria, era atravessado 
por inmeras rugas finas, acumuladas com a passagem dos anos de uma vida dura, havendo algumas bastante mais vincadas, claramente talhadas por outras adversidades 
mais tangveis.
 - David. Eu chamo-me David - replicou ele.
 - Tu nunca percorreste este caminho, David, pois no? - perguntou Lyons. David encolheu os ombros, olhou atravs da janela e abanou a cabea - Prepara-te para passar 
um mau bocado. A choldra em Suffolk  do pior que h, homem. Quero dizer que  do piorio. - David olhou para a moto que passava ao lado deles, fazendo um acenar 
de cabea. - Ei, ests a sentir-te bem? Bom, isso no interessa muito, quer seja de uma maneira quer da outra. Se calhar  melhor ser-se dado como maluco. Deixa-te 
estar sempre ao p do velho Reggie. Ele trata de ti.
A choldra, na realidade, era uma jaula. A cela de deteno para os prisioneiros que aguardavam ser presentes a tribunal. Eram vinte homens, todos eles "presumivelmente 
inocentes", amontoados no interior - violadores, bbedos, vagabundos, assassinos e os acusados de atentados contra o pudor. Do lado de fora da cela encontravam-se 
meia dzia de advogados que tentavam sobrepor a sua voz  dos colegas, esforando-se por se fazerem ouvir acima do rudo abafado que vinha do interior da cela.
 - Perkins? Qual de vocs  que  o Perkins?...
 - Francamente, Arnold, estou-me a cagar para o facto de o mido ser culpado ou inocente. Ou ele aceita a primeira acusao ou acaba por ser condenado pelas duas 
com direito a uma estada de trs a cinco anos em Walpole...
 - Olha, mido, eu sei o que  que tu viste nos filmes do Pcrry Mason, mas essa no  exactamente a maneira como as coisas funcionam. Hoje em dia no falamos de 
culpado ou inocente. Nos nossos tempos fala-se em dinheiro. Se tiveres algum ou puderes arranjar algum, pomos-te c fora sob fiana. Caso contrrio, vais ter de 
esperar pelo teu julgamento em Charles Street. Hoje ningum se interessa pela tua histria. Isto  s para a fiana. Est compreendido? Somente para a fiana. . 
 .
David conseguiu passar pelo amontoado de prisioneiros colocando-se a um canto da choldra e olhando atravs da rede de malha de ferro para uma janela, cujos vidros 
eram opacos devido a uma camada de sujidade. Pouco a pouco, a realidade - e o terror - estavam a regressar. Os seus pensamentos concentraram-se no hospital. Naquela 
altura, as salas operatrias j iriam nas segundas operaes do dia.
 - Ei, David, tens um advogado? - perguntou Reggie Lyons que se aproximara de si, encostando-se s barras da jaula. Um cigarro, amachucado e torto, subia e descia 
ao canto da sua boca enquanto ele falava.
 - Ah, no, Reggie, no tenho - respondeu David distraidamente. - Pelo menos, que eu tenha conhecimento. - Sentiu uma presso crescente e desconfortvel por baixo 
do esterno. Tentou recordar-se da ltima ocasio em que tinha comido. Quando correra pela ltima vez ao longo da margem do rio. Com o olhar inspeccionou a jaula; 
a percepo do que o rodeava aumentava com a passagem de cada segundo, e com ela vinha um desespero sem limites.
 - Shelton? David Shelton? Qual de vocs  que se chama Shelton? - O oficial de diligncias era um homem atarracado e gordo, que andaria pelos seus cinquenta anos. 
Tinha um aspecto - uma expresso nos seus olhos - indicador de que o seu passatempo favorito, fora das paredes do tribunal, seria arrancar as asas dos insectos.
 - David, no te mostres assustado - aconselhou Reggie Lyons numa voz segregada, aproximando-se mais do seu colega de cela. - Quando estiveres l dentro pensa s 
na praia ou na garota de quem gostas mais, qualquer coisa desse gnero. Todos os uniformes e togas no passam de encenao. Um jogo de que eles gostam para se impressionarem 
uns aos outros. e para nos fazerem tanto medo que nos borramos todos.
David voltou-se e olhou para o rosto envelhecido de Reggie, cuja expresso no deixava adivinhar a sua idade.
 - Obrigado - agradeceu ele numa voz enrouquecida. - Estou-te muito grato.
O homem fitou-o com curiosidade, agarrando numa das mos de David que tomou nas suas. A pele da palma das suas mos era espessa e calejada.
 - Boa sorte, homem - sussurrou ele. - No cedas perante eles.
O oficial de diligncias, um homem gordalhufo, colocou as algemas nos pulsos de David logo que este saiu da jaula. Momentos mais tarde, encontrava-se sentado no 
banco dos rus.
Aquela espcie de ilha de madeira com a altura de cerca de um metro e mais ou menos um metro e vinte de superfcie, mantinha-o separado do resto da sala do tribunal. 
Depois de Lhe ter sido dito que se levantasse, procurou apoio encostando-se a um painel baixo, enquanto palavras novas, vozes e cenas recentes se introduziam no 
seu pesadelo
A funcionria que leu as acusaes proferidas contra si era uma solteirona, que dava a impresso de ter nascido naquela sala de tribunal to antiga e ornamentada
 - Quanto  acusao nmero trs, um, nove, quatro, sete, a pessoa que o indicia, John Dockerty, o qual representa respeitosamente a cidade de Bston no condado 
de Suffolk, em nome da j referida Confederao de Estados, David Edward Shelton de Bston, condado de Suffolk, no segundo dia de Outubro em violao da legislao, 
captulo dois, seis, cinco, seco um, matou premeditadamente uma tal Charlotte Winthrop Thomas com a inteno de a assassinar, ao injectar no seu corpo uma determinada 
quantidade de sulfato de morfina.
"O tribunal apresentou uma petio a favor do acusado, para que seja pronunciado inocente.
David encostou-se mais pesadamente contra o painel enquanto o promotor de justia, um homem jovem e magro que usava dois anis em cada uma das mos, delineava a 
traos largos o processo de acusao. Na mente de David s ficavam registadas palavras e frases sem qualquer nexo.
 - ... com premeditao... existindo uma utilizao inconsciente dos seus conhecimentos e capacidades... uma injeco que no havia sido prescrita... positivamente 
identificado como... assassnio, to odioso como qualquer outro cometido sob o efeito da paixo...
 - Doutor Shelton, compreende as acusaes que foram proferidas contra si? - perguntou o juiz com uma expresso de desinteresse. - David acenou que sim. - Faa o 
favor de falar mais alto. Compreende o teor das acusaes?
 - Sim - respondeu David com dificuldade.
 - E tem algum advogado que o represente?
Durante vrios segundos fez-se um silncio total na sala do tribunal. Foi ento que se ouviu uma voz proveniente da ltima fileira de assentos.
 - Sim. sim, tem, Meritissimo. - Um homem magro, que envergava um fato de trs peas num tecido com riscas finas ergueu-se e caminhou em passos vigorosos pela coxia, 
dirigin do-se ao juiz.
 - Representa este homem, doutor Glass?
 - Sim, senhor juiz.
 - Que fique registado que o acusado  representado pelo doutor Benjamin Glass.
Os olhos de David estreitaram-se ao examinar o homem que se apresentara com o propsito de lutar pelos seus interesses. Uns cabelos negros... ralos... umas quantas 
madeixas cuidadosamente penteadas  largura do topo da cabea... uma pasta de couro castanho j muito usada... uma aliana de casamento larga em ouro, intrincadamente 
trabalhada.
Glass aproximou-se de David esboando um sorriso de encorajamento.
 - Est a sentir-se bem? - perguntou o advogado em voz baixa. David conseguiu acenar com a cabea. - Voc est to branco como um fantasma. Precisa de consultar 
um mdico ou de qualquer outra coisa? - Desta vez, a reaco foi um sacudir de cabea. A tez do advogado era escura com uma colorao trigueira; era jovem e sem 
quaisquer rugas e, contudo, ao mesmo tempo possua uma expresso que instilava confiana; era a fisionomia de uma pessoa sabedora da vida. A intensidade do seu olhar 
era acentuada pelas olheiras fundas. - Peo desculpa por ter vindo atrasado. S esta manh  que a Lauren conseguiu entrar em contacto comigo. Primeiro, deixe-me 
tir-lo daqui para fora e depois j poderemos conversar.
 - Meritssimo - disse Ben Glass aproximando-se do juiz - , gostaria de passar  fiana a atribuir ao meu cliente, e submeter uma petio para que tenha lugar uma 
audincia de causa provvel. - Na ptica de David, o advogado tinha um aspecto franzino, quase de fragilidade. No entanto, da sua postura e da inclinao que dava 
 cabea emanava uma grande segurana.
Aquele era o seu mundo, compreendeu David, a sua sala de operaes.
 - Muito obrigado, Lauren - sussurrou David para consigo prprio. Pela primeira vez, surgiu uma centelha de esperana no meio do seu pesadelo.
 - Com que fundamento? - perguntou o juiz.
 - Meritssimo, o doutor Shelton  um cirurgio respeitvel sem cadastro criminal e que no possui qualquer historial recente que pudesse sugerir a necessidade de 
observao psiquitrica e avaliao.
 - Muito bem. Cinquenta mil dlares em dinheiro.
 - Doutor juiz - interps Glass mostrando apenas a medida certa de incredulidade - ,  possvel que este homem seja um mdico, mas posso assegurar-lhe que no  
nenhum milionrio. Por favor, poupe-nos a viagem esta tarde para que o caso seja revisto pelo Supremo Tribunal de Justia. Pode aumentar para cem mil dlares, mas 
permita-me que pague a um fiador.
O juiz uniu a ponta dos dedos durante alguns segundos, antes de anunciar a sua deciso.
 - Muito bem, doutor Glass. A fiana fica estabelecida em cem mil dlares.
 - Muito obrigado, Meritssimo.
Ben agarrou em David pelo brao e, com o oficial de diligncias bem perto, conduziu-o para fora da sala de audincias.
 - J est quase em casa, David - disse o advogado. - O meu amigo fiador vai querer receber dez mil dlares. Voc tem essa quantia?
 - Eu... no me parece que tenha - respondeu David.
 - A famlia. Os seus pais podem emprestar-lhe esse dinheiro, ou pode arranj-lo em qualquer outro stio?
 - Os meus pais morreram. Eu... eu tenho dois irmos e... ah... oh, uma tia que talvez me possa ajudar. E se eu no conseguir arranjar esse dinheiro?
 - Acredite em mim quando Lhe digo que no vai querer que isso acontea. A cela onde ficou a noite passada  um palcio em comparao com Charles Street, para onde 
o enviaro se no puder pagar a fiana. Vou dizer-lhe o que  que vamos fazer. Maury Kaufman, o fiador, tem enriquecido tanto  custa dos meus clientes que est 
em dvida para comigo. Ele h-de concordar em no exigir o pagamento por um dia. em vez de correr o risco de perder o negcio que eu Lhe proporciono. Hoje  quarta-feira. 
Dou-lhe at sexta-feira de manh para arranjar os dez mil. De acordo?
 - Muito bem - concordou David, enquanto o oficial de deligncias Lhe retirava as algemas e Lhe indicava com um gesto que regressasse  cela. - E doutor Glass... 
muito obrigado.
 - David, espero que isto no abale demasiado a sua confiana, mas, enquanto voc andava a marrar na universidade de medicina, eu era um desses hippies esquisitos, 
filhos das flores, que eram empurrados de um lado para o outro em demonstraes contra a guerra. O nome  Ben. Pode chamar-me doutor Glass, apenas no caso de ser 
mais fcil para si ter de aceitar os honorrios que ter de me pagar - O advogado virou costas e comeou a percorrer o corredor, quando o oficial de diligncias 
fechava estrondosamente a porta da cela.
 - Ei, David, esse tipo, o Glass,  o teu advogado? - O cigarro ao canto da boca de Reggie Lyons havia sido substituido por um palito.
 - Eu... eu calculo que seja - retorquiu David, satisfeito ao reparar no ligeiro tom de animao que tinha regressado  sua voz.
 - Bem, nesse caso imagino que j posso deixar de me preocupar tanto contigo. Ele no tem l grande presena, mas eu j o vi em aco no tribunal umas quantas vezes. 
O fulano  um leo. O que quero dizer  que ele  o homem.
 - Obrigado por me dizeres isso, Reggie. As tuas palavras ajudam-me muito. - Na realidade, David at mostrou uma careta risonha. - A verdade  que tu tens sido fantstico 
para comigo. Afinal, por que  que tu ests aqui?
 - S estou aqui, meu - replicou Lyons com um sorriso e um piscar de olho. - Eu estou aqui s para estar aqui.

O reclame acima da porta do bar dizia: "Charcutaria Paddy O'Brien: A casa do melhor fgado picado, e do mais famoso judaico-irlands desde Briscoe, presidente da 
Cmara Municipal."
 - Eu nem sequer tinha ouvido falar deste lugar - disse David sorrindo enquanto deslizava por cima do banco corrido de madeira, sentando-se em frente de Ben. As 
estrelas de David e os shamrocks' eram os motivos decorativos que mais se viam por todo o lado. Na parede, por cima da mesa compartimentada onde ambos se sentavam, 
havia uma fotografia de um grupo de revolucionrios farroupilhas irlandeses, pendurada ao lado de um tanque de guerra israelita novinho em folha.
 - Voc  judeu? - perguntou Ben.
 - No.
- Irlands?
 - No - respondeu David.
 - Dou o meu caso por encerrado. No admira que nunca tenha vindo aqui. No entanto, mais cedo ou mais tarde, a maior parte das pessoas acaba por vir parar a este 
lugar. E aqui est voc.
 - Graas a si.
 -  o que eu fao - respondeu Ben de uma maneira casual. - Se um dia destes o meu apndice rebentar, ento  possvel que eu acabe aqui a saborear o fgado picado, 
graas a si.  esta a maneira como tudo funciona, no  verdade?
 - Certo - concordou David. Ele tinha bem a percepo de que a conversa descontraida partilhada por ambos desde que tinham saido da sala do tribunal fora to bem 
orquestrada por Ben como a escolha daquele restaurante, com o seu ambiente to vibrante e cheio de vida. Tambm sabia que eram escolhas sensatas. Pouco a pouco, 
comeava a descontrair-se. Gradualmente, ia sentindo o ressurgir de um sentimento de esperana.
Ben mandou vir "uma amostra das delcias", um prato que com toda a facilidade poderia ter alimentado dez pessoas. Durante algum tempo comeram em silncio, antes 
de o advogado ter retomado a palavra.
 - Provavelmente, no  l muito justo que eu tenha esperado at termos acabado de comer, para depois levantar o assunto dos meus honorrios, mas  assim que os 
pirralhos que tenho em casa podem comer.  dez mil dlares, David.
Por uns momentos, David ficou atordoado, encolheu os ombros e bebeu um gole de gua. Subitamente, dava consigo a ter uma dvida de vinte mil dlares, o que era substancialmente 
mais do que uma insignificncia no seu pesadelo.
 - No tenho essa quantia - disse ele sem estar com quaisquer rodeios.
 - Eu sou bastante mais tolerante no esquema de pagamentos que me so pedidos do que o Maury, o fiador - retorquu Ben - , mas espero vr a ser pago.
 - Imagino que depois de ter sido acusado de assassnio - retorquiu David com os lbios contraidos - . e de ter passado a noite numa cela, no existam efectivamente 
muitos motivos para que eu mostre um falso orgulho. Tenho a certeza de que poderia pedir esse montante emprestado, se puser de lado a minha vaidade durante o tempo 
suficiente para o pedir. Muito possivelmente, os meus irmos estaro dispostos a ajudarem-me. Alm de que tenho um amigo que  proprietriO do Bar Zona Norte...
 - O Rosetti? - perguntou Ben.
 - Voc conhece o Joey?
 - No o conheo muito bem, mas o suficiente para saber que ele pertence ao gnero de amigos que se deve ter. De uma maneira qualquer, ele foi sempre capaz de equilibrar 
as coisas entre os rapazes da zona norte e o sistema, sem nunca pender para nenhum dos lados. Se ele  seu amigo, sugiro que Lhe d um telefonema.
 - No caso de vir a ser necessrio, certamente que o farei
 - Pois bem, tal como eu j Lhe disse, espero vir a ser pago pelos meus servios. - David aquiesceu com um acenar de cabea. - Nesse caso, temos negcio fechado 
- concluiu Ben estendendo a mo por cima da mesa para apertar a de David - Agora posso dizer-lhe o que  que ter a troco do seu dinheiro... assim como o que deve 
fazer para me reter como seu advogado. Voc obter tudo o que estiver ao meu alcance, David. Tempo, amigos, influncia, suor... tudo o que poder vir a necessitar. 
Em troca disso, s pretendo uma coisa de si, isto  para alm dos meus honorrios. - Fez uma pausa para causar mais efeito. - Honestidade. E quero dizer que tem 
de ser total, no pretendo uma honestidade de merda. No existem segundas oportunidades. Caso eu o apanhe numa aldrabice, por mais pequena que seja, voc ter de 
encontrar outro advogado que o represente. Na minha actividade, tal como as coisas esto, j existem surpresas desagradveis em nmero suficiente, sem que eu tenha 
de me sentir constantemente preocupado sem saber se os meus clientes esto a mentir-me ou no.
 - Continuamos de negcio firmado - confirmou David.
 - Excelente. Porque  que voc no comea por pr-me a par de um pouco do seu passado? Parta do princpio de que eu no sei absolutamente nada.
Nesse momento, um homenzinho cheio de sardas, com um cabelo que comeava a encanecer, e que era a expresso da vivacidade, aproximou-se num passo saltitante, debruando-se 
sobre a mesa. Usava um avental que tinha algumas ndoas de gordura, e cujo motivo decorativo era uma estrela de Danci verde de um tamanho enorme. O sotaque na sua 
voz esganiada transformava cada palavra numa toada musical.
- Ben!v, meu rapaz. Estou a ver que voltaste a abrir a sucursal do teu escritrio.
 - Ol. Paddy. J h algum tempo que eu no vinha aqui. - Ben deu um aperto de mo ao outro. - O teu restaurante est com um ambiente bastante agradvel. Olha, este 
 o meu amigO David. Ele  um cirurgio, portanto,  melhor que mantenhas essa multido barulhenta calada, enquanto ns trabalhamos. caso contrrio digo-lhe que 
faa um enxerto ao alvo dos dardos servindo-me das tuas partes mais perigosas.
Paddy O'Brien soltou uma gargalhada, dando uma palmada amigvel no ombro de David.
 -  vontade, se isso fizer com que funcionem melhor. Aqui o Benjy  do melhor que existe em direito, e tambm em sacar o cheque. Portanto, mantenha-se alerta. Vocs 
dois tratem do vosso assunto. Vou mandar duas canecas... cortesia da
casa.
 - S uma, Paddy - corrigiu Ben. O seu olhar prendeu-se no de David por instantes. - Para mim.
 - Uma caneca e uma Coca-Cola a sarem - disse o homem de estatura baixa sem sequer pestanejar.
 - Por conseguinte, devo partir do princpio que voc no sabe nada. no  verdade? - David sorria.
 - Esta manh cheguei atrasado porque estive a falar com O John Dockerty - explicou Ben. - A conversa no se prolongou o suficiente para me permitir inteirar-me 
de muita coisa mas posso dizer-lhe que ele no guardou este assunto numa gaveta. Por favor, faa-me a vontade e limite-se a assumir que no sei rigorosamente nada. 
De acordo?
 - Muito bem - anuiu David com um encolher de ombros. - At que ponto  que quer que eu recue no passado?
 - A histria  sua - respondeu Ben.
 - A minha histria... - Por uns momentos, a voz de David enfraqueceu'  medida que os fragmentos de acontecimentos. acompanhados pelos rostos dispersos de pessoas, 
desfilavam pelos seus pensamentos. - Calculo que tenha comeado da maneira mais inocente. - Encolheu os ombros de novo. - Dois irmos mais velhos. Uns progenitores 
decentes e afectuosos., uma casa com uma cerca de madeira pintada de branco. Tudo como deve ser. Quando eu tinha cerca de catorze anos tudo isso foi por gua abaixo. 
A minha me foi diagnosticada com cancro. O mal alojara-se-lhe no crebro. antes que algum soubesse do que  que ela sofria. Ainda assim, ela conseguiu sobreviver 
por mais oito meses de sofrimento. O meu pai tinha uma pequena loja. De artigos elctricos. Acabou por ter de a vender para poder cuidar da minha me... isto , 
entre os perodos de hospitalizao. Poucas semanas antes de ela morrer, foi ele quem sofreu um ataque fulminante das coronrias. Faleceu antes de cair no cho, 
disseram os mdicos.
"Continuo sem ter a certeza do motivo, mas, desde essa altura, tudo o que eu desejava era vir a ter uma carreira no cam po da medicina. Especializar-me em cirurgia. 
At mesmo j nesses tempos.
Haviam decorrido muitos anos desde a ltima vez em que David revivera todo aquele perodo da sua vida. Sentiu-se surpreendido ao ver a facilidade com que as palavras 
Lhe assomavam  boca.
 -  este o gnero de pormenores que deseja saber? - perguntou ele. Ben acenou que sim.
 - Os meus tios acabaram de me criar at eu ter ido para a universidade; a partir de ento fiquei essencialmente por minha conta. Nunca fui um grande gnio, mas 
sabia bem o que  que queria, pelo que fiz tudo ao meu alcance com vista a realizar os meus objectivos. Durante todos os anos em que frequentei a universidade de 
medicina, foram-me concedidas vrias bolsas de estudo, para alm de ter tido diversos empregos. Estabelecia aquilo que seria o meu limite, aps o que fazia tudo 
para o atingir. A meio do meu estgio hospitalar, comecei a sentir-me afectado. No hospital, eu era uma espcie de menino-prodgio. Todavia, fora deste sentia que 
estava a desfazer-me em pedaos. Fumava cigarros a mais, passava muitas noites sem dormir, o que era acompanhado por perodos de depresso que se recusavam a desaparecer. 
Combati o problema da nica maneira que sabia. Esforava-me ainda mais no trabalho. Recuando no tempo, tenho a certeza de que, se no tivesse sido por causa de um 
sinal de trnsito que alguns midos tinham roubado, eu teria cado irremediavelmente no abismo em que a minha vida se transformara.
Ben mostrou-se espantado com aquela estranha associao. mas logo depois sorriu.
 - Uma mulher?
 - A Ginny - confirmou David com um acenar de cabea. - O carro dela e o meu chocaram num cruzamento. O sinal a que ela
deveria ter obedecido tinha desaparecido. A ironia de todo este acaso continua a ser-me extremamente dolorosa. Conheci-a atravs de um acidente de automvel, e ento... 
- Pela primeira vez, David sentia dificuldade em articular as palavras
 - David, se neste momento esta conversa est a ser demasiado difcil, poderemos retom-la noutra altura - disse Ben erguendO uma mo. - No entanto, mais cedo ou 
mais tarde teremos de a ter, uma vez que tem a ver com aspectos de que devo inteirar-me.
 - No - retorquiu David mexendo no seu copo - , eu estou bem. Interrompa-me se a narrao se tornar sentimental de mais... ou demasiado maadora. - Ben sorriu, 
fazendo-lhe sinal para que continuasse... - Seis meses mais tarde casmo-nos. Ela era decoradora de interiores. Uma pessoa rara e muito terna. Toda a minha vida 
se transformou s porque ela se encontrava presente. ao longo dos quatro anos seguintes, tudo o que eu fazia revestia-se de magia. O chefe de Servio de Cirurgia 
do Hospital White Memorial pediu-me que ficasse um ano suplementar, como chefe dos mdicos estagirios. Essa posio  quase a nica maneira de um cirurgio passar 
a fazer parte do quadro clnico desse hospital. Portanto, tudo estava a correr pelo melhor. Pelo menos durante algum tempo.
"Tivemos uma filha, a Becky. Acabei o estgio e comecei a exercer. Mas foi ento que se deu o acidente. Era eu quem ia ao volante. Eu... bem, calculo que os pormenores 
no tenham grande importncia. A Becky e a Ginny morreram. Assim, sem mais nem menos... Eu sofri apenas uns cortes e umas esfoladelas, mas nada de mais. Excepto 
que,  minha prpria maneira, eu tambm morri nesse dia. Nunca cheguei a retomar verdadeiramente o meu trabalho. Fui da fase em que bebia com moderao, quase um 
abstmio,  da embriaguez. Uma viragem muito acentuada. Graas a Deus que, durante esse perodo, tive o discernimento suficiente para me manter afastado do bloco 
operatrio.
"No entanto, tentava tratar dos casos de menor importncia na minha consulta. Foi nessa altura que se iniciou o ciclo das pilulas. A minha verso de trocar de lugar 
a bordo do Titanic. Estimulantes para iniciar o dia, soporiferos para conseguir dormir. Com certeza que voc j conhece esta histria. ao princpio, os meus colegas 
de trabalho mostraram-se tolerantes. At se pode dizer que me ajudavam. No entanto, consegui violar a sua lealdade para comigo de uma forma sobejamente brutal, o 
que foi acontecendo a um de cada vez, levando-os a afastarem-se de mim. Comportei-me dessa maneira durante quase um ano. Acabei por ser excludo do quadro mdico 
do hospital. Nem sequer me apercebi de que isso tinha acontecido, uma vez que me encontrava perdido noutro ponto de viragem.
 -  uma porra de um ciclo para se conseguir sair dele -  comentou Ben.
 - A ss, realmente . Que no restem dvidas quanto a isso. Pois bem, houve uma manh em que acordei numa jaula. O meu ltimo amigo no foi capaz de suportar a 
situao por mais tempo. Na realidade, foi ele quem me levou para um hospital. O Instituto Briggs. Conhece? - Ben acenou indicando que j tinha ouvido falar daquele 
lugar. - Veio a verificar-se que essa instituio era excelente para mim, mas tal no se verificou nas primeiras semanas. No havia maaneta na porta do meu quarto. 
A janela tinha barras de ferro. No faltava nada quele cenrio... Ainda est acordado?
 - Eu tive conhecimento de algumas partes da sua histria atravs da Lauren e do Dockerty - respondeu Ben com um abanar de cabea, soltando uma pequena gargalhada 
que Lhe saiu a custo - , mas no com toda esta mincia. O facto de voc ter sido encarcerado ontem  noite deve ter sido...
 - Eu no sofro de claustrofobia clssica - atalhou David sentindo um estremecimento. - Pelo menos, no me parece que sofra. O que acontece  que, desde essas primeiras 
semanas passadas no Briggs, o pensamento de me encontrar fechado, ou encurralado, num lugar onde o espao  reduzido provoca-me sempre esta sensao horrvel de 
ter algo a abocanhar-me as entranhas, e por vezes sinto um calafrio que... -  interrompeu-se e esboou um sorriso a muito custo. - Efectivamente, d a impresso 
de ser claustrofobia, no Lhe parece?
 - Eu no gosto muito de etiquetar situaes - retorquiu Ben.
- Bom, isso no interessa para o caso. - David engoliu tentando libertar-se da secura que sentia na boca, bebendo meio copo de gua. - Vamos a ver... No resta muito 
mais para contar. Depois de vrios meses passados no instituto, senti-me preparado para regressar  medicina. Mas no  prtica da cirurgia. Passei quase trs anos 
a exercer como mdico de clnica geral, numa das clnicas da zona degradada da cidade, aps o que regressei ao hospital para repetir os ltimos dois anoS de estgio 
cirrgico. H quase dois anos que consegui entrar para o quadro mdico do Hospital Mdicos de Bston. No tem sido nada fcil, mas as coisas tm vindo a melhorar 
substancialmente. Pelo menos, era isso o que estava a acontecer at h uma semana.
 - David, tudo o que voc me contou  muito mais do que eu poderia ter esperado que voc fosse capaz de partilhar comigo neste ponto da situao - disse Ben. - Estou-lhe 
muito grato por ter conseguido. Torna o meu trabalho muito mais fcil.
 - Devo confessar-lhe que estou com uma certa curiosidade - retorquiu David com uma expresso intrigada. - Por que motivo  que ainda no me perguntou se sou culpado 
pelo assassnio ou no?
Ben exibiu um sorriso rasgado, apoiando o queixo sobre as mos.
 - Mas j o fiz, meu amigo. Em doze ocasies diferentes e de uma dzia de maneiras diversas. Voc j arcou com demasiados fardos para que eu no remexa o cu e o 
inferno, a fim de impedir que volte a sofrer de novo desta forma.
 - Estou-lhe muito grato - agradeceu David de sussurro.  - Ben, quando voc falou com a Lauren, ela...? Bem, o que pretendo dizer  que ns tivemos uma discusso 
e...
 - David, no desejo interpor-me em nada semelhante a isso. mas na realidade tenho algo que gostaria de Lhe dizer. H muitos anos que conheo a Lauren Nichols. Ela 
 uma mulher brilhante e inacreditavelmente bela que, por acaso ou devido s circunstncias, no se tem visto obrigada a enfrentar demasiadas adversidades ao longo 
da vida. Ela.. bem... ela pediu-me que Lhe entregasse isto. - O advogado tirou um sobrescrito cor-de-rosa de um dos bolsos; tinha o timbre do papel de carta em que 
Lauren costumava escrever, passando-o para a mo de David.
 - No restam muitas dvidas quanto ao que ela ter escrito no ser? - David dobrou o sobrescrito que guardou numa algibeira enquanto dizia aquelas palavras.
 - No, imagino que no - respondeu Ben numa voz suave. - Sente-se bem para poder ir sozinho para casa? Quer dizer, se acha que precisa de ficar esta noite noutro 
lugar...
 - No, obrigado, Ben. Eu sinto-me bem. De verdade que sim.
 - Amanh telefono-lhe - disse o advogado.
 - Amanh - ecoou David
O cu pardacento era ameaador; contudo, a chuva constante que havia cado ao longo dos ltimos dias abrandara um pouco. A caminhada desde o restaurante de Paddy 
O'Brien at ao apartamento era uma distncia de pouco mais de trs quilmetros e, sem nada que o levasse a apressar-se para chegar a casa, David forou-se a andar 
num passo lento, parando uma vez para passear pelo velho cemitrio onde Paul Revere' se encontrava sepultado. O seu raciocnio disse-lhe que o cemitrio seria o 
lugar apropriado para ler a carta que Lauren Lhe escrevera.
Depois de a ter lido, chegou  concluso de que no houvera necessidade de se dar a esse incmodo. A curta missiva dizia aquilo que ele j esperava... semiformal... 
um tero composto por agradecimentos por tudo, e dois teros de "no me parece que as coisas viessem a resultar entre ns dois".
 - Calculo que ela me tomou pelo melhor ou para o melhor - disse David para consigo enquanto rasgava a missiva em pedaos nfimos, lanando cerimoniosamente os bocados, 
que mais pareciam ptalas cor-de-rosa, por cima de uma campa antiga. Ficou surpreendido ao verificar o pouco desgosto que sentia. Talvez porque a perda daquele relacionamento 
no passasse de mais outro tijolo na parede que estava a encarcer-lo, afastando-o da vida. Ento, ao encaminhar-se meditativo em direco ao parque pblico de Bston, 
comeou a perceber que s em raras ocasies  que se tinha sentido verdadeiramente  vontade na presena de Lauren. Em grande parte, a culpa fora sua, uma vez que 
tentara for-la a ajustar-se aos pedaos que Ginny havia preenchido na sua vida. Antes mesmo da relao se ter iniciado, ele j a condenara ao fracasso, em virtude 
de todas as esperanas que entretanto albergara.
O peloto avanado, formado pelas pessoas que se apressavam em direco a suas casas, tinha comeado a encher os caminhos do parque pblico. Homens de negcios de 
aspecto cansado, grupos de secretrias que se riam  socapa e mulheres de carreira vestidas com bom gosto - gente que atravessava o parque relvado e cujo dia de 
trabalho j terminara, dando inicio  sua noite. Durante algum tempo, David entreteve-se a tentar manter contacto visual com todas as pessoas por quem passava. Ao 
longo dos primeiros minutos, o resultado foi de zero pontos, o que aconteceu ao cabo de vinte e cinco ou trinta tentativas. Baixou os olhos para o pavimento, perguntando 
a si prprio se existiria qualquer coisa de que ele no tivesse a percepo. Por fim, acabou por fazer uma aposta consigo mesmo em como, se conseguisse estabelecer 
um contacto visual, absoluto e inquestionvel, antes de chegar a casa, o pesadelo que se seguira  morte de Charlotte Thomas chegaria ao fim dentro em pouco.
Na altura em que chegou  Commonwealth Avenue, tinha recomeado a cair uma chuva mida acompanhada de uma ligeira bruma. Ergueu os olhos semicerrados e apressou 
o passo.
Um quarteiro mais  frente avistou um homem magro, de aspecto cavalheiresco, sentado num banco enquanto lie a edio do primeiro vespertino do dia, o Boston Globe. 
Estendeu a palma da mo para aferir a intensidade da chuva, decidindo que ainda Lhe restava tempo para acabar de ler os ltimos pargrafos do artigo, cujo tema era 
a morte misericordiosa que tivera lugar no Hospital Mdicos de Bston.
Fora publicado na terceira pgina e ocupava duas colunas, descrevendo com algum pormenor a priso de David e a acusao subsequente. Na impossibilidade de descobrir 
uma fotografia de David na altura, o reprter do jornal, de servio no tribunal, conseguira desencantar uma de Ben Glass nos arquivos do peridico.
O homem elegante de estatura baixa acabou de ler o artigo. dobrou o jornal que colocou debaixo do brao e comeou a caminhar para casa. Perdido em pensamentos relativos 
 histria que acabara de ler, o homem no reparou na tentativa de Davd no sentido de estabelecer contacto visual.



Captulo 16

- Chrissy, vai ver a casa de banho. Parece-te que esteja bem? - perguntou Lisa enquanto vestia uma saia e apertava o fecho na anca.
 - Lisa, acho que a casa de banho no poderia estar mais limpa. Eu j te disse para no te preocupares com a casa. Ainda tenho uma hora antes de ela chegar.  tempo 
mais do que suficiente para limpar. - Christine meteu um disco na respectiva capa e voltou a coloc-lo no seu lugar na prateleira, aproveitando para endireitar a 
fileira de lbuns colocados ao alto. Sentira um nervosismo crescente, a par da apreenso desde o telefonema que Dotty Dalrymple Lhe fizera ao fim da tarde, e agora 
s deseJava que as suas companheiras de casa sassem, dando incio s actividades que tinham programadas para aquela noite, de forma a que ela pudesse dispor de 
algum tempo a ss, antes da chegada da mulher.
A directora do pessoal de enfermagem no Lhe dera a mais pequena indicao da razo que a levara a querer ir a sua casa no entanto, era bastante difcil a Christine 
acreditar que aquela visita se relacionasse com algo mais para alm da morte de Charlotte Thomas. Ainda pensara em telefonar para o Comit Regional de Avaliao, 
procurando conselho quanto  forma de lidar com a situao, tendo concludo que seria um disparate, uma vez que ela no tinha a certeza de qual exactamente era a 
situao.
De repente, Lisa, nua da cintura para cima, surgiu na sala de estar.
 - Carole, com soutien ou sem soutien para este tipo?
 - Lisa, vais ter um encontro com um homem que no conheces - gritou Carole do seu quarto. - No permitas que ele te toque e o homem jamais saber se ests a usar 
ou no.
- E tu, Chrissy, o que  que te parece? Levo soutien ou no?
Christine olhou-a por breves instantes com uma expresso de avaliao.
 - A estao tem sido bastante aborrecida - disse ela. -  Na minha opinio, devias atirar-te de cabea. - A sua voz soava muito menos animada do que fora a sua inteno.
 - Tu ds a impresso de estar to tensa como o couro de um tambor - retorquiu Lisa com um encolher de ombros, vestindo a blusa. - Trata-se de alguma coisa de que 
queiras desabafar?
 - Acredita em mim - redarguiu Christine - , se eu tivesse alguma coisa acerca da qual desejasse falar no hesitaria em faz-lo; Miss Dalrymple nunca me visitou 
desta maneira, mais nada.  possvel que ela queira promover-me, mas por outro lado no ponho de parte a ideia de querer despedir-me. No fao a mais pequena ideia. 
Vocs as duas divirtam-se. S espero que ele seJa simptico. E quero agradecer-vos por me terem aJudado a arrumar a casa.
 - Alto a, espera um minuto! - Lisa fez estalar a ponta dos dedos e correu para o seu quarto, enquanto falava ao mesmo tempo.
 - Isto veio ao princpio da tarde, acho que foi quando saste. - Regressou com uma jarra cheia de flores. - Parece-me que elas ficaro perfeitamente bem aqui, junto 
da janela... No, em cima da mesa... No, parece-me que talvez fiquem melhor ali...
 - Lisa, essas flores so uma maravilha. Quem  que as mandou?
 - A consola da lareira. Sim.  o lugar perfeito para as flores.
 - Lisa, quem?
 - Oh, foi o Arnold quem mas ofereceu. Arnold Ringer, o homem que ps todos os coraes do escritrio em alvoroo. O doido acredita que so um atalho para o meu 
corpo. E queres saber que mais?
- Ele tem toda a razo! - Ambas pronunciaram as mesmas palavras em unssono, o que fez com que desatassem a rir-se.
Christine dava uma arrumadela  cozinha quando ouviu a campainha da porta. Momentos mais tarde, Carole e Lisa fizeram as suas despedidas e ela ficou sozinha. Todavia, 
a sua solido durou um suspiro, um passo na direco da sala de estar e outro no sentido inverso. Com um bater  porta puramente simblico, Ida Fine entrou pela 
porta das traseiras. Dobrado debaixo do brao trazia uma cpia da edio vespertina do Globe. Comeou a falar sem dar a Christine a oportunidade de Lhe dizer que 
a sua visita era inoportuna.
 - Ento, onde  que esto as minhas outras duas meninas? Esta noite saram? E por que razo  que tu no saste tambm? - Era muito raro que Ida fizesse uma pergunta 
sem que fosse ela prpria a dar-lhe resposta, ou ento dava sequncia  anterior com uma posterior, que muitas vezes no se relacionava em nada com a antecedente.
 - Ambas tinham encontros marcados, Ida - respondeu Christine, esperando que a falta de entusiasmo que se reflectia na sua voz lhe transmitisse a mensagem de uma 
forma que no fosse ofensiva.
 - E tu, a mais bonita das trs, no tens um encontro marcado? Ests doente;  esse o problema? No ests a sentir-te bem? Eu tenho sopa l em cima. Eu bem sei que 
vocs, as enfermeiras, so demasiado sofisticadas para acreditarem no bem que uma sopa faz, mas...
 - No, Ida, eu sinto-me lindamente. - No havia nada que impedisse a mulher de levar a cabo o seu ataque frontal.  - Acontece que esta noite estou ocupada. A minha 
chefe deve chegar dentro em pouco e eu tenho de me aprontar. Talvez amanh, ou mesmo ainda esta noite, mas mais tarde, possamos conversar. De acordo?
 - Aposto que ela quer falar contigo sobre aquele mdico que assassinou a mulher no hospital onde trabalhas - alvitrou Ida, batendo com o jornal sobre a mesa. - 
E para mais, um mdico. A minha me sempre quis que eu me casasse com um mdico, mas no, eu tive de ser teimosa e casar com o meu marido, que Deus tenha a sua alma 
em descanso... - Os olhos de Christine arredondaram-se de espanto, fitando Ida' que continuava a falar sem dar mostras de tencionar parar. -  ... no que o Harry 
tenha sido um mau marido, posso eu dizer-te. Ele era um homem muito bom. Mas s vezes...
 - Ida, de que  que ests para a a falar?
 - Do assassnio. O David qualquer coisa. Ele deve ser judeu. No,  impossvel que seja judeu. Um rapaz judeu que assassina uma doente? No posso...
 - Ida, por favor! - O grito de Christine produziu um silncio imediato. - De que diabo  que ests para a a falar?
 - Vem tudo escrito aqui. No Globe. Pensei que estivesses a par do assunto. Toma, fica com o jornal. D-me s a seco da programao da televiso. Quando fui ao 
supermercado esqueci-me de comprar a TV Guide.
Ela continuou a falar, mas Christine deixara de prestar ateno ao que a mulher dizia. As folhas do jornal continuavam a fazer o barulho caracterstico do papel, 
mesmo depois de ela as ter dobrado para trs. "CIRURGio ACUSADO DE MORTE
MISERICORDIOSA; FOi LIBERTADO SOB FiANA", leu ela.
O rubor assomou-lhe s faces, para logo desaparecer.
 - Oh, meu Deus - murmurou ela numa voz inaudvel, enquanto continuava a ler o artigo que descrevia a priso de David, assim como a acusao. - Oh, meu Deus...
A chacina verbal de Ida prosseguiu por mais um minuto, at que abrandou, cessando por completo. Christine leu o artigo, uma palavra de cada vez, sem se dar conta 
de que o olhar da sua senhoria se mantinha preso em si.
Entretanto, Ida foi buscar uma cadeira da cozinha onde Christine se deixou cair entorpecida, lendo as ltimas linhas do artigo.
"Fontes fidedignas do Globe informam que Shelton passou receitas para grandes quantidades de morfina, no dia da morte de Mrs. Thomas. O advogado do mdico, o Dr. 
Glass, no quis fazer qualquer comentrio relativo s provas incriminatrias, embora tenha afirmado convictamente que acreditava na inocncia do seu cliente. "Quando 
todos os factos forem apresentados", disse ele, "tenho a certeza de que a verdade vir ao de cima, e o meu cliente ser ilibado." O Dr. Shelton foi libertado sob 
uma fiana no valor de cem mil dlares. A data do julgamento ainda no foi marcada."
Ida dirigiu-se apressadamente para o lava-loua e molhou um pano que colocou sobre a testa de Christine. Durante quase um minuto, esta no fez qualquer gesto para 
a impedir. Finalmente, fez um breve acenar de cabea, afastando com suavidade a mo de Ida.
- Imagino que ainda no tivesses conhecimento disto, no ? - deduziu Ida. - Conheces este David? - Miraculosamente, a mulher ficou-se por aquelas duas perguntas.
 - Sim. Eu... conheo-o - retorquiu Christine. David Shelton tinha estado muito dentro e fora dos seus pensamentos, desde o dia em que se tinham conhecido na Ala 
Quatro Sul. Nada de persistente ou de avassalador - nem sequer bem definido - , mas o certo  que ele se encontrava presente na sua mente. O inqurito de Dockerty 
tinha-lhe propiciado uma razo para falar sobre ele com as outras enfermeiras, sem que se mostrasse demasiado bvia nem parecesse estar muito interessada.
Num gesto de ansiedade, Ida Fine esfregou as mos.
 - Christine, as tuas faces tm a cor da minha hera-sueca. Queres que te ajude a ir para a cama ou... ou que chame um mdico?
 - Ida, eu estou bem - disse Christine com um abanar de cabea. - De verdade que sim. Mas tenho de ficar sozinha durante algum tempo. Fazes-me esse favor?
 - De acordo, vou-me embora. J estou de sada - anuiu Ida. A entoao de amuo surgiu na sua voz mais por reflexo do que pela inteno. - Se precisares de mim, estou 
l em cima. Tambm tenho comida, se sentires apetite... Fica com o jornal... - Enquanto transpunha a porta continuava a falar.
Christine leu o artigo pela segunda vez, aps o que tomou nota na sua agenda do nome e endereo do escritrio de advocacia de Ben Glass. O que  que teria levado 
David a comprar uma quantidade to grande de morfina? E logo no dia da morte de Charlotte? Seria uma mera coincidncia? Talvez, embora no fosse algo que se aceitasse 
facilmente. Era possvel que os rumores que circulavam no hospital desta feita fossem verdadeiros. Talvez ele consumisse drogas. Ou ento que estivesse envolvido 
no trfico de estupefacientes. Talvez tanto uma coisa como a outra. Contudo, a opinio que ela formara do homem, ainda que um pouco vaga, no Lhe permitia acreditar 
que aquilo fosse verdade.
Com a ponta dos dedos fez presso sobre as fontes, quando sentiu o latejar de uma dor pouco intensa que acompanhava o ritmo do bater do seu corao. O facto inquestionvel 
era que a razo por que David tinha comprado a morfina no fazia qualquer diferena, apercebeu-se ela. Christine sabia bem o que  que tinha feito com as ampolas 
que A Irmandade Lhe havia deixado; resumindo e concluindo, era absolutamente impossvel ela permitir que ele viesse a sofrer as consequncias do seu acto. Na altura, 
a sua aco parecera-lhe ser to justa, pensou ela. Que diabo, fora justa. Tinha sido o que Charlotte quisera. O comit havia aprovado a sua iniciativa. Christine 
no agira sozinha. Fechou os olhos com fora e encostou-os aos pulsos, os quais parecia terem-se transformado em martelos. O mais pequeno movimento da cabea fazia 
com que o latejar aumentasse de intensidade.
 - Vai-te deitar - disse ela a si prpria. - Toma uma aspirina, um Valium... uma coisa qualquer, e deita-te. - Pestanejou sob a luz da cozinha que de sbito adquirira 
a luminosidade do Sol; levantou-se da cadeira. Nesse mesmo instante ouviu a campainha da porta.
Dirigiu-se em passos vacilantes para o fogo. Ch, tinha de preparar um ch, pensou ela. A campainha voltou a tocar, desta feita com maior insistncia.
Com um gemido, Christine voltou-se e comeou a percorrer apressadamente o corredor a fim de abrir a porta.
Dotty Dalrymple, usando um casaco comprido de cor prpura, tinha um aspecto mais imponente do que nunca. Sorriu calorosamente por baixo do seu chapu de lona com 
uma orla larga da mesma tonalidade do casaco, transpondo a porta do apartamento.
 - Isto est a pingar - disse ela, estendendo o guarda-chuva negro como se este fosse um basto. - Onde  que eu o posso pr? - O seu aspecto era o de quem se sentia 
absolutamente  vontade.
O latejar que Christine sentia na cabea comeou a abrandar, quando colocou o guarda-chuva junto da porta e pendurou o casaco, que mais se assemelhava a uma tenda 
ampla.
 - Um ch - disse ela, esquecendo-se de convidar a mulher a entrar. - Deseja tomar um ch?
 - Um ch seria excelente, Christine. - O sorriso de Dalrymple alargou-se ao fazer um gesto indicando o corredor. -  Na sala de estar?
 - Oh, peo desculpa, Miss Dalrymple - redarguiu Christine comeando a acalmar-se um pouco. - No foi minha inteno mostrar tanta descortesia. Faa o favor de entrar... 
Peo-lhe que me desculpe a desarrumao da casa, mas...
- Deixe-se disso - atalhou a directora do pessoal de enfermagem, interrompendo-a. - O seu apartamento  encantador. Por favor, Christine, descontraia-se um pouco. 
Eu prometo que no Lhe mordo. - Com um olhar rpido, inspeccionou a sala de estar, optando por uma cadeira estofada sem braos, colocada em frente do sof, onde 
se sentou. - Por acaso, voc mencionou uma chvena de ch?
 - Sim, sim. J pus a gua ao lume. Deixe-me s ferv-la.
 - Tomo o meu com limo, se tiver - adiantou Dalrymple da sala de estar. - Se no houver, tomo-o simples.
 -  s um minuto - disse Christine da cozinha, onde se atarefava na preparao do ch. Mordeu um biscoito da nica caixa que encontrou. - Raios! - exclamou cuspindo 
para o lixo o bocado de biscoito bastante retardado.
Nos poucos minutos de que necessitou para colocar duas chvenas de ch e algumas rodelas de limo num tabuleiro, Christine chamuscou um antebrao e fez um pequeno 
corte num dos lados de um polegar. Depois de ter dado dois passos na sala de estar, imobilizou-se, mal evitando que as chvenas tombassem no cho. Dotty Dalrymple 
tinha um exemplar do vespertino Globe aberto no regao.
 - Assumo pela sua reaco que j leu o jornal da tarde -  disse a chefe das enfermeiras.
Christine cerrou os olhos e respirou fundo. Caso a sua chefe tivesse estabelecido uma ligao entre ela e Charlotte Thomas, isso s poderia significar que havia 
algo que correra bastante mal. Agora desejava ter telefonado para o Comit de Avaliao da Irmandade, a fim de se ter aconselhado.
 - Eu... a minha senhoria mostrou-me h pouco tempo -  gaguejou ela. -  horrvel.
 - Conhece bem o doutor Shelton? - perguntou Dalrymple, indicando-lhe com um gesto para que se sentasse no sof.
 - No, verdadeiramente, no. Mal trocmos algumas palavras. Eu... eu s o conheci na semana passada. - Pensou que tinha dito demasiadas palavras. O que  que a 
outra quereria?
 - Est a par do seu passado?
Do seu pass ado ? Aquela pergunta apanhou Christine desprevenida. Por que motivo  que Dalrymple faria uma pergunta daquelas? Seria que a mulher tinha alguma suspeita? 
Estaria ela, fosse de que maneira fosse, a tentar encobri-la? Christine decidiu dar continuidade quela peleja verbal at que os propsitOs da mulher se apresentassem 
com maior clareza.
 -  O passado dele? Para dizer a verdade, no estou muito a par. Nada mais sei alm de uns rumores que correm pelo hospital.
 O homem  conhecido por ser um viciado em drogas, para alm de, muito provavelmente, tambm ser um alcolico  - atalhou Dalrymple sem estar com meias palavras. 
- Voc tinha conhecimento deste aspecto? - Christine sentia-se deveras chocada com o que a chefe das enfermeiras dissera para poder responder. Momentos depois, a 
mulher continuou: -  H vrios anos, ele foi demitido do quadro clnico do Hospital White Memorial. A sua contratao, para que passasse a fazer parte do pessoal 
mdico do nosso hospital, rodeou-se de inmeros protestos por parte de muitos dos outros mdicos. O David Shelton no  um crdito para a sua profisso.
A imagem de David surgiu nos pensamentos de Christine: gentil e intensa, com uns olhos de expresso generosa e de grande honestidade. Em paralelo com aquela imagem, 
as palavras de Dalrymple no faziam o mnimo sentido.
 - Eu... eu no sei o que dizer.
Dalrymple, continuando sentada, inclinou-se mais para a frente e fitou-a com grande intensidade.
 -  por de mais evidente que me encontro aqui, a partilhar estes pensamentos consigo... por uma razo. - A sua voz revestia-se de um timbre estranho e um tanto 
mstico.  -  Christine, ns somos irms, voc e eu. Irms. - Christine ficou sem respirao. - Naquela tarde na Ala Quatro Sul senti uma vontade to grande de Lhe 
dizer, mas os nossos regulamentos probem que faamos isso. Desde os meus primeiros tempos de enfermagem que eu fao parte d'A Irmandade da Vida Na realidade, eu 
represento a regio nordeste no nosso conselho de direco.
 - Eu jamais teria pensado... O que quero dizer  que nunca desconfiei...
 - Somos vrios milhares, Christine - atalhou Dalrymple com uma gargalhada. - Espalhadas por todo o pas. Do meLhor que a enfermagem tem para oferecer. Unidas pelos 
nossos ideais e pelo compromisso que assumimOs feito com a dignidade humana.
 - Isso quer dizer que tem conhecimento do caso da Charlotte? - perguntou Christine.
- Sim, minha querida, claro que sei. Todas as directoras esto a par... O Comit de Avaliao da Nova Inglaterra sabe e... como  claro, a Peggy tambm tem conhecimento. 
Estou aqui em representao de todas. Encontro-me aqui para a ajudar.
 - Para me ajudar?
 - Sim - respondeu a chefe das enfermeiras.
 - E quem  que vai ajudar o doutor Shelton? - inqUiriu Christine com um abanar de cabea, mostrando uma expresso cabisbaixa.
 - Minha querida, tenho a impresso de que voc no compreendeu o que eu Lhe disse. - A fim de dar mais nfase s suas palavras, Dalrymple inclinou-se ainda mais 
para a frente. - O homem  um...
Christine interrompeu-a, erguendo uma mo e levando um dedo aos lbios. Olhou fixamente para um dos lados da sala. Dalrymple fitou-a com uma expresso intrigada, 
seguindo a direco do seu olhar at ao ponto onde ela o fixara.
 - Ouvi qualquer coisa - sussurrou Christine. - Do lado de fora, junto da janela.
Dalrymple inclinou a cabea para o lado pondo-se  escuta.
 - No ouo nada - retorquiu ela em voz baixa.
Christine no se mostrou muito convencida. Caminhando na ponta dos ps, dirigiu-se para a ombreira da janela, tentando perscrutar a noite. No viu qualquer movimento 
no caminho de acesso  garagem, nem to-pouco na extenso de rua que o seu olhar conseguia abarcar. Durante vrios minutos manteve-se encostada  parede junto da 
janela. No ouviu mais som nenhum. Finalmente, com um encolher de ombros, correu as persianas e regressou ao sof.
 - Tenho a certeza de que ouvi um rudo l fora - insstu ela. - Uma espcie de som ensurdecido.
 - Provavelmente foi um gato - adiantou Dalrymple.
 -  possvel que sim. - No entanto, faltava convico  sua voz. Dalrymple bebia pacientemente o seu ch em pequenos goles, aguardando que a concentrao de Christine 
voltasse a ser suficiente para permitir-lhe retomar a conversa
 - Eu... eu lamento muito esta interrupo - disse por fim Christine.
 - Eu compreendo a situao por que est a atravessar, minha querida - redarguiu Dalrymple com um sorriso amigvel.
- Todas ns compreendemos, embora nunca se nos tenha deparado uma situao com as caractersticas da sua, o que, muito plausivelmente, jamais voltar a acontecer. 
A nossa tarefa no  nada fcil. Ao longo de todo o percurso das nossas vidas  necessrio que faamos escolhas, existindo muito poucas que no seJam dolorosas. 
- A voz da mulher tinha um timbre que Christine achou inquietante
 - Exactamente' o que  que est a sugerir que eu faa? -  perguntou ela.
 - Que ideia a sua! Nada, Nada de nada.
Christine olhou para a mulher sem querer acreditar no que ouvia.
- minha querida - replicou Dalrymple.
- Miss Dalrymple, eu no posso permitir que esse homem sofra as consequncias por algo cuja responsabilidade  inteiramente minha. Nunca mais poderia viver comigo 
prpria.
Dalrvmple lanou-lhe um olhar impassvel, acompanhado de um abanar de cabea.
 - Receio muito, Christine, que possa haver muito mais pessoas a sofrer, caso voc tomasse alguma medida no sentido de o ilibar.
Bem no seu ntimo, Christine sentiu-se assolada por um receio.
- O que... o que  que pretende dizer com ISSO!
- A mulher com quem falou ao telefone,  a Peggy Donner. H quase quarenta anos que ela fundou A Irmandade da Vida. Dedicou toda a sua vida ao desenvolvimento da 
organizao. Christine, ela no Lhe permitir, assim como a alguma das irms, que a prejudique por ter feito o que considera ser correcto. Ela receia que, se voc 
tornar este caso do domnio pblico, mais cedo ou mais tarde todo o nosso movimento venha a ser prejudicado.
 - Mas isso no  verdade! - gritou Christine. - Eu nunca prejudicaria fosse o que fosse acerca...
 - O que interessa no  o que voc possa pensar que aconteceria. mas sim o que a Peggy acha que suceder. Antes de ela se arriscar a que o pblico pudesse 'r a 
ter conhecimento da nossa existncia, atravs de uma investigao srdida por parte da Polcia e do sensacionalismo da imprensa, seria ela prpria quem tomaria a 
iniciativa de pr tudo a descoberto.  - A expresso de Dalrymple denotava gravidade. - Ela tem as nossas gravaes, Christine. Todas as que foram feitas. Caso voc 
decida dirigir-se  Polcia, ela afianou perante o conselho de direco que as tornar pblicas, o que far  sua maneira. H j vrios anos que o seu desejo  
que isso tivesse acontecido. Somente a presso que todas ns exercemos sobre ela  que a impediu de concretizar essa grande vontade. No achmos que as circunstncias 
fossem as mais apropriadas a essa revelao.
O latejar que Christine sentira na cabea recomeou.
 - IStO... IStO no pode estar a acontecer.
- Mas a realidade  que est, Christine. E as carreiras de todas as que pretencem  Irmandade encontram-se suspensas por um fio que voc controla. No me sinto nada 
feliz com esta situao, a despeito do desagrado pessoal que sinto em relao aos mdicos degenerados, categoria em que se enquadra o doutor Shelton. Todavia,  
foroso que acredite em mim, sendo eu uma pessoa que conhece a Peggy h j muitos anos. Ela
insistir em pr em prtica o que afirmou.
A reaco de Christine foi um abanar de cabea.
- NS gostaramos que tirasse umas frias do hospital - prosseguiu Dalrymple numa voz suave. - Eu no terei qualquer dificuldade em Lhe conceder uma licena de, 
digamos, trs ou quatro semanas. Quando regressar das suas frias, haver um lugar de supervisora  sua espera. Talvez pudesse ir at  Grcia? Nesta altura do ano, 
as ilhas so paradisacas. Poder passar um ms ao Sol enquanto todo este assunto ser 
esquecido.
 - Eu... eu no me parece que pudesse faz-lo.
 - Para bem de todas ns, Christine, ter de proceder como Lhe digo. Peo-lhe o favor de acreditar em mim. A ameaa da Peggy no foi proferida em vo. Tendo em considerao 
o nmero de membros da nossa organizao, e a imagem positiva que esta proJectaria, ela est convencida de que nesta altura A Irmandade est em condies de poder 
resistir  revelao. Se voc optar por falar com as autoridades, nada nem ningum poder det-la. At  muito possvel que ela tenha razo, mas, no desejo ficar 
sem a minha vida
 - A situao seria catica - disse Christne
 - Preciso de tempo. Tenho necessidade de parar para poder pensar
 - Quanto mais depressa iniciar a sua viagem, melhor ser para todos ns - retorquiu Dalrymple. - Posso garantir-lhe que o facto de se afastar desta cidade facilitar-lhe- 
em muito todo este processo. - Levantou-se e retirou um sobrescrito de dentro da mala de mo, que entregou a Christine. - Isto poder ajud-la a decidir o que  
mais aconselhvel. Por favor, no hesite em me telefonar se eu a puder ajudar em mais alguma coisa. Eu sei que se trata de uma situao deveras difcil, Christine, 
no  fcl ser-se obrigado a magoar uma pessoa, a fim de evitar que muitas mais venham a sofrer. Mas a opo  sua.
Christine seguiu-lhe as passadas at ao corredor, imobilizando-se como que entorpecida, enquanto a mulher vestia outras roupas.
- Ns... sentimo-nos muito gratas pelo que voc vai fazer. - Com aquelas palavras, estendeu a mo e apertou a de Christine, aps o que voltou costas e transps a 
porta que dava para a rua.

O automvel azul, estacionado num recanto escuro entre dois candeeiros de rua, encontrava-se virtualmente oculto. Mantendo o corpo baixado por detrs do volante, 
Leonard Vincent mantinha a sua ateno concentrada na casa, esforando-se por recuperar a respirao. O ter sido quase apanhado em flagrante por baixo da janela 
e a corrida que fora forado a fazer at ao carro tinham-no deixado ofegante e todo transpirado, apesar do ar frio da noite. Sobre as coxas tinha a mo direita, 
que descrevia crculos contnuos, afiando a lmina de uma faca numa pedra de amolar, executando os mesmos movimentos ternos de um violinista num concerto. A lmina 
tinha o comprimento de cerca de vinte centmetros, sendo afunilada e ligeiramente curva na extremidade. O cabo, de osso entalhado, quase se perdia na mo gigantesca 
que mantinha fechada em seu redor. Aquela faca era o orgulho de Leonard Vncent.
A porta da frente abriu-se. Vincent fez uma expresso desdenhosa ao avistar a mulher corpulenta, que descia os degraus de cimento da porta da frente com alguma dificuldade. 
Enquanto ela atravessava a rua dirigindo-se ao seu automvel, ele entreteve-se a planear a descrio que faria no seu relatrio.
 - Precisamente s dezassete e trinta, houve um pequeno dirigvel que flutuou at ao interior da casa. - As faces descoradas de Vincent arrepanharam-se, exibindo 
um arreganho de desconsolo. - Algum tempo depois, ela deu a impresso que saiu da casa a rebolar, descendo os degraus num passo vacilante, aps o que se encaminhou 
para o carro. Exactamente s dezoito e quinze minutos, comeou a instalar-se por detrs do volante. s dezoito e trinta conseguiu os seus intentos.
Distrado com a sua prpria perspiccia, Vincent reagiu com lentido quando a mulher inverteu subitamente a marcha, comeando a conduzir na sua direco. Instantes 
antes de os faris o iluminarem, ele lanou-se velozmente sobre o assento da frente, batendo com a testa contra o fecho da porta do lado do passageiro. Amaldioou 
o fecho, ao que se seguiu a porta, culminando com uma maldio dirigida  bruxa gorda que fizera com que batesse com a cabea. Mas acima de tudo o mais, amaldioou-se 
a si prprio por ter aceite um trabalho, sem que previamente conhecesse com preciso a identidade de quem contratara os seus servios, para no mencionar que no 
fazia a mnima ideia daquilo que se esperava que ele fizesse.
Tinha comeado tudo com um telefonema de um empregado de bar seu amigo.
 - Leonard - dissera o homem - , parece-me que tenho qualquer coisa para ti. Apareceu por aqui uma gaja a perguntar se eu conhecia algum que estivesse interessado 
em ganhar uma pipa de massa. Ela diz que a pessoa que se encarregar do servio tem de saber manter a boca bem fechada, limitando-se a fazer aquilo que Lhe disserem. 
Ainda tentei descobrir alguns pormenores, mas ela s me lanou um olhar de merda, pondo sobre o balco uma nota de cinquenta, dizendo que havia mais se eu conseguisse 
arranjar algum que fizesse menos perguntas do que eu. Ests a perceber? Deixa-me que te diga, Leonard, que a gaja  mesmo esquisita, mas acho que no faltar  
palavra dada. Alm de que tem umas mamas e peras.
Logo de imediato, a descrio daquela situao no agradou muito a Vincent. O nome que a mulher Lhe dera, Hyacinth, era uma aldrabice, do que ele no tinha a mnima 
dvida. Mas para o caso isso no interessava muito. Para alm de Lhe indicar qual o servio a executar, tudo o que ela teria de fazer era o respectivo pagamento.
E fora assim que ele acabara por vir a ter em seu poder dois mil e quinhentos dlares, pagos adiantadamente, um nmero de telefone e um nome: Dahlia. Outro nome 
falso.
Vincent esfregou o galo que j tinha comeado a formar-se acima do olho esquerdo. Amaldioou Dahlia, a responsvel por ele ser forado a andar na rua no meio de 
um furaco, e por ter batido com o raio da cabea contra a maldita porta do carro.
 - Enfrenta os factos, Leonard - disse ele a si prprio - , desta vez chegaste mesmo ao fundo, independentemente do quanto a merda do dinheiro possa vir a calhar.
Manteve a casa sob vigilncia at se sentir razoavelmente seguro de que Christine Beall no tencionava sair, aps o que meteu a faca numa bainha de couro feita  
mo, conduzindo o automvel at uma cabina telefnica situada  esquina da rua. Ao segundo toque foi atendido por uma mulher.
 - Sim?...
 - Daqui fala Leonard. - A sua voz era enrouquecida e sem qualquer entoao.
 - Sim?
 - Voc disse que queria ser informada sobre toda a gente que falasse com esta Christine.
 - E?...
 - Pois bem, acabou de sair de casa dela uma mulher alta e gorda. Chegou h quarenta e cinco minutos, mais coisa menos coisa.
 - Mister Vincent, as instrues que recebeu eram para que telefonasse assim que ela se encontrasse com algum, e no que esperasse at que essa pessoa se fosse 
embora.
 - Ei, voc no me parece ser a Dahlia. Estou a falar com a Dahlia?
 - Mister Vincent, por favor. Quando a Hyacinth Lhe pagou, ela disse-lhe simplesmente que ligasse para este nmero a fim de dar as informaes que possusse. Agora, 
ou se dispe a fazer exactamente aquilo para que foi instrudo, ou prometo-Lhe que ter problemas. Grandes problemas. Estou a fazer-me entender com clareza?
A ameaa era verdadeira. Leonard Vincent no tinha receio nenhum fosse do que fosse que pudesse ver; contudo, uma voz cheia de frieza, que no sabia a quem pertencia, 
era uma coisa completamente diferente. Uma vez mais, amaldioou-se a si prprio por ter aceite aquele servio.
 - Sim, est tudo bem claro - confirmou ele.
 - Muito bem. Durante quanto tempo mais  que manteve a casa sob vigilncia depois de essa mulher ter saido?
 - Talvez uns dez ou quinze minutos; no posso precisar exactamente. No entanto, fi-lo durante o tempo suficiente. Ela hoje j no tenciona sair de casa.
 - De acordo. Faa o favor de regressar ao seu posto.
 - E com respeito a dormir?
 - Voc est a ser pago, devo acrescentar que muito bem pago, para vigiar essa mulher e para nos informar de todos os seus movimentos, Mister Vincent. Agora, faa 
o favor de retornar ao seu posto de observao. E no se esquea de que ns queremos ser informados no mesmo momento em que ela fale com algum... e no depois de 
isso ter acontecido. Telefone para este nmero s duas horas e nessa altura discutiremos o assunto do seu sono. Oh, s mais uma ltima coisa. Antes de Lhe ter pago 
adiantadamente, a mulher que o contratou averiguou umas coisas a seu respeito. Inteirou-se da tendncia que voc tem para fazer mal s pessoas, o que por vezes acontece 
sem qualquer provocao. Ningum deve ser beliscado sem que ns digamos que tal dever ser levado a cabo. Est a compreender isso de forma bem clara?
 - Tal como voc j disse, o dinheiro  seu - respondeu Vincent com um encolher de ombros. Desligou o telefone, que olhou por alguns instantes, aps o que cuspiu 
para cima do auscultador. Num gesto de puro reflexo, inspeccionou a cavidade que se destinava  devoluo das moedas; em seguida, meteu-se no automvel e dirigiu-se 
de novo para a casa.
A nica luz que se via no apartamento filtrava-se atravs das venezianas da Janela da sala de estar. De poucos em poucos minutos, a silhueta de Christine aparecia 
para logo desaparecer. Leonard Vincent agarrou na sua pedra de amolar e comeou a trautear uma melodia de uma s nota, enquanto retirava uma outra faca do porta-luvas.

Christine sentira-se incapaz de se sentar desde que Dotty Dalrymple tinha sado de sua casa. Andava de um lado para o Outro, percorrendo todas as divises do apartamento, 
enquanto batia com o sobrescrito por abrir contra a palma da mo. subitamente, baixou o olhar como se reparasse nele pela primeira vez. Em seguida, rasgou-o para 
o abrir.
Dentro havia cinco maos perfeitos de notas de cem dlares - dez em cada um deles.
 - A escolha  bastante clara - disse ela em voz alta, pondo  prova as palavras da sua chefe de enfermagem. Uma vez mais, a imagem de Davd surgiu-lhe ao pensamento. 
Olhou para as notas envoltas em cintas, aps o que as lanou para dentro da gaveta da sua cmoda. - A escolha  clara - acrescentou num murmrio.



Captulo 17

Na quinta-feira, dia nove de Outubro,  semelhana dos trs dias anteriores, o servio meteorolgico de Bston anunciou a previso do fim de um sistema de baixas 
presses, assim como da chuva. Pelo quarto dia consecutivo, aqueles servios enganaram-se.
Em Huddleston, Nova Hampshire, a norte da cidade e a uma distncia de noventa minutos, houve uma ponte coberta construda havia cento e cinquenta anos que desapareceu, 
desmoronando-se sobre o ribeiro Crystal, cujo caudal durante o ms de Agosto pouco mais costumava ser do que um fio de gua.
Os acidentes na Estrada 128, os quais nunca eram uma raridade, mais do que triplicaram.
No entanto, sobre David Shelton, tal como acontecia na maior parte daquela regio, os efeitos daquelas chuvadas que se recusavam a abrandar eram ainda mais insidiosos. 
A distncia a percorrer desde o seu apartamento at ao distrito financeiro, onde se situavam os escritrios de advocacia de Well-man, MacConell, Enright e Glass, 
era superior a quilmetro e meio. Sentindo-se irritado e frustrado pela inactividade em que se mantivera, optou por desafiar o vendaval, decidindo ir a p para a 
reunio que marcara com Ben. Depois de ter percorrido um quarteiro, j se encontrava completamente encharcado, pelo que qualquer pensamento quanto ao regressar 
a casa Lhe parecia ser intil.
 - Molhado  molhado - concluiu para consigo pondo  prova a sua resistncia, baixando a cabea numa tentativa para se proteger do vento fustigante.
Os escritrios ocupavam a maior parte do vigsimo terceiro andar de um edifcio todo revestido a vidro, cujo nome e endereo se situava no nmero um de Bay State 
Square.
 - No admira que ele me leve dez mil dlares de honorrios - resmungou David enquanto se aproximava da rea de recepo Havia trs mulheres que atendiam quem se 
dirigia aos escritrios, mostrando uma experincia cheia de calma num espao to grande como a sala de consulta que David tinha no hospital.
Com a vista percorreu aquelas instalaes, sentindo-se como um roedor prestes a afogar-se. Durante um momento ainda Lhe ocorreu pedir  recepcionista, de expresso 
severa, algumas toalhas e uma muda de roupas, mas nada no semblante da mulher Lhe indicava que poderia dar-se quele estilo de frivolidade.
 - O doutor Glass - disse ele com humildade. - Eu tenho uma reunio marcada com o doutor Glass, no ? -  A mulher, fazendo esforos para ocultar uma expresso divertida, 
indicou-lhe uma correnteza de cadeires forrados a pele. Uma campainha discreta informou Ben da sua presena.
David concluiu que, quaisquer que houvessem sido os objectivos dos decoradores de interiores daquele escritrio, fazer com que os clientes que tivessem um aspecto 
de roedores prestes a afogarem-se passassem despercebidos no fora um deles. Toda aquela opulncia, cujo aspecto era de esterilidade, compreendia alcatifas espessas 
de um tom dourado, pinturas originais a leo nas paredes, assim como uma verdadeira selva de palmeiras de bambu e fetos enormes. Os mveis-estantes, bem fornecidos, 
exibiam de forma preminente os livros que continham por detrs de portas de vidro. Mas o que para ele ainda era mais impressionante era o facto de haver pessoas 
que consultavam aqueles volumes.
Ben apareceu vindo de uma esquina, sorriu ao ver a aparncia de David e estendeu-lhe as duas mos.
 - Das duas uma: ou voc veio a p at aqui ou este Outono  uma rplica da tempestade de setenta e oito - comentou o advogado.
 - Ambas - retorquiu David, agarrando nas duas mos que o advogado Lhe estendia, apertando-as calorosamente nas suas. Ben representava uma fresta de luz entre as 
nuvens, uma ilha de sanidade mental na loucura e na confuso da sua vida.
 - J almoou? - perguntou o causdico enquanto se dirigam para o seu gabinete.
- Ontem. Mas, por favor, para mim no quero nada. No me permita que o impea de almoar.
 - Rolo de carne a la Amy? - perguntou Ben, apresentando um saco de papel castanho que retirou de uma gaveta da secretria. - Tenho aqui o suficiente para os dois. 
Tem a certeza que no quer?
 - No, muito obrigado. De verdade que no me apetece - respondeu David com um abanar de cabea. Olhou em redor. O gabinete de Ben, onde reinava a desordem, contrastava 
acentuadamente com o resto das instalaes de aspecto austero. Viam-se diversos livros e publicaes espalhados por todo o lado, muitos por abrir ou marcados com 
folhas de papel dobradas. Nas paredes havia um excesso de fotografias emolduradas, ao lado de desenhos feitos a lpis e a tinta.
 - Os seus associados permitem-lhe ter o seu gabinete nesta confuso? - perguntou David fazendo um gesto na direco de toda aquela desorganizao.
 - Pensam que estou acampado aqui - replicou Ben com um esgar risonho. - Um dos meus scios disse numa ocasio que o meu gabinete era uma baguna. Imagine-se, mil 
dlares mensais somente por este espao e ele chama-lhe baguna! -  Deu uma trincadela na sua sanduiche continuando a conversar enquanto comia. - At mesmo todo 
encharcado, voc est com melhor aspecto do que tinha ontem. Est a conseguir aguentar-se bem?
 - Fui suspenso do quadro mdico do hospital - respondeu ele com um encolher de ombros, numa voz que no mostrava qualquer emoo.
 - O qu?!
 - Suspenso. Esta manh a doutora Armstrong fez-me uma visita. Ela  a chefe do corpo clnico e a nica naquele lugar que, a julgar pelas aparncias, se interessava 
minimamente pelo que me possa vir a acontecer. Seja como for, ela disse-me que passasse pelo seu gabinete. Eu j adivinhava o que ela tinha para me dizer, pelo que 
Lhe sugeri que me dissesse ao telefone, mas ela insistiu em faz-lo pessoalmente. O que corresponde ao gnero de mulher que ela .
 - E ento?
 - Ento, acontece que ontem  noite o comit executivo procedeu a uma votao, fazendo tbua rasa das objeces que ela apresentou, com a finalidade de me pedirem 
que me suspendesse voluntariamente das minhas actividades no bloco OperatriO, o mesmo acontecendo em relao s que exero no corpo clnico do hospital, at que 
este assunto esteja devidamente esclarecido
 - Esse seu comit executivo no  composto por gente que perca muito tempo - comentou Ben abanando a cabea.
 - De acordo com o que a doutora Armstrong me disse, o Wallace Huttner, o chefe de cirurgia, foi quem pressionou a deciso. Ele tambm est a prestar ajuda ao vivo 
da mulher assassinada, para que este possa reunir elementos que Lhe permitam dar entrada a um processo judicial contra mim, por negligncia mdica. Caso eu seja 
dado como culpado, querem estar preparados para me instaurar imediatamente uma aco. A doutora Armstrong diz que eles optaram pela suspenso voluntria para me 
beneficiarem... a fim de evitarem uma suspenso que eles se veriam obrigados a pr em prtica, o que ficaria registado no meu cadastro profissional. Na minha opinio, 
procederam desta maneira porque o trabalho de burocracia ser menor para eles.
 - Merda! - exclamou Ben entre dentes.
 - Provavelmente,  o melhor que poderia ter acontecido. At mesmo antes de eu ter sido preso, o ambiente no hospital tinha-se transformado num autntico icebergue, 
no mesmo minuto em que punha um p na porta. Tudo isto  uma loucura. Eu... eu nem sei bem o que raio  que hei-de fazer. Eu estaria disposto a enfrentar tudo, se 
por acaso tivesse a mais pequena ideia contra qu, ou contra quem,  que tenho de me debater, mas...
 - Ei, acalme-se - urgiu Ben. - A luta ainda agora comeou. Por agora, serei eu quem desferir os golpes, mas voc haver de ter a sua oportunidade. Esta tarde vamos 
partilhar ideias sobre quem e porqu. Amanh delinearemos um plano quanto s aces a tomar. A resposta encontra-se algures. Voc s tem de ser paciente, sem fazer 
nada de precipitado nem cometer loucura nenhuma. Havemos de a descobrir.
David concordou com um acenar de cabea, esboando um sorriso que no ocultava a tenso que sentia.
 - Ei, quase me esqueci disto. - Tirou um sobrescrito hmido de um dos bolsos das calas. -  uma coisa boa que a escrita a lpis no se esborrata - acrescentou 
ele, entregando o sobrescrito a Ben. - A doutora Armstrong no quer que eu tenha mais complicaes no hospital. Portanto, a troco da minha promessa de que me manteria 
sossegado, ela averiguou umas coisas a meu pedido. Na folha que se encontra aqui dentro esto mencionados quatro nomes. Extraiu-os dos dados do computador do Departamento 
de Pessoal do hospital. Dois serventes com cadastros prisionais, uma enfermeira que tem um historial de uso de estupefacientes, e uma outra que est a exercer presso 
sobre o hospital a fim de que seja aprovado um regulamento que proteja os direitos dos doentes. No conheo nenhuma destas pessoas. No  grande coisa. Todavia, 
a doutora Armstrong prometeu-me enviar estes nomes ao tenente Dockerty.
 - Ela j fez isso, David - interrompeu Ben.
 - O qu?
 - O detective telefonou-me ainda no h muito tempo. Falei com ele durante meia hora. Ele quer que voc... e a doutora Armstrong deixem de brincar aos Holmes e 
aos Watson, permitindo-lhe que faa o seu trabalho.
 - Que faa o seu trabalho? - A voz de David expressava incredulidade. - Ben, o homem passou quase uma semana a tentar pr-me a corda ao pescoo. Ele encontra-se 
do outro lado da barricada.  uma das pessoas que deveramos enfrentar.
 - No, meu amigo, ele no  um desses - retorquiu Ben com firmeza, abanando a cabea. - Ele  um detective de primeira qualidade. Eu conheo-o h tantos anos quanto 
os que exero advocacia. Quer voc acredite quer no, ele no deseja v-lo acusado deste assassnio.
 - Ento por que porra  que ele me prendeu?
 - Foi forado a isso - retorquiu Ben encolhendo os ombros. - O que se deveu  presso que sentia vinda de todos os lados, em conjunto com uma tonelada de provas 
circunstnciais. O motivo, a oportunidade, a arma... mas voc j est inteirado de toda esta matria.
 - Tambm sei que no matei essa mulher - retrucou David cerrando os punhos.
 - Pois bem, o John Dockerty tambm no se encontra cem por cento convencido de que voc seja o responsvel por essa morte. No fosse esse o caso, e ele no andaria 
a trabalhar o Marcus Quigg, o farmacutico que...
 - O Dockerty j me ps ao corrente de quem ele  - interrompeu David. - Mas, Ben, eu nunca pus a vista em cima
desse homem. Por que motivo  que ele est a fazer-me uma coisa destas?
 - Essa questo  uma das trs mais importantes - redarguiu Ben. - Vingana, medo e dinheiro.
 - Ben, at o Dockerty ter mencionado esse nome, eu tenho a certeza de nunca ter ouvido qualquer meno a respeito dele - disse David com um sacudir de cabea.  
- Marcus Quigg no  exactamente um nome corriqueiro como John Jones, no est de acordo? Se alguma vez tratei de algum Quigg... no, a vingana no tem a mais nfima 
razo de ser.
 - A menos que se tratasse de uma irm ou filha - aventou Ben. - Com um apelido diferente.
 - Imagino que essa hiptese no seja de pr de parte. -  David bateu com a mo em cima da secretria, dando largas  exasperao que sentia. - No entanto, existem 
demasiados elementos imprevisveis para que eu possa acreditar que algum pudesse ter maquinado uma cilada dessas. Existem muitos imponderveis.
 - David, neste momento, o facto de nos debruarmos em excesso sobre esse assunto s poder ser prejudicial. Resumindo e concluindo, as informaes de que dispomos 
so muito poucas... por enquanto. - Ben fez uma pausa, fazendo girar no dedo a aliana de casamento, como se procurasse as palavras mais adequadas. - David - disse 
ele finalmente. - No era minha inteno mencionar hoje este assunto, mas talvez seja melhor no estar com mais demoras. Ontem, eu disse-lhe que queria a maior honestidade 
da sua parte, est recordado?  - David acenou que sim. - Voc no aludiu ao facto de em tempos ter sido acusado de ter prescrito, deliberadamente, um excesso de 
medicao a um doente seu que sofria de cancro. Isto  verdade?
David assumiu uma atitude defensiva. A descrena arredou-lhe os olhos.
 - Ben, eu... mas isto  uma verdadeira loucura - replicou ele numa voz entrecortada. - Isso aconteceu h pelo menos nove anos. Eu fui completamente exonerado. Eu... 
Como  que teve conhecimento desse assunto?
 - O tenente Dockerty sabe. No sei quem foi, mas o certo  que houve algum que Lhe deu a dica.
 - A enfermeira, s pode ter sido a maldita da enfermeira. Como raio  que?...
- O que  que aconteceu concretamente?
 - No foi nada de mais. De verdade. Eu prescrevi analgsicos para uma senhora de idade que se encontrava  beira da morte... de quatro em quatro horas, de acordo 
com o que ela necessitava. E acredite em mim quando Lhe digo que ela estava a sofrer atrozmente. Pois bem, vim a descobrir que a enfermeira era inacreditavelmente 
preguiosa, pelo que no se dava ao trabalho de verificar se a doente estava ou no necessitada do medicamento. Consequentemente, alterei o horrio da medicao, 
instruindo que esta fosse administrada de duas em duas horas, tendo reduzido a dose e eliminado a instruo, "de acordo com as suas necessidades", certificando-me 
assim de que ela seria medicada adequadamente. No dia seguinte, essa enfermeira participou de mim. Houve um inqurito e estou em crer que ela acabou por receber 
uma reprimenda.
 - Ora bem, parece-me que agora essa mulher est a vingar-se de si - concluiu Ben. - Oua uma coisa, David,  imprescindvel que voc me conte tudo. Independentemente 
do quanto Lhe possa parecer insignificante. Seja o que for. Esta enfermeira que se apresenta ao fim de nove anos tambm poder ser uma mera coincidncia. O artigo 
foi publicado no vespertino de ontem. Mas se houver algum que a incite, ver-nos-emos a braos com mais problemas do que aqueles com que contvamos. E talvez, note 
que estou a dizer somente talvez, voc esteja de posse da resposta que esclareceria toda esta situao, sem sequer se aperceber de que a tem.
 -  possvel que sim... - A voz de David enfraqueceu. Durante alguns momentos semicerrou os olhos e coou a regio acima de uma orelha.
 - O qu? O que  que se passa? Est a recordar-se de alguma coisa?
 - Sou capaz de jurar que me ocorreu qualquer coisa  mente que desapareceu de imediato - replicou David com um abanar de cabea. - Trata-se de algo que algum disse 
a respeito da Charlotte Thomas. Eu... - Encolheu os ombros num gesto de impotncia. - O que quer que tenha sido... se  que foi alguma coisa, desvaneceu-se da minha 
memria.
 - Bem, v para casa e leve as coisas com calma, meu amigo. Amanh voltaremos a encontrar-nos.  mesma hora, est bem para si?
 -  mesma hora - aquiesceu David numa voz sumida.
- Oua uma coisa. Se por acaso amanh  noite estiver livre, porque  que no organiza as coisas de maneira a estar aqui s quatro da tarde? Teremos oportunidade 
de falar, e depois voc poder ir at minha casa para jantar connosco. Ficar a conhecer a Amy e os midos, alm de que, com esse negciO, ainda ganha uma boa refeio. 
Ela adoraria conhec-lo. O que continuaria a verificar-se, ainda que eu no Lhe tivesse dito que voc est a pagar pelo trabalho de ortodontia de que o pequeno Barry 
necessita
 -  uma ideia excelente - anuiu David sem dar mostras de grande entusiasmo
 - Ser bom para si - acrescentou Ben. - Alm do mais, a Amy tem uma irm... - Sorriu e de sbito ambos se riram. David no era capaz de se recordar da ltima vez 
que se tinha rido.
 - Ests a ficar marado do juzo, Shelton - disse David falando consigo prprio enquanto andava de um lado para o outro no seu apartamento. - Ests a passar-te e 
sabes isso muito bem. - As duas horas que haviam decorrido desde que sara do escritrio de Ben parecia-lhe terem sido dez.
L fora, a chuva constante continuava a cair, pontuada de quando em vez pelo som sincopado dos troves que se faziam ouvir  distncia. Num dado momento, as trs 
divises davam-Lhe a impresso de serem um coliseu deserto, para no seguinte Lhe parecerem uma jaula. Cada vez Lhe era mais difcil sentar-se, a dificuldade em concentrar-se 
era crescente, fixar-se em qualquer coisa especfica. "Telefona a algum", sugeriu Davd a s mesmo. "Ou telefonas a algum ou ento opta por ignorar a chuva e vai 
correr. Mas pra de andar de um lado para o outro." Agarrou nos sapatos de tnis com que costumava correr e aproximou-se da janela. As btegas de chuva ensombravam 
ainda mais o cu daquela tarde, j de si escura. Ento, como se fosse um aviso, o cu foi cortado por um relmpago que iluminou o quarto de um branco-azulado espectral. 
Momentos depois, ouviu um troar ensurdecido que aumentava num crescendo at se dar a exploso, reverberando pelo interior de todo o apartamento. Arremessou com os 
sapatos para dentro do roupeiro.
"Foi isto exactamente o que eu senti", reconheceu ele. Depois do acidente. "Foi assim que tudo comeou." Apesar daquela percepo racional da situao, a inquietao 
aumentou. Haveria alguma coisa no armrio dos medicamentos? No teria Lauren tido sempre qualquer coisa para as dores de cabea? Apenas para o caso de aquele andar 
inquieto de um lado para o outro no cessar. Na hiptese de a solido se tornar insuportvel. "Tu no necessitas de nada, mas caso venha a ser necessrio..." No 
fosse o sono recusar-se a vir. Numa antecipao da perspectiva de aquela noite no terminar.
David percorreu o corredor de um extremo ao outro, repetindo o mesmo percurso. De cada vez que passava pela porta da casa de banho detinha-se. Apenas para o caso 
de...
Sem se aperceber do que fazia, David encontrava-se l, estendendo a mo para a pequena porta espelhada do armrio dos medicamentos. A estender a mo, compreendeu 
ele de sbito, em direco a si prprio. Imobilizou-se enquanto a mo estendida tocava no reflexo da sua prpria imagem. O seu olhar ardente mostrava uma expresso 
de receio e isolamento; olhos fechados em si prprios, hipnotizados. Decorreu um minuto. Em seguida, um outro. Gradualmente, o tremor nos seus lbios comeou a desaparecer. 
O ritmo da sua respirao abrandou, fazendo-se mais profundamente.
 - Tu no ests sozinho - disse David a si prprio numa voz segredada. - Tens um amigo que aprendeu ao longo de oito anos adversos a gostar de ti... apesar de tudo 
o que possa acontecer-te. Tens-te a ti prprio. Abre essa porta, toca numa s que seja dessas estuporadas plulas e perd-lo-s. Decorridos todos estes anos e ele, 
sem mais nem menos... ir-se- embora.  ento que ficars inteiramente sozinho.
A sua mo afastou-se da porta espelhada. A determinao reflectia-se no seu rosto, actuando aos cantos da boca, at que David comeou a esboar um sorriso. Acenou 
para si mesmo  - uma vez e depois outra. A uma velocidade crescente. Detectou a fora e a determinao que cada vez se acentuava mais nos seus olhos.
 - Tu no ests sozinho - afirmou David de novo, estendendo-se no sof. - Tu no ests...
Vinte minutos mais tarde, quando o telefone comeou a tocar, continuava deitado no sof. Passou uma vista de olhos pelas ltimas linhas do poema da autoria de Frost 
que estava a ler, virou-se para o lado e agarrou no auscultador.
 - David! Estava com receio de que ainda no tivesse voltado a casa. - Era Ben quem falava do outro lado da linha.
- No, j cheguei h algum tempo - replicou David. Sorriu e acrescentou: - De facto, estou muito aqui.
 - Pois bem, desfrute do seu tempo livre enquanto puder - continuou Ben com uma nota de excitao - , porque estou em crer que dentro de um ou dois dias j poder 
regressar ao seu trabalho.
 - Bem, o que  que sucedeu? - perguntou David com uma sbita ansiedade. - Fale devagar para eu compreender tudo como deve ser.
 - Acabei de receber um telefonema, David, de uma enfermeira que trabalha no seu hospital. Ela disse que, de uma forma inequivocamente positiva, poder ilib-lo 
por completo da morte da Charlotte Thomas. Combinei encontrar-me com ela num caf dentro de duas horas. Estou convencido de que ela falava a srio, meu amigo. Se 
eu tiver razo, o seu pesadelo vai chegar ao fim.
Com o olhar, David percorreu o corredor, olhando para a porta da casa de banho.
 - Graas a Deus - disse ele, meio para o telefone e meio para si prprio. - Ben, importa-se que eu v consigo? No Lhe parece que eu deveria estar presente?
 - At eu saber ao certo o que  que esta mulher tem a dizer, no quero que voc se envolva directamente no assunto. Mas vou dizer-lhe o que podemos fazer. Irei 
a sua casa por volta das nove da noite... No,  prefervel marcarmos para as nove e meia desta noite. Nessa altura, p-lo-ei ao corrente de tudo. Com um bocado 
de sorte, o jantar que combinmos para amanh  noite ser de comemorao.
 - Isso seria esplndido - retorquiu David, esperanado.  - Diga-me... quem  essa enfermeira?
 - Oh, ela disse que o conhece. Chama-se Beall. Christine Beall.
 meno do nome da mulher, David sentiu outro baque momentneo de ansiedade.
 - Ben, foi isso mesmo o que eu tentei recordar no seu gabinete. Est lembrado? Quando houve qualquer coisa que me ocorreu ao pensamento e de que me esqueci logo 
a seguir?
- Sim, sm, estou a lembrar-me - confirmou o advogado.
 - Bem v, foi algo que ela disse. Christine Beall. Depois de eu ter falado com o marido da Charlotte Thomas. Ela segredou-me que se sentia orgulhosa pela forma 
como eu fizera frente a Wallace Huttner, e... e depois ela ainda acrescentou: "No se preocupe. As coisas tm sempre uma forma de se solucionarem por si prprias." 
Em seguida, e sem mais nem menos, ela afastou-se. Ben, voc acha que?...
 - Oua uma coisa, meu amigo. Se puder, faa um grande favor a ns dois. Tente no dar largas s suas especulaes. So s algumas horas at ficarmos a par de tudo. 
De acordo?
 - De acordo - anuiu David. - Mas voc sabe bem que, apesar do seu conselho,  isso precisamente o que farei, no acha?
 - Sim, eu sei - retorquiu Ben. - s nove e trinta.
 - De acordo. - David olhou para o seu relgio de pulso.  - Pelo menos pode sincronizar o seu relgio pelo meu, para que eu no d em doido  sua espera?
 - Faltam cinco minutos para as dezassete horas - disse Ben, soltando uma gargalhada sonora. - No meu relgio tenho cinco para as cinco, meu caro.
 - Nesse caso, so dezasseis e cinquenta e cinco - confirmou David numa voz cantada. Pousou o auscultador no descanso.
O sentimento de exaltao que sentia foi de pouca dura. Ao longo dos ltimos dias, os pensamentos conscientes que tivera em relao a Christine haviam sido submersos 
no pesadelo que o atormentava. Naquele momento, apercebeu-se de que nunca tinham estado muito distanciados da superfcie.
 - No foste tu, pois no? - perguntou em voz baixa. -  Sabes quem  o responsvel, mas a realidade  que no foste tu.
A preocupao que sentira a respeito de Christine desvaneceu-se repentinamente, quando o impacte do que Ben Lhe dissera comeou a arreigar-se na sua mente. Cerrou 
os punhos. elevando-os e descendo-os por vrias vezes. No seu rosto espelhou-se um arreganho risonho, riu-se  socapa e soltou uma gargalhada. Dirigiu-se apressado 
para a sua coleco de discos. Segundos mais tarde, percorria a sala de estar em passos saltitantes, desferindo murros violentos atravs do ar. A msica da banda 
sonora do filme Rocky soava por todo o apartamento.
Com a fanfarra a ecoar-lhe ainda nos ouvidos, atravessou o corredor e dirigiu-se para a casa de banho. Colocou-se em frente do armrio dos medicamentos, observando 
a sua imagem no espelho.
- Conseguiste, rapaz - disse David para o seu reflexo. -  Agora ests mais forte do que nunca. Sinto-me muito orgulhoso de ti. A srio que sim.
Movido por um sentimento de curiosidade e no por necessidade, estendeu a mo e abriu a portinhola do armrio.
As prateleiras encontravam-se completamente vazias.
Depois de um duche e de ter escrito as cartas que h muito devia aos irmos, chegou  concluso de que preenchera o espao de uma hora e meia. Em seguida, banqueteou-se 
com um prato de macarro com molho e pedaos de carne, o que Lhe levou outros trinta minutos. Depois do noticirio das dezanove horas, faltavam duas horas at ao 
encontro marcado com Ben.
David comeou a andar impacientemente de um lado para o outro, actividade que Lhe ocupou mais algum tempo. Retirou de um armrio o tabuleiro de xadrez, juntamente 
com uma edio do Chess Openings Made Simple. Ao fim de pouco tempo, desistiu. Os pensamentos recentes acerca de Christine faziam com que fosse impossvel concentrar-se. 
De uma maneira qualquer, durante as breves conversas que haviam tido, no decurso dos contactos entre ambos, ela tocara-o profundamente. Christine dava-lhe a impresso 
de estar envolta numa inocncia de grande intensidade, aspecto que conseguia desarmar qualquer pessoa: uma espcie de energia que ele s muito raramente vira ser 
capaz de sobreviver aos anos de escola de enfermagem ou de uma licenciatura em medicina. Alm do mais, tambm havia os olhos dela - grandes e calorosos, convidativos 
na explorao de um momento, para logo cintilarem de clera no minuto seguinte. David sentia-se cada vez mais esperanado, chegando mesmo ao ponto de rezar para 
que ela no houvesse tido qualquer envolvimento directo na morte de Charlotte Thomas. Quando chegaram as nove da noite, j ele se convencera de que no havia qualquer 
maneira de Christine se encontrar implicada naquela tragdia.
Durante algum tempo, entreteve-se a aferir todos os aspectos que conhecia do carcter da mulher, colocando-os em paralelo com Lauren. Rapidamente, compreendeu que, 
tal como era caracterstico que viesse a acontecer, estava a atribuir a Christine as qualidades que ele desejava que ela possuisse.
 - Quando  que acabars por aprender, Shelton? - admoestou-se David em voz alta, aps o que regressou ao tabuleiro de xadrez.
Por volta das vinte e uma e quinze, j passeava de novo sem destino pelas divises da casa. Houve uma ocasio em que ouviu o funcionamento do mecanismo do elevador, 
o que o levou a correr para o corredor. Mas ento ocorreu-lhe que teria de ter aberto a porta da rue atravs do intercomunicador, a fim de permitir a entrada de 
Ben no prdio. Ainda assim, aguardou, no fosse dar-se o caso de ele ter conseguido entrar por outro meio. O elevador deteve a sua subida no andar de baixo.
Regressou  sala


 de estar, onde preencheu cerca de cinco minutos entabulando um a conversa com Wallace Huttner, ao longo da qual o chefe de cirurgia Lhe apresentava as suas desculpas 
por se ter precipitado erroneamente em concluses to apressadas, sugerindo mesmo que ambos considerassem a hiptese de formarem uma sociedade. Ento, David comeou 
a ensaiar um discurso de recusa; todavia, para o caso de Huttner se mostrar sinceramente arrependido, tambm ensaiou um de aceitao.
Precisamente s nove e trinta, ouviu o som da campainha da porta da rua. De um salto, David aproximou-se do intercomunicador.
 - Sim?... - perguntou.
 - David, sou eu. - O entusiasmo que adivinhou na voz do advogado era bem patente, a despeito das ms condies de funcionamento do aparelho. - A mulher no estava 
a brincar.  uma histria triste, mas indiscutivelmente verdadeira. Est tudo terminado, meu amigo, este assunto chegou ao fim.
A palavra "triste" sobressaa das outras.
 - Suba - convidou David premindo o boto que abria a porta. Surpreendentemente, a sua voz denotava muito pouco entusiasmo.
Trinta segundos mais tarde, ouviu-se o entrechocar metlico do elevador, o que indicava o incio da subida. "Merda!". pensou David, "Foi ela." Manteve-se na ombreira 
da porta depois de a ter aberto, ouvindo os rangidos dos cabos. Passar para Christine Beall o seu pesadelo, no tinha sido exactamente a maneira como ele pretendera 
que as coisas acabassem, no obstante tudo aquilo por que tivera de sofrer como consequncia das aces da enfermeira. J se encontrava no corredor a meio caminho 
do elevador quando surgiu a luz na pequena portinhola de vidro, em forma de diamante, recortada na porta exterior Um segundo mais tarde, o ascensor deteve a sua 
marcha com um solavanco. A porta interior automtica abriu-se com um entrechocar de metal
David parou a pouco mais de um metro, aguardando a sada de Ben. Decorreram cinco segundos, ao que se seguiram outros cinco. A medo, deu um passo em frente. A porta 
permanecia fechada. Por fim, decidiu espreitar pela pequena janela de vidro sujo. O advogado permanecia de p, com o corpo inclinado de lado, calmamente encostado 
contra a parede do elevador.
 - Ei, Ben, o que  que se passa? - perguntou David, abrindo a pesada porta toda para trs. Os olhos do advogado olhavam-no com fixidez, humedecidos e com uma expresso 
vazia. O tom da pele do seu rosto era cerceo. Subitamente, as comissuras da sua boca arreganharam-se para cima, no arremedo de um sorriso. - Ben, isto no tem graa 
nenhuma -  continuou David. - Agora deixe-se de trampas e saia da. Estou morto por ouvir tudo o que tem para me contar.
Os lbios de Ben entreabriram-se enquanto ele dava um nico passo em frente. A boca expeliu um jacto carmim que comeou a escorrer-lhe pelo queixo abaixo. J se 
encontrava prestes a tombar para o cho quando David reagiu, conseguindo ampar-lo a tempo de o impedir de cair. Na parte de trs da gabardine bege de Ben via-se 
um crculo de sangue, que ia aumentando cada vez mais. Saindo do centro deste via-se o cabo branco e entalhado de uma faca.
A vida morna e pegajosa jorrava em cima das mos e das roupas de David, enquanto este arrastava o amigo para fora do elevador.
 - Socorro! - gritou ele. - Algum que me ajude!
Retirou a faca das costas do advogado, arremessando-a para cima da alcatifa, aps o que rolou o corpo de Ben de forma a que este ficasse com o rosto voltado para 
cima. Os olhos escuros do advogado fixavam sem pestanejar o tecto. David procurou sentir a pulsao na cartida, sabendo de antemo que o sangue' que naquele momento 
escorria de um dos cantos da boca de Ben, era o indicador de um ferimento fatal infligido ao corao, ou que tivesse atingido uma das artrias principais.
 - Por favor, ajudem-me... - A splica de David no passava de um gemido. - Por favor!
A porta que dava acesso s escadas de emergncia, situada ao fundo do corredor, abriu-se de rompante. Leonard Vincent imobilizou-se; os contornos do corpo, de constituio 
corpulenta, eram escurecidos pela luz que brilhava por detrs do homem. Numa atitude quase casual, levou a mo  cintura, de onde retirou um revlver. Da extremidade 
do cano saa um silenciador de aspecto ameaador.
 - Chegou a sua vez, doutor Shelton - anunciou Vincent numa voz enrouquecida, certo de que se encontrava perante o homem que Dahlia Lhe descrevera. Seguira em perseguio 
de Christine Beall at ao caf, onde reconhecera o advogado criminal com quem ela se fora encontrar. A resposta que Dahlia dera ao seu telefonema fora imediata: 
o primeiro a abater seria Glass, em seguida chegaria a vez de Shelton e, por ltimo, seria a rapariga. Agora, graas ao advogado, ele poderia tratar dos dois primeiros 
casos quase de uma s cajadada.
David cambaleou para trs, tentando endireitar-se. Contudo, a sua mo coberta de sangue escorregou da parede, e ele estatelou-se em cheio no cho. A uma distncia 
de alguns centmetros, encontrava-se a faca que retirara do cadver de Ben. Agarrou-lhe pela ponta e lanou-a contra a figura que avanava na sua direco. Foi cair 
a cerca de dois metros do alvo. Com toda a calma, Vincent apanhou-a do cho e limpou s calas o sangue que cobria a lmina. O homem estava a pouco mais de quinze 
metros. Entre os dois, continuava cado o corpo sem vida de Ben,  largura do corredor. A luz que era emitida por uma lmpada no tecto iluminou o rosto do homem 
entroncado. Sorria. O seu sorriso alargou-se ainda mais quando comeou a erguer o revlver munido de um silenciador.
Em movimentos atabalhoados, David comeou a retroceder; mantinha a boca aberta, articulando um grito silencioso. A sua mente registou uma centelha que saiu da extremidade 
do silenciador, no mesmo instante em que a ombreira da porta junto da orelha de David se fragmentava; lanou-se de cabea para dentro do apartamento, agitando os 
ps com esforo para conseguir fechar a slida porta de madeira. O trinco da fechadura cerrou-se exactamente instantes antes de se ouvir um som ensurdecido, e do 
surgimento instantneo de dois orifcios do tamanho de uma moeda de dois cntimos, que perfuraram uma rea junto da maaneta.
David olhou desnorteado em seu redor, aps o que se forou a levantar-se do soalho. Deu uma corrida at  sala de estar. A sada de emergncia! Abriu a janela e 
olhou para os seus ps calados apenas com as meias. Durante alguns instantes ainda pensou no roupeiro onde se encontravam os seus sapatos de tnis. No tinha a 
mnima possibilidade de os ir buscar, concluiu ele. Com um gemido de resignao, saiu para o patamar das escadas de metal. Do interior do apartamento, ecoou um barulho 
estrondoso, na altura em que a porta da frente era forada a abrir-se. Instantes mais tarde, David descia apressadamente em direco ao beco que se encontrava quatro 
andares mais abaixo.
A noite estava escura que nem breu, para alm de fria. Os degraus de metal, escorregadios por causa da chuva que caa em btegas, magoavam-lhe os ps. No entanto, 
a sua mente mal registava aquele desconforto. Pouco depois de ter passado pelo terceiro andar, um dos seus calcanhares desequilibrou-se na extremidade fronteira 
de um degrau, tendo-o ele deixado de sentir debaixo dos ps. Tombou com grande impacte, caindo abaixo de meio lano de escadas. Esfolou vrios centmetros da pele 
do antebrao direito. Acima de si, ouviu passadas pesadas quando Leonard Vincent chegou ao patamar do quarto andar. Naquele momento, ocorreu a David um pensamento 
absurdo; deveria ter tido a precauo de abrir a janela que dava para as escadas de emergncia, escondendo-se depois no roupeiro.
 - Aposto que essa manobra teria resultado - disse para consigo mesmo, enquanto se esforava, arquejante, por atingir o patamar de ferro do segundo andar. Escorregou 
outra vez; sentia como que a pulsao de impulsos elctricos que Lhe percorriam a coluna vertebral, ao deslizar pelos ltimos degraus. Atravs dos espaos abertos 
que existiam nas escadas acima de si. avistou a figura do homem, uma sombra escura de contornos mal definidos que se recortava contra o cu escuro da noite.
Apoiado sobre as mos e joelhos, David recorreu a todos os seus esforos para soltar a escada de mo com que terminavam os degraus do primeiro andar, o que Lhe permitiria 
descer at ao pavimento do beco. Atravs do tecido encharcado da camisa, as gotas de chuva davam-lhe a sensao de serem alfinetadas nas costas. As travessas de 
metal parecia quererem perfurar-lhe os joelhos. A escada de mo com que terminava aquele lano de degraus recusava-se obstinadamente a desprender-se.
Lanando um rpido olhar acima de si, David agarrou-se  extremidade do patamar e posicionou-se. Manteve-se naquela posio por breves instantes, tentando avaliar 
a distncia que mediava a`t ao pavimento, aps o que se deixou cair. Sentiu e ouviu o estalar do seu tornozelo esquerdo ao chocar contra o cho. Imediatamente, 
aquela perna ficou sem qualquer aco. Gritou e mordeu a ponta de um dedo com tal fora que fez sangue.
Estendido sobre o pavimento molhado, ouvia o ressoar dos passos pesados, juntamente com a respirao esforada do homem, acima da sua cabea. O assassino j se encontrava 
prximo do patamar do primeiro andar.
Em desequilbrio, David apoiou-se sobre o p que no estava lesionado e hesitou. Se tivesse distendido o tendo do tornozelo, sentiria um mal-estar enorme mas conseguiria 
deslocar-se. Na hiptese de estar fracturado, encontrava-se irremediavelmente prestes a morrer. Mantendo os dentes cerrados, apoiou o p lesionado sobre o cho. 
Sentiu uma dor atroz que lhe atravessou o artelho, mas foi capaz de se manter naquela posio: um passo e depois outro e mais outro. De sbito, deu consigo a correr.
Quando chegou ao fundo do beco olhou para trs. O homem j tinha conseguido baixar a escada de mo e, com toda a calma, descia da ltima travessa.
quela hora, a Clarendon Street encontrava-se quase deserta. Sem saber bem o que fazer, David deteve-se, tendo acabado por decidir dirigir-se para Boylston Street, 
onde o movimento do trnsito era bastante intenso. Foi ento que avistou uma figura meio quarteiro  sua frente, caminhando na direco oposta  sua, a caminho 
do rio. Por mero instinto, comeou a correr nesse mesmo sentido. A sua postura era deveras estranha. Cada um dos passos que dava era uma verdadeira agonia. Ainda 
assim, continuou a aproximar-se da figura.
 - Socorro! - gritou ele. - Por favor, ajude-me. - O seu grito perdeu-se imediatamente na tempestade nocturna. - Por favor, socorra-me.
Estava aproximadamente a trs metros da silhueta, quando o vulto se voltou ficando de frente para si. Era um homem de idade, desdentado, por barbear e embriagado. 
A chuva gotejava das abas do seu chapu que j vira dias bastante melhores. David fez meno de comear a falar, mas tudo o que conseguiu fazer foi abanar a cabea. 
Respirando com dificuldade, apoiou-se a um automvel que ali se encontrava estacionado. Sem qualquer aviso ou som prvio, o vidro da traseira estilhaou-se. David 
girou rapidamente sobre os calcanhares. Atravs da chuvada e da escurido da noite, avistou o vulto do seu perseguidor, o qual se ajoelhara sobre um joelho, assumindo 
a posio de quem se preparava para disparar de novo. David j tinha comeado a correr quando o silenciador da pistola cuspiu fogo. Encetara a corrida quando a bala 
que se destinara a si atingiu o homem de idade, fazendo-o rodopiar at ter acabado por cair desamparado sobre o pavimento.
Com esforo, David lanou-se em frente por entre as btegas de chuva e das dores que sentia. Esforou-se a correr como jamais o havia feito em toda a sua vida. Os 
seus calcanhares pisavam pesadamente as pequenas pedras do caminho, enviando golpes de adaga que lhe trespassavam as pernas. Ainda assim, no parou de correr, atravessando 
Marlborough Street, passando a Beacon Street, seguindo sempre em direco ao rio. Aquele era o seu percurso habitual, era o stio por onde costumava correr - o caminho 
por onde se exercitara ao longo de tantas manhs prometedoras banhadas pela luz do Sol. Agora era forado a correr para fugir da sua morte. Atrs de si, o homicida 
gigantesco ganhava-lhe terreno com cada passada que dava. O trfego que percorria Storrow Drive era ligeiro. David atravessou o piso coberto de gua sem abrandar 
a cadncia da sua passada, percorrendo a ponte de pedra destinada aos pees que se elevava acima das guas espelhadas da bacia  sua frente, as luzes de Cambridge 
cintilavam atravs da chuva, executando um estranho bailado sobre a superfcie do rio Charles, que na altura era de um negrume de pez.
"Volta atrs", pensava David. "Volta atrs e ajuda o Ben. Talvez ele precise de ti.  possvel que ele no esteja realmente morto. Por amor de Deus, faz qualquer 
coisa."
Arriscou-se a lanar um olhar por cima do ombro. O homem, que entretanto se atrasara devido a vrias viaturas que percorriam Storrow Drive, perdera algum terreno, 
mas no o suficiente David apercebia-se de que a perseguio estava prestes a chegar ao seu termo. Devido ao medo que o assolava, as suas passadas eram poucas e 
dadas a um ritmo reduzido; estava quase a deixar-se ir abaixo. Perscrutou a alameda deserta, procurando um stio onde pudesse esconder-se. O assassino
j se encontrava demasiado prximo de si. A nica esperana
que Lhe restava era o rio. As pedras existentes ao longo da
margem rasgavam-lhe o pouco tecido que ainda Lhe restava das
meias, enquanto David as pisava com grande dificuldade e
mergulhava nas guas frgidas e escorregadias.
No Lhe ficara grande capacidade de continuar a sentir mais
dores; contudo, estiletes gelados descobriam as regies do seu
corpo que no estavam doridas, comeando a trespass-las impiedosamente. Leonard Vincent atravessou a ponte para pedestres, comeando a aproximar-se da margem. To 
profundamente quanto Lhe era possvel, David aspirou todo o ar que coubesse nos seus pulmes, mergulhando nas guas. A distncia que mediava entre ele e a terra 
era de seis metros; foi-se deixando arrastar pelo leito lodoso. Sentia que as roupas Lhe pesavam que nem chumbo, o que inicialmente o ajudava a manter-se em baixo, 
para em seguida ameaarem ret-lo.
Emergiu uma vez para poder respirar. O que repetiu. Continuava a forar-se a avanar. A gua provocava-lhe ardor nos
olhos, impossibilitando-o de ver fosse o que fosse. O seu sabor era acre e repugnante, a despeito de vrios anos de controlo de poluio e tratamento de detritos, 
obstruindo-lhe o nariz e a boca.
Bruscamente, a sua cabea bateu contra qualquer coisa.
Entontecido e quase cego, inspeccionou o objecto servindo-se
das mos. Era uma doca flutuante - uma jangada em forma
de T feita de madeira que fora instalada no rio, servindo de
ponto de amarrao para algumas das dzias de pequenas embarcaes que passavam os meses mais quentes a desfazer as
imagens da cidade que se reflectiam na superfcie do rio.
Por um minuto ou dois, tudo permaneceu em silncio, com
a excepo da chuva que caa sobre a doca flutuante ou nas
guas do rio. David encolheu-se junto da jangada numa profundidade de cerca de um metro de gua, tentando remover o
lodo que sentia nos olhos. As pernas e os ps estavam entorpecidos. Foi ento que ouviu o som de passos: passadas pesadas e cuidadosamente medidas. O assassino encontrava-se 
sobe a doca flutuante! David premiu a regio lateral da sua face contra a madeira spera e viscosa. O rudo dos passos aumentou de intensidade, cada vez mais prximos. 
Fez deslizar a mo por baixo da jangada. Deixaria esta passar gua? Haveria espa  que Lhe permitisse respirar? Se ele se ocultasse por baixo da sua superfcie poderia 
muito bem ficar sem ar. Se ele no...
Inspirou profunda e lentamente, dando-se conta de que aquela lufada de ar poderia ser a sua ltima. Com os olhos fortemente cerrados, mergulhou abaixo da jangada. 
De imediato a sua cabea bateu contra a madeira. Sentiu-se invadido por uma sensao de terror. Encontrava-se encurralado, com os pulmes quase vazios de ar. Apalpando 
desesperadamente acima da sua cabea, as mos tocaram na face lateral de uma viga. Um meio de suporte inferior! Afastou-a para um dos lados e logo de imediato a 
cabea libertou-se da gua. Havia mais ou menos cinco centmetros de abertura por onde poderia respirar. Esboou um sorriso a medo com os lbios apertados num ricto 
de sofrimento, que desapareceu logo de seguida. O som dos passos fazia-se ouvir directamente acima do seu rosto. Atravs das fendas estreitas que existiam entre 
as vigas ele poderia ter tocado na sola dos sapatos do homem, que naquele momento se encontravam a escassos centmetros dos seus olhos. O som dos passos parou. David 
dobrou o pescoo para trs, tanto quanto Lhe foi possvel, fazendo presso com a testa contra a parte inferior da doca flutuante. Por entre os lbios que mantinha 
cerrados, inspirou o ar com lentido e em silncio. Por cima das suas faces, ouvia o arrastar dos passos, primeiro numa direco e depois na inversa, enquanto Vincent 
perscrutava a superfcie do rio. Pouco depois, com uma morosidade agonizante, o homem encaminhou-se para o outro brao do T.
Mergulhado naquela gua gelada, David comeou a tremer. Agarrou-se com toda a fora, a fim de evitar que os dentes batessem uns contra os outros, ajustando o corpo 
de forma mais apertada entre o fundo do rio e a doca flutuante. No sentia absolutamente nada do pescoo para baixo. Comeou a ouvir o rudo dos passos cada vez 
mais  distncia, acabando por desaparecer completamente. Aquele espao confinado exercia j sobre si o seu prprio terror lgubre. Ter-se-ia o homem deixado ficar 
indefinidamente l em cima? Perguntava David a si mesmo. Estaria sentado  sua espera? Durante quantO mais tempo  que ele tencionaria permanecer ali? "Durante quanto 
mais tempo  que eu serei caPaz de me aguentar
Comeou a contar. At cem, aps o que regressou ao nmero zero. Entoou canes para si prprio: pequenas melodias disparatadas dos tempos da sua meninice. Gradual 
e inexoravelmente, perdeu o domnio sobre o bater dos seus dentes. No entanto, continuava sem fazer o mais pequeno movimento.
 - ... Este velho tocou dois, tamborilou em cima dos meus sapatos... Eu conheci um homem que tinha sete mulheres e sete gatos... os Red Sox, os Withe Sox, os Yankees, 
os Dodgers. os Phillies, os Pirates...
A frialdade entranhara-se profundamente no seu corpo. No conseguia impedir os estremecimentos. H j quanto tempo  que estaria ali? Tinha a sensao de que as 
pernas haviam ficado paralisadas. Poderia ele mov-las?
 - ... Red Rover, Red Rover, venham c, venham c... aposto que no so capazes de me apanhar, aposto que no, aposto que no... Aposto... Aposto... Aposto que vou 
morrer.



Captulo 18

Joey Rosetti fechou os olhos e respirou a fragrncia que emanava do corpo excitado de Terry. Aquele aroma, o sabor que ela tinha, a maneira como os seus mamilos 
enegreciam e comeavam a ficar firmes sob a carcia das suas mos - mesmo ao fim de doze anos, as sensaes eram estimulantes, continuando a ter a mesma frescura 
de um ardor acolhedor.
Ele esfregou as faces pela pele acetinada entre as coxas da mulher, aps o que introduziu a lingua atravs das dobras de tecidos humedecidos.
 -  bom, Joey. To bom - gemeu Terry fazendo presso para que o rosto dele se aproximasse mais de si. Sorriu ao marido, passando os dedos da mo pelos cabelos anelados 
e de um negro asa de corvo do marido.
Sentindo-se percorrida por um frmito, levou a boca de Joey  sua e colocou os calcanhares  volta do seu torso, enquanto o desejo despertado pelo beijo se intensificava 
cada vez mais. Ele penetrou-a em movimentos profundos e lentos.
 - Joey, amo-te - sussurrou Terry. - Quero-te tanto.
Sugou os lbios dele, acariciando o rego existente entre as suas ndegas. Os msculos macios ficaram mais tensos ao sentrem os dedos dela, que trabalhavam a maior 
profundidade.
As investidas de Joey tornaram-se mais aceleradas, tendo-Lhes ele imprimido mais vigor. Ambos sabiam que o climax ocorreria dentro de pouco tempo, o que sucederia 
aos dois em smultneo.
Broscamente, a campainha do telefone em cima da mesa-de-cabeceira comeou a tocar.
- No - gemeu Terry. - Deixa-o tocar. - No entanto, ela j sentira um abrandamento no entusiasmo de Joey. -  Deixa-o tocar - implorou ela de novo. O aparelho tocou 
por seis vezes, sete... aquele rudo intruso no pararia. A presso no interior dela enfraqueceu. Uma oitava tocadela e depois uma nona.
 - Raios! - resmungou Joey soltando-se do corpo da mulher e virando-se para o lado. -  melhor que no seja uma porra de engano. - Tartamudeou algumas palavras de 
atendimento, ficando a ouvir ao longo de meio minuto, aps o que proferiu uma s palavra: - Onde? - momentos mais tarde afastava os cobertores com os ps e em movimentos 
pouco firmes saa da cama.
 - Terry, era o doutor - explicou ele. - O doutor Shelton. Est ferido e necessita de ajuda. - Ligou o candeeiro da mesa-de-cabeceira, dirigindo-se, apressado, para 
o guarda-fatos.
 - Eu vou contigo - disse Terry com uma nota de exigncia, pondo-se de p.
 - No, querida, por favor. - Joey ergueu uma mo. -  Ele est como que enlouquecido. - Eu mal consegui compreender o que ele me disse ao telefone. Mas o certo  
que disse que se encontrava em dificuldades. No quero que te envolvas neste assunto. Telefona para o bar. Pergunta se Rudy Fisher ainda est a trabalhar. Se estiver, 
diz-lhe que v imediatamente at  alameda, na zona do rio Charles. Junto do Hatch Shell.  a que tenciono encontrar-me com ele.
 - Joey, no tens outra pessoa a quem possas telefonar? Tu sabes bem o que eu sinto em relao a esse hom...
 - Ouve uma coisa, no posso estar a perder tempo com discusses. O Rudy trabalha comigo h mais tempo do que t... h j muito tempo. Caso se venham a verificar 
quaisquer problemas, quero t-lo ao meu lado.
Doze anos haviam ensinado a Terry a inutilidade de argumentar com o marido, especificamente a respeito de assuntos daquela natureza. Mesmo assim, a sua insistncia 
em Rudy Fisher, um homem gigantesco com propenso para a violncia. atemorizava-a.
 - Joey, por favor - urgiu ela. - Tem muito cuidado. Nada de violncias. Por favor, promete-me isso. Se o David estiver ferido, limita-te a lev-lo para um hospital 
e regressa a casa.
 - Querida, o homem salvou-me a vida - retorquiu ele enquanto vestia as calas. - Tudo o que ele possa vir a precisar de mim,  garantido que o ter.
 - Mas tu prometeste...
 - Ouve - ripostou Joey. - Eu tenciono ter cautela. No te preocupes. - Forou-se a exibir um sorriso mais descontrado. - Presentemente sou um homem de negcios, 
coisa de que tu ests bem ciente. Se ele estiver ferido, levo-o para um hospital. No fiques apreensiva e limita-te a fazer o que eu te pedi. - Tirou uma camisa 
do roupeiro.
Terry sentou-se na beira da cama, admirando-o enquanto ele se vestia. Aos quarenta e dois anos, o marido continuava a manter um corpo musculado e umas feies estrreitas' 
que pareciam talhadas a cinzel; possua uma figura que se assemelhava  de um dolo das matns cinematogrficas. Dele emanava uma atitude vigorosa que no mostrava 
quaisquer indcios da existncia de situaes de risco de vida a que ele conseguira sobreviver. No entanto, as recordaes encontravam-se presentes, sob a forma 
das cicatrizes cor de borgonha que atravessavam o seu abdmen. Uma delas, um crescendo que media mais de quarenta e cinco centmetros em redor do seu flanco esquerdo, 
a qual era uma recordao dos tempos da sua juventude em que fora o chefe de um bando de malfeitores na zona norte de Bston. Interceptando-a logo acima do umbigo 
havia uma outra cicatriz - a qual j tinha dez anos -  resultado do disparo de uma arma de fogo, que ele sofrera ao tentar impedir um assalto  mo armada na zona 
norte.
Rosetti fora um dos primeiros doentes particulares de David que haviam ido  sua consulta no White Memorial, implicando uma operao que se prolongara por doze horas, 
da qual algum pessoal mdico que na altura tinha estado presente no bloco operatrio ainda falava hoje em dia com uma expresso de reverncia. Durante o perodo 
de convalescena desenvolvera-se entre os dois homens uma grande amizade.
- Terry, queres parar de cismar e fazeres essa chamada telefnica? - insistiu Joey com alguma rispidez enquantO calava uns sapatos maleveis de pala. Esperou que 
ela tivesse voltado as costas para agarrar no coldre do revlver, prprio para 'e prender aos ombros, retirando-o de debaixo da prateleira do roupeiro onde estavam 
guardadas as camisolaS. J se dirigia para a porta do quarto, quando Terry recomeou a falar.
 - Joey, por favor, no te sirvas dele.
Rosetti regressou at junto da mulher e beijou-a com ternura.
 - No tenho intenes de o utilizar, minha doura. A menos que me veja absolutamente forado a faz-lo. Prometo-te.
rry Rosetti aguardou at ouvir o barulho da porta a ser batida, suspirou e agarrou no telefone.

David deixara-se ficar no mesmo lugar da alameda, continuando agarrado ao auscultador do telefone pblico, o que o impedia de cair redondo no cho. Tremia descontroladamente. 
entrando e saindo de perodos de percepo,  medida que a chuva aoitante o salpicava de lama. Tentando espreitar por entre as btegas de gua, conseguia avistar 
o Anfiteatro Hatch Shell. A gigantesca meia cpula, que se erguia a uma altura de vrias centenas de metros, era o nico marco que Lhe ocorrera indicar a Joey como 
ponto de encontro.
Com bastante sofrimento e lentido, largou o telefone e girou sobre os calcanhares no meio de um charco de lama, comeando a arrastar-se na direco de uma luz que 
ficava ligada toda a noite, fixa numa das faces laterais da cpula. Durante cerca de dez ou quinze minutos, arrastou-se esforadamente pelo cho encharcado. A lmpada 
nfima, que de incio era uma mera luz de presena, ao fim de pouco tempo transformou-se em todo o seu mundo.  medida que percorria cada centmetro agonizante num 
passo arrastado, esta dava a impresso de se encontrar cada vez mais distanciada. Tentou por inmeras vezes pr-se de p, apenas para voltar a cair sob o efeito 
das dores que sentia no tornozelo, e tambm por causa do frio inacreditvel que se assenhoreara de todo o seu corpo. De todas as vezes que caa por terra, conseguia 
apoiar-se sobre as mos e os joelhos, continuando a avanar. Em duas ocasies foi obrigado a dobrar-se sobre si mesmo, devido aos espasmos que Lhe contraam as entranhas, 
forando a gua ftida do rio, de mistura com a blis, a sair-lhe pelas narinas e boca. A luminosidade daquela luz atormentadora era cada vez mais fraca, situando-se 
mais  distncia.
 - Isto no pode terminar desta forma. - David articulou aquelas palavras vezes sem conta, utilizando-as como se fossem uma cadncia que Lhe forava uma mo, e depois 
um joelho. num avano  frente do anterior. - No pode acabar desta maneira...
Inesperadamente, o relvado deu lugar a um pavimento de cimento, ao que se seguiu um cho de mrmore macio. Ele encontrava-se nas escadas da base do Shell. Os tremores 
que sentia foram substitudos por uns tiques paroxismais que Lhe afectavam as mos, os ombros e o pescoo, anunciadores de uma convulso de grande intensidade. O 
sangue gotejava-lhe de um dos cantos da boca, o que era o resultado do entrechocar dos dentes, quais martelos pneumticos que Lhe trituravam os extremos da lngua. 
Acima de si, a luz nocturna bruxuleou por breves momentos, aps o que se apagou. David comeou a sentir o sentimento de uma paz incongruente anunciadora da morte, 
o qual se instalava no seu ntimo. Lutou contra essa sensao, servindo-se das poucas foras e do escasso poder de concentrao que ainda Lhe restavam. "A Christine 
sabe", pensou ele. "Ela sabe por que motivo  que o Ben foi assassinado e agora ela ser a prxima a morrer. Tenho de me aguentar, custe o que custar. Aguentar-me 
para poder ajud-la. Isto no pode terminar desta forma...  impossvel."

A sensao de vazio fizera sentir a sua presena somente um minuto depois de Christine ter declinado a oferta de boleia que Ben Lhe fizera, comeando a encaminhar-se 
para sua casa. Era como se algum houvesse aberto uma torneira, escoando do seu corpo todos os resqucios de qualquer emoo ou sentimento. J tinha desistido da 
tentativa de se abrigar por baixo dos telheiros dos prdios, caminhando no centro do passeio totalmente alheada das btegas da chuva que continuava a cair.
O encontro que tivera com Ben correra sem dificuldades de maior - pelo menos, mais facilmente do que ela previra. Com a sua postura de grande -vontade, caracterstica 
de quem no submetia as pessoas aos seus juzos de valor, ele assegurara-lhe por mais de uma vez que a sua deciso em confessar era a mais correcta, a nica medida 
que ela poderia ter tomado. O advogado aceitara as justificaes que ela achara por bem dar-lhe - de acordo com as quais, Christine, agindo sozinha, honrara os desejos 
de uma amiga chegada e muito especial, a qual se encontrava s portas da morte no meio de um grande sofrimentO. O momento mais difcil do dilogo verificara-se quando 
o advogado comeou a abordar o assunto do impresso de medicamentao C222, que havia sido falsificado.
 - O qu? - perguntara Christine, numa tentativa para conseguir ganhar algum tempo.
 - Estou a referir-me ao impresso. Aquele que o Quigg, o farmacutico, afirma que o doutor Shelton aviou na sua farmcia.
Os pensamentos de Christine corriam-lhe  desfilada pela mente. Era por de mais evidente que Miss Dalrymple, ou ento uma das outras enfermeiras, tinha utilizado 
aquele impresso para a proteger. Sem qualquer aviso prvio que a alertasse para aquela situao, no tinha qualquer resposta preparada que pudesse dar ao advogado.
 - Eu... eu utilizei-a e... e depois subornei o farmacutico.
 - Como  que, e para comear, conseguiu obter esse impresso? - perguntou Ben. A expresso do seu rosto no mostrava o mnimo vestgio de dvida.
 - Eu... eu prefiro no entrar nesse assunto, pelo menos nesta fase da situao. - Christine conteve a respirao, na esperana de que o advogado no a forasse 
a falar daquela questo. Decorridos alguns dias, ela havia de pensar em alguma coisa. No caso de Miss Dalrymple continuar a desejar proteger A Irmandade, ela teria 
de fazer tudo o que estivesse ao seu alcance com o objectivo de se certificar de que o farmacutico no a desmentiria. Para alm de tambm Lhe caber a tarefa de 
tentar convencer Peggy de que Christine se encontrava firmemente determinada em manter o movimento fora da sua confisso.
Ben examinou-a por uns momentos, aps o que fez um acenar de cabea.
 - Nesse caso, muito bem - continuou ele. - Passemos  forma como me parece que voc deveria encarar este assunto. Isto , se desejar o meu conselho.
 - Eu gostaria de mais do que isso, doutor Gl... quero dizer, Ben. Se houver alguma possibilidade, gostaria que fosse voc a representar-me legalmente.
 - Vou ter de pensar nessa hiptese, Christine, a fim de me certificar de que no vir a verificar-se um conflito de interesses. - O advogado sorriu. - Mas,  primeira 
vista, no me parece que isso venha a verificar-se. Vamos marcar um encontro para segunda-feira de manh no meu escritrio. s nove horas Tratarei das coisas de 
forma a que o detective Dockerty se encontre presente. No se preocupe. Tenciono explicar-lhe com exactido e antecipadamente tudo o que deve dizer-lhe. Na segunda-feira. 
De acordo?
Christine acenara que sim.
Segunda-feira Christine repetiu continuamente aquelas duas palavras, enquanto se esgueirava por entre a chuva. Trs dias antes de a sua vida, para todos os efeitos, 
chegar ao fim. Que raio, compreendeu ela, j tinha terminado. Entretanto passou um autocarro, que Lhe salpicou as botas e a gabardina com a gua enlameada que ressaltara 
do pavimento. Ela nem sequer abrandou o ritmo da sua passada. Num tumulto de imagens, Christine comeou a visualizar o que estava prestes a suceder-lhe: a priso... 
o juiz... Miss Dalrymple... os seus irmos e irms... os jornais... o seu pai, o qual j se encontrava confinado a um lar para idosos... as alcunhas, Anjo da Morte, 
A Assassina Misericordiosa.... as suas companheiras de casa e as suas famlias... Mas, talvez mais punitivo do que tudo o mais, eram as imagens de David, a par do 
dio que ela sabia de antemo ele acabaria por nutrir pela sua pessoa.
Ultrapassou a esquina onde teria de virar para se dirigir  sua rua. Pouco a pouco, o enorme buraco negro comeou a crescer dentro de si. O alvio e a paz que sentira 
ao falar com Ben haviam-se dissipado por completo. As gotas de chuva suplantaram as lgrimas que ela no conseguia chorar; o vazio que sentia dentro de si era excessivo.
Sem que Lhes prestasse ateno, examinava as montras dos estabelecimentos comerciais por que passava. De repente, viu-se em frente de uma farmcia, a farmcia onde 
costumava ir. O farmacutico, um homem j de idade, conhecia-a bem, o mesmo acontecendo em relao s suas companheiras de casa de facto, ele nutria um sentimento 
de estima por todas elas. Como se estivesse em transe, Christine entrou, trocando algumas banalidades amenas, aps o que pediu ao homem que Lhe aviasse o Darvon 
que esporadicamente ela tomava para combater as caimbras. A ltima receita, que aviara havia seis meses, ficara em casa dentro de uma gaveta da cmoda, com o frasco 
quase cheio. Depois de ter feito uma verificao rpida  sua ficha, o farmacutico entregou-lhe o medicamento.
No caminho para casa Christine comeou a compor a mensagem que tencionava deixar.

- Rudy, ele est aqui - gritou Joey. - Me de Deus, mas que grande confuso! Penso que ele est morto.
O corpo de David, que no fazia qualquer movimento, encontrava-se com o rosto em cima de um charco de gua, tendo-se posicionado num dos lados dos degraus do anfiteatro. 
Conseguira subir alguns dos degraus, anichando-se por detrs de uma pedra de mrmore, escondendo-se de forma a no poder ser visto do passeio mais abaixo. Com gestos 
suaves, Joey voltou o corpo do amigo colocando-o de costas. A chuva implacvel espalhava a sujidade e o sangue que cobriam o rosto de David. Nesse mesmo instante, 
ele gemeu em voz baixa, um som que quase se perdeu no vento nocturno.
 - Jesus, vai buscar um cobertor! - gritou Joey. - Ele ainda respira! - Gentilmente, colocou a cabea de David sobre uma das suas mos, comeando a dar-lhe pequenas 
palmadas nas faces... cada vez mais rpidas e com maior fora. - Doutor,  o Joey. Consegues ouvir-me? Vers que vais ficar bom. Doutor?...
 - Christine... - Foi a primeira palavra que David proferiu por entre um gorgolejar quase inaudvel. - Christine... Tenho de encontrar a Christine. - Os seus olhos 
mantiveram-se abertos por breves instantes, esforando-se por focar o olhar no rosto de Joey, aps o que se fecharam. Rosetti apoiou uma mo sobre o peito de David. 
Acenou excitadamente ao sentir o fraco ritmo cardaco que Lhe soerguia o corpo.
 - Aguenta-te - encorajou ele. - Vamos levar-te para o hospital. Ficars bom, vers, doutor. V se consegues aguentar-te. - Ergueu o olhar e resmungou uma maldio 
dirigida  chuva que no abrandava. Ao fim de alguns momentos, o vento amainou. A chuva que cara inclementemente at ento deu lugar a uma morrinha ligeira e nevoenta. 
Joey fixou o olhar acima de si mostrando-se espantado; em seguida, acenou num gesto de aprovao.
 - A primeira coisa que tenciono fazer amanh de manh  dar-te um aumento de ordenado - disse ele com um sorriso rasgado.
David ouvia a voz de Rosetti, tendo compreendido apenas a palavra hospital. "No", pensou ele. "Para o hospital no." Esforou-se por se concentrar nesse pensamento, 
tentando express-lo por palavras; todavia, a sua conscincia enfraqueceu. cedeu, fazendo com que mergulhasse na escurido.
Cinco minutos mais tarde, j David se encontrava embrulhado num cobertor, encostado a Joey e sentado no banco de trs do Chrysler de Rudy Fisher. Os tremores incontrolveis 
que o sacudiam persistiam, mas, momento a momento, ele sentia que recuperava a conscincia. Joey deu instrues a Fisher para que seguisse em direco ao Servio 
de Urgncias do Hospital Mdicos de Bston. Como se fossem ecos a percorrerem um tnel extenso, David ouviu as suas prprias palavras: gemidos quase inaudveis sem 
qualquer coerncia.
- O Ben est morto... A Christine est morta. Por favor, para o hospital, no... Tenho de encontrar a Christine... Sinto frio... tanto frio. Por favor, ajudem-me 
a aquecer o corpo...
Havia vrias ambulncias estacionadas  entrada das urgncias, com as suas luzes intermitentes que emitiam os seus clares, qual contraponto hipntico. Joey saiu 
do automvel, regressando momentos depois com uma cadeira de rodas.
 - Este lugar parece uma porra de um jardim zoolgico - comentou ele enquanto retiravam David do carro, o que faziam com todas as cautelas. - Deve ser por causa 
da chuva. D a impresso de ser uma cena tirada de um filme de guerra. Rudy, espera por mim ali. Ests a sentir-te bem, doutor?
David tentou acenar com a cabea, mas as luzes, as tabuletas e as faces, tudo aquilo formava uma amlgama desfocada que o entontecia. Quando Joey o empurrou atravs 
das portas corredias, entrando na luminosidade artificial da rea de recepo, os arrancos de vmito subiam-lhe  garganta. Aquela atmosfera e o movimento traziam-lhe 
 recordao a actividade que habitualmente, se desenrolava na enfermaria de um hospital de campanha. Havia um fluxo constante de doentes - alguns destes a sangrar 
e outros dobrados sobre si mesmos - que acorriam entrando por diversas portas. Por toda a parte se viam macas. Joey abarcou todo aquele cenrio, optando por empurrar 
a cadeira de rodas atravs da multido, contornando a enfermeira que fazia uma primeira triagem.
A mulher, uma enfermeira morena e aprumada, que desempenhava as funes de avaliao dos doentes que chegavam, tarefa que executava ia fazer dois meses, ouviu-o 
com uma incredulidade crescente, aps o que se apressou em aproximar-Se de David. Este gemia em voz baixa, movimentando a cabea de um lado para o outro, embora 
se esforasse por mant-la imobilizada.
- Meu Deus, ele parece uma pedra de gelo - verificou ela, colocando uma mo por baixo do queixo de David. - Veja se consegue manter-lhe a cabea sossegada, enquanto 
eu vou chamar um auxiliar de enfermagem. O que  que Lhe aconteceu? - Afastou-se apressadamente sem ter esperado pela resposta que Joey Lhe tentava dar. A funcionria 
das admisses, uma matrona de postura imponente que empunhava uma prancha de escrita. chegou al uns segundos depois 
comeando a disparar perguntas.
 - Nome? - perguntou a mulher.
 - Este no  o Josenh Rosetti - contradisse ela lanando um olhar a David - , , isso sim, o doutor shelton.
 - oh, eu pensei que estava a referir-se ao meu nome. Se J sabia quem ele , por que motivo  que me perguntou qual o seu nome?
Joey encontrou a carteira ensopada de David, de onde retirou algumas das informaes que a mulher pretendia. Em vrias ocasies esteve  beira de perder as estribeiras, 
mas esforou-se por conter o seu temperamento, no receio de que ela arrancasse outra folha de papel para recomear de novo todo o processo de admisso.
Joe oLhou para David, cuja pele naquele momento adquirira uma tonalidade de um verde-ervilha.
 - Vamos l a ver uma coisa - ripostou ele, desabrido. - Este homem est doente. Essas perguntas no podem aguardar at ele ser visto por um mdico?
 - Lamento muito, meu caro senhor - retorquiu ela rspida. - No sou eu quem estabelece os regulamentos do hospital, limito-me a p-los em prtica. Religio de preferncia?
Joey lutou contra o impulso que sentiu de agarrar a mulher pela garganta. Naquele preciso instante, a enfermeira de cabelos negros regressou, vindo acompanhada de 
um auxiliar de
enfermagem, poupando assim a Joey uma deciso final.
 - J disponibilizei a Unidade de Trauma Doze - informou ela. - Leve o doutor Shelton para l. Quando o processo de admisso estiver concludo, poder esperar. Assim 
que algum tenha oportunidade de o examinar, inform-lo-ei dos resultados. - Olhou para o rosto de Joey e apercebeu-se pela primeira vez do quanto ele era bem-parecido. 
O seu sorriso alargou-se. - Tem alguma questo que gostasse de ver esclarecida? - Joey piscou o olho  jovem enfermeira, cujas faces enrubesceram de imediato;
No Servio de Urgncias, que naquela altura fervilhava de
movimento, havia somente um par de olhos que seguia atentamente o auxiliar de enfermagem, o qual comeara a empurrar a cadeira de rodas onde David se encontrava 
sentado. Pertenciam a Janet Poulos. Apenas os seus ouvidos  que escutaram compreenderam a nica palavra que ele gemia: "Christine." Por causa da ocorrncia de acidentes 
mltiplos e dois ferimentos provocados por disparos de armas de fogo, o que exigia toda a ateno do pessoal mdico, Janet tinha concordado em fazer horas extraordinrias, 
at que o fluxo de doentes se reduzisse um pouco. Agora, compreendia ela, aquela deciso poderia vir a ser extremamente compensadora, sob vrios aspectos bastante 
inesperados. A sua mente funcionava a grande velocidade enquanto ela tentava apreender todo o significado.
Leonard Vincent tinha sido contratado pelO Jardim com a
finalidade de vigiar Christine Beall, tendo sido instrudo para intervir apenas no caso de Dahlia ter a impresso de que a mulher decidiria confessar, expondo assim 
A Irmandade. At a, Janet encontrava-se inteirada da situao. Dahlia tomara a deciso de proteger O Jardim, custasse o que custasse; todas as flores eram membros 
dA Irmandade, quer estas se mantivessem activas no movimento quer no.
"Beall e Shelton deviam ter estabelecido qualquer contacto",
raciocinou Janet. Sem dvida que ela deveria t-lo abordado. Certamente que teria falado com ele sobre A Irmandade. Por que outro motivo  que ele estaria no hospital, 
chamando ChrIstIne.
Contudo, fosse de que maneira fosse, Shelton conseguira escapar-se. Aquela era a nica explicao que fazia um mnimo de sentido. Caso esta fosse verdica, isso 
significava que Hyacinth tivera a boa fortune de se encontrar no stio certo, exactamente na altura certa. Janet comeou a tremer devido  excitao que toda aquela 
situao Lhe provocava. A oportunidade fora-Lhe dada de mo beijada. Se ela conseguisse lidar com as coisas de forma apropriada, tomando as decises mais adequadas 
era muito possvel que Dahlia achasse por bem envolv-la mais a fundo nos trabalhos d'O Jardim. As recompensas seriam gigantescas.
Janet olhou discretamente em seu redor. A Polcia, uma presena constante no Servio de Urgncias, estava ocupada com as vtimas dos disparos de balas. Pareceu-lhe 
que se poderia deslocar atravs do caos sem que ningum reparasse em si, mas somente se agisse com rapidez. Haveria tempo para telefonar a Dahlia? Inspeccionou o 
corredor, concentrando-se na zona de Unidade de Trauma Doze. As imediaes dessa sala encontravam-se desertas. Muito possivelmente, no voltaria a deparar-se-lhe 
outra oportunidade como aquela.
Adrenalina. Potssio. Insulina. Digitalis. Pancuronium. Janet passou em revista todas as possibilidades, enquanto se dirigia num passo apressado para o balco das 
enfermeiras. Perguntou a si mesma por onde  que Christine Beall andaria. Teria Vincent tratado dela? Decidiu que isso no tinha importncia, dadas as circunstncias 
actuais. O nico problema a que ela poderia acorrer naquele momento encontrava-se  sua espera na Unidade de Trauma Doze.
 - Doutor Shelton, o meu nome  Clifford. Consegue levantar o rabo para que eu possa despir-lhe essas calas encharcadas? - O auxiliar de enfermagem, um homem gorducho, 
j passara a casa dos trinta; no entanto, parecia que necessitava de se barbear pela primeira vez na vida.
David resmungou uma resposta e com um esforo que Lhe exigiu muito l conseguiu fazer o que o rapaz-homem Lhe pedia. Gradualmente, comeou a sentir pequenas ondas 
de calor no interior do seu organismo, afastando a intensa frialdade que se apoderara de si.  medida que o seu sentido de percepo era cada vez mais lcido, o 
mesmo acontecia s dores latejantes que sentia no tornozelo lesionado e num brao, a par de umas dores menores na regio acima do ouvido direito e na sola dos ps.
 - Voc tem todo o aspecto de quem andou a divertir-se  brava - comentou Clifford com uma expresso jovial, estendendo as calas ensopadas de David em cima das 
costas de uma cadeira.
 - O rio... eu... estive no rio. - A voz de David era distante e sem entoao. - O Ben est morto...
 - Consegue manter isto debaixo da lngua? - perguntou o auxiliar metendo um termmetro na boca de David. - Quem  esse Ben? - David tartamudeou, tentando agarrar 
no termmetro. - No, no, no pode tocar nisso - admoestou Clifford. - O mdico chegar dentro em pouco para o examinar. Deixe ficar isso debaixo da lngua at 
eu voltar.
"Nunca se deve tirar a temperatura oral a uma pessoa que quase morreu de hipotermia, grande idiota!" A reprovao silenciosa reflectiu-se nos olhos de David, enquanto 
o corpulento auxiliar de enfermagem abandonava o quarto. Ento, os seus lbios apertaram-se num meio sorriso. Ele estava a recobrar a lucidez. Pouco a pouco, os 
seus pensamentos ao acaso comeavam a ter alguma coerncia. Subitamente, a imagem do rosto de Ben surgiu-lhe  mente, com o sangue a jorrar-lhe da boca. Sentiu-se 
assolado por um sentimento de terror renovado. Num grande desespero, David conseguiu soerguer-se, primeiro apoiado sobre um cotovelo e depois sobre uma mo estendida.
 - Christine - disse ele com a respirao entrecortada, cuspindo o termmetro para fora da boca. - Tenho de chegar junto dela. - Quando endireitou a cabea, as paredes 
comearam a girar  sua volta, inicialmente com lentido, para pouco depois o fazerem com uma celeridade crescente.
David lutou contra as tonturas e a nusea que se apoderavam de si, obrigando-se a sentar-se. A transpirao encharcava-lhe a fronte, correndo-lhe pelas faces abaixo. 
O cho abaixo de si era uma mancha sem contornos. Quando se inclinou para a frente o quarto comeou a escurecer e soube que se encontrava a cair. Por um momento 
incrvel, sentiu uma total ausncia de peso, como se flutuasse num mar de uma luminosidade cintilante. Pouco depois, perdeu toda a percepo de tudo o que o rodeava.
Janet Poulos agarrou em David pelos ombros quando ele comeou a tombar para a frente, voltando a coloc-lo com cuidado sobre a maca. A sua respirao era cava e 
rpida; a pulsao que ela verificou no pulso no era constante. Por breves instantes ainda pensou em voltar a sent-lo. A queda da presso sangunea seria to precipitada, 
caso ela tomasse aquela medida, que seria muito possvel que eliminasse a necessidade de utilizar a seringa cheia de adrenalina que tivera o cuidado de meter na 
sua algibeira. Demasiado arriscado, concluiu ela erguendo os ps de David que colocou sobre a maca. Inspeccionou o corredor uma ltima vez. A uma distncia de vrios 
quartos, verificara-se uma crise qualquer, pelo que o carrinho com o equipamento de reanimao estava a ser levado para a. Perfeito, pensou ela, retrocedendo para 
o interior do quarto e fechando a porta atrs de si. Agora s precisava que toda a gente se deixasse ficar onde estava por mais algum tempo.
 - Doutor Shelton, consegue ouvir-me? - perguntou Janet. - Vou aplicar um torniquete no seu brao para poder fazer uma colheita de sangue. S levar um minuto.
David gemeu e afastou o brao enquanto ela colocava o tubo de borracha  volta do brao.
 - Ora vamos l a ver, David - continuou ela com uma grande doura. - Deixe-se estar quieto. No vai doer nada. - Bateu na pele acima da juno do cotovelo  procura 
de uma veia. Aquela regio encontrava-se esbranquiada e gelada; todos os vasos sanguneos da epiderme estavam constritos ao mximo. Janet soltou um gemido e bateu 
com maior frenesim, amaldioando-se por se ter esquecido da reaco que o corpo teria perante uma situao de hipotermia e choque.
David abanava com a cabea de um lado para o outro,  medida que recomeava a recuperar a sua capacidade de raciocnio. Num estado de pnico, Janet espetou-lhe a 
agulha no brao, na esperana de perfurar uma veia por mero acaso. Nesse preciso instante, Clifford entrou de rompante no quarto. A seringa soltou-se e escorregou 
da mo enquanto Janet girava sobre si prpria ao ouvir o barulho inesperado. Na regio da pele do brao de David onde ela picara, apareceu uma gota de sangue.
 - Ora bem, doutor, aqui estou eu de volta. Lamento muito ter... - Clifford interrompeu-se, atnito, ao ser confrontado com o olhar fulminante que Janet Lhe lanou.
 - Raios o partam! - invectivou ela numa voz sibilada, arrancando o torniquete e apanhando a seringa com toda a rapidez. Colocando-se de molde a que Clifford no 
pudesse ver o que ela fazia, esguichou a adrenalina da seringa para debaixo da maca, aps o que se voltou de frente para o auxiliar de enfermagem. - No Lhe ensinaram 
a bater sempre que as portas esto fechadas? Eu estava a meio de fazer uma colheita de sangue a este homem e voc prejudicou tudo.
 - Eu... eu peo muita desculpa. - O auxiliar apoiava-se ora num p ora noutro, numa demonstrao de nervosismo, olhando fixamente para o cho.
 - H-de ter notcias minhas com respeito a este assunto - vociferou Janet. A sua mente era um turbilho de pensamentos quanto ao que fazer em seguida. Mas ento 
imobilizou-se. Harry Weiss, o cirurgio de servio, mantinha-se na ombreira da porta.
 - H algum problema? - perguntou ele com uma expresso tranquila.
 - Eu... - comeou Janet a explicar - eu no sabia quando  que algum viria examinar o doutor Shelton, pelo que me ocorreu fazer algumas colheitas de sangue, iniciando 
assim o processo de diagnstico.
 - Muito obrigado. Essa medida foi bastante acertada - retorquiu Weiss com um sorriso. - Se ainda no retirou o sangue, sugiro-lhe que espere at eu acabar de o 
examinar.
 - Muito bem, doutor. - Janet ainda lanou outro olhar venenoso a Clifford, saindo do quarto e comeando a correr para o telefone mais prximo.
 - Doutor Shelton, sou eu, Harry Weiss. - Um estagirio de nariz adunco, que David orientara no caso da mo com os dedos decepados, olhava para ele com uma expresso 
de ansiedade. David mantinha os olhos abertos, mas era bvio que tinha dificuldades em se concentrar. Weiss inclinou-se mais para ele. - Consegue ver-me bem?
David abriu e fechou as plpebras e acenou que sim. Momentos depois esforava-se para se levantar.
 - A Christine. Deixe-me telefonar  Christine - ouviu-se ele a dizer. Recomeou a sentir as tonturas; todavia, lutou contra a sensao de nusea e comeou a agitar 
as duas mos.
Harry Weiss agarrou-o pelos pulsos, forando-o a deitar-se para trs.
- Por favor, doutor Shelton, eu no quero ser obrigado a amarr-lo - implorou o jovem mdico. Com o olhar procurou Clifford, enquanto os movimentos agitados de David 
no davam sinais de abrandamento, mas verificou que o auxiliar j se tinha ido embora. - Enfermeira! - chamou ele. - Por favor algum que chame um auxiliar de enfermagem 
e traga para aqui um conjunto de quatro correias de imobilizao. Imediatamente!
Em menos de um minuto, David fora preso  maca pelos pulsos e tornozelos, tendo ficado imobilizado por correias de couro. Os seus esforos enfraqueceram, dando lugar 
a soluos de choro.
 - Por favor... deixem s que eu a encontre... permitam que eu Lhe telefone. - As suas palavras eram ininteligveis.
Weiss baixou o olhar para o cirurgio e abanou a cabea com tristeza.
 - Estou em crer que agora j no h problema - disse ele, dirigindo-se ao pequeno grupo de pessoas que acorrera em sua ajuda. - Deixem-nos a ss para eu poder examin-lo. 
Telefonem para o laboratrio e digam que eu quero um exame completo e uma contagem dos glbulos sanguneos. Eles que procedam tambm a uma anlise para se ver se 
existe algum abuso de estupefacientes. Depois de eu acabar de o examinar iniciem a administrao intravenosa... uma soluo salina normal, trezentos centmetros 
cbicos por hora, pelo menos at sabermos o que  que se passa. Um de vocs descubra quem  que est de servio esta noite em psiquiatria, aps o que me deve informar. 
Se for uma pessoa competente,  possvel que acabe por Lhe pedir para vir at c abaixo. Mas se for um desses marados que ainda esto mais doentes do que os prprios 
doentes, o mais provvel  no o fazermos. - O grupo sorriu perante o seu comentrio, mas s o auxiliar de enfermagem  que se riu em voz alta. Harry Weiss lanou-lhe 
um olhar momentneo, agarrou num fragmento do termmetro partido e acrescentou: - E, Clifford, quando  que vais aprender que nunca se deve tirar a temperatura oral 
num caso de hipotermia?  demasiado imprecisa. Nestas circunstncias, s se tiram as temperaturas rectais. No quero voltar a ouvir que fizeste de novo a mesma coisa. 
- Acenou com a cabea. indicando que as suas instrues estavam concludas, o que fez com que todos os presentes abandonassem rapidamente o quarto.
"Assim  que , Harry, meu rapaz", desejava David dizer, embora estivesse incapaz de articular as palavras. O terror, o choque e a hipotermia cobravam o seu preo. 
Ainda que o auxiliar de enfermagem tivesse utilizado um termmetro rectal, a temperatura do corpo de David no teria ficado registada. Mesmo assim, era capaz de 
manter os olhos abertos. Observava todos os movimentos do mdico estagirio, um homem de estatura elevada, quando este comeou a examin-lo. "Diz ao homem", pensou 
David. "Senta-te e diz-lhe que no precisas da merda de um mdico de malucos. Diz-lhe que o Ben est morto. Diz-lhe que tens de encontrar a Christine. Que  muito 
possvel que ela j esteja morta. Diz-lhe que no ests louco. Mas... mas talvez tu estejas louco. Talvez isto seja isso.  como uma pessoa se sente. Ali est ele, 
a mexer e a agarrar em tudo o que faz parte do teu corpo, e tu nem sequer s capaz de falar com ele. Talvez a loucura seja precisamente isto. Quer dizer... as pessoas 
de repente no aparecem com uma tabuleta de luzes de non pendurada ao peito, dizendo: "ESTA PESSOA PERDEU O Juzo. ESTA PESSOA EST LOUCA." Onde raio  que o Joey 
se meteu? Ainda h pouco ele estava aqui. Para onde diabo  que ele foi agora?"
Quando Weiss comeou a examinar-lhe o tornozelo, David sentiu uma guinada de dor que Lhe percorreu toda a perna. Soltou um gemido, esforando-se por se sentar. As 
correias de couro que o imobilizavam no cederam.
 - Lamento muito - disse Weiss com suavidade. - No foi minha inteno mago-lo, doutor Shelton. Consegue compreender-me?  capaz de me contar o que  que Lhe aconteceu?
"Sim, sim", pensou David. "Eu posso contar-lhe tudo. D-me s um minuto. No me d pressa. Poderei dizer-lhe tudo o que sucedeu."
Harry Weiss viu que ele acenava, ficando  espera de algo mais sob a forma de uma resposta.
 - Bem. do mal o menos, voc est a comear a ficar mais quente - disse ele finalmente. - Mandei fazer alguns exames. Vamos tirar umas radiografias ao seu tornozelo, 
ao brao e no v o diabo tec-las, tambm umas quantas chapas ao seu crnio. Na minha opinio, parece-me que est tudo bem. mas em relao ao tornozelo no posso 
ser peremptrio. Est a compreender?
- Joey - retorquiu David. - Onde  que est o meu amigo Joey? - Durante breves momentos no teve a certeza se efectivamente proferira aquelas palavras ou se tinha 
apenas pensado que as dissera.
O rosto do mdico de servio iluminou-se, radiante.
 - O Joey? Foi ele quem o trouxe para o hospital? - David acenou afirmativamente. - Esplndido! Bom, parece-me que voc est a recuperar muito bem. Eu vou falar 
com o seu amigo. Em seguida, ele vir para junto de si at o Servio de Radiologia estar preparado para o receber. Esta noite estamos bastante atarefados, pelo que, 
muito provavelmente, ter de esperar um pouco mais. Vou desligar a luz acima da cabeceira. Tente descansar alguma coisa e no tente afastar este cobertor do corpo.
 - Muito obrigado - sussurrou David. - Obrigado. - Weiss lanou-lhe um breve olhar, abanou a cabea e saiu do quarto, desligando a luz a caminho da porta.
David experimentou a resistncia das correias, uma de cada vez. Ali no tinha a mais pequena hiptese. Respirou fundo, expirou o ar com lentido e deixou-se ficar 
todo deitado sobre as costas. Os tremores haviam cessado e grande parte da frialdade que sentira dentro de si j tinha desaparecido. Havia qualquer coisa de tranquilizante 
na obscuridade do quarto, onde chegava o barulho ensurdecido, que to familiar Lhe era, vindo do exterior.
 - Est na altura de descansar - disse David a si prprio. - Descansa para poderes recuperar as foras. Quando o Joey chegar, podemos ir os dois  procura da Christine. 
Quando o Joey chegar... - Lentamente, os seus olhos fecharam-se. A respirao tornou-se mais espaada e regular.
Atravs de uma sonolncia serena e pouco profunda, David deu pela entrada do amigo no quarto. "No me acordes. Joey", pensou David. "D-me mais um ou dois minutos 
e depois pomos ps ao caminho. Certo, muito bem, eu sei que te sentes preocupado comigo. Posso dormir at mais tarde." Os seus olhos pestanejaram exactamente antes 
da mo macia de Leonard Vincent Lhe ter tapado a boca, imobilizando-o violentamente contra a maca.
Tendo vestido o uniforme branco dos auxiliares de enfermagem que Hyacinth Lhe entregara, a Vincent no se Lhe deparou o mnimo problema em entrar por uma porta das 
traseiras, seguindo para a Unidade Trauma Doze. Embora de m vontade, foi obrigado a reconhecer a sensatez de Dahlia, ao ordenar-lhe que se mantivesse junto de uma 
cabina telefnica perto do Hospital Mdicos de Bston. Ela justificara-se dizendo-lhe que se tratava de um palpite. Ele mostrara-se reticente perante a perspectiva 
de ser forado a percorrer o Servio de Urgncias, mas, quando ela Lhe garantiu que os agentes policiais que ali estavam de servio se encontravam todos demasiado 
atarefados, ao que acrescentou a promessa de um bnus, Vincent ficou convencido, dispondo-se a tentar. Agora, congratulava-se em silncio por aquela deciso.
 - Voc tem sido uma grande dor de cabea, doutor Shelton - disse ele numa voz rosnada. - Estou a pensar em fazer com que isto Lhe doa mais do que seria de esperar. 
Porm, devido ao facto de, pelo menos, voc ter tentado sair-se desta, vou fazer isto com rapidez, facilitando-lhe as coisas.
David observava-o completamente indefeso; os seus olhos eram esferas de terror quando Vincent ergueu a faca acima do seu rosto, permitindo-lhe a viso da lmina 
lgubre de gume bem afiado.
Continuando a manter a mo sobre a boca de David, o assassino ajustou dois dedos espessos abaixo do queixo que ergueu.
 - Uma inciso, tal como os cirurgies costumam fazer - murmurou ele, percorrendo lentamente o pescoo exposto de David com a extremidade no cortante da lmina.
 - Por amor de Deus, espere! Eu no fiz coisa nenhuma. - Aquelas palavras foram tudo em que David conseguiu pensar para dizer naquele momento final. Mantendo os 
olhos cerrados ficou  espera de ouvir o seu prprio grito de morte. Em vez disso, deu-se conta de um barulho pesado: o rudo da faca de Vincent a cair no cho. 
Os seus olhos abriram-se a tempo de ainda ver o corpo do assassino tombar de lado, aps o que se dobrou sobre si mesmo. Por detrs do homem, Joey Rosetti ergueu 
o pesado revlver que utilizara  laia de basto preparadO, caso isso viesse a ser necessrio, para Lhe desferir outra pancada violenta.
 - Isto  que  um belo lugar que vocs aqui tm, doutor - comentou Joey enquanto desapertava as correias com toda a presteza.
- Ele  o tal homem - disse David em palavras atropeladas devido  excitao. - O homem que matou Ben.
- Eu sei o que  que ele pretendia fazer - atalhou Joey desapertando as fivelas das correias. - O Leonard e eu j tivemos oportunidade de nos conhecer em tempos 
idos.  o que ele faz como meio de vida. Que grande merda. Na hiptese de andar atrs de ti, meu amigo, isso s pode significar que ests metido num negcio muitssimo 
srio.
David sentou-se. Desta vez, as tonturas que sentia eram suportveis. Num gesto instintivo, levou a mo  garganta. A presso causada pelo terror tinha feito mais 
para o recompor do que qualquer outra coisa.
 - Joey, tira-me daqui para fora
esse animal e depois leva-me para fora deste lugar. Temos de auxiliar Christine.
Joey olhou de fugida para Vincent, o qual permanecia deitado de lado com uma face contorcida contra o cho.
- Vamos deixar que sejam os polcias a tratar do Leonard - decidiu ele. - Eu prometi  Terry que no me serviria da arma... quer dizer... da outra extremidade do 
cano, a menos que fosse obrigado a isso. Algum acabar por o encontrar aqui. Consegues andar? Onde raio  que esto as tuas calas?
- sou capaz de andar com alguma ajuda. - David saiu da cama e apoiou-se ao brao de Joey para no perder o equilbrio. Sentia o tornozelo a latejar, embora conseguisse 
suportar parte do peso do seu corpo, enquanto ele vestia as calas de ganga humedecidas e cheias de lama. - Joey, h uma mulher, Christine Beall. Ela  a nica pessoa 
que pode esclarecer a sarilhada em que me encontro metido.  foroso que a encontremos. - Suspirou de alvio ao compreender que, por fim, o seu pedido fora ouvido.
 - Muito bem - concordou Joey - , mas primeiro temos de conseguir sair deste lugar com a mnima confuso possvel. Eu reparei neste gorila vestido de mdico, ou 
com uma vestimenta do mesmo gnero, que se dirigia ao teu quarto. Ningum Lhe lanou sequer um segundo olhar. Imaginei que ele
no ia examinar-te. Agora ouve... o meu gerente est estacionado em frente da porta principal. Deixa-me ir buscar uma cadeira de rodas. Com isso vamos to longe 
quanto nos for possvel. e depois temos de correr como se tivssemos fogo no rabo.  um carro vermelho, um Olds ou um Chrysler, uma banheira qualquer semelhante 
a essas. No te esqueces?
 - Eu hei-de encontr-lo, Joey, no te Dreocupes - afirmOu David com um acenar de cabea. - No podemos perder tempo, temos de nos pr daqui para fora.
Rosetti ajudou-o a sentar-se na cadeira de rodas; casualmente, empurrou-a pelo corredor da ala da Unidade de Trauma, tendo atravessado a rea da recepo. Quando 
as portas electrnicaS se abriram deslizando para os lados, ouvu-se movimentos descoordenados. David saiu da cadeira de rodas agarrando-se ao brao de Joey, enquanto 
ambos percorriam os ltimos metros num passo de corrida at ao Chrysler.
 - Acelera a fundo - instruiu Joey, arquejante, quando ambos entraram de rompante para o assento de trs da viatura.
Fisher fez um gesto de compreenso, abrandando ao passar por dois automveis que circulavam em sentido contrrio. 
Janet Poulos deixou-se ficar, sem saber o que fazer, num dos extremos laterais da rea de recepo, observando os dois homens que saam do hospital. No dissera 
nada a Dahlia em relao  sua tentativa abortada de solucionar o assunto pelos seus prprios meios. Agora tinha outra deciso a tomar: se iria ou no tentar descobrir 
se Leonard continuava vivo, necessitando de assistncia. Uma vez que ela era a nica pessoa que o homem poderia vir a identificar, caso fosse preso, de contrrio, 
teria de levar o homem a encontrar uma maneira de poder fugir do hospital. Talvez ainda conseguisse salvar algum do elevado prestgio de que gozara aos olhos de 
Dahlia.
Janet amaldioou a sua pouca sorte e David Shelton por Lhe ter causado tantas dificuldades. Pouco depois, comeou a percorrer o corredor dirigindo-se para a Unidade 
de Trauma Doze, na esperana de se Lhe deparar Leonard Vincent morto.

 - Auu! Que droga  essa? - perguntou David retraindo-se, enquanto Terry Rosetti Lhe limpava o golpe profundo e extenso que tinha no brao coberto de lama.
 -  um produto que eu costumo usar para limpar os vidros das janelas - replicou ela. - Agora deixa-te ficar sossegado para eu poder acabar o curativo.
O apartamento que os Rosetti habitavam na zona norte era antigo mas espaoso, tendo sido redecorado recentemente. Terry arranjara a casa com bom gosto, fazendo uso 
de toda uma coleco de mobilirio de famlia, que teria sido bem-vinda em qualquer das lojas elegantes de antiguidade situadas em Newbury Street.
David permanecia estendido na enorme cama de carvalho macio de casal, no quarto dos hspedes, desfrutando da textura e da fragrncia dos lenis de linho, perguntando 
a si mesmo se alguma vez haveria de sentir o corpo aquecido de novo. Sentia-se enfraquecido e um pouco tonto, com dores em meia dzia de regies diferentes do corpo. 
Ainda assim, apercebia-se de que a capacidade de concentrao era cada vez maior,  medida que o nevoeiro mental provocado pela hipotermia comeava a levantar-se. 
Em silncio, agradeceu a Joey por este o ter convencido a desistir de tentar encontrar Christine, levando-o a optar por um duche quente.
Terry Rosetti, uma beldade vibrante de seios generosos, ligava-lhe, com toda a habilidade, o brao com ligaduras de gaze.
 - Macarro e primeiros socorros - disse David. - No h dvida de que tu s a mulher consumada.
 - Diz isso ao teu amigo que est ali - redarguiu ela com um sorriso que iluminou o quarto. - Ando c a pensar que ele est convencido de que eu j no fujo. Sabes 
que ele at foi capaz de parar a meio de fazermos amor para poder atender o telefone quando tu ligaste?
- No admira que me tenha dado a impresso de que ficaria a tocar para todo o sempre - disse David. - Estive quase a desligar.
 - Ainda bem que no fizeste isso - continuou Terry. - David, o Joey no matou esse homem, pois no?
O medo que se espelhava nos olhos dela no deixava qualquer dvida quanto  importncia que a sua resposta teria para ela.
 - Quando estvamos no hospital, Terry, eu bem desejei que ele premisse o gatilho, De verdade que foi o que eu mais quis. Aquele animal matou o meu amigo. Mas o 
Joey argumentou que te tinha prometido e conseguiu conter-se.
Terry Rosetti engoliu o n que sentia na garganta.
Nesse momento, Joey entrou no quarto num passo determinado, trazendo consigo um carregamento de roupas, um par de muletas e a lista telefnica de Bston.
 - Parece-me que a mulher  esta - adiantou ele. - C. Beall, trezentos e noventa e um Belknap, Brookline. Tambm vi nas outras listas, mas este  o nico nome que 
se ajusta. A propsito, as roupas e toda a outra trampa  cortesia da "Associao dos Homens de Negcios da Zona Norte".
 - O que  isso? - perguntou David admirado.
 - Uns tipos, gente de negcios como eu, que gostam de ajudar as pessoas pobres e desafortunadas, as quais so perseguidas at ao rio por um gorila qualquer. - Joey 
esboou um sorriso de conspirao dirigido a Terry, piscando-lhe o olho. No reparou na falta de reaco da parte dela. - Achas que ests em condies de viajar, 
doutor? - perguntou ele.
 - Sim, com certeza. A propsito, que horas so?
 - Meia-noite e trinta. O nascer de um novo dia.
 - Trs horas. - David abanou a cabea num gesto de perplexidade - S passaram trs horas...
 - O qu?
 - Nada. Por favor, chega-me o telefone. S espero que ela esteja bem.
 - Tens a certeza absoluta que tu ests a sentir-te bem? - perguntou David, olhando-o de soslaio.
 - Sem dvida que sim. Porqu?
 - Bom, tu  que tens a educao escolar, as licenciaturas e todas essas merdas. Tudo o que eu tenho a meu favor so as espertezaS que aprendi na rua. Mesmo assim, 
sou capaz de pensar em pelo menos seis ou sete boas razes que nos levariam a dizer a essa C. Beall, face a face, tudo aquilo de que Lhe qUeremOS falar, e nunca 
atravs do telefone. No te esqueas de que j foste preso sob a acusao de assassnio. Neste momento, essa mulher  a nica esperana que te resta para sares 
desta embrulhada.
David compreendeu imediatamente. No caso de Christine no ter nada a ver com o caso da morte de Ben, as notcias poderiam lev-la a entrar num estado de pnico em 
que ela, possivelmente, poderia tomar qualquer medida que viesse a provar ser fatal para David. Se, por outro lado, ela estivesse envolvida no assunto, fosse de 
que forma fosse, ou tivesse conhecimento de quem  que poderia ter contratado os servios de Leonard Vincent... David no se permitiu concluir aquele raciocnio.
 - Quando tudo isto tiver terminado - acrescentou ele - , tenciono escrever  minha universidade de medicina, sugerindo-lhes que te convidem como conferencista ocasional. 
Tu serias muito capaz de ensinar os estudantes de medicina a movimentarem-se no mundo verdadeiro. Vamos l  procura dela.
Decorridos dez minutos, ambos estavam de volta ao automvel de Rudy Fisher, seguindo em direco a Brookline.
 - No vs com tanta velocidade, Rudy - ordenou Rosetti. - No queremos que a Polcia nos mande parar. Se o Vincent j mandou a mulher para os anjinhos, nem todas 
as velocidades do mundo podero ajud-la.
David esboou um esgar risonho, comeando a olhar atravs do vidro da janela do seu lado.
Depois de percorrerem quilmetro e meio em silncio, Joey retomou a palavra.
 - Doutor, h uma coisa que quero dizer-te. Caso assim o entendas, poders chamar-lhe uma lio, uma vez que pretendes transformar-me num professor.
David voltou-se para o seu amigo, esperando ver o brilho no olhar um tanto dbio que costumava acompanhar todas as suas histrias. Os olhos escuros de David mantinham-se 
semicerrados, mostrando uma seriedade mortfera.
 - Avana - instigou David.
 - O Leonard Vincent pode no ser o homem que aja da maneira mais correcta do mundo, mas no h dvida de que  um verdadeiro profissional. E, desde que ele ou qualquer 
outra pessoa deseje mant-lo em aco, tu estars a jogar de acordo com as suas regras. Ests a compreender? - David acenou que sim. - Pois bem, ns no dispomos 
de muito tempo. Portanto, vou tornar a lio simples para que a possas compreender Existe somente uma regra que tens de manter em mente. Um factor que  fundamental 
 sobrevivncia no jogo do Vincent. No agi de acordo com ela no hospital porque a Terry me obrigou a prometer que no o faria. Mas tu no tens nenhuma Terry, por 
conseguinte, presta muita ateno e faz o que vou dizer-te. Se te passar pela cabea que h algum que te vai arrumar de vez,  melhor que sejas tu a arrum-lo antes 
que ele tenha a oportunidade de te mandar desta para melhor. Ests a perceber? - Com aquelas palavras, Joey meteu a sua arma no bolso de David. - Aqui tens. O que 
quer que possa vir a acontecer, tenho o pressentimento de que vais precisar mais disto do que eu. Vers que a Terry te preparar algo de muito especial, quando souber 
que tu fizeste com que eu te desse o revlver.

John Dockerty ajoelhou-se  porta do apartamento de David observando a equipa do mdico legista que havia terminado o que tinha a fazer com o corpo de Ben, levando-o 
de maca para o elevador. Olhou para o agente policial que andara a fazer perguntas s pessoas dos outros apartamentos daquele andar. O homem encolheu os ombros com 
um abanar de cabea.
 - Nada - desenhou ele com os lbios.
As novidades tinham sido uma surpresa para Dockerty. A sobrevivncia naquela cidade significava manter os ouvidos bem atentos, observar e participar o mnimo indispensvel. 
Examinou os orifcios dos projcteis na ombreira da porta, aps o que reconstituiu todos os passos que, aparentemente, tinham sido dados no decurso da aco. Havia 
sangue espalhado pelo cho do corredor e numa das paredes do apartamentO de David, assim como ao longo da parte inferior da janela aberta do quarto. Tomou um apontamento 
para no se esquecer de verificar as fichas clnica e militar de David, onde viria mencionadO o seu tipo sanguneo.
Um ferimento provocado por uma faca que fora fatal  vtima. orifcios de balas, sangue derramado por toda a parte, um coelho bbedo que fora assassinado  distncia 
de dois quarteires sem que houvesse uma nica testemunha ocular que tivesse presenciado a ocorrncia. Dockerty tentou afastar a facha de luz que fazia com que os 
olhos Lhe ardessem, avanando para a reconstituio de todo aquele cenrio. Existiam vrias probabilidades. nenhuma delas se apresentava de feio para Shelton. 
Restavam-lhe noucas dvidas de que o homem estivesse envolvido.
 - Tenente, fala o sargento McIlroy da Esquadra Quatro Acabmos de receber uma chamada de um dos nossos de servio ao Hospital Mdicos de Bston. Aparentemente, 
esse David Shelton... sabe, aquele que o senhor engaiolou. Pois bem, esse Shelton deu entrada no Servio de urgncia. Telefonei para a sua esquadra, e de l disseram-me 
que o senhor havia de querer tomar conhecimento deste assunto imediatamente.
 - No vale a pena. Ele desapareceu. Saiu com um tipo qualquer poucos minutos depois de ter chegado. Ningum se apercebeu disso at j ser tarde de mais. Os nossos 
homens estavam ocupados a ouvir os depoimentos de dois caras que se tinham entretido com um tiroteio no Bar.
- A questo  precisamente essa. No existem quaisquer vestgios desse impresso de admisso. A funcionria jura a ps juntos que o dactilografou, mas ningum  capaz 
de o encontrar.
 - Jesus, O que raio  que est a acontecer?
- Eu no sei, meu tenent^
- Bom, diga aos homens de servio no hospital que j estamos...
Jess! - Dockerty pousou o auscultador no aparelho, afastando dos olhos algumas madeixas de cabelos colocando-as debaixo do chapu. Aquela ia ser uma histria!

Fisher passou por trs vezes pela rua de Christine
at que Rosetti se sentisse seguro de que no se Lhes iriam deparar "surpresas". Deu instrues ao homem corpulento, dizendo-lhe que eSperaSSe  distncia de um 
quarteiro. aps o
que ajudou David a subir os degraus de
acesso  porta da frente da casa.
 - O mais certo  o velho Leonard estar muito divertido neste momento - disse Joey com uma gargalhada. - Estou a imagin-lo a tentar sair-se da situao no hospital, 
servindo-se somente das dez ou doze palavras que formam todo o seu vocabulrio.
David firmou-se em p tentando espreitar atravs da fileira de vidraas pequenas que a porta tinha na vertical num dos lados. Deslocava-se a medo, mas at um ligeiro 
voltar de cabea, ou o deix-la cair um pouco, provocava-lhe de novo tonturas e nuseas. O estado de hipotermia prolongada em que estivera mergulhado, compreendeu 
ele ento, afectara de uma maneira qualquer o seu sentido de equilbrio, ou na capacidade que o seu organismO possua para Droceder a ajustamentos rpidos na
presso arterial
A casa encontrava-se s escuras,  excepo de uma luz de fraca intensidade que se filtrava de uma diviso  direita - a sala de estar, calculou David. Olhou para 
o seu relgio. o melhor ser tocar  campainha, no?
 - Pois bem, doutor, dadas as circunstncias, eu diria que esse foi o teu melhor palpite. Sinto-me muito feliz por tu nunca estareS assim to tenso na sala de operaes.
David conseguiu rir-se de si prprio: pouco depois tocou
na Campainha. Ambos aguardaram,  espera de ouvirem uma resposta. Nada. David estremeceu, sabendo de antemo que aquele calafrio reflectia mais do que o frio do 
nevoeiro esparso que era aoitado pelo vento. Tocou uma vez mais. Decorreram dez segundos. E depois passaram mais vinte.
 - Arrombamos a porta? - alvitrou ele.
 -  muito possvel que o tenhamos de fazer, mas por mim sugiro que experimentemos primeiro a porta das traseiras.
Joey encaminhou-se para a rua, informando Rudy Fisher, por gestos, que iam dirigir-se para a parte de trs da casa. David tocou  campainha uma ltima vez, enquanto 
se esforava por afastar um ataque de tonturas, seguindo atrs do amigo.
Foi aquele terceiro toque que despertou Christine. Encontrava-se estendida sobre a cama, enquanto passava continuamente de um sonho pavoroso para outro. Por todo 
o soalho viam-se pedaos de papel rasgado que continha uma mensagem, juntamente com dois frascos de plulas. Ambos continuavam cheios.
 - S um momento, j vou abrir - disse ela em voz alta. Ter-se-iam as suas duas companheiras de casa esquecido de levar as chaves? Conhecendo-as como ela as conhecia, 
aquela probabilidade era muito plausvel. Levantou-se da cama e ficou a olhar fixamente para o cho. A missiva feita em pedaos, os frascos que continham a morte 
cor de laranja e cinzenta; apanhou-os e colocou-os dentro de um cesto dos papis. Decorrida aquela hora terrvel e ensombrada que se seguira ao momento em que entrara 
em casa, Christine resolvera perante si mesma que no existia nada que a levasse alguma vez mais a pensar em acabar com a sua prpria vida. Absolutamente nada, para 
alm de, possivelmente, uma situao como aquela por que Charlotte Thomas tinha passado. Estava firmemente determinada em enfrentar o que quer que fosse que Lhe 
surgisse pela frente.
Uma vez mais, ouviu o som da campainha da porta. Desta feita era a da porta das traseiras.
 - J vou. Estou a caminho. - Num passo apressado atravessou a cozinha, e j se encontrava a meio caminho do pequeno lano de escadas que servia as traseiras quando 
se imobilizou de sbito. Era ele, David, apoiado s muletas e a espreitar atravs da janela. Estendeu a mo para o interruptor e ligou a luz do lado de fora; e foi 
ento que Christine ficou sem respirao. O rosto dele estava cadavrico, mostrando uma expresso tensa, enquanto os seus olhos mal se avistavam perdidos em olheiras 
enormes e enegrecidas. Havia um segundo homem, cujas costas se mantinham voltadas e que se encontrava por detrs dele. A pulsao de Christine acelerou-se ao sentir-se 
invadida, primeiro, pela confuso e, depois, por um sentimento de inquietude.
 - Christine, sou eu, David Shelton. - A sua voz soava enfraquecida e como se surgisse de uma grande distncia.
 - Sim... sim, eu sei. O que  que deseja? - Sentia-se temerosa, incapaz de fazer qualquer movimento.
 - Por favor, Christine,  imperativo que eu fale consigo. Aconteceu uma coisa, algo terrvel.
 - Ests doido? - perguntou Joey num sussurro, agarrando-o por um brao e colocando-se em frente da janela.
 - Miss Beall - comeou ele a falar com toda a serenidade - , o meu nome  Joseph Rosetti. Sou um amigo chegado do doutor. Ele foi atacado. - Joey fez uma pausa, 
avaliando a expresso no rosto de Christine, a fim de detectar se haveria necessidade de qualquer outra explicao adicional antes de ela Lhes permitir entrar em 
sua casa.
Christine ainda hesitou por alguns instantes antes de comear a descer os ltimos dois degraus, abrindo a fechadura dupla.
 - Eu... eu peo desculpa - justificou ela quando j entravam no corredor. - Vocs apanharam-me de surpresa, e... Por favor, subam para a sala de estar. Consegue 
caminhar? Est muito magoado? - perguntou ela a David.
Durante os quinze minutos seguintes, Christine no proferiu uma nica palavra, limitando-se a ouvir os dois homens que Lhe descreviam os acontecimentos daquela noite. 
 medida que se inteirava de cada pormenor, nos seus olhos espelhava-se uma nova emoo.
Surpresa, perplexidade, terror, sofrimento... vazio. David examinava todas aquelas manifestaes de emoo,  medida que estas iam surgindo. Perguntava a si mesmo 
se ela seria capaz de dizer uma mentira de forma convincente. O que quer que ela tivesse feito, ele no tinha a certeza de que ela fosse a responsvel pelo assassnio 
de Ben.
A despeito dessa incerteza, estava convencido de que Christine, fosse como fosse, se encontrava envolvida no assunto. Essa realidade despertou a ateno de David, 
desviando-Lhe o olhar do rosto dela.
- Christine, exactamente, o que  que voc contou ao Ben? - Ela dava a impresso de estar incapaz de falar. - Por favor, diga-me o que  que Lhe contou. - Na sua 
voz adivinhava-se uma nota de clera e de urgncia.
 - Eu... eu disse-lhe que fui eu. Contei-lhe que fui eu quem... quem deu a morfina  Charlotte.
David sentiu o corao a bater com mais fora. A sua priso, a imundcie e as condies degradantes daquela noite passada numa cela, o desmoronamento de tudo o que 
conseguira alcanar na sua carreira, a morte de Ben Glass... Ela era a responsvel
 - No! Quero dizer... No sei. - Os msculos do seu rosto mostraram a tenso que a invadia. Os seus lbios tremiam. A nica explicao que Lhe ocorria ao pensamento 
era a verdade; mas qual  que seria a verdade? A Irmandade decidira sacrificar David com o fim de a proteger; quanto a isso no Lhe restava a mnima dvida. Mas 
porqu Ben? J Lhe era suficientemente difcil aceitar que tivessem estado decididas a enviar para a priso um homem inocente, mas recorrer ao assassnio?... - Oh, 
meu Deus - tartamudeou Christine. - Sinto-me to confusa. No compreendo o que est a suceder. No sou capaz de entender.
 - O qu? - perguntou David num timbre de exigncia. - O que  que no compreende? - Das suas crateras, os olhos do mdico chispavam ao olhar para ela.
 - No percebo - respondeu Christine comeando a chorar inconsolavelmente. - Est a acontecer tanta coisa sem que nada faa o mnimo sentido.  horrvel. O sofrimento 
que eu Lhe causei. E o Ben Glass... Mataram o Ben. Porqu? Porqu? Eu... eu preciso de tempo para poder pensar. De tempo para deslindar tudo isto.  uma verdadeira 
loucura. O que  que as levou a fazerem uma coisa destas?
 - Quem so elas? - perguntou David. Christine no Lhe deu resposta. - Raios partam tudo isto! - vociferou ele.
- De que  que voc est para a a falar? Quem so elas?
 - Ora vamos l a ver, acalmem-se um pouco. - Joey ergueu uma mo dirigindo-se a ambos. - Tanto um como o outro vo ter de serenar um pouco os animos, caso contrrio' 
 muito possvel que nos vejamos metidos em srias dificuldades. Muito provavelmente, o Leonard Vincent j saiu de cena. No entanto, no existe qualquer garantia 
de que ele estivesse a trabalhar sozinho. Quanto mais tempo vocs passarem a discutir um com o outro, mais hipteses existem de que um estupor qualquer irrompa por 
aqui adentro, sem que ns esperemoS, no hesitando em nos tratar da sade. - Joey fez uma pausa, permitindo que aquele pensamento penetrasse bem na mente dos seus 
interlocutores, ficando a observ-los at sentir que a tenso existente abrandava um pouco. - Muito bem. Vamos l a ver Miss Beall, eu no a conheo, mas conheo 
bem aqui o nosso doutor, assim como estou a par de toda a merda por que ele tem vindo a passar. De acordo com a maneira como eu interpreto as coisas, vocs dois 
esto metidos em grandes apuros, at que toda esta situao venha a clarificar-se. No me passou despercebido que as notcias que Lhe demos a deixaram bastante abalada. 
Apesar disso, este homem merece uma explicao.
 - Eu... eu no sei bem o que dizer - replicou Christine, falando numa voz sumida e dirigindo-se tanto a si prpria quanto aos dois homens.
Joey apercebia-se de que ela se encontrava prestes a ir-se completamente abaixo. Lanou um rpido olhar a David, cuja expresso deixava adivinhar que ele pensava 
a mesma coisa.
 - Vamos l a ver - disse Joey finalmente - , talvez fosse prefervel telefonarmos  Polcia e...
 - No! - atalhou Christine com dificuldade. - Por favor, no faam isso. Pelo menos, ainda no. H tanta coisa que eu no sou capaz de compreender. Existe muita 
gente inocente que poderia vir a sofrer, caso decidamos tomar a medida errada. - Interrompeu-se, respirando profundamente. Quando retomou a palavra, adivinhava-se 
na sua voz uma nova serenidade. - Por favor, tm de acreditar em mim. Eu no tive nada a ver com a morte do Ben. De facto, devo confessar que simpatizei bastante 
com ele. O Ben mostrou-se disposto a ajudar-me.
Entretanto, David inclinou-se para a frente, ocultando o rosto nas mos.
 - Muito bem - comeou ele a dizer, erguendo lentamente o olhar. - Nada de polcia... por enquanto. O que  que voc pretende?
 - Que me dem algum tempo - retorquiu Christine. - Quero apenas que me concedam um pouco de tempo para poder desvendar toda esta situao. Tenciono pr-vos ao corrente 
de tudo o que sei. Prometo-vos que sim.
David deu consigo a suavizar a sua atitude, ao aperceber-se da tristeza que lia nos olhos de Christine, o que o levou a afastar o seu olhar.
 - V uma coisa, doutor - atalhou Rosetti com mostras de alguma impacincia. - Tudo o que eu disse antes foi a srio. Ao continuarmos aqui mais tempo do que o estritamente 
necessrio, no estamos a mostrar grande inteligncia. Se chegarmos  concluso de que no queremos a interveno da Polcia, pois que assim seja. Se chegou a altura 
de se falar, nesse caso no devemos perder mais tempo. S que no o devemos fazer nesta casa.
David adivinhou a nota de urgncia na voz de Rosetti, tendo visto, pela primeira vez, uma expresso fugidia de medo nos olhos do amigo.
 - De acordo, vamos sair daqui - anuiu ele. - Mas para onde? Para onde  que podemos ir? Certamente que no ser para o meu apartamento. E que tal o teu bar... ou 
mesmo se fssemos para tua casa? Achas que a Terry se aborreceria se aparecssemos no teu apartamento?
 - Tenho uma ideia melhor. A Terry e eu temos um pequeno esconderijo na margem esquerda. Se vocs dois conseguirem parar de se atirar  garganta um do outro, sem 
fazerem de mim o rbitro, este lugar parece-me ser o ideal. Doutor, tu no podes ver-te a ti prprio, mas deixa-me que te diga que ests com todo o aspecto de quem 
se encontra preparado para ser embalsamado. E que tal se fosses para l esta noite e descansasses um pouco? Amanh poderemos dispor de todo o tempo de que necessitares 
a fim de destrinarmos toda esta situao. - David fez meno de protestar, mas Rosetti apressou-se a interromp-lo. - Esta altura no  a mais apropriada para estarmos 
com argumentos, rapaz. Tu s meu amigO. A Terry tambm  uma amiga. Por conseguinte, tenho a certeza de que compreenders o facto de eu no querer envolv-la numa 
situao to complicada como esta. Ou  a margem esquerda ou vocs dois ficam inteiramente por vossa conta. Agora, vamos l a ver o que  que tm a dizer  minha 
prOposta
David olhou para Christine. Esta mantinha-se sentada numa postura de desanimo, olhando fixamente para o soalho. Da sua pessoa emanava uma aura de inocncia - dava 
a impreso de um grande desamparo - o que para David era difcil reconciliar com o sofrimento que sentia, atitude que se devia quilo por que ela o fizera passar. 
"Quem s tu?", perguntou David para consigo. "Exactamente, o que  que tu fizeste? E: por que motivo?"
 - Eu... eu calculo que sim, isto , caso a Christine no tenha qualquer objeco. Por mim est tudo bem - concluiu ele por fim.
Christine cerrou os lbios e acenou que sim.
 - Nesse caso, est decidido - anunciou Joey. - Para casa. Nesta altura do ano, no anda muita gente por Rocky Point, pelo que no devero ser incomodados por ningum. 
Vou desenhar um mapa para que possam orientar-se. Levem o carro da Christine. O Rudy e eu acompanhar-vos-emos at  auto-estrada, para o que der e vier.  um stio 
bastante agradvel. Muito em especial, se a chuva decidir desaparecer de uma vez por todas. Na garagem est um velho jipe que no se encontra nas melhores condies. 
As chaves ficaram dentro da caixa de ferramentas junto da parede ao fundo. Se quiserem, podero servir-se dele. De acordo?
 - Dem-me s um minuto para poder meter algumas coisas num saco - pediu Christine. - Tambm tenho de deixar uma mensagem para as minhas companheiras de apartamento, 
para que saibam que esta noite no durmo em casa.
 - De acordo, mas que no seja muito longa - replicou Joey. - E, Christine... Diga s suas amigas que mantenham a porta fechada  chave... no v o diabo tec-las.

 - Mister Vincent, o senhor complicou gravemente as coisas. Muito possivelmente, de molde a que no possam ser corrigidas. A Hyacinth correu um risco enorme ao ajud-lo 
a escapar da confuso que se instalou no hospital, mas isso jamais voltar a acontecer. Desta vez quero ver resultados positivos. Em primeiro lugar, a rapariga, 
e a seguir, o doutor Shelton. Est a compreender-me?
 - Sim, sim, percebo muito bem - redarguiu Vincent batendo estrondosamente com o auscultador do telefone sobre o deScansO levou os dedos  fina camada de sangue 
coagulado que se formara em cima dos pontos que tinha levado na cabea. Aquela mulher, tola. Hyacinth, no era propriamente o seu tipo. mas o facto de ter conseguido 
manter a calma no meio de tanto rebulio era um mrito que ele no Lhe poderia negar. Depois de ter recobrado os sentidos, sentira-se incapaz de se manter de p. 
Recordava-se de que ela o havia ajudado a deitar-se numa maca. Segundos depois, chegara um mdico. Foi nessa altura que a mulher deu realmente mostras de toda a 
sua garra, comeando a explicar como  que aquele pobre servente tinha escorregado, batendo com a cabea contra o cho; ela dissera mesmo que se encarregaria de 
toda a papelada do tratamento hospitalar, se o fulano fizesse o favor de dar uns pontos para suturar o ferimento.
"Sim, senhor", pensou Vincent; na realidade era forado a tirar o chapu  velha Hyacinth. Em seguida, ocorreu-lhe ao pensamento a forma como ela o fitara antes 
de o mandar para fora do hospital: todo o dio que vira reflectido nos olhos da mulher.
 - Seu grande cara de cu! - tinha ela dito. - Voc  um idiota chapado.
Aquela recordao desencadeou uma onda de nusea, acompanhada de uma respirao acelerada, intercalada por arrancos, o que lhe acontecia pela terceira vez desde 
que sara do hospital. Vincent procurou apoio no tronco de uma rvore, at que os vmitos que Lhe assomavam  garganta comearam a passar-lhe.
 - Existem algumas pessoas que vo ter uma morte certa - afirmou ele, enfurecido, lutando contra as dores e a frustrao que sentia, com a nica arma sua conhecida. 
- H gente que vai ter uma porra de uma morte.
Cautelosamente, sentou-se por detrs do volante do seu automvel, comeando a dirigir-se para Brookline. Virou em Belknap Street quando um outro carro, que se afastava 
 sua frente, se aproximava da esquina ao fundo da rua. Vincent contraiu-se, tentando perscrutar a escurido, numa tentativa para concentrar toda a sua ateno na 
viatura antes que esta desaparecesse ao virar da esquina. Era vermelha, de um vermelho-vivo. O assassino descontraiu-se encostando-se mais para trs. Parou do lado 
oposto  casa de Christine, observando o caminho de acesso  garagem. Verificou que o Mustang azul no se encontrava ali.
Resmungando uma obscenidade, levou a mo ao interior do porta-luvas, de onde retirou um sobrescrito que Hyacinth Lhe entregara.
 - Pois bem, Dahlia, quem quer que tu sejas, grande estuporada - disse ele. - Calculo que primeiro vais ter o teu mdico, quer tu queiras quer no que as coisas 
se passem dentro desta ordem.
Rasgou o sobrescrito, abrindo-o, aps o que endireitou sobre o assento do passageiro da frente a papeleta relativa  admisso de David no Servio de Urgncias do 
hospital. A toda a largura do espao assinalado com "Relatrio do Mdico" leu as palavras "SAIU SEM TER ALTA E SEM TER SIDO TRATADO", eSCritas a vermelho em letra 
de imprensa. As seces no topo, destinadas a informaes suplementares, haviam sido impecavelmente dactilografadas. Com uma mo pouco firme, Vincent desenhou um 
crculo  volta da linha que identificava a pessoa de famlia mais chegada.



CAPTULO 19

A escurido e o silncio que reinavam na doca eram mais fantasmagricos do que o habitual. John Dockerty retrocedeu para a ombreira de uma porta, ficando  escuta 
at que o eco dos seus prprios passos fosse absorvido pela noite opressiva. Foram-lhe necessrios vrios minutos para conseguir identificar a variedade de rudos 
que se faziam ouvir em seu redor. O entrechocar das correntes de amarrao. Por seu lado, as gaivotas faziam uma algazarra enorme enquanto se banqueteavam com o 
seu festim da meia-noite. Ouvia ainda o marulhar das ondas que se desfaziam contra os pilares espessos. O som ensurdecido e tranquilizante de uma sirena de nevoeiro.
Gradualmente, comeou a sentir que a tenso nos msculos do pescoo desaparecia. Encontrava-se sozinho no molhe do cais.
Atravs das brumas de um negro-prateado, comeou a examinar a correnteza de armazns, quais sentinelas espectrais que mantivessem vigilncia sobre o interior do 
porto. Em seguida, atravessou a estreita faixa de pavimento, entrando numa pequena viela. No extremo mais afastado, avistou uma nesga de uma luminosidade fraca, 
que se filtrava por uma fresta existente na parte inferior da porta de um armazm sem qualquer indicao. Dockerty bateu ao de leve e aguardou.
 - Podes entrar, Dock, a porta est aberta. - A voz de Ted Ulansky troou por entre todo aquele silncio.
Dockerty entrou com movimentos furtivos, fechando rapidamente a pesada porta de metal logo depois de ter entrado.
 - Cristo, Ted! - disse ele. - Passei a porra de vinte minutos a espreitar por tudo quanto  stio, para me assegurar de que no tinha sido seguido, e tu pes-te 
para a a berrar mais alto do que a sirena de nevoeiro.
-  O que s demonstra a confiana que deposito em ti, Dock Aproxima-te e estaciona o traseiro. - Com aquelas palavras, Ulansky apertou a mo de Dockerty, indicando-lhe 
uma cadeira de madeira de carvalho de costas altas que se encontrava ao lado da sua secretria. Ele era um homem expansivo. senhor de um fsico que mostrava ainda 
vagas semelhanas com o do jogador americano, bem querido por todos, que ele fora no ataque da equipa de basebol da Universidade de Bston, duas dcadas e meia antes.
 - Tens aqui um lugar muito acolhedor - comentou Dockerty com sarcasmo, observando o escritrio espaoso e fracamente iluminado. -  s isto?
 - E nada mais - respondeu Ulansky, exibindo um falso orgulho. - O quartel-general da to lendria Fora de Investigao de Narcticos de Massachusetts. Queres dar 
uma volta pelas instalaes?
 - No, obrigado. Estou em crer que sou capaz de abarcar tudo o que existe do lugar onde me encontro.
Na realidade, a FINM, embora no fosse do conhecimento pblico, tinha conseguido granjear uma reputao quase mtica, o que se devia  eficincia das suas aces 
levadas a cabo sem o mnimo alarde, assim como pelas prises que eram efectuadas e que no permitiam a mais pequena hiptese de fuga com base num qualquer tecnicismo 
de natureza legal. Ulansky, na sua qualidade de responsvel por aquela unidade, ia gradualmente adquirindo a reputao de um ser sobre-humano, qualificativo que 
granjeara estritamente pelo seu mrito pessoal. No entanto, aqueles escritrios no se enquadravam naquilo em que habitualmente as lendas eram fabricadas. Era um 
espao espartano e frio. Paredes de cimento sem qualquer motivo decorativo, ao longo das quais s se viam armrios-arquivos, em nmero superior a duas dzias, todos 
pintados de um verde-azeitona, a cor padronizada do mobilirio de escritrio fornecido pelo governo. Dockerty sabia que no interior das gavetas de metal existia 
virtualmente to da e qualquer mformao de que se tivesse conhecimento sobre o trfico ilegal de estupefacientes que tinha lugar por todo o pas.
Num dos cantos daquela sala, parcialmente oculto pelo casaco do fato de Ulansky, que fora arremessado de uma maneira descuidada, havia um terminal de computador, 
ligado atravs de Washington, que permitia o acesso a todas as agncias governamentais de investigao de narcticos espalhadas pOr toda a parte.
 - Queres tomar uma bebida? - ofereceu Ulanskv, baixando-se por detrs da sua mesa de trabalho. - Um caf?
Dockerty declinou a oferta com um abanar de cabea.  -  O assunto deve ser de grande gravidade, para que tu te tenhas deslocado at aqui, neste tempo capaz de amedrontar 
qualquer um.
 - Calculo que sim - aquiesceu Dockerty com uma expresso distrada, recomeando a sua batalha contra algumas madeixas mais obstinadas do seu cabelo branco.
Ulansky tragou de uma s vez dois dedos de Old Grand.
- Acredita em mim quando te digo que com a transmisso do combate de boxe de Czernewicz a ser difundida esta noite pela televiso a partir da costa, tu s quase 
o nico da rapaziada da esquadra que me teria arrancado de casa. Jackie Czernewicz. o Polaco do Punho Demolidor. Costumas acompanhar
 - Para mim parecem-se muito com qualquer dia passado no escritrio - respondeu Dockerty abanando a cabea uma
 - Ento, conta-me coisas - instigou Ulansky com um sorriso. - O que  que te levou a fazer uma visita a este hotel.
- Estou envolvido num assunto verdadeiramente aberrante, Ted - comeou Dockerty a explicar, coando a ponta do nariz. - Trata-se do caso de uma senhora de idade 
que foi assassinada, numa altura em que esteve internada no Hospital Mdicos de Bston. Com morfina. At ao momento, consegui reduzir o nmero de suspeitos at aproximadamente 
trs dzias.
 - Eu sei, li nos jornais qualquer coisa sobre esse assunto. Dizia respeito a um mdico. no 
 - Sim,  isso mesmo.H aspectos circunstanciaiS que apontam para o homem, mas  tudo demasiado certinho, se  que me fao compreender. O comandante, o pilar da 
justia, foi pressionado por um gato gordo qualquer do hospital. tendo insistido em que eu prendesse esse mdico. O que eu
fiz, embora nunca me tivesse sentido muito convencido da sua culpabilidade. Agora o advogado do fulano tambm foi assassinado. Ben Glass. Tu conhecias o tipo? - 
Ulansky fez uma
careta, negando com um gesto da cabea. - Pois bem, o homem foi esfaqueado. Mesmo do lado de fora da porta do apartamento.
Ainda no h muito tempo, o doutor foi levado para o Servio de Urgncias do hospital, onde chegou todo encharcado, enregelado e meio demente. Ento, antes de receber 
qualquer tipo de tratamento, ps-se ao fresco na companhia de outro fulano. Quando eu venho a ter conhecimento do assunto e vou at ao hospital, ao chegar, verifico 
que no existe qualquer vestgio que indique que ele alguma vez l tenha dado entrada. Tanto quanto sei, neste preciso momento o homem at  muito capaz de estar 
morto. J dei as instrues habituais para que ele seja encontrado, mas estou encostado  parede quanto a tudo o mais que diga respeito a este assunto. Sinto que 
a grande porra em que esta trapalhada se encontra se deve, em parte, a mim prprio, por ter permitido que o comando actuasse. A minha nica esperana de conseguir 
descobrir alguma pista  um farmacutico de nome Quigg. Marcus Quigg.  proprietrio de uma pequena farmcia na zona oeste de Roxbury. Ele jura a ps juntos que 
este doutor Shelton aviou uma receita para uma grande quantidade de morfina, no dia em que a mulher morreu por um excesso de medicamentao.
O rosto arredondado de Ulansky franziu-se, enquanto procurava num arquivo mental qualquer meno daquele nome.
 - No sei bem onde, mas temos qualquer coisa em relao
a esse homem - disse ele. - Tenho quase a certeza absoluta de que assim . E quanto aO mdico afirma que foi roubado do seu gabinete, alegando que nunca encomendou 
nenhuma morfina.Consegui apenas um "talvez" por parte dos tipos da grafologia, porque a assinatura do Shelton  um mero
rabisco fcil de falsificar.
- Nesse caso,  possvel que seja mesmo a assinatura dele - alvitrou Ulansky.
 - Talvez - admitiu Dockerty com um encolher de ombros. - No seria a primeira vez que os meus palpites me saem errados.
 - Com certeza, o que costuma acontecer com tanta frequncia quanto a de um eclipse solar.
Dockerty aceitou aquele cumprimento com um esgar de cansao.
 - Necessito de qualquer coisa a respeito desse farmacutico, Ted - acrescentou o detective. - O homem dobra mas no quebra. Cheguei  concluso de que, se ele alguma 
vez aceitou um suborno para fazer algo desta natureza, deve ter sujado as mos com outra coisa qualquer, numa ocasio ou noutra.
 - Bem... - comeou Ulansky a sugerir - ... podemos passar revista ao que temos em arquivo, alm de consultar os dados em computador. Tenho um pressentimento de 
que possumos qualquer coisa escrita a respeito desse indivduo. - Fez uma pausa, aps o que prosseguiu em voz mais baixa. - Dock, tu sabes bem que, caso no se 
venha a descobrir nada sobre ele, poderemos sempre armar-lhe uma cilada com toda a facilidade, o que ter o mesmo resultado. Talvez at melhor. Queres que se faa 
alguma coisa nesses moldes?
Dockerty contraiu-se, levantou-se da cadeira e num passo lento dirigiu-se para o outro extremo da sala. Ulansky deu a impresso de querer acrescentar qualquer coisa 
mais, mas recostou-se no assento, deixando que o silncio continuasse a prevalecer.
Dockerty apoiou um brao sobre um dos armrios de arquivo. Durante mais de um minuto, deixou-se ficar a observar a parede vazia.
 - Sabes, Ted - prosseguiu o detective, finalmente - , ao longo de todos estes anos de trabalho policial, nem sequer uma s vez armei propositadamente uma cilada 
a quem quer que fosse. Caso decidisse faz-lo nestas circunstncias, sei que seria com a finalidade de colmatar erros que j cometi. - Abanou a cabea e vo tou-se 
de frente para Ulansky. - No quero fazer uma coisa dessas, Ted. Independentemente de tudo aquilo que a merda dos meus erros obrigaram o doutor a passar, no desejo 
fazer isso. - Ulansky acenou com a cabea
num gesto de compreenso. O detective acrescentou: - Agradeo-te que investigues tudo o que tens em arquivo; pode ser que consigas desenterrar alguma coisa em desabono 
do Quigg. Telefona-me amanh logo de manh. Caso eu no tenha conseguido descobrir nada, o mesmo acontecendo contigo, ento voltaremos a conversar.
 - No te preocupes, Dock - retorquiu Ulansky com uma expresso empedernida. - Ainda que o Quigg s tenha mijado em cima da tampa de uma sanita pblica, garanto-te 
que hei-de ser capaz de pr isso a descoberto. No vale a pena moeres mais a cabea com esse assunto.

- Foi isso mesmo o que aconteceu. Era essa a sada. Eu disse-lhe que era a vinte e sete, e voc passou por ela sem reparar. - David agasalhou-se mais no cobertor 
do exrcito, todo encostado contra a porta do lado do passageiro da frente. Lanou um olhar de fugida a Christine, desviando-o antes que ela se apercebesse.
 - Lamento muito - retorquiu ela num tom de voz neutro. - Os meus pensamentos estavam concentrados noutros assuntos. - Virou na sada seguinte para poder mudar de 
direco. O trfego era pouco intenso, mas a dificuldade que ela tinha em concentrar-se era tal que se mantinha a uma velocidade inferior a oitenta quilmetros horrios. 
Durante algum tempo prosseguiram a viagem em silncio; tanto um como o outro sentia que a tenso existente entre ambos era cada vez mais crescente.
Finalmente, Christine apercebeu-se de que no era capaz de continuar a suportar aquela situao. Estacionou no parque de estacionamento em terra batida de um restaurante 
entaipado, voltando-se numa posio que Lhe permitia ficar de frente para David.
 -  muito possvel que isto no seja uma ideia muito boa. . Talvez devssemos voltar atrs.
David olhava para o vazio atravs do vidro da janela, esforando-se por compreender a existncia, assim como o alcance inacreditvel que A Irmandade da Vida tinha. 
Christine limitara-se a descrever-lhe aquela organizao em traos largos, ao que acrescentara a promessa de pormenores adicionais na manh seguinte. Ainda assim, 
aquilo que ela j Lhe tinha contadO era absolutamente espantoso. Vrios milhares de enfermeiras! Sendo Dorothy Dalrymple uma delas. Ele ouvira-a, mantendo os olhos 
fechados e sentindo a cabea prestes a explodir, enquanto a voz dela, factual e curiosamente desapaixonada, Lhe divulgava segredos que poderiam, com toda a facilidade, 
dizimar todo o sistema hospitalar a que ele to fielmente servia.
Naquele momento sentia-se enojado. Extenuado. irritado. Aquele estado de esprito no passava despercebido a Christine, embora ela no conseguisse conter a sua prpria 
curiosidade.
 Com o diabo, David! - exclamou ela - Eu tenho estado
a tentar explicar-lhe, to bem quanto me  possvel, aquilo que aconteceu. Nunca eSperei vir a receber uma recompensa, mas...
 - Exactamente, de que  que voc estava  espera? - O sentimento de irritao chispava na voz de David.
 - Um pOUCo de compreenso...? - retrucou ela.
- Meu Deus! Ela matou um dos meus doentes, fez com que eu fosse parar  cadeia por causa das suas aces, provocou o assassnio de um dos meus amigos, vindo este 
a morrer quase nos meus braos, e, para cmulo, quer que eu a trate com compreenso. E... ainda temos essa sua Irmandade. De
todas as presunes e insanidade que possam existir...
 - David. eu revelei-lhe a existncia d'A Irmandade porque achei que voc merecia ter conhecimento do movimento. Quando ainda estvamos em minha casa, voc deu-me 
a impresso de me querer ouvir, fazendo pelo menos um esforo para tentar compreender. Em vez disso, tudo o que voc fez foi fechar-se numa concha, falando comigo 
desabridamente de tantos em tantos quilmetros. Vou repetir-lhe pela ltima vez que no fui eu a causa da sua priso. Nem sequer sabia que isso tinha acontecido 
at ter lido a notcia nos jornais. Imagino que a responsabilidade caiba  Irmandade, o que francamente me enoja. Eu filiei-me na organizao em virtude da dedicao 
que mostra para com os actos de misericrdia. Agora venho a descobrir que o movimento se encontra envolvido em crimes inconfessveis... cometidos contra si, contra 
o Ben e s Deus sabe contra mais quem. Se eu tivesse tido conhecimento antecipadamente, jamais teria permitido que qualquer dessas ocorrncias sucedessem. No lhe 
parece que eu confessei tudo ao Ben?
Christine fez uma pausa  espera de resposta. mas David ficou calado.
- Pensei que voc talvez estivesse em condies de poder ajudar-me a clarificar todo este assunto - continuou Christine - , mas estou a chegar  concluso de que 
isso foi uma tolice da minha parte. Voc tem todo o direito de se sentir encolerizado. Assiste-lhe todo o direito de me odiar. Tenciono regressar  minha casa. - 
Voltou-se para o volante e ligou a ignio.
 - Por favor, espere um pouco. Eu... eu lamento muito... -
O seu discurso era entrecortado e proferido numa voz pastosa. - Tenho estado a dar ouvidos  minha prpria amargura e clera, tentando compreender qual a origem 
destes sentimentos. Pensei que eram as dores que sinto a falarem, a frustrao ou at mesmo o receio, mas comecei a entender-me melhor. Acontece que eu simpatizei 
consigo... talvez mesmo mais do que aquilo que permito a mim prprio aceitar.  esse aspecto
que est a impedir-me de crer que voc pudesse estar envolvida neste assunto. Agora diz-me que fazia parte deste imbrglio. No entanto, pede-me que acredite que 
no estava a par de tudo aquilo que a sua Irmandade era capaz de fazer. Pois bem, eu desejo acreditar nas suas palavras. De verdade que sim. Mas acontece que... 
- David desistiu de procurar palavras. At que ponto  que tudo o que ela Lhe contara havia ficado registado na sua mente? - Veja bem - continuou ele ao fim de algum 
tempo - , eu sinto-me absolutamente exausto. Estou com grandes dificuldades em apreender o que quer que seja. Por favor. Sugiro que declaremos trguas por esta noite, 
preocupando-nos apenas em chegar  casa do Rosetti. Amanh de manh veremos em que ficamos.
 - Muito bem, declaremos trguas - concordou Christine com um acenar de cabea seguido de um suspiro. Com alguma relutncia estendeu a mo a David. Ele apertou-a, 
primeiro com uma mo e depois tomando-a em ambas. O calor que sentia ao tocar na pele dela s contribuiu para aumentar a confuso que se instalara na sua mente. 
Por que razo  que teria de ter sido assim?
AquelA questo ficou a pairar-lhe nos pensamentos, qual ladainha, repetindo-se incessantemente, fazendo com que as plpebras Lhe pesassem e acalmando o turbiLho 
que sentia no seu ntimo. Ouviu a engrenagem do motor que comeara a funcionar, sentindo o Mustang a guinar para a estrada, no preciso momento em que cedeu perante 
a exausto que se apoderara de si.
- David? Peo desculpa... mas tem de acordar. - Christine afastou o cobertor do rosto dele, esperando que ele abrisse os olhos a custo. - Est a sentir-se melhor?
 - Somente se existirem graus de falecimento - tartamudeou ele. Puxou o cobertor para cima das coxas, perscrutando atravs do pra-brisas. Encontravam-se estacionados 
na berma de uma estrada escura como breu. - Onde  que estamos?
 - Estamos na regio dos perdidos - respondeu Christine de uma maneira casual. O seu sentido de humor, inesperado, quase passou despercebido a David.
Este olhou para ela durante breves instantes, antes de recomear a falar, o que fez a gaguejar.
 - Mas... mas ns no amos para se. Acho que deveramos entrar na prxima  direita ou pelo menos  esquerda, a seguir.
 - Pelo menos... - Ambos desataram a rir.
 - Que horas so?
 - Duas horas. Passam alguns minutos. De acordo com o mapa, encontrvamo-nos no stio once supostamente deveramos estar, mas de repente, h cerca de quinze ou vinte 
minutos, os marcos da estrada desapareceram por completo. - Com aquelas palavras, Christine entregou-lhe o mapa que Joey fizera.
David abriu a janela do seu lado, respirando profundamente. O ar, que ficara limpo aps quatro dies de chuva ininterrupta, era fresco e doce; a atmosfera estava 
impregnada das fragrncias do Outono. As brumas quase imperceptveis formavam um manto baixo acima da estrada. Ao cabo de algumas golfadas de ar, David conseguia 
sentir o sabor salino impregnado nas gotculas. Foi ento que comeou a ouvir o rudo que vinha do mar, como se fosse o barulho surdo de uma composio ferroviria 
que no tivesse fim, atravessando os bosques, surgindo  direita de ambos.
- J passmos por Gloucester? - perguntou ele.
 - Sim, precisamente antes de me ter perdido.
 - Fez lindamente, Christine - retorquiu David com um sorriso - O oceano fica mais alm, por detrs do arvoredo. Tenho a impresso que nos encontramos bastante acima 
dele. Aposto um devil dog em como nos encontramos prximos deste lugar que o Joey assinalou como sendo os penhascos".
 - Aposta o qu? - perguntou Christine.
 - Um... devil dog. Bem v, eu... no tem importncia. Amanh explico-lhe o significado desta expresso. Isto , assumindo que a minha mente no est demasiado toldada 
para decifrar o que este mapa nos diz, e caso no existam outras estradas entre ns e o oceano, devemos estar prximos do entroncamentO que nos levar a Rocky Point. 
Por mim, voto que continuemos em frente.
Christine manobrou o Mustang de regresso  estrada envolta numa escurido cerrada.
Depois de percorridos quatrocentos metros, o pavimento elevava-se abruptamente para a direita. Momentos mais tarde, saram do bosque. A panormica abaixo deles era 
de cortar a respirao. A encosta ngreme, pontilhada por rvores e penedos, descia a pique ao longo de algumas centenas de metros, antes de dar lugar a um Atlntico 
negro de azeviche. Acima de ambos, abrira-se um espao de grandes dimenses entre o manto de nuvens, revelando vrias estrelas em redor da forma branca em cimitarra 
de uma lua de tonalidade cercea. Christine abeirou-se da berma do caminho, desligando o motor da viatura.
- Ainda que no fizssemos a mnima ideia do lugar onde nos encontramos, isso no significa que estivssemos perdidos - disse David com suavidade. - Est a ver aquela 
massa escura do outro lado da enseada? Estou em crer que aquilo  Rocky Point.
Christine no Lhe deu rplica. Afastou-se do carro, aproximou-se da extremidade da escarpa. Permaneceu naquele lugar durante vrios minutos, qual esttua de bano 
recortada contra o firmamento de um azul-enegrecido. Quando regressou ao automvel' as lgrimas brilhavam nos seus olhos. O resto da viagem foi feito em silncio.
Aquele pequeno esconderijo, expresso com que Joey o designara, era esplndido: uma cabana hexagonal construda de madeira de sequia e vidro, que se erguia acima 
da extremidade da lngua de terra.
 - David, este lugar  uma verdadeira maravilha - comentou Christine.
 - Sugiro que v  frente e abra a porta de casa - disse David. - Eu no demoro muito.
 - Precisa de ajuda?
David negou com um abanar de cabea, mas ento apercebeu-se de que no tinha a certeza de poder andar sozinho. Com dificuldade, saiu do automvel e apoiou-se nas 
muletas. Imediatamente, as nuseas e as tonturas apoderaram-se da sua cabea. Foi com esforo que se encaminhou para o fundo do pequeno lano de degraus que davam 
acesso  porta da frente. Durante muitas horas, a energia feita de tenso e de nervosismo havia-o ajudado a ultrapassar as dores e os efeitos da ps-hipotermia que 
sofrera. Naquele momento tinha a impresso de que dentro de si no restava nada. Agarrou-se ao corrimo; contudo, desequilibrou-se e caiu, desamparado. Poucos segundos 
depois, j Christine se encontrava junto dele, dando-lhe apoio e conduzindo-o para o interior da casa.
As enormes janelas panormicas e os tectos elevados, com as suas vigas  mostra, pouco mais eram do que uma mancha nublada, meros contornos em rodopio enquanto ela 
o ajudava a passar em frente da espaosa lareira de pedras, encontradas nas proximidades, levando-o para o quarto de cama. Quando o ajudava a deitar-se, o telefone 
comeou a tocar.
 - V atender, eu fico bem - disse ele, cerrando os olhos. - Muito provavelmente  o Joey.
Deu conta de Christine sair do quarto e, durante vrios minutos, lutou contra a escurido que comeara a instalar-se dentro de si, ficando a aguardar. Quando ela 
regressou para junto dele estava prestes a perder aquela luta.
 - David, ainda est acordado? - A resposta limitou-se a um acenar de cabea. - Tinha razo. Foi o Joey quem telefonou. Queria ter a certeza de que tnhamos chegado 
bem. Por favor, acene caso esteja a compreender o que eu Lhe digo. De acordo? ptimo. Ele tomou a iniciativa de telefonar a alguns amigos que tem nas foras policiais. 
David, ningum tem qualquer informao quanto ao facto de o Leonard Vincent ter sido detido esta noite. Toda a gente em Bston anda  sua procura, mas o Vincent 
deve ter conseguido fugir do hospital, antes de algum ter dado pela sua presena. O Joey disse que continuaria vigilante e que nos telefonaria mais tarde ainda 
hoje, ou no sbado de manh. Enquanto nos mantivermos por aqui, estaremos em segurana, mas advertiu que  necessrio termos muito cuidado caso decidamos regressar 
 cidade. Est a perceber, David?
Desta vez ele no deu qualquer sinal de a ter ouvido.
Horas mais tarde, David pestanejou, despertando de um sono pesado em que os seus pensamentos ainda estavam toldados.
Encontrava-se despido e entre os lenis da cama, com o tornozelo lesionado apoiado em cima de almofadas. Ao lado do p, tinha um saco de plstico cheio de gua 
- o que restava de um saco de gelo improvisado.
Soergueu-se apoiado sobre um cotovelo e olhou atravs das janelas rasgadas a toda a altura, do cho ao tecto. Naquele momento, avistava todo um mar de estrelas mltiplas, 
que cintilavam num firmamento nocturno sem qualquer trao de neblina.
Ouviu um grito que viera do exterior do quarto. David agarrou nas suas muletas e, a coxear, dirigiu-se para o local de onde surgira o grito. Christine dormia no 
sof da sala de estar. Voltou a gritar, mas desta feita numa voz mais baixa. David aproximou-se dela com a inteno de a despertar, mas deteve-se. Poderia acord-la 
por um minuto ou dez, talvez Lhe fosse possvel mant-la acordada durante uma hora, mas isso no faria a mnima diferena. Ele conhecia bem a persistncia implacvel 
dos pesadelos.



CAPTULO 20

O frigir do toucinho fumado, acompanhado do aroma que vinha da frigideira, induziu David a despertar de um sono livre de sonhos, mantendo os seus primeiros pensamentos 
da manh afastados de todo o horror da noite anterior.
A luz solar, isolada da brisa que soprava do oceano pelas janelas panormicas de parede a parede, banhava-o num calor quase desconfortvel. O Sol! David abriu os 
olhos, semicerrou-os e fitou toda aquela luminosidade. Ao longo de quase uma semana, o mundo fora de um tom pardacento, montono e hmido. Agora tinha a impresso 
de poder saborear o cu de um azul-esbranquiado.
Sentia o antebrao a latejar por baixo das ligaduras volumosas que Terry Lhe colocara, embora o desconforto no fosse insuportvel. Sentou-se mantendo as pernas 
suspensas sobre a beira da cama. Pe facto, apercebeu-se ele, as dores permitiam-lhe sentir um estranho conforto que o tranquilizava - o que talvez se traduzisse 
na afirmao de que, uma vez que tinha dores, e dado que recuperara a faculdade de sentir, deveria continuar vivo. Aquele raciocnio fez com que Lhe assomasse aos 
lbios um sorriso fugaz. Quantas vezes  que ele teria encontrado doentes a quem as dores que sentiam parecia agradarem? Da prxima vez que isso voltasse a suceder, 
ele haveria de ser mais compreensivo para com eles.
Ouviu o rudo dos movimentos de Christine atarefada na cozinha e, inesperadamente, comeou a ouvir o som do rdio. Msica clssica! Telemann? Concluiu que sim, sem 
dvida alguma. Apostou uma piza jumbo, e ainda seis horas despreocupadas e minterruptas em frente do televisor, em como se tratava de Telemann. Ficou a ouvir durante 
algum tempo, com os pensamentos concentrados na mulher e na histria fantstica que ela Lhe havia contado. Na noite anterior, mostrara-se furioso. To encolerizado 
e frustrado como no tinha memria de alguma vez se ter sentido. Todavia, agora, com a msica, aliada  luminosidade solar, compreendeu que sob muitos aspectos ela 
estava to inocente, tendo sido apanhada inadvertidamente naquele pesadelo, quanto ele prprio. Era verdade que fora ela quem ministrara a morfina a Charlotte Thomas, 
embora fosse absolutamente impossvel que pudesse ter previsto os acontecimentos que se seguiram  sua aco. Era necessrio que David acreditasse naquilo. Em nome 
da sua prpria sanidade mental, era foroso que acreditasse.
Fechou os olhos, saboreando os poucos segundos finais da promessa de um novo dia. Em seguida, agarrou numa das muletas e num passo vacilante saiu do quarto.
A cozinha, separada da rea de lazer e das refeies por uma bancada de madeira ao estilo da dos talhantes, situava-se no lado ocidental da casa em forma de hexgono. 
Christine encontrava-se junto do lava-louas, batendo manualmente a massa que se destinava s panquecas. A viso dela desencadeou uma onda de calor que percorreu 
o corpo de David. Nenhum sol da tarde poderia ter iluminado um espao como ela o fazia naquele momento. Os seus cabelos, de um tom de areia, presos numa trana solta, 
oscilavam at meio das costas. Usava uma camisa de homem de um azul-claro, cujas pontas da fralda apertara  cintura, o que Lhe acentuava as formas arredondadas 
dos seios, expondo um pedao de pele de um tom de mel, acima da cintura. Mais abaixo, as calas de ganga azul desbotadas colavam-se-lhe s ndegas e s ancas.
Enquanto a observava, David comeou a sentir um martelar dentro do seu peito, exercendo toda a sua fora de vontade para o obrigar a parar.
- Bom dia - saudou ele com uma expresso casual, perguntando a si mesmo se a sua aparncia seria mais tranquila do que aquilo que na realidade sentia.
- No consegui decidir se deveria acord-lo ou esperar, correndo o risco de arruinar o pequeno-almoo - replicou ela voltando-se para David - , portanto, optei pela 
maneira cobarde de ligar o rdio. Dormiu o suficiente?
David tentou perscrutar a fisionomia de Christine. Estaria ela a pedir-lhe que dessem continuidade s trguas, o que Lhe permitiria abordar o assunto quando Lhe 
fosse mais conveniente, e  sua prpria maneira?
 - Dormi muito bem - retorquiu David. - Obrigado por me ter deitado.
 - Fiquei com algum receio de que voc ficasse aborrecido por eu ter feito isso. - Christine pousou o batedor e aproximou-se dele.
 - Acontece que eu no estava consciente quando voc me deitou - acrescentou ele. O riso dela deu-lhe a deixa. Optaria por manter a situao desanuviada at que 
Christine se encontrasse preparada para falar. - Posso ajud-la a fazer alguma coisa? Devo dizer-lhe que sou um cozinheiro magnfico... para preparar qualquer gnero 
de refeio, cujo ingrediente principal seja a gua.
 - Estou em crer que tenho tudo sob controlo. Mas podia acender a lareira. Neste lado da casa est um pouco frio. A madeira j est na lareira. Esta tarde, caso 
Lhe apetea, ficar encarregue de preparar o almoo.
 - Parece-me justo - concordou David encaminhando-se para a lareira.
Quando Christine retomou a sua posio junto do lava-louas, ouviu-o a resmungar.
 - Talvez faa uma sopinha e um pur de batata instantneos... ou talvez umas fatias de carne de conserva num molho branco feito com vinho... - Em silncio, Christine 
agradeceu-Lhe. Ao semblante assomou-lhe um sorriso taciturno, quando Lhe ocorreu a avaliao que Dotty Dalrymple fizera dele: "Um degenerado", fora o epteto com 
que a mulher o tinha classificado. "E, levando em considerao essa avaliao, o que  que ns seremos?", interrogou-se Christine. "Ns que chammos a ns prprios 
a responsabilidade de sopesar o valor da vida humana. Ns que acreditamos to inexoravelmente no nosso compromisso em pr-lhe fim, sempre que tal se nos afigure 
apropriado s circunstncias. Em que  que isso nos torna?"
Olhou de relance para a sala de estar. David encontrava-se sentado junto de um fogo ainda pouco intenso, tendo apoiado o tornozelo inchado em cima de uma almofada.
 - Mostre-me como  que isso se faz, David - murmurou ela para consigo prpria. - Explique-me como  que  possvel sobreviver ao inferno por que voc passou, e 
para o qual eu dei o meu contributo. Eu sei que  pedir demasiado, mas, por favor... peo-lhe encarecidamente que tente.

O jipe de Joey Rosetti era antigo no esprito e em carroaria. ainda que o no fosse nos anos que tinha. Sentado no lugar do passageiro da frente, David observava 
Christine, sem ocultar a admirao que sentia, enquanto ela manobrava a besta resfolegante, contornando as pedras e os charcos de lama existentes ao longo de todo 
o caminho em declive at ao oceano.
O dilogo travado entre os dois durante toda a manh primara pela trivialidade, tendo ambos feito somente algumas referncias muito vagas aos horrores que os haviam 
reunido. Quando Christine sugeriu que fizessem um piquenique  beira de gua, David comeou a levantar objeces, tencionando insistir em que ambos enfrentassem 
as questes com que inevitavelmente teriam de se haver. Contudo, sem muitas demoras, reconheceu que tambm desejava que aquele intervalo de tranquilidade continuasse. 
Depois do almoo, ambos teriam tempo mais do que suficiente para abordar o assunto.
O caminho de pedras e terra batida por que haviam optado tinha um traado serpenteante, que seguia atravs de uma floresta emaranhada, prpria de um conto de fadas, 
onde abundavam as ameixoeiras silvestres, roseiras selvagens e pinheiros altos. Depois de terem percorrido vrias centenas de metros, o traado piorava bastante, 
sucedendo-se uma srie de curvas acentuadamente fechadas, de cortar a respirao.
 - Talvez no fosse m ideia voltar atrs e tentarmos descobrir um caminho melhor - sugeriu David.
 - Talvez sim... - replicou Christine, ao mesmo tempo que o jipe dava um solavanco ao passar por um buraco pelo qual David tivera a certeza de ser impossvel passar. 
- Mas aposto consigo um... um bolo de frutas em como conseguiremos chegar ao mar por este caminho.
Momentos mais tarde, a vegetao cerrada abria-se em ambas as bermas; aps uma ltima curva fechada, a vereda dava lugar a uma passagem oval e arenosa, que mal tinha 
a extenso de trinta metros, formando um medalho perfeito de um branco-dourado, parecendo descansar no seio do Atlntico. Christine fez uma paragem que envolveu 
a viatura numa nuvem de poeira, depois de ter derrapado. O rudo do motor enfraqueceu. Ambos se deixaram ficar sentados, absorvendo as cores no meio do silncio 
que se fez.
 - Um tosto?... - perguntou David quebrando a quietude.
- Pelos meus pensamentos?
 - Hum... hum.
 - E ainda h-de querer troco! - acrescentou Christine.
 - Experimente - incitou David.
 - Pois bem, s estava a pensar em qual seria o melhor lugar onde estender a manta, para nos banquetearmos com o nosso piquenique.
 - S isso? - perguntou David.
 - Mais nada. - Christine retirou uma manta do jipe e a cesta onde trouxera a refeio; servindo-se das biqueiras descalou os sapatos e saltou para a areia. - Depois 
de comermos poderemos conversar, est de acordo? - perguntou ela. David acenou afirmativamente. - Ento, vem ou no vem?
 - Dentro de um minuto. V voc  frente.
A preocupao ensombrou o semblante de Christine, para logo desaparecer. Soltando um grito que manifestava a alegria que sentia, comeou a correr atravs do areal 
da praia.
David recostou-se mais para trs, tendo a percepo do desconforto opressivo e indefinvel que sentia na regio superior do peito. Nos minutos que se seguiram, aquela 
sensao acentuou-se ainda mais. Esforou-se por compreend-la, o que Lhe permitiria classific-la. Gradualmente, comeou a ficar com uma noo mais clara. Estava 
a ser atrado para o mundo de Christine, arrastado para a sua vida. Quase com a passagem de cada minuto, o seu interesse por ela crescia. Sentia-se interessado pela 
mulher cujas aces, aliadas a uma confiana exagerada em si prpria, haviam desencadeado o seu pesadelo e culminado, fosse como fosse, na morte do seu amigo. O 
seu interesse fora despertado por uma mulher que confessara ter cometido um assassnio, por uma mulher cuja situao era... desesperada.
"Isto  uma autntica loucura", pensou ele. "Absolutamente irracional. Esta mulher no vai a parte alguma - excepto, muito plausivelmente, para a cadeia. Neste momento 
no pode dizer que tenha uma carreira. No tem futuro nenhum para l do turbilho da iminncia de uma priso, ao que se seguir um julgamento. Por seu lado, Lauren 
possua tanto: talento, beleza, orientao de vida e confiana em si prpria. O que  que a Christine Beall tem?"
 - David?... - Sobressaltou-se ao ouvir a voz da mulher que Lhe preenchia os pensamentos. Por breves instantes, no foi capaz de a localizar. Mas ento, avistou-a 
atravs do pra-brisas: apoiara os cotovelos em cima do cap do jipe, examinandO-  atentamente. - Est a sentir-se bem?
 - Hem? Oh, certamente que sim; sinto-me lindamente - mentiu ele.
 - Esplndido. No fui capaz de destrinar se estava em transe, ou apenas amuado, por eu me ter esquecido de Lhe permitir que preparasse o almoo. Quando voc estiver 
pronto. a refeio tambm estar.
David esboou um sorriso pouco convincente, descendo do veculo e comeando a percorrer o areal a coxear, at ao recanto parcialmente protegido pela sombra onde 
ela estendera a manta que haviam trazido.
O silncio instalou-se entre ambos, enquanto escolhiam entre a amlgama de comestveis que Christine descobrira na casa: sardinhas em lata, o miolo de alcachofras 
de conserva, biscoitos de farinha de trigo, ovos cozidos, azeitonas pretas, queijo e po doce portugus.
 - Estava delicioso - disse David finalmente. - Quer tirar  sorte quem  que fica com o direito  ltima alcachofra?
 - No, obrigada. Estou cheia. Coma-a voc. - Christine fez uma pausa, aps o que recomeou a falar quase sem alterar a entoao que dera  sua voz. - A Charlotte 
no estava a morrer de cancro, no  verdade? - Era mais uma declarao do que uma pergunta.
"L se vai o ambiente de romance", pensou David. Com uma atitude deliberada que esperava o ajudasse a formular uma resposta, colocou o garfo dentro de um boio vazio 
e voltou-se ficando de frente para ela.
 - Est a referir-se aos resultados da autpsia - disse ele. Christine engoliu em seco, acenando que sim. - Pois bem, a resposta mais simples  sua pergunta  que 
provavelmente no era esse o caso. Durante a autpsia no foram encontrados sinais evidentes de cancro. Certamente que poderia ter voltado a surgir ao cabo de seis 
meses ou um ano, at mesmo dentro de dois. Mas, por agora, esta  a resposta que tenho para Lhe dar.
Christine fez meno de iniciar a sua rplica, mas mordeu o lbio inferior e desviou o olhar. Sem o mais pequeno aviso, do que at ele prprio no se apercebeu, 
David comeou a falar-lhe desabridamente.
- Raios partam isto, Christine, no faa isso a si prpria Caso se proponha encontrar uma soluo para todo este imbrglio... o que me parece ser a medida mais acertada, 
ento faa-o tendo em vista todas as perspectivas e no apenas aquelas que mais acentuam a sua culpabilidade. Ou optamos por examinar as coisas atentamente, a partir 
de todos os ngulos, ou, caso contrrio, ser prefervel regressarmos s conversas sobre banalidades. Est a compreender?
Christine indicou que sim, acenando com a cabea. Os seus olhos vitrificados mostravam uma expresso vazia.
 - Eu... eu sinto-me to diabolicamente perdida - disse ela numa voz enrouquecida. - To assustada, to... to desesperada.
Uma vez mais, aquela palavra. Desta feita, foi David quem desviou o olhar. No era capaz de se libertar de um pressentimento que Lhe dizia que ela tinha razo. O 
que  que o destino tinha de reserva para ela? Ento, David pensou em Lauren. "Para melhor ou pelo melhor." Fora dessa forma que David descrevera o compromisso que 
ela tivera para com ele. Agora cabia-lhe a vez de tomar uma deciso.
Nesse preciso momento, sentiu uma centelha renovada de clera. Christine Beall fizera as suas prprias escolhas e, em consequncia dos seus actos, existiam algumas 
pessoas que haviam sado magoadas... e cujo destino fora a morte. Agora sentia-se indefesa e desesperada. No estaria ela a ter exactamente aquilo que merecia?
Aquilo que merecia. David abanou a cabea. Naquele momento, quantos dos seus colegas  que pensariam que o facto de ele ter sido preso, ao que se seguira a suspenso 
do quadro clnico do Hospital Mdicos de Bston, seria aquilo que ele merecia. Assistir-lhe-ia um direito maior de fazer um juzo de valor do que a eles?
Inclinou-se para a frente e agarrou numa das mos de Christine. Os dedos dela cerraram-se  volta dos seus. Ele conseguia sentir o desespero que a assolava.
Logo de imediato, David cruzou os braos, adoptando uma postura rgida de profissionalismo.
 - Com que fundamento  que voc se acha no direito de fazer esse diagnstico? - perguntou ele com uma expresso de altivez.
 - O diagnstico?
 - Do desespero. Aqui se encontra voc na presena daquele que , talvez, o maior perito mundial sobre esse assunto, e tem a ousadia de se diagnosticar a si prpria, 
sem Lhe pedir uma consulta? Isso  absolutamente inaceitvel. Vou assumir a responsabilidade deste caso. - O vazio que se adivinhava nos olhos de Christine comeou 
a dissipar-se. -  necessrio que faamoS uma espcie de inventrio - acrescentou David. - Em primeiro lugar, devemos considerar os aspectos bsicos. Estou a ver 
dez dedos das mos e dos ps, assim como duas de todas as partes que, supostamente, devero ser duas. As partes encontram-se todas em bom funcionamento, miss? - 
Christine susteve uma risada e acenou que sim. - At aqui, a situao no se me afigura nada desesperada. Por acaso est familiarizada com o estudo clssico de Zurique 
sobre essa matria? Os cientistas aferiram a situao de desespero numa escala de zero a dez, numa amostragem que efectuaram num universo de um milhar de indivduos, 
em que a metade estava viva e a outra metade morta. Foi considerado um ndice absoluto de desespero numa escala de dez.  capaz de adivinhar o desenrolar dessa mesma 
pesquisa? - Naquele momento, Christine ria-se a bandeiras despregadas. - No consegue adivinhar? Muito bem, vou dizer-lhe. Obteve-se uma diferena acentuada entre 
os dois grupos. De facto, os que se inseriam no grupo dos falecidos, invariavelmente, enquadravam-se na escala dez, o outro inseriu-se sistematicamente na zero. 
- David coou o queixo e olhou-a de alto a baixo. - Lamento muito, miss, de verdade que sim, mas receio muito que apesar do quanto deseje efectivamente sentir-se 
desesperada, a realidade  que esse no  o caso. Estou-lhe muito agradecido por ter vindo. Enviar-lhe-ei a factura dos meus honorrios pelo correio. O prximo?
 - Muito obrigada - agradeceu ela, colocando os braos  volta do pescoo de David. Os seus lbios roaram-lhe pela orelha enquanto falava. - Muito agradecida pela 
consulta. - Recuou a cabea para poder olh-lo melhor. O beijo que se seguiu limitou-se a acontecer... um contacto fsico terno e reconfortante que nenhum deles 
desejava que terminasse ou que fosse diferente. Passou um minuto, ao que se seguiu um outro. Finalmente' Christine afastou-se dele.
 - Correu tudo muito mal - acrescentou ela em voz baixa. - Parecia ser a medida mais adequada, para logo tudo passar a ser... uma loucura. Porqu, David? Diga-me 
uma coisa. Como diabo  que eu posso voltar a confiar nos meus sentimentos, quando uma coisa em que eu tanto acreditava se transformou em algo que resultou em tanta 
amargura? - Sentada na areia, Christine vergou os ombros, pondo-se a olhar para o Atlntico.
 - Voc quer saber por que razo? - perguntou ele, sentando-se junto dela. - Porque voc no  perfeita,  esse o motivo. Porque no existe ningum que seja perfeito; 
o porqu  esse. Porque todas as equaes que envolvem seres humanos so irresolveis ou, no mnimo dos mnimos, nunca so resolveis da mesma maneira em duas situaes 
diferentes. Eu acredito tanto na eutansia quanto voc prpria. Sempre acreditei. No que me diz respeito,  uma concepo absolutamente correcta. A diferena  que, 
no sei bem como, tenho vindo a compreender que, embora seja uma ideia certa em absoluto, pura e simplesmente, no existe uma maneira de a pr em prtica da forma 
mais correcta. Mais cedo ou mais tarde, o elemento humano, o factor X, imprevisvel e incontrolvel, mostra a sua cabea repugnante e  ento que toda a situao 
se desmorona.
 - E as pessoas inocentes morrem - retorquiu Christine.
 - Chris, com referncia quilo que eu penso, sempre que o assunto  a morte, todos ns estamos inocentes. A  que reside o problema. Houve algum da sua Irmandade, 
possivelmente essa mulher, a Peggy, que se assenhoreou abusivamente das convices honestas e generosas de algumas das enfermeiras maravilhosamente idealistas, tendo-as 
adulterado. Uma vez mais, encontramo-nos em presena do elemento humano. Dinheiro, ganncia, luxria, fanatismo. Quem  que poder saber o que  que toca nessa corda, 
to especial e que se mantm oculta no mago de qualquer pessoa, fazendo-a perder toda a perspectiva das coisas? Voc esteve prestes a expor A Irmandade, ou pelo 
menos foi o que algum concluiu. Essa corda  tocada, o que d origem a que sejam tomadas decises irracionais e de demncia.
"Existe um enigma que ouvi em tempos - continuou David. - Pergunta-se a uma pessoa o que faria, se Lhe apresentassem um recm-nascido saudvel e Lhe prometessem 
que, caso aniquilasse essa criana, poderia curar de imediato todos os males que afligem a espcie humana. Houve algum que no seio da sua Irmandade respondeu a 
esse enigma por sua alta recreao. O Ben, voc, eu... nenhum de ns  to importante para essa pessoa, ou pessoas, quanto os seus ideais. Temos, pois, o caso do 
indivduo que  sacrificado em nome do bem maior.  uma coisa que acontece constantemente.
- Mas isso  horrvel - atalhou Christine.
- Talvez sim. Mas mais importante  o facto de ser uma caracterstica humana. Voc poder arcar com a responsabilidade pelo sofrimento que me causou, ou at mesmo 
pela morte do Ben, caso seja essa a sua deciso. Contudo, isso significa ser demasiado dura para consigo prpria, apenas porque se limitou a pr em prtica aquilo 
em que acredita, assim como por ter confiado em que outros seres humanos seriam to constantes, e to puros, nas suas convices como voc prpria o era.
"No h dvida que voc tem de tomar algumas decises, Chris. Imensas e devastadoras, decises essas que so horrveis. Se quiser, eu poderei dar-lhe a minha ajuda. 
Mas no espere que eu me mantenha ao seu lado, enquanto seguro nos fsforos e voc se rega a si prpria com gasolina. Eu... eu interesso-me em demasia para poder 
fazer uma coisa dessas.
Com lentido, Christine voltou-se para David. Os seus olhos prenderam-se nele, tal como havia acontecido nos primeiros momentos em que estiveram juntos. As mos 
de Christine acariciaram as faces de David. O beijo que trocaram, desta vez ardente, profundo e doce, levou-os para a areia. Momento a momento, enquanto se despiam 
um ao outro, tudo o que se encontrava para alm daquela praia desapareceu por completo. David beijou-lhe os olhos e depois enterrou os seus lbios na suave concavidade 
do pescoo de Christine. As mos dela percorriam todo o corpo dele, extraindo uma nova excitao para si prpria, ao mesmo tempo que a originava em David.
Com cada beijo, com cada carcia, o sentimento de solido e de receio, alojado no interior de ambos, ia-se atenuando. Com cada nova descoberta, a sensao de desespero 
continuava a afastar-se tanto de um como de outro.
O rosto de Christine mostrava uma radincia dourada sob o sol daquele fim de tarde, enquanto ela se colocava em cima de David. Ele acariciou os seus seios firmes, 
primeiro com as mos e depois com a lngua.
Ela sorria enquanto estendia a mo para baixo, a fim de o guiar para dentro de si.

 - Barbara, pra de me aborrecer e d-me os nomes. Eu prpria encarregar-me-ei deste assunto.
 - Mas...
 - Os nomes, por favor - insistiu Margaret Armstrong proferindo as palavras com grande rispidez; formou uma bola com o pedao de tecido que tinha na mo fechada, 
obrigando-se a relaxar.
Barbara Littlejohn hesitou. Sentia a cabea a latejar, o que comeara durante o voo que tivera incio em Los Angeles e que entretanto se intensificara. Finalmente 
abriu um dossier de manila, entregando uma carta de cada vez  cardiologista, passando-as por cima da mesa.
 - Ruth Serafini - passou ela a explicar. - Demitiu-se tanto do conselho de directoras como do movimento. Alega que compreende que tu ests a fazer aquilo que consideras 
ser o mais acertado; todavia, no pode, em boa conscincia, dar-te o seu apoio.
 - Nem sequer me enviou uma cpia - comentou Peggy entre dentes, examinando a carta, aps o que a colocou de lado.
 - Susan Berger - continuou Barbara. - Essencialmente diz a mesma coisa que a Ruth, mas acrescenta ainda que, at estas questes estarem resolvidas, tenciona suspender 
todas as operaes d'A Irmandade na regio norte da Califrnia. No d a sua aprovao a novos casos, recomendando tambm que todas as contribuies monetrias a 
favor da Fundao Clinton sejam interrompidas.
Peggy colocou a carta em cima da outra sem sequer a ler.
 - Tenho a certeza que a Susan ouvir a voz da razo - retrucou ela num timbre de voz neutro, sopesando a possibilidade de adulterar a meia dzia de fitas magnticas 
de Susan que tinha fechadas num cofre na cave de sua casa. Na hiptese de no ser feita qualquer referncia  Irmandade da Vida, aquelas gravaes constituiriam 
uma confisso de provocar calafrios. Depois de ter meditado um pouco sobre o assunto, acrescentou: - Ela  uma mulher excessivamente ambiciosa para fazer ouvidos 
moucos  razo. - Distraidamente, Peggy desdobrou o bocado de tecido, fazendo-o passar por entre a ponta dos dedos.
Barbara Littlejohn, que apresentava um aspecto contrado onde a palidez se acentuara, no obstante os cosmticos cuidadosamente aplicados, passou  terceira carta.
 - Esta  a mais perturbadora de todas as outras - continuou ela. - Foi enviada por Sara.
 - Raios! - Aquela exclamao foi mais pensada do que dita.
Ela diz que est disposta a reconsiderar a sua demisso, caso ns conduzamos uma investigao minuciosa relativa ao envolvimento d'A Irmandade, ou de qualquer dos 
seus membros, na morte de John Chapman e do senador Cormier... Estas duas ocorrncias tiveram lugar no hospital, Peggy, mas estou em crer que no tivemos nada a 
ver com...
 - Claro que no - atalhou Peggy de imediato. - O John Chapman era um amigo da Sara. No admira que ela esteja preocupada. Quanto ao senador Cormier, ele foi autopsiado, 
na sequncia do que o seu caso foi ampla e pormenorizadamente discutido na conferncia dos ndices de morte. Insisti em estar presente nessa reunio. O homem sofria 
de uma doena agravada das artrias coronrias, pelo que, muito simplesmente, foi acometido por um ataque cardaco mortal durante a cirurgia. E quanto a esse assunto 
no h mais nada a acrescentar.
 - Congratulo-me com isso. - No rosto e na voz de Barbara detectava-se um alvio genuno. - Peggy, no sei bem o que  que eu teria feito se tu no te tivesses mostrado 
disposta a discutir esta questo. Tive a impresso de que tudo estava prestes a desmoronar-se.
 - No digas disparates. Tu tens vindo a fazer um trabalho excelente. No s a nossa Irmandade sobrevive ao longo de quarenta anos, mas tambm se tem desenvolvido. 
Uma situao como este assunto do Shelton poder afectar o esprito de solidariedade que existe entre ns; no entanto, no conseguir aniquil-lo. No te preocupes 
e deixa essas cartas comigo. L para o fim do dia j eu terei todo este assunto sob controlo.
 - Obrigada - agradeceu Barbara, agarrando na mo de Peggy - Muito obrigada. - Dirigiu-se para a porta sem que a outra a acompanhasse
"A almofada, minha querida. S tens de a colocar em cima do meu rosto e fazeres tanta fora quanta te seja possvel. No ser preciso muito tempo." "Eles esto a 
tentar destruir-me, mezinha. Andam a tentar destruir a nossa Irmandade." Os olhos de Margaret Armstrong tinham-se fechado at mesmo antes de a porta exterior do 
seu gabinete se ter cerrado, aps a sada de Barbara. A recordao daquele fim de tarde, havia tantos anos, do quarto de hospital, do sofrimento que tinha visto 
no rosto da me... Bruscamente, todos aqueles sentimentos a tocavam muito de perto, o que acontecia uma vez mais.
"Mezinha, eu. . . "
 - Por favor, mam. Por favor, no me obrigue a fazer isso.
"Eu sinto muito amor por ti, se tu tambm me amas, no permitirs que eu continue a sofrer desta maneira."
Peggy Donner sussurrou aquelas palavras vezes sem conta, enquanto Margaret Armstrong a observava e ouvia; o pedao de tecido andava entre as pontas dos seus dedos 
sem interrupo.
"Eu amo-a, mezinha...", tinha dito Peggy enquanto colocara a almofada por cima do rosto de feies estreitas, fazendo presso em cima dela com todas as suas foras.
Margaret ficara a observar os movimentos por baixo do lenol, cada vez mais enfraquecidos, at que haviam parado de todo. Tremia, enquanto a rapariga voltava a colocar 
a almofada no seu lugar, aps o que beijou os lbios da me morta. Olhou para o bocado de tecido, como se o visse pela primeira vez
Uma vez mais, aquela situao difcil tinha chegado ao fim

John Dockerty andava impacientemente de um lado para o outro, na sala atulhada das traseiras da farmcia de Marcus Quigg. Mantendo-se afastado, prximo de uma das 
paredes, Ted Ulansky observava o amigo; as suas faces largas eram uma mscara que no deixava adivinhar qualquer emoo. Havia quase duas horas que interrogavam 
Quigg implacavelmente, depois de terem descoberto no seu cadastro irregularidades em nmero suficiente que justificasse, no mnimo dos mnimos, o homem ficar com 
a licena suspensa, o que o impediria de manter a farmcia aberta. O palpite de Dockerty acertara em cheio. No tinha havido necessidade de maquinar quaisquer provas 
que viessem a incriminar o farmacutico amedrontado. Em apenas umas escassas horas de trabalho na investigao das prescries que ele satisfizera, e depois de alguns 
telefonemas para o mesmo nmero de mdicos, haviam conseguido obter o tipo de elementos que Lhes permitiriam pr Quigg de rastoS, implorando que chegassem a algum 
gnero de acordo. No obstante aquela expectativa, o homenzinho havia provado ser surpreendentemente resistente... ou estar demasiado assustado.
O detective bateu com uma pequena pilha de receitas falsificadas contra a palma da mo. Ele e Ulansky tinham combinado antecipadamente que Dockerty assumiria o papel 
de duro, o vilo ameaador, durante o interrogatrio. Por seu lado, Ulansky aguardaria at sentir que o grau de tenso era o adequado, aps o que acorreria em defesa 
de Quigg, qual cavaleiro errante.
 - Faa-se a sua vontade - resmungou Quigg. Esforava-se por manter a pouca compostura que ainda Lhe restava, fumando cigarro atrs de cigarro e evitando qualquer 
contacto visual. No entanto, do seu lugar, que Lhe proporcionava uma certa vantagem, Ted Ulansky reparou que, pela primeira vez, as mos de Quigg tremiam. No seria 
necessrio muito mais tempo para que ele cedesse.
 - Eu j Lhe expliquei tudo o que tinha a explicar - ripostou Dockerty. - No mnimo, estas prescries dizem-me que voc  um trapaceiro. Na pior das hipteses, 
pode ser considerado uma merda de um traficante de drogas, o qual coloca o po sobre a sua mesa  custa de vender plulas a menores de idade. Vamos l a ver, das 
duas uma: ou voc diz aquilo que pretendemos saber, ou seja, quem  que Lhe pagou para incriminar o David Shelton, ou tomarei todas as medidas para que a licena 
de porta aberta de que goza a sua farmcia seja revogada e enfiada pela sua garganta abaixo, como sendo a sua primeira refeio na priso. Est a perceber?
Quigg mordeu o lbio inferior. Os tremores eram cada vez mais perceptveis.
Pelo canto do olho, Dockerty viu que Ulansky acenava com a cabea. Chegara a altura do grande final. O detective cerrou as mandbulas e falou atravs de dentes cerrados.
 - Quero que me diga um nome, Quigg, e desejo ouvi-lo imediatamente. Caso contrrio, existe uma cela em Walpole que est preparada  sua espera. E, acredite em mim, 
um homem engraadinho e pequeno como voc passar a ser carne para canho para os tipos que l esto encarcerados. Passada uma semana, o seu olho do cu estar to 
grande por ter sido fodido que, de cada vez que der um passo, cagar nas calas. - Naquele momento a voz do detective era ribombante. - Quigg, o nome... eu quero 
esse nome!
 - Chega! - Ulansky proferiu a palavra como se fosse uma chicotada. ;
O rosto cadavrico de Quigg voltou-se para ele. O investigador da brigada de estupefacientes posicionou-se entre os dois homens, qual rbitro num jogo de pugilismo. 
Colocou uma mo no peito de Dockerty, num gesto apaziguador, apenas para a ver afastada de repelo. Por breves instantes, no teve a certeza se o irlands estaria 
a fingir aqueles modos desabridos.
 - John, acalma-te. Por favor, tem calma. Esse teu mau feitio j te causou problemas suficientes no Ministrio do Interior, tendo em vista a situao em que as coisas 
esto. Portanto, v l se fazes um esforo para te controlares.
Com uma expresso de benevolncia, Ulansky concentrou a sua ateno em Quigg, reparando com grande satisfao que as faces do homem tinham readquirido um pouco de 
cor.
 - Marcus, eu s pretendo dar-te uma ajuda, de verdade que sim - continuou ele com uma entoao que instilava confiana em cada uma das palavras que proferia. - 
Mas  preciso que compreendas aquilo que tens pela frente. Ests aqui a arriscar a tua carreira, a tua liberdade e a tua sade, e tudo porque te recusas a dizer 
um nome. Somente um simples nome. Isso  tudo o que o tenente est a pedir-te. Eu sei que te sentes assustado quanto ao que poder acontecer-te, no caso de nos dizeres 
esse nome, mas pensa s nas consequncias que virs a sofrer se te recusares a faz-lo. Pelo menos, nestas circunstncias, o detective pode oferecer-te alguma esperana. 
Ser que o nome que ns pretendemos de ti te poder oferecer o mesmo?
Ulansky examinou minuciosamente a fisionomia do homem. Detectou temor e incerteza, embora no avistasse traos de derrota, nem to-pouco a capitulao que esperara 
ver naquela fase do interrogatrio. Olhou para Dockerty e sacudiu a cabea.
 - Eu... eu quero falar com o meu advogado - declarou Quigg com firmeza.
Saindo disparado do lugar onde se encontrava, Dockerty atravessou a sala, agarrou no homem pelas lapelas, colocando-o violentamente de p.
 - No vais ter direito a nada at que me tenhas dado algumas respostas. - Com alguma relutncia, soltou o farmacutico. - Vamos levar-te connosco, Quigg - acrescentou 
o detective. - Quero que vejas com os teus prprios olhos como  que  o interior de uma priso. Ns continuamos a ter assuntos a tratar: tu e eu. Pe-te a mexer, 
grande estupor, comea a andar  minha frente.
Marcus Quigg sentiu no esterno uma dor que se assemelhava ao golpear de uma faca, pensando fugazmente que tudo estava prestes a terminar ali mesmo. O aneurisma com 
a espessura de uma hstia, que substitura grande parte da massa muscular do seu corao, encontrava-se em expanso. Desde o incio do interrogatrio que Lhes quisera 
dizer que no era um vigarista. Naquele momento, desejava dizer-lhes que as prescries falsificadas eram estritamente uma operao que envolvia apenas uns quantos 
trocados: meros pensos rpidos que tentavam aguentar o seu negcio  beira da falncia, o que se devia  sua sade deteriorada e  sua mulher, a qual vivia no terror 
de vir a ser deixada sozinha com os filhos por criar. Queria poder dizer-lhes tudo aquilo, mas estava incapaz de o fazer.
Fosse como fosse, que diferena  que isso faria?, perguntou o farmacutico a si prprio, repetindo a pergunta sucessivas vezes, enquanto Dockerty Lhe colocava as 
algemas  volta dos pulsos, conduzindo-o para fora da farmcia. Por conseguinte, aquele tipo, Shelton, estava metido em dificuldades por causa do que ele tinha feito. 
Pois bem, ele prprio tambm se via a braos com alguns problemas. Encontrava-se em grandes apuros. A porra do balo que tinha no peito continuava a expandir-se, 
e a mdica tinha-lhe dito que poderia ser uma questo de um ano, ou mesmo um s ms... ou ainda uma hora. Ela dissera que no havia mais nada que se pudesse fazer 
por ele. Ser que Dockerty compreenderia? Entenderia ele que, depois de toda uma vida passada a esforar-se por fazer sempre o que estava certo, tudo aquilo que 
possua era uma mulher atemorizada, quatro filhos que necessitavam de ser alimentados e uma bola de sangue dentro do peito, a qual corria o risco de explodir em 
qualquer altura?
Quigg sentia o n nas suas entranhas, assomando-lhe  garganta o sabor do cido a fervilhar. Desejava poder dizer-lhes para que depois o deixassem ir para casa, 
deitar-se na sua prpria cama. Mas sabia de antemo o que  que iria suceder. Sabia que o dinheiro deixaria de Lhe ser entregue. Tambm sabia que os milhares de 
dlares suplementares que Lhe haviam sido prometidos, logo que toda aquela trapalhada tivesse terminado, jamais chegariam  sua mo.
Enquanto era empurrado para o assento de trs do automvel do detective, em silncio, Marcus Quigg amaldioou a Dra. Margaret Armstrong e toda a desgraa que ela 
levara  sua vida.

Uma cafeteira de caf, um duche a dois, e de sbito o fim de tarde dera lugar a uma noite de uma limpidez de cristal. Um tronco de madeira de vidoeiro, que ardia 
na lareira, tinha transformado a sala de est ar de Joey numa espcie de ventre acolhedor. Estendidos em cima do sof, Christine e David alternavam alguns dilogos 
breves, com olhares prolongados ao firmamento de veludo.
 - Seda vermelha - disse David, apalpando o roupo que retirara do roupeiro de Rosetti. - Nunca pensei em mim como sendo o tipo de homem que usasse seda, mas o certo 
 que proporciona uma sensao deveras agradvel.
Christine sentou-se a direito e, com a orla do seu roupo, cobriu as coxas.
 - David, quero que compreendas todo o significado que este dia teve para mim. - Os olhos dele estreitaram-se. - Tu sabes bem que no planeei as coisas para que 
acontecessem desta maneira, no sabes? - Ele acenou que sim. Christine apercebeu-se da tenso que se espelhava no rosto de David, assim como da humidade que via 
nos seus olhos. - De sbito, sinto-me... assim como que egosta... at mesmo cruel.
 - Isso no passa de um disparate - atalhou ele.
 - No, no . Fui eu quem permitiu que isto sucedesse, sabendo minuto a minuto que estava destinado a no ter continuao.
 - No se pode dizer que tenhas estado exactamente sozinha - replicou David numa voz enrouquecida.
 - No, calculo que no... - A sua voz esmoreceu. - David - continuou Christine pouco depois - , tenciono regressar  cidade amanh de manh.
 - S mais um dia. - A rplica dele foi to rpida que ambos se aperceberam de que aquele pensamento j se tinha formulado na sua mente.
 - No me parece que essa seja a atitude mais justa... - retorquiu Christine com um abanar de cabea - quer para ti quer para mim. Eu sei o que  que ests a sentir. 
Sinto precisamente o mesmo.  um sentimento que no me tem largado ao longo de todo o dia. Os meus pensamentos rodopiam, saindo de fantasias daquilo que eu desejava 
ter acontecido, para entrarem logo de seguida na realidade daquilo que sei ir suceder. O facto de permanecer aqui... ainda que s por mais um dia. s far com que 
nos custe mais quando me for embora. J te causei sofrimento suficiente.
 - Eu no quero que tu partas. - David lutava contra a verdade que existia no que ela dissera. Compreendia que assim era. A despeito disso, foi incapaz de conter 
a torrente de palavras. - Acontece... acontece que no  seguro. O Joey disse-te isso mesmo ontem  noite. Algures em Bston, o Vincent continua  solta. A sua misso 
 encontrar-me e, quer aceitemos quer no, tambm anda  tua procura. No caso de decidirmos regressar, a nica alternativa que nos resta  falarmos com o Dockerty. 
E o que  que Lhe diramos? Ainda no chegou a altura de podermos voltar. Que diabo, Chris,  muito possvel que nunca mais possamos regressar a Bston. Podamos 
ir para qualquer parte. Neste exacto momento. Esta noite mesmo Para o Canad... ou para o Mxico. Eu sei falar um pouco de espanhol. Talvez consegussemos abrir 
uma pequena clnica algures. Trabalharamos em conjunto. O que  que lucraramos em voltar neste momento?
 - Essa soluo no resultaria, David - retorquiu Christine beijando-o ao de leve. - Sabes isso to bem como eu. A minha Irmandade cometeu alguns actos terrveis. 
Eu nunca mais conseguiria viver comigo mesma, se no tentasse pr cobro a essas aces. S espero poder encontrar uma maneira de o fazer, sem vir a prejudicar todas 
aquelas enfermeiras que,  semelhana de mim prpria, acreditavam...
 - Raios partam tudo isto! Tem de haver uma forma qualquer!
David assumiu uma atitude de rigidez, para logo em seguida tartamudear um pedido de desculpas por aquela exploso temperamental, mantendo-se sentado no sof com 
uma expresso cabisbaixa. Ela tinha toda a razo. A sua faceta racional e lgica compreendia isso mesmo. Tinha a percepo de que, se as circunstncias em que ambos 
se viam se invertessem, ele estaria a alegar precisamente os mesmos argumentos. Contudo, naquele momento, a sua faceta lgica e racional no estava capaz de Lhe 
controlar a lngua.
 - Olha - continuou ele - , talvez exista uma outra maneira.  possvel que pudssemos partir para qualquer lugar seguro, de onde tu enviarias ao Dockerty todas 
as informaes de que tens conhecimento ou... ou mesmo para a doutora Armstrong. Com certeza,  isso mesmo... para a doutora Armstrong. Ela tem-se mostrado muito 
minha amiga, foi a nica que me tem ajudado desde o incio de todo este pesadelo. Se existe algum que nos possa ajudar a convencer as autoridades a respeito da 
existncia d'A Irmandade,  ela. - Para surpresa de David, aquela ideia comeou a arreigar-se na sua mente. - Chris, a mulher seria a pessoa perfeita. Tu prpria 
a ouviste naquela noite na Ala Quatro Sul. Ela  absoluta e convictamente contra a prtica da eutansia. Tanto quanto sabemos, se algum da estatura da doutora Armstrong 
se colocar contra elas,  muito possvel que os membros d'A Irmandade concluam que chegou a altura de encerrar todas as actividades da organizao. Poderamos escrever-lhe, 
e ela talvez pudesse...
 - David, por favor, no faas isso - atalhou ela.
 - No, espera, ouve o que eu tenho a dizer. Deixa-me terminar a minha linha de raciocnio. A Charlotte Thomas desejava a morte. Tanto quanto nos  dado saber, ela 
morreria independentemente de tudo o que veio a acontecer. Sim, talvez tivesse outro dia de sofrimento agonizante ou mesmo algumas semanas, mas era inevitvel que 
morresse ao fim de pouco tempo. - Entretanto, a voz que existia no interior da mente de David comeou a implorar-lhe que se apercebesse bem da inconscincia daquilo 
que estava a dizer, que compreendesse a presso que exercia sobre Christine. As splicas no tiveram qualquer efeito. - Com base em tudo o que conhecias acerca da 
mulher, parece-te que ela haveria de querer que tu, que ns vssemos as nossas hipteses destrudas, s porque tu a ajudaste a conseguir aquilo que ela, na realidade, 
no tinha foras para levar a cabo pelos seus prprios meios? Concede-nos apenas mais um ou dois dias para podermos avaliar bem toda esta situao.  tudo o que 
te peo. Havemos de encontrar outra maneira, caso contrrio, regressaremos a Bston e encararemos o assunto em conjunto. Pelo menos, vamos esperar at que o Joey 
nos d mais noticias. Talvez ele venha a descobrir, ao fim e ao cabo, que o Vincent j se encontra preso algures.
Christine cerrou os olhos, mantendo-os fechados com toda a sua fora. No silncio que se seguiu, o cenrio que David comeara a descrever crescia nos seus pensamentos. 
Adquiria os contornos de uma pequena povoao empoeirada, aninhada num recanto de montanhas escarpadas. Chegou ao ponto de conseguir visualizar a clnica que ambos 
fundariam: um edifcio de barro, caiado de branco, situado no extremo de uma rua de piso batido bastante solarenga. Sentia mesmo o calor e a serenidade que existiriam 
na vida que ambos construiriam em comum. Adivinhou o sentimento de paz que lhe adviria por se dedicar quele homem, bem como a um lugar com aquelas caractersticas.
Christine cerrou firmemente os lbios, anuindo com um gesto de cabea.
 - Muito bem. Mais um dia. Mas nada de promessas.
 - Nada de promessas - concordou David. Sentia apenas uma alegria momentnea perante aquela vitria, antes de ter comeado a ter a percepo daquilo que sempre estivera 
nos seus pensamentos: a menos que ambos conseguissem encontrar uma opo verdadeiramente satisfatria, jamais Lhe permitiria que fugisse de si.
Fizeram amor numa harmonia cheia de ternura e sem pressas. Ao longo de quase uma hora, os olhos, as bocas e a ponta dos dedos de ambos exploraram-se mutuamente. 
Por fim, quando sentiram que nenhum deles poderia tolerar outra carcia sem que explodissem, David penetrou-a.

Marion Anderson Cooper era um homem empedernido. No era somente um polcia duro, embora tambm fosse isso. A dureza da sua personalidade revestia-se de aspectos 
que s os rapazeS que cresciam nas ruas de Roxbury, aos quais fora dado um nome com uma conotao efeminada, a poderiam pOssuir. A sua dureza fora forjada pelas 
mordidelas de ratazanas, quando ele se deitava no colcho miservel que partilhara com os seus dois irmos; era possuidor de uma maneira de ser que fora temperada 
pelos dois anos, no meio da morte e do lamaal, passados no Vietname. A sua tmpera fora posta  prova inmeras vezes, e em vrias situaes, pelo facto de ter sido 
um dos primeiros sargentos de raa negra a ser destacado para a rea de Bston, conhecida pelo nome de Pequena Itlia, a zona norte da cidade.
s primeiras horas da manh do die onze de Outubro Cooper fazia a sua segunda ronda pelas ruas em grande parte desertas da sua rea de patrulha. De tempos a tempos, 
parava o carro-patrulha, fazendo incidir a luz da lanterna atravs da montra ou vitrina de uma loja ou de um restaurante, sempre que desconfiava que poderia haver 
algo de invulgar. Em todas essas ocasies, ele conseguia identificar a fonte do mal-estar que sentira - um novo produto em exposio ou uma mesa que se encontrava 
numa posio diferente - retomando a sua ronda.
O Fiat de um tom prpura, que se encontrava estacionado junto dos contentores do lixo de um dos becos mais recuados, sem nada que pudesse despertar a ateno de 
algum, no tinha estado ali aquando da sua primeira patrulha naquela rea. Cooper bloqueou a entrada da viela com o seu carro-patrulha fez incidir o feixe de luz 
sobre a chapa da matrcula e entrou em contacto com o operador de rdio da esquadra.
 - Daqui fala Alfa Nova? Vinte e Um - informou ele - peo que verifiquem o furto de um carro marca Fiat, de cor prpura, na lista de carros roubados, com chapa de 
matrcula de Massachusetts, nmero trs, cinco, trs, Manuel, Washington, Quebeque. Existe alguma informao em registo?
 - Negativo, Alfa Nova, Vinte e Um. Por favor, repita o nmero da chapa de matrcula.
Cooper repetiu as informaes e ficou a aguardar. O automvel fora roubado - tinha a certeza disso. De facto, ele sentia-se surpreendido que no tivesse havido uma 
nova redistribuio de outros veculos, logo na primeira noite em que o tempo se apresentava razovel, depois de mais de uma semana de mau tempo. Caso houvesse sido 
furtado, seria coisa de midos e no de profissionais. Se fosse obra destes ltimos. o pequeno Fiat j teria sido pintado, instalada outra chapa de matrcula, encontrando-se 
j a caminho de satisfazer uma encomenda em Springfield, Fall River ou qualquer outro lugar semelhante.
A demora deu-lhe a impresso de ser maior do que era habitual Cooper comeou a tamborilar impacientemente com os dedos sobre o volante. Agarrou no seu radiotransmissor 
porttil: ao iniciar a sada do carro-patrulha, o rdio da viatura comeou a dar sinais de vida.
- Alfa Nova, Vinte e Um. Tenho informaes de um Fiat de quatro portas de mil novecentos e setenta e nove, com chapa de matrcula de Massachusetts trs, cinco, trs, 
Manuel, Washington, Quebeque. - A voz da mulher, sensual e tentadora. era uma das que Cooper reconhecia, pertencendo a uma me de cinco crianas, que pesava cerca 
de oitenta quilogramas e tinha bigode.
 - Daqui fala Alfa Nova Gladys - disse ele. - O que  que tens?
 - At ao momento, esse automvel no foi participado como tendo sido furtado, Alfa Nova... no existe nada de nada em registo. Encontra-se registado sob o nome 
de Joseph Rosetti, cujo endereo  o Apartamento C, Damon Street, nmero vinte e um.
 - Alfa Nova d a comunicao por terminada - replicou Cooper. Quando entrou no beco, num gesto instintivo, desapertou a correia do seu revlver de servio.
A porta do Fiat do lado do condutor encontrava-se aberta. Cooper dirigiu a luz da lanterna para os assentos e em seguida para o cho. Nada. Subitamente, retraiu-se. 
O cheiro nauseabundo e encorpado do sangue - o perfume caracterstico da morte - encheu-lhe as narinas. Viu um corpo entalado por detrs dos assentos traseiros, 
o qual fora tapado com uma manta velha de cor bege. Respirou fundo e com rapidez afastou a manta para o lado. Naquele momento, toda a dureza, todas as aces de 
combates ferozes travados nos arrozais e nas selvas do teatro de guerra, assim como a violncia nas ruas da cidade, no o ajudaram em nada.
Marion Anderson Cooper girou sobre os calcanhares, afastando-se do automvel para vomitar sobre o pavimento.
Joey tinha as mos e os ps amarrados. Fora esfaqueado dzias de vezes antes de ter acabado por morrer. Cuidadosamente colocada sobre o seu peito, via-se uma das 
suas orelhas e parte de trs dedos. Os jornais da manh no mostrariam grande interesse pela sua morte, atribuindo-a a "uma matana provavelmente levada a cabo numa 
rea controlada por malfeitores" cerca de trinta quilmetros da zona norte da cidade, o verdadeiro motivo, um mapa desenhado em linhas grosseiras e manchado de sangue, 
arrancado  vtima aps uma hora de tortura, encontrava-se sobre o assento do passageiro da frente do automvel de Leonard Vincent.



CAPTULO 21

Deslocando-se sem fazer o mais pequeno rudo, Christine colocou o seu saco de viagem junto da porta da frente, regressando ao quarto. Atravs de olhos avermelhados, 
a consequncia de quase uma hora de pranto incontrolvel, lanou um olhar a David atravs da luminosidade pouco intensa do radar da manh. Ele dormia um sono cheio 
de serenidade, com uma parte dos cabelos abundantes contra a almofada que mantinha junto  face. Olhando com uma expresso de sofrimento para a carta que entalara 
na moldura lateral do espelho da cmoda, Christine abandonou a casa caminhando em bicos de ps.
A manh estava fria e sem vento. O bafo da sua respirao, que mal era perceptvel, mantinha-se suspenso no ar. Bastante mais abaixo, havia um espesso manto prateado 
que cobria o oceano at onde a sua vista conseguia alcanar. Com movimentos que Lhe davam a impresso de serem feitos num sonho, tal como um sonho parecia ser o 
mundo em seu redor, agarrou as chaves da ignio do jipe, colocou-as dentro de um sobrescrito e, com lentido, dirigiu-se para o seu prprio carro. A qualquer momento, 
esperava ouvir a voz dele a cham-la do alpendre da casa. Christine sabia que, se o visse, a sua resoluo quebrar-se-ia como se fosse um galho seco e quebradio.
Sem sequer um olhar para trs, deslizou por detrs do Volante do Mustang, destravando-o para que rolasse pelo caminho de acesso sem fazer ruido, antes de ligar a 
ignio. J JUnto do cruzamento onde teria de virar para se dirigir a Rocky Point, aproximadamente a quatrocentos metros de distncia da casa, parou e colocou o 
sobrescrito que continha as chaves do jipe sobre um pequeno amontoado de pedras. Inspeccionou o local uma ltima vez, certificando-se de que David no teria grandes 
dificuldades em encontrar as chaves; em seguida, virou  esquerda comeando a percorrer a estrada sinuosa do oceano, tomando a direco norte, que a levaria a Bston.
Os pensamentos e os sentimentos que sentia em tumulto de dentro de si tornavam impossvel qualquer espcie de concentrao. No reparou no automvel de cor escura 
que passou por ela, seguindo na direco oposta; tambm no reparou no homem corpulento, cujas feies eram indistintas, que se encontrava sentado por detrs do 
volante. Isto , no se apercebeu da presena do outro veculo, at que este surgiu de repente no seu espelho retrovisor,  distncia de apenas alguns metros atrs 
de si.
Leonard Vincent manobrou o veculo, de molde a aproximar-se do Mustang. A clera momentnea que Christine sentiu ao verificar que estava a ser perseguida transformou-se 
rapidamente em terror, ao sentir que os dois pra-choques estabeleciam contacto. De incio, no passara de um mero toque de raspo, mas logo de seguida sentiu um 
impacte violento. Subitamente, Vincent acelerou pela direita de Christine tentando for-la a sair da estrada. Os ns dos dedos dela ficaram esbranquiados, devido 
aos esforos que fazia para impedir o automvel de entrar em derrapagem. Olhou para a sua esquerda, procurando um caminho que Lhe permitisse a fuga; contudo, sentiu-se 
imediatamente coberta por um suor gelado, tal o pavor que se apoderara de si.
A uma distncia de menos de trs metros, encontrava-se a extremidade do penhasco - a elevada escarpa rochosa coberta de rvores, onde havia trinta e seis horas, 
que Lhe pareciam toda uma vida, ela estivera a olhar pela primeira vez para Rocky Point. No sop de um declive de vrias centenas de metros abaixo de si, estendia-se 
o oceano Atlntico.
Ao som de um outro impacte mais estridente do que o anterior, A cabea de Christine girou para a direita. A parte da frente do carro de Vincent encontrava-se em 
paralelo com a porta do passageiro da frente da viatura de Christine. Atrs dele, abriu-se um sulco pouco profundo que deu lugar a uma parede de arenito. O Mustang 
vibrou com toda a violncia, enquanto os pneus derrapavam com um impulso lateral. Christine meteu traves a fundo. O interior do automvel ficou impregnado com o 
cheiro de borracha queimada.
A expresso no rosto de Leonard Vincent no traa qualquer emoo; poder-se-ia mesmo dizer que reflectia paz, enquantO ele a forava cada vez mais a aproximar-se 
do precipcio. Havia menos de metro e meio entre o Mustang e a berma do caminho, quando Christine soltou o travo e comeou a acelerar a fundo. O seu carro arrancou 
com um sbito impulso para a frente. Pelo canto do olho, verificou que o outro automvel se distanciava de si. Pouco depois, os pra-choques dos dois veculos prenderam-se 
um ao outro.
No instante seguinte, os dois carros rolavam completamente desgovernados, executando pees, qual dana macabra da morte a toda a largura da estrada. Christine tentava 
dominar o volante com todas as suas foras; no entanto, este soltou-se-lhe das mos. A sua mo direita bateu violentamente contra a alavanca das mudanas, resultando 
numa fractura exactamente acima do pulso. O automvel de Christine embateu contra a parede de granito. A sua cabea foi violentamente projectada para a frente, batendo 
contra o pra-brisas mesmo acima do seu ouvido esquerdo. O vidro estilhaou-se de imediato e, logo de seguida, o seu mundo mergulhou numa escurido total.
J no ouviu o estrpito do metal a separar-se quando os dois carros se distanciaram um do outro. Nem sequer viu os olhos arregalados de Leonard Vincent, num rosto 
que era a expresso do terror absoluto, no momento em que o seu automvel se soltou do dela, num impulso que mais parecia um golpe de chicote, aps o que se catapultou 
em direco ao oceano, embatendo de frente contra a encosta alcantilada e ressaltando sucessivamente das rvores e dos penedos, at acabar por desaparecer no espesso 
manto de nevoeiro. To-pouco teve oportunidade de ver o seu prprio carro a ressaltar da superfcie da parede rochosa, descrevendo um crculo completo, aps o que 
rolou at  extremidade do penhasco.
Continuava inconsciente quando as rodas traseiras do Mustang se desequilibraram por cima da ribanceira. O automvel imobilizou-se com a carroaria a oscilar em cima 
da terra de piso macio. Em seguida deslizou por cima da berma.

David sentiu o vazio mesmo antes de ter despertado por Completo. Entreabriu os olhos, para logo voltar a fech-los com firmeza, numa tentativa da sua fora de vontade 
para que aquilo que pressentia ser verdade o no fosse. "Ela est na sala de estar, sentada com toda a tranquilidade, a olhar para o oceano. Aposto um dlar em como 
ela no est na sala de estar." Susteve a respirao. O silncio que reinava em toda a casa era mais do que a simples ausncia de qualquer som. Constitua todo um 
vazio, um no existir de nada. No ar no havia o mnimo movimento, no se sentia qualquer sentido de energia; a vida era absolutamente inexistente.
"Ela saiu para dar um passeio", concluiu David em desespero. "Apenas um pequeno passeio matinal" e, imediatamente, o grande cirurgio entra num estado de pnico. 
Rolou na cama, voltando-se para a janela, pestanejando ao ver a falta de luminosidade do Sol. O firmamento parecia estar envolto numa fina camada prola: o gnero 
de bruma que, miraculosamente, desapareceria a meio da manh, descobrindo-se qual cortina na extravagncia do surgimento de um novo dia. Um passeio matinal e nada 
mais.
Soergueu-se, apoiando-se sobre um cotovelo, e olhou em redor. A compreenso de que as roupas de Christine j no se encontravam no quarto registou-se na sua mente, 
apenas momentos antes de ter avistado o sobrescrito entalado na moldura lateral do espelho. Parecia uma cena extrada de inmeros filmes de oramento reduzido, com 
a diferena que desta feita a situao era inexoravelmente verdadeira. Ocorreu-lhe um sentimento de tristeza to aptico quanto o cu da manh que sentia acima de 
si.
 - Merda! - Foi a sua primeira palavra do dia. Seguiu-se a segunda e a terceira. Levantou-se da cama passando deliberadamente pela cmoda, em direco  casa de 
banho. Urinou aps o que se lavou e barbeou. A coxear foi at  cozinha, colocando a chaleira ao lume para preparar o caf. Sentia o tornozelo rgido e lento, embora 
quase no tivesse dores nenhumas. A sua enfermeira fizera o curativo como devia ser.
Arrumou a sala de estar enquanto esperava que a gua fervesse. Numa ltima rstia de esperana, inspeccionou o caminho de acesso  garagem. O Mustang primava pela 
ausncia. Christine havia partido. O Mxico, assim como qualquer hiptese de uma nova vida a dois, sem dificuldades de maior, desvaneceram-se por completo.
Como que entorpecido, David regressou ao quarto num passo arrastado.
O seu nome fora escrito em letra de imprensa no centro do sobrescrito totalmente branco. Observou as suas mos a rasgarem-no. Outra mensagem. A segunda que recebia 
em menos de uma semana. No entanto, desta vez, cada uma das palavras provocava-lhe uma grande angstia - tal como estavam escritas e  medida que as ia lendo.

"Querido David
No pude correr o risco de acordares; sem dvida que tentarias convencer-me a desistir dos meus planos. Tentei durante toda a noite obrigar-me a acreditar que poderia 
haver alternativa. Meu Deus, como eu tentei. Mas, no fim, tudo aquilo em que consegui pensar resumiu-se ao sofrimento e  tristeza que te causei. Tudo isto  uma 
verdadeira loucura. Algo que pareceu ser to bom e estar to certo. E agora... tenciono falar com o tenente Dockerty, com o objectivo de fazer uma confisso sem 
quaisquer restries, sobre a morte da Charlotte Thomas. Mas, antes de o fazer, tenho inteno de me encontrar com a doutora Armstrong. Aquilo que disseste na noite 
passada tem toda a razo de ser. Eu sei que ela poder ajudar-me. A despeito de tudo o que aconteceu, bem no fundo do meu corao, sei que a maioria de ns se rege 
apenas por princpios em que acreditamos firmemente. Com um pouco de sorte, a doutora Armstrong ter possibilidade de pr fim a este assunto, com o mnimo de revelaes 
de carcter pblico que Lhe seja possvel. Para comear, tenho trs nomes que Lhe indicarei, para alm de alguns nmeros de telefone, assim como alguns boletins 
informativos publicados pela Fundao Clinton. Sei que no  muito, mas pelo menos j  um comeo. Talvez consigamos encontrar uma maneira de desvendarmos o segredo. 
Tambm no devemos esquecer-nos da questo relativa  identidade de quem contratou os servioS do assassino do Ben. Antes de envolver a Polcia no assunto, farei 
tudo o que estiver ao meu alcance para descobrir esse mistrio.
Finalmente existes tu... um homem muito especial e cheio de magia. Num espao de tempo to curto, conseguiste chegar a lugares do meu ntimo, dos quais no tenho 
a certeza de eu prpria ter tido conhecimento da sua existncia. Por isso, e por muitO mais, sinto-me em dvida para contigo. Devo-te uma vida liberta de fugas, 
em que tinha de olhar constantemente por cima do ombro. Devo-te a oportunidade de poderes cumprir os sonhos para que tu tanto te esforaste e pelos quais sofreste 
tanto. Caso as circunstncias se revestissem de alguma diferena, meu doce e terno David - qualquer que fosse a diferena - , eu no teria hesitado em me arriscar. 
Teria ido para onde quer que fosse que houvssemos decidido ir. Acredito com toda a honestidade que tu terias sido merecedor de qualquer risco.
Todavia, as circunstncias no so diversas. So aquilo que so. No te preocupes por causa de mim. Depois de ter falado com a doutora Arrnstrong, tenho a inteno 
de me encontrar com o Dockerty. Tem cuidado contigo.
Por favor, tenta compreender, s forte e, acima de tudo o mais, peo-te que me perdoes por te ter causado tanto sofrimento. Com amor,
Christine
PS: A chave da ignio do jipe vai ficar no cruzamento onde se vira para Rocky Point. Estar dentro de um sobrescrito como este."
O jipe. David riu-se, embora o fizesse a contragosto. Ainda que ambos os veculos houvessem partido ao mesmo tempo, era muito duvidoso que o jipe conseguisse acompanhar 
o Mustang de Christine, por mais de uns escassos metros. No Lhe restava a mnima dvida de que ela se encontrava firmemente determinada em no se deixar dissuadir. 
Pois bem, ele tambm se recusava a ser dissuadido. No estava ao seu alcance alterar a situao; por conseguinte, teria de se limitar a alterar as suas expectativas. 
O que quer que fosse que ela tivesse de enfrentar, ele encontrava-se firmemente determinado a estar ao seu lado, o que faria durante tanto tempo quanto ela desejasse 
a sua presena junto de si.
David vestiu-se enquanto visualizava na sua mente as situaes que aos dois poderiam vir a deparar-se, ao longo dos dias e semanas que ambos tinham pela frente. 
Reparou na camisola de l grossa que usara durante a viagem para Rocky Point. Christine colocara-a cuidadosamente dobrada sobre a cadeira junto da cmoda. David 
esboou um sorriso rasgado. Talvez a pudesse devolver a Joey, como contributo para o guarda-roupa do prximo homem que fosse perseguido at ao rio Charles. Quando 
a tirou da cadeira, o pesado revlver de Rosetti caiu para o cho. David tinha-se esquecido completamente da existncia daquela arma. Empunhou o revlver com uma 
das mos. sentindo uma tenso estranha que j se habituara a sentir sempre que agarrava em armas de qualquer espcie. Tentou recordar-se de quando  que Christine 
Lhe dissera que Joey voltaria a telefonar. Teria sido na noite passada? Esta manh? Aps alguns momentos de reflexo, dirigiu-se para o telefone. O nmerO de telefone 
de Rosetti em Bston estava escrito num pequeno carto preso ao aparelho, por fita gomada.
A voz de mulher que o atendeu do outro lado da linha pertencia a uma pessoa mais velha do que Terry.
 - Est?  de casa dos Rosetti? - perguntou David.
 - Sim. O que  que deseja?
 - Gostaria de falar com Mistress Rosetti ou com Mister Rosetti, por favor. - Durante algum tempo reinou o silncio no outro lado da linha.
 - Quer fazer o favor de me dizer quem fala? - perguntou finalmente a mulher. A sua voz parecia uma pedra de gelo.
David comeou a agitar-se, inquieto, apoiando o peso do seu corpo ora sobre um p ora sobre o outro.
 - O meu nome  David Shelton. Sou um amigo do Joey e da Terry, e estou inst...
 - Eu sei bem quem o senhor , doutor Shelton - disse a mulher num tom de voz sem emoo. Uma vez mais, reinou o silncio na linha telefnica. David sentiu um n 
enorme nas suas entranhas. - Daqui fala Mistress D'Ambrosio. A me da Terry. De momento, ela no pode vir ao telefone. O mdico deu-lhe um remdio e... - De sbito, 
a mulher comeou a chorar. - O Joey morreu... assassinado - acrescentou ela num pranto convulsivo. David deixou-se cair desamparado em cima do sof, olhando sem 
ver em seu redor. - A Terry no se tem sentido em condies de falar com a Polcia, mas falou comigo. Ela disse que foi por causa do Joey ter ido em sua ajuda que 
neste momento est morto. - Com aquelas palavras, a mulher foi-se completamente abaixo; qualquer demonstrao de raiva contra David perdera-se no meio de um intenso 
desgosto.
 - Mas isso ... impossvel - tartamudeou ele; os seus pensamentos desfilavam em rodopio. Fora Leonard Vincent. S poderia ter sido ele. Fechou os olhos com fora, 
tentando parar o turbilho que Lhe ia na mente. Primeiro tinha sido Ben, agora Joey... e Christine que andava por lugar incerto. - Quando  que isso aconteceu? - 
A sua voz dava a impresso de no ter vida.
 - Ao princpio desta manh. Encontraram-no dentro do automvel, esfaqueado e amputado e... Doutor Shelton, eu no quero continuar a falar consigo, pelo menos por 
agora. O funeral do Joey  na tera-feira. Depois da cerimnia fnebre, ter ocasio de falar com a minha filha.
 - Mas, espere um pouco... - Sem atender ao seu pedido, a mulher desligou o telefone.
Passaram vrios minutos em que David permaneceu sentado, sem fazer qualquer movimento, completamente alheado do rudo que vinha do auscultador desligado em cima 
das suas coxas. Pouco depois, agarrou na camisola de l e no revlver, sem se esquecer das muletas, saindo de casa num passo rpido. Esperanado, embora o raciocnio 
Lhe dissesse que no existia a mnima esperana, inspeccionou o jipe. No avistou as chaves. Arremessou com a arma para cima do assento, forando-se a percorrer 
o caminho, andando em semicrculos alongados e vacilantes. Ainda assim, quando retornou ao ponto de partida, j tinham decorrido quase trinta minutos. Sentia o corpo 
encharcado em transpirao, respirando com grandes dificuldades. As suas vrtebras, magoadas pelos apoios das muletas que no eram almofadadas, gritaram quando se 
iou para se sentar por detrs do volante. Ento, imobilizou-se.
 - Queres acalmar-te, por favor - disse David para si mesmo com a respirao entrecortada. - Ela est bem. No Lhe aconteceu nada. - Ligou o motor do jipe. O mais 
provvel seria ela estar, naquele preciso momento, no gabinete da Dra. Armstrong, ou at mesmo a falar com Dockerty. Tudo o que tinha a fazer era acalmar-se e tentar 
chegar a Bston de corpo inteiro.
Lanou um olhar ao revlver e ocorreu-lhe o conselho que Rosetti Lhe dera. Como  que ele tinha posto a questo? Faz aos outros aquilo que suspeitares que eles se 
preparam para te fazer? Qualquer coisa naquele gnero. David sentiu-se estremecer e agarrou no revlver. Teria Joey morrido porque no trazia consigo a arma na altura 
em que mais teria necessitado dela? Aquela probabilidade esvaziou David de qualquer resqucio de racionalidade que ainda Lhe pudesse restar. Tudo o que Lhe ficara 
era um sentimento de clera. A ira e um dio que o consumiam. Havia de descobrir o paradeiro de Vincent, ou qualquer outra pessoa que fosse responsvel pelo assassnio 
de Joey. Encontr-los-ia e... ou os mataria ou morreria, tentando levar isso a cabo. Agarrou na alavanca das mudanas com uma mo que depois apertou com a outra, 
at comear a sentir dores. Finalmente conseguiu engrenar a marcha atrs do jipe e comeou a rolar pelo caminho de acesso  garagem.
A preocupao que sentia pelo bem-estar de Christine atenuou a clera que o invadira, manifestando-se com um sentimento de urgncia. Tentou acelerar, mas o carburador 
obstrudo pela areia e pela poeira afogou-se. Ento, ocorreu-lhe a ideia de que uma boa oferta de agradecimento a Joey teria sido uma afinao do motor e um alinhamento 
da direco do jipe.
Teria sido. David abanou a cabea numa atitude de frustrao e olhou para o relgio que Joey Lhe havia dado. J passava das nove. Acima de si, o esparso manto de 
nuvens dava os primeiros sinais de rendio perante aquele sol de Outono. Obrigou-se a descontrair-se, ligando de novo a ignio do motor. Na altura em que chegou 
 estrada do oceano, conseguira entrar num ritmo que Lhe permitia engrenar as mudanas, a par do grau de acelerao adequado, de molde a que ambas as manobras fossem 
aceitveis por parte daquela relquia motorizada. Os seus pensamentos regressaram a Christine. Talvez ele devesse ter tido a precauo de telefonar  Polcia. Caso 
ela no Lhe levasse muito avano, pelo menos, eles poderiam det-la at ele a ter alcanado. Mas exactamente quem?... A Polcia estadual? Mostrar-se-ia ela aborrecida 
se ele envolvesse as autoridades no assunto, antes de estar inteiramente preparada para isso? Ficou a magicar naquela probabilidade. Tinha decidido que pararia no 
prximo telefone pblico, quando viu o claro das luzes intermitentes e as barreiras de um bloqueio na estrada mais adiante.
 sua frente, havia uma pequena camioneta de caixa aberta, castanha e bastante maltratada, que com dificuldade executava uma inverso de marcha. David inclinou-se 
para fora da janela do jipe, a fim de falar com o motorista.
 - o que  que se passa ali?
 - O qu? - O homem parou a camioneta, atravessando-a  largura do caminho; ainda lhe faltavam vrias manobras para Completar a inverso de marcha.
 - Ali mais  frente, o que  que sucedeu? - tentou David uma vez mais inteirar-se do que tinha acontecido, fazendo a pergunta aos gritos.
 - Um acidente. E bastante grave, com os diabos. - A entoao da voz do homem de idade no deixava a mais pequena dvida que considerava aquele inconveniente como 
tendo sido dirigido pessoalmente  sua pessoa. - Dois carros que se precipitaram pelo penhasco abaixo. Acabaram de iar um deles agora mesmo. O outro est a caminho, 
o que caiu mesmo no fundo. A Polcia diz que a manobra ainda levar uns quinze ou vinte minutos. O mais certo  ser uma hora, a julgar pela maneira como o Mac Perkins 
opera o guincho antigo com que est a trabalhar.
David sentiu-se percorrido por uma sensao de mal-estar, enquanto tentava ver o que se passava  frente da pequena camioneta.
 - Viu algum dos automveis envolvidos no acidente? - perguntou em voz baixa.
 - O qu?
 - Os carros - insistiu David aos gritos, depois de ter soltado um gemido. - Voc conseguiu ver algum dos... Oh, no tem importncia. Permite-me que eu passe, por 
favor?
 - Com certeza, mas no pense que ir a algum lado. E tambm no vale a pena refilar a esse respeito. - De sbito, as perguntas de David registaram-se na mente do 
homem. - Os carros, perguntou voc? Se eu vi os carros? - Completamente exasperado, David acenou que sim. - S vi um azul, pequeno - gritou o homem. - Est todo 
desfeito.
As mos de David cerraram-se com toda a fora  volta do volante. Dentro de si sentiu um terror crescente. Fechou os olhos enquanto o homem de idade manobrava a 
camioneta, de forma a retir-la do caminho. Naquele momento, a imagem, semelhante a uma fotografia de um outro acidente, surgiu-lhe ao pensamento. A chuva, as luzes, 
as faces de Becky e de Ginny, at mesmo os gritos de ambas. Queria abrir os olhos, a fim de pr cobro quela imagem pavorosa; contudo, sabia que. quando o fizesse, 
aguard-lo-ia um novo pesadelo. No Lhe restava qualquer dvida de que o automvel azul que o homem de idade tinha visto era o de Christine.
 - A estrada est bloqueada; receio que tenha de fazer meia volta.
David voltou-se para o lugar de onde viera aquela voz.
Era um agente da Polcia estadual, alto e magro, com um rosto de mestre-escola que Lhe dava uma aparncia ligeiramente ridcula, naquele uniforme azul que pretendia 
instilar autoridade. Antes de David poder replicar, o seu olhar concentrou-se para l do local onde a pequena camioneta estivera, focando-se no grupo de carros-patrulha 
da Polcia, reboques e ambulncias, veculos que se encontravam estacionados mais  frente. No meio destes, apoiado sobre os pneus completamente em baixo, via-se 
o monte de sucata de metais retorcidos que em tempos fora o Mustang de Christine.
 - Senhor?... - A voz do jovem polcia denotava alguma preocupao.
As faces de David haviam ficado da cor de mrmore branco.
 - Eu... eu conheo a mulher que conduzia aquele automvel - explicou ele numa voz cava e distanciada. - Era minha... amiga.
 - Est a sentir-se bem? - Ao ver que David no Lhe dava resposta, o agente policial chamou algum que se encontrava mais  frente. - Gus, diz a um dos paramdicos 
que venha at aqui. Tenho a impresso de que este tipo est quase a perder os sentidos, ou qualquer coisa do gnero. - Abriu a porta do jipe. Quando o fez, David 
passou disparado pelo homem, comeando a correr num passo cambaleante em direco ao carro acidentado, sem se aperceber das salvas de dor que o seu tornozelo disparava. 
Ao longo dos ltimos cinco metros desequilibrou-se, tendo embatido violentamente contra a porta do veculo. Com a respirao arquejante, estendeu os braos por cima 
do tejadilho para se apoiar. O interior no tinha ningum. O pra-brisas desaparecera por completo, enquanto o motor se encontrava esmagado na posio inversa, quase 
na parte dianteira do veculo. No assento, cujo estofo era de um azul-claro, via-se uma mancha de sangue acastanhado de aspecto horroroso.
 - Raios partam tudo isto - gritou ele numa voz abafada. - Raios partam isto... Raios partam tudo isto! - articulava ele cada vez mais alto, at que proferiu as 
ltimas palavras aos gritos.
Vrios homens apressaram-se a correr na sua direco, enquanto o polcia que se Lhe tinha dirigido o agarrava por um brao.
 - Por favor, veja se consegue acalmar-se - disse ele, mais num tom de splica do que de quem dava uma ordem. Conduziu David para a berma do caminho, onde o ajudou 
a encostar-se ao tronco de um vidoeiro meio morto.
Decorrido um minuto, David recuperou a faculdade de falar.
 - Ond... onde  que est o corpo dela? - perguntou David numa voz entrecortada.
 - O qu?
 - O corpo dela, porra! - vociferou ele. - Para onde 
que o levaram?
 - Meu caro senhor, no existe corpo nenhum - respondeu o jovem polcia, exibindo um sorriso rasgado. - Quer dizer, nenhum que esteja morto. Pelo menos que seja 
proveniente deste automvel.
David tombou, apoiando-se sobre um joelho e erguendo um olhar fixo para o homem.
 - Algum que passava na altura encontrou a senhora a andar sem destino pelo caminho fora - explicou o agente. - Estava bastante magoada, com um ou dois cortes graves 
e provavelmente um brao fracturado, mas sem que corresse qualquer perigo de vida. E agora parece-lhe que  capaz de se acalmar o suficiente para se poder identificar?
O percurso at ao Hospital Comunitrio de Kensington, situado a uma distncia de cerca de vinte minutos de automvel a fazer f na informao prestada pelo polcia, 
demorou trinta e cinco minutos ao volante do jipe. David deixara-se ficar na cena do acidente durante pouco tempo, o suficiente para se inteirar do que Lhe era possvel. 
A sobrevivncia de Christine era um verdadeiro milagre. Ela fora encontrada por um casal, ensanguentada e falando de maneira incoerente, enquanto caminhava pela 
estrada sem saber para onde se dirigia. Mais tarde, a equipa de socorro encontrou o seu Mustang entalado contra uma rvore na posio de capotado, a pouco mais de 
quinze metros na escarpa rochosa mais abaixo, a uma distncia de quase oitocentos metros do lugar onde ela fora encontrada.
David permaneceu ali durante o tempo suficiente para poder observar, sem qualquer trao de compaixo, o corpo desfeito de Leonard Vincent quando foi arrancado do 
interior do seu automvel, sendo depois transferido para uma ambulncia. Afastou-se durante o burburinho que teve origem na descoberta, entre os destroos, de um 
revlver com silenciador, assim como uma grande diversidade de facas. Durante a sua viagem at ao hospital, sentiu-se invadido por um dio renovado que cada vez 
se acentuava mais... - dio esse que j no era dirigido a Leonard Vincent, mas sim queles que o tinham contratado.
O hospital era razoavelmente recente e bastante pequeno: teria cinquenta camas ou menos, calculou David. Depois de ter transposto a porta principal, fez uma breve 
pausa, tentando adivinhar qual seria o ambiente que reinava naquele estabelecimento hospitalar. O trio encontrava-se deserto, salvo a presena quase despercebida 
da voluntria vestida de salmo que se encontrava por detrs do balco da entrada, organizando o contedo da sua mala.  sua direita, via-se um quadro de lato deveras 
impressionante, onde se encontrava afixada a lista de mais ou menos duas dzias de mdicos que faziam parte do corpo clnico. Ao lado de cada um dos nomes, via-se 
uma pequena lmpada de uma tonalidade ambar, que o respectivo mdico poderia ligar quando se encontrava de servio. Apenas uma delas  que mostrava a sua luminosidade 
ambar. Ningum poderia acusar o Hospital Comunitrio de Kensington de ter um excesso de pessoal mdico, pensou David com alguma mordacidade.
A ala onde fora instalado o Servio de Urgncias era assinalada por letras negras destacveis, colocadas acima das portas duplas automticas. Enquanto se fechavam 
depois de ele ter passado, David ouviu a voz da voluntria.
 - Posso ajud-lo em alguma coisa? - Sem se incomodar em olhar para trs, David abanou a cabea num gesto negativo.
A mdica de servio, uma mulher indiana com uns olhos escuros que mostravam cansao, foi ao seu encontro a meio caminho do corredor. Usava um sari de um tecido leve 
cor de laranja por baixo da sua bata branca, onde se via uma pequena placa de identificao do Hospital Comunitrio de Kensington com o nome de Dra. T. Ranganathan.
 - Peo-lhe desculpa - comeou David a dizer, dando mostras de ansiedade - , o meu nome  David Shelton. Sou cirurgio do Mdicos de Bston. Uma amiga minha, Christine 
Beall, foi trazida para aqui h pouco tempo, no  verdade?
 - Ah, sim. O acidente de viao - retorquiu ela num ingls impecvel - Examinei-a apenas de fugida, antes de o doutor Saint Onge chegar e... ah... assumir a responsabilidade 
pelo caso dela. Ela tem um pulso fracturado e, possivelmente tambm algumas vrtebras quebradas no lado esquerdo. A estas leses h que juntar duas laceraes no 
couro cabeludo. No entanto, na altura em que o doutor Onge dispensou os meus servios, ela no me deu a impresso de correr qualquer perigo imediato. Encontr-la- 
ali - concluiu a mdica, apontando para um dos quartos.
Juntamente com o doutor Onge, havia mais trs pessoas no quarto de Christine: um auxiliar de enfermagem, o tcnico do laboratrio e uma enfermeira. David ignorou-os 
a todos e num passo apressado encaminhou-se para a mesa de observaes.
 - Doutor Saint Onge, eu sou o doutor David Shelton - apresentou-se David, que s tinha olhos para Christine. Esta encontrava-se deitada de lado e tinha compressas 
esterilizadas sobre a cabea. Haviam-lhe rapado uma grande rea do couro cabeludo, na regio do ouvido esquerdo. As compressas rodeavam um ferimento aberto, com 
um aspecto bastante feio, com cerca de oito centmetros de extenso; o golpe encontrava-se quase totalmente suturado.
 - David? - A voz de Christine era como o gemido desolado de uma criana perdida.
David ajoelhou-se junto da mesa a uma distncia segura do campo esterilizado.
 - Sim, querida, sou eu. - A segurana que a sua voz tentava instilar desvirtuava a clera e a tristeza que sentia no seu ntimo. - Ests ptima. Algumas mossas, 
mas de resto est tudo bem.
 - Isto  que ns fazemos um par, no achas? - retorquiu ela numa voz enfraquecida. Aquelas escassas palavras foi tudo o que conseguiu articular.
 - Quem diabo  voc? - Era evidente que Saint Onge no se sentia satisfeito com as informaes que David dera quando se tinha apresentado. O mdico era um homem 
de estatura pesada e tronco largo, com umas mos possantes. O tom escuro do seu bronzeado continuava a ser prprio de meados do Vero; as suas roupas eram feitas 
por medida. David calculou que ele deveria rondar a casa dos cinquenta.
 - Oh, peo-lhe desculpa - disse David enquanto retrocedia um passo. - O meu nome  Shelton. David Shelton. Fao parte do corpo cirrgico do Hospital Mdicos de 
Bston. A Christine  uma... amiga bastante chegada.
- Pois bem, neste momento, ela  minha doente - continuou Onge numa voz de poucos amigos. - Tenho a certeza que no veria com muito bons olhos o facto de algum 
se intrometer no seu trabalho. Ainda que essa pessoa fosse um colega cirurgio.
David engoliu aquilo que realmente Lhe apetecia dizer e recuou outro passo.
 - Lamento muito - resmungou ele. - Pode informar-me quanto ao estado clnico dela?
Saint Onge remexeu no seu conjunto de instrumentos, onde encontrou um suporte de agulha, voltando a dedicar a sua ateno ao golpe.
 - Ela sofreu um outro ferimento, que j suturei, mesmo acima deste. Tem um brao fracturado que, provavelmente, o
Stan Keys ter de tratar no bloco operatrio. Isto , partindo do princpio que ele no se virou e afogou na regata estpida em que participava hoje mesmo.
 - Ele  o nico mdico ortopedista a que podem recorrer? - perguntou David sentindo-se inquieto.
 - Sim, senhor. Mas no se preocupe. Felizmente, ele  um cirurgio ortopedista muito mais qualificado do que como velejador. - Saint Onge riu-se  socapa. - No 
haver problemas com o brao at ele regressar ao hospital.
David concentrou a sua ateno nos quatro conjuntos de chap as radiolgicas que se encontravam no quadro de visualizao na parede do outro lado da maca, examinando 
as imagens feitas  regio torcica de Christine, assim como ao abdmen, vrtebras, antebrao e crnio. A fractura que ela sofrera no antebrao era bastante grave, 
dada a existncia de mltiplos fragmentos; contudo, afortunadamente, estes no haviam afectado os ligamentos. Existiam boas hipteses de ela no perder nenhum grau 
de mobilidade nas funes da mo. Ocorreu-lhe ao pensamento o esplndido corpo de ortopedia que exercia no Mdicos de Bston, perguntando a si mesmo se no haveria 
viabilidade de se efectuar uma transferncia para esse hospital.
Entretanto, Onge concluiu a sutura da lacerao, na mesma altura em que David colocava as quatro radiografias do crnio de Christine no seu lugar. Com um gesto cheio 
de floreados, o outro mdico descalou as luvas de borracha, deixando-as cair para o cho.
- Utilize um dos meus relatrios-padro relativos s leses na cabea. Tammy - instruiu ele. - Em qualquer dos casos o mais provvel  o Keys querer que ela seja 
transferida para o seu servio, quando a operar ao pulso. Tem alguma pergunta a fazer, doutor...
 - Shelton - concluiu David numa voz cheia de frieza, roando pelo homem ao passar por ele para se poder ajoelhar junto de Christine. As compressas esterilizadas 
haviam sido retiradas, o que permitia a David examinar pela primeira vez a extenso das leses que ela sofrera. No obstante algumas tentativas para a limparem, 
ela ainda tinha no pescoo e nas faces algumas camadas de sangue coagulado e quebradio. Quase toda a parte esquerda do couro cabeludo tinha sido rapada, o que expunha 
os dois ferimentos graves. Havia alguns estilhaos nfimos de vidro, como se fossem diamantes, que cintilavam por todo o cabelo que Lhe restara. O seu lbio superior 
tinha as dimenses e a cor de uma pequena ameixa.
 - Christine - comeou David a dizer numa voz afectuosa - , como  que ests a sentir-te?
 - Oh, David... - As suas palavras eram soluos de um choro angustiante e sem lgrimas. David sentiu os punhos a cerrarem-se contra as coxas.
 - Doutor Saint Onge, as radiografias j foram observadas por um radiologista? - Ergueu-se do cho com uma lentido que era deliberada, voltando-se para o homem.
 - Ora bem, de facto, no. O radiologista j terminou o seu dia de trabalho. Caso seja necessrio, encontra-se de planto; no entanto, eu no vejo qualquer motivo 
para o chamar, uma vez que com chapas to evidentes como...
 - Por favor, miss - interrompeu David - , pode emprestar-me um otoscpio? E j agora, traga-me tambm um oftalmoscpio. - A mulher mostrou uma expresso ao mesmo 
tempo perplexa e divertida, enquanto entregava a David os instrumentos que este Lhe pedira. Saint Onge ficara sem palavras.
David introduziu a extremidade do otoscpio no ouvido esquerdo de Christine.
Nesse mesmo instante, Saint Onge readquiriu a capacidade de mobilidade da sua lngua.
 - Ora vamos l a ver... espere a a merda de um minuto - comeou ele a dizer. - Essa mulher continua a ser minha doente, e se voc...
- No! - vociferou David. - Voc  que vai esperar a merda de um minuto - continuou ele. - Esta mulher vai ser transferida para Bston.
 - Ora bem, voc tem c uma merda de uma lata! - As faces de Saint Onge estavam da cor do carmim. - No pense que as suas credenciais de mdico numa grande cidade 
me impediro de apresentar este assunto perante a Ordem dos Mdicos.
 - Por favor, faa isso mesmo - redarguiu David num tom de splica. O pouco domnio que ele conseguira exercer sobre si at ao momento tinha desaparecido por completo. 
- E, quando se apresentar perante esse organismo, descanse que Lhe perguntaremos por que motivo  que se mostrou to arrogante, ao ponto de no ter chamado um radiologista 
que procedesse ao exame destas radiografias. Perguntar-lhe-emos ainda por que razo  que Lhe passou despercebida a fractura basilar no crnio, que pode ser vista 
em duas das chapas. Tambm vamos querer ver esclarecido o facto de no ter reparado no derrame de sangue, por detrs do tmpano do ouvido esquerdo, o qual tem origem 
nessa mesma fractura. Est a compreender? - O silncio que se fez no quarto era doloroso. David baixou o seu tom de voz, dirigindo-se s enfermeiras: - Uma de vocs 
 capaz de chamar uma ambulncia, por favor?
A enfermeira que se chamava Tammy ainda hesitou antes de responder.
 - Sim, senhor doutor - anuiu ela com um cintilar nos olhos que era inequvoco, saindo pressurosamente. Saint Onge parecia estar  beira de uma apoplexia.
 - Vou necessitar de alguns paramdicos e equipamento durante a viagem - acrescentou David, dirigindo-se a outra enfermeira - Tenciono enviar tudo de volta juntamente 
com
a ambulncia. Entretanto, quer fazer o favor de aplicar  doente uma soluo lctea Ringer por via intravenosa? Cinquenta centmetros cbicos de hora a hora.
 - Hei-de lix-lo por causa disto, Shelton. - Saint Onge sibilou cada uma das palavras que articulou, aps o que num
passo brusco saiu do quarto.
David serviu-se do telefone no balco das enfermeiras para telefonar  Dra. Armstrong. Enquanto ligava o nmero ouvia os risos  socapa, assim como as manifestaes 
reprimidas de alegria por parte do pessoal de enfermagem que se encontrava no quarto de Christine.
- David, tenho andado numa preocupao de morte por causa de si - disse a Dra. Armstrong assim que ouviu a voz do mdico. - O que  que se passa? Voc est bem?
 - Eu estou ptimo, doutora Armstrong. De verdade - replicou David. - Mas a Christine Beall no est nada bem. Est recordada de quem ela ? Uma enfermeira que trabalha 
na Ala Quatro Sul?
 - Parece-me... sim, claro que me recordo. Uma rapariga amorosa. O que  que aconteceu?
 - Ela teve um acidente. De automvel. Neste momento encontramo-nos no Hospital Comunitrio de Kensington, mas eu vou acompanh-la at ao Servio de Urgncias do 
nosso hospital. Seria possvel que a doutora esperasse por ns, para poder orientar o tratamento a que ela ter de ser submetida? A Christine tem um brao fracturado 
e uma fractura basilar craniana, para alm de ter sofrido algumas leses no trax. Por conseguinte, o mais provvel ser a doutora acabar por ser o polcia sinaleiro 
que orientar as actividades dos mdicos de um circo de trs pistas. Acha que poder fazer isso?
 -  evidente que sim - afirmou a Dra. Armstrong sem hesitar. - Tem a certeza que ela poder resistir  viagem?
 - Estou suficientemente certo para o tentar. Vale a pena corrermos qualquer risco, s para a podermos tirar deste hospital. Muito em especial porque a doutora estar 
 espera que ela chegue. Tenho muita coisa acerca de que desejo falar consigo, mas tudo isso pode esperar at que se comece a tratar da Christine. Contamos estar 
a dentro de mais ou menos uma hora.
- Isso ser esplndido - retorquiu a Dra. Armstrong numa voz cheia de suavidade. - Estarei  vossa espera.



Captulo 22

De acordo com as instrues de David, a viagem de ambulncia foi efectuada a uma velocidade constante de oitenta quilmetros horrios. Nem as luzes nem as sirenas 
foram ligadas. Aquele percurso de cinquenta e cinco minutos pareceu ser interminvel; todavia, o pouco tempo que poderiam ter poupado, ao efectuarem uma corrida 
veloz e dramtica at  cidade, no valia o risco de que viesse a acontecer uma catstrofe por causa de um acidente inesperado.
Ao longo de toda a viagem, Christine manteve-se numa sonolncia de que despertava constantemente. David, que permanecia sentado do seu lado direito, verificava sistematicamente 
a sua pulsao, respirao e tenso arterial, assim como o grau de dilatao das pupilas, procurando alteraes que pudessem indicar um aumento sbito de presso 
intracraniana. Qualquer acrscimo significativo, quer este se devesse a uma hemorragia ou ao inchao, e ele s poderia dispor de alguns minutos para tentar inverter 
o processo, antes que comeassem a ocorrer leses irreversveis.
A tenso que sentia dentro de si era sufocante. Agira de maneira decisiva na forma como lidara com Saint Onge, mas teria ele sido demasiado apressado? Aquele pensamento 
consumia-lhe o ntimo. Qualquer crise que pudesse acontecer na ambulncia em movimento seria incomensuravelmente mais difcil de resolver do que num hospital. Aquele 
era o tipo de deciso em que despendera anos de formao, o gnero de deciso que ele fora forado a tomar, ao longo de muitos anos, sem que se verificasse a mnima 
hesitao da sua parte. Todavia, aquela situao era bastante diferente.
 - Christine? - chamou David apertando-lhe a mo. No obteve qualquer resposta. - Passemos revista ao equipamento uma vez mais - disse ele, dirigindo-se ao paramdico 
que seguia ao seu lado. Fora do campo de viso de David, o homem, um antigo militar do Vietname, abanou a cabea numa manifestao exasperada. Era um facto que aquela 
era a primeira vez que levava consigo o equipamento necessrio  execuo de uma preparao craniana; apesar disso, aquela era a terceira vez que David Lhe pedia 
que procedesse  verificao do material.
Esporadicamente, Christine conseguia ouvir o que se passava  sua volta; David voltou-lhe as costas, enumerando numa voz sussurrada todos os instrumentos e os medicamentos. 
O paramdico erguia cada um dos artigos mencionados, ou indicava que sabia exactamente onde  que se encontravam. Os bisturis, as brocas, o anestsico, o laringoscpio, 
tubos, mscara de oxignio, adrenalina, cortisona, cateteres de suco, agulha intracardaca... estavam preparados para o pior.
Sentindo-se relutante em afastar de novo os olhos de Christine, David comeou a perguntar onde  que se encontravam quando j estavam a menos de vinte e cinco quilmetros 
do hospital, sem sequer tentar registar na mente aquela informao.
 - Pulsao: cento e dez, firme; respirao: vinte; tenso arterial: dezasseis, seis; pupilas: quatro milmetros, iguais e reactivas. - As palavras transformaram-se 
numa litania que se sucedia de dois em dois minutos. Imbudo do esprito de dever, o paramdico repetia os dados, aps o que os registava por escrito. Entre os dois 
homens no se trocava qualquer dito espirituoso. Na realidade, a comunicao entre ambos era nula, para alm da enunciao dos dados, o que era feito de dois em 
dois minutos. Pulsao... respirao... tenso arterial... pupilas.
Quando entraram na zona suburbana de Bston, a tenso aumentou. David movimentava-se numa agitao constante verificando, voltando a inspeccionar, despertando Christine. 
O paramdico, enervado com toda aquela agitao, contra a sua vontade mas num gesto involuntrio, tocava nos instrumentos antecipando a eventualidade de uma crise. 
O motorista, um homem jovem e corpulento, cujos fartos cabelos castanhos eram anelados, comeou a proferir algumas palavras atravs do radiotransmissor, entretendo-se 
a mexer nos botes que controlavam as luzes e a sirena. Agora j se encontravam suficientemente prximos do hospital. Ao primeiro sinal de problema na parte de trs 
da ambulncia, ele prosseguiria a toda a velocidade, quer o mdico desse ordem para isso quer no.
Subitamente, a viagem chegou ao fim. A ambulncia foi manobrada de forma a fazer uma inverso de marcha bastante fechada, encostando a traseira  plataforma elevada 
que se destinava  recepo dos doentes. As portas posteriores abriram-se de par em par. Houve uma enfermeira que irrompeu pelo interior da ambulncia e, depois 
de lanar um rpido olhar a Christine, dirigiu-se de imediato para o saco que continha a soluo intravenosa. Logo atrs de si, apareceu um auxiliar de enfermagem 
que agarrou num dos lados da maca. Um rpido acenar por parte do paramdico e ambos comearam a conduzir a doente. A enfermeira corra para conseguir acompanh-los, 
enquanto mantinha o saco da intubao intravenosa suspenso no ar.
David fez meno de ir atrs deles, mas ento deixou-se cair sobre o assento. Avistou de fugida a figura de Margaret Armstrong, na altura em que a mdica foi ao 
encontro da equipa de enfermagem, j a meio caminho da plataforma de cimento, tendo comeado a examinar Christine ainda antes de terem chegado  entrada do hospital. 
As orlas da sua bata branca, toda desabotoada, adejavam atrs de si como se fossem o manto de uma rainha. De todos os seus movimentos e de cada uma das suas expresses, 
emanava competncia e poder de deciso.
Tinham conseguido chegar. Encontravam-se em casa. A deciso de levar a transferncia avante, ainda que pudesse ter sido precipitada, no tivera quaisquer consequncias 
graves Ao mesmo tempo que se sentia invadido por uma grande sensao de alvio, David comeou a tremer.
A custo, passou por entre as pessoas que se apinhavam nas reas de recepo e de triagem, muito movimentadas, dirigindo-se directamente para a Ala dos Traumas. Quer 
a percepo fosse real ou imaginria, tinha a impresso de que toda a gente - tanto o pessoal mdico como os doentes - olhava fixamente para si. Fnix que se erguia 
das cinzas; Lzaro que se elevava dos mortos.
Detendo se do lado de fora do quarto 12 que se destinava aos casos de trauma, olhou para o interior. O quarto encontrava-se vazio. Estremeceu ao ocorrer-lhe a imagem 
de Leonard Vincent, quando este empunhara a faca e fizera deslizar a lmina  largura da sua garganta. Em seguida, David pensou em Rosetti. Logo que Christine estivesse 
fora de qualquer perigo imediato, e depois de acabar de falar com a Dra. Armstrong, tencionava visitar Terry.
Quando David se aproximou da Unidade de Trauma Um, Armstrong chegou  porta, indicando-lhe com um gesto que entrasse na sala. Christine estava acordada. Atravs 
de um mar de batas brancas - mdicos estagirios, tcnicos de laboratrio e enfermeiras - , os olhos dela, sombras profundamente encovadas, prenderam-se nos seus. 
Durante alguns instantes, tudo o que detectou foi sofrimento. Ento, quando se aproximou mais, avistou a centelha... o bruxelar da fora. Os lbios tumefactos e 
descolorados de Christine cerraram-se tensamente, ao tentar esboar um sorriso.
 - Conseguimos - sussurrou ela. David secundou-a com um acenar de cabea. - Agora j no tens de perfurar buracos no meu crnio.
 - Mantiveste-te acordada durante a viagem? - perguntou David de olhos arregalados.
 - Digamos que suficientemente desperta - respondeu ela com dificuldade. - Est... estou satisfeita por estarmos aqui.
Christine fechou os olhos. Entretanto, um mdico de servio  cirurgia, um homem esguio que nem um canio, abeirou-se da doente para Lhe aplicar um anti-sptico 
de um vermelho-acastanhado sobre a regio superior direita do trax, preparado para inserir uma linha intravenosa subclavicular. A medida que o homem introduzia 
a agulha por baixo da clavcula de Christine, David fez um esgar e desviou o olhar, afastando-se. Ficou frente a frente com Margaret Armstrong, a qual se mantinha 
a cerca de um metro atrs de si, observando em silncio.
 - David, sinto-me to aliviada por ver que voc est bem - disse ela. - As histrias que circularam aps a sua breve visita ao hospital, h algumas noites atrs, 
eram bastante assustadoras.
 - Existem alguns problemas neste hospital... De facto, o mesmo sucede em muitos outros estabelecimentos hospitalares. Eu tenho muita coisa a discutir consigo, doutora 
Armstrong - acrescentou David. Por cima do ombro, olhou para o mdico de servio, o qual, em movimentos calmos, suturava o cateter intravenoso de plstico, colocando-o 
no seu lugar com um ponto dado atravs da pele do peito da doente. - E a respeito de Christine?
 - Bem... - comeou a Dra. Armstrong a dizer, conduzindo-o para fora do quarto. - Assim que toda aquela gente tenha terminado o que est a fazer, tenho inteno 
de a examinar mais minuciosamente. As minhas impresses iniciais pouco mais acrescentam s suas. No resta qualquer dvida de que ela sofreu uma fractura craniana, 
havendo algum derrame de sangue por detrs do tmpano. No entanto, at ao momento, ela d a impresso de no ter sido afectada neurologicamente. Providenciei para 
que tanto um mdico ortopedista como um neurocirurgio estejam a postos no hospital, mas parece-me que vamos aguardar quanto  fractura do pulso, at termos a oportunidade 
de poder examin-la. O neurocirurgio  o Ivan Rudnick. Conhece-o? - David acenou afirmativamente. Rudnick era o melhor dos mdicos daquela especialidade que trabalhavam 
no hospital, se  que no era o mais competente de toda a cidade. - Pois bem, o Ivan examin-la-, submetendo-a a uma tomografia axial computorizada, logo que esse 
exame seja possvel. Caso no se encontrem vestgios de hemorragia activa, s nos restar aguardar com esperana a evoluo do seu estado clnico.
 - E quanto ao trauma que ela sofreu no trax? - perguntou David.
 - Tanto quanto me foi dado observar, essa leso no apresenta problemas de maior. O electrocardiograma no mostra qualquer indcio de leses cardacas. O exame 
mais extensivo que eu tenciono fazer-lhe ajudar-nos- a confirmar essa situao.
 - Doutora Armstrong, sinto-me verdadeiramente grato por estar a coordenar este assunto.
 - No diga disparates - replicou a mdica. - Voc nem calcula o quanto me sinto lisonjeada... e agradada, por me ter pedido que tratasse deste caso. A propsito 
- acrescentou ela - , temos um pequeno problema.
 - Oh?... - Os olhos de David estreitaram-se.
 - Nada que possa ser considerado crtico, David, mas no h nenhuma cama disponvel na Unidade de Cuidados Intensivos. Nem uma sequer. Neste momento, estamos a 
examinar um doente que j se encontra numa fase ps-operatria, mas a realidade  que o seu estado tem sido muito instvel, o que me leva a duvidar que possamos 
transferi-lo. Cheguei  concluso de que no se verificar qualquer problema, caso instalemos a Christine num dos pisos. Na Ala Quatro Sul h um quarto particular 
que se encontra vago. Eu sei que as enfermeiras que esto de servio nesse piso Lhe prestaro mais ateno do que todos os cuidados que ela pudesse receber num outro 
servio qualquer, incluindo na U. C. I. Logo que seja possvel, ela ser transferida para esse quarto.
 - Isso parece-me ser uma ideia excelente - anuiu David. - Caso as enfermeiras no se sintam incomodadas com a minha presena, Tenciono manter-me por perto, fazendo 
o que estiver ao meu alcance para poder monitorizar a evoluo do seu estado. Isto , depois de ns dois termos tido a nossa conversa.
 - Sim - retorquiu a Dra. Armstrong, exibindo uma atitude de distanciamento.
 - Bem, no permita que eu a impea de efectuar o seu exame. Eu espero por si na sala dos mdicos, at que possa dispor de tempo para conversarmos. A propsito, 
em que quarto  que a Christine ficar?
 - Desculpe, no percebi a sua pergunta.
 - O quarto - repetiu David. - Para que quarto  que ela vai ser transferida?
 - Ah, sim, apontei o nmero aqui.  o quarto doze. Fica na Ala Quatro Sul, quarto quatrocentos e doze. - A cardiologista esboou um sorriso antes de desaparecer 
no interior da Unidade de Trauma Um.
Quarto doze! David engoliu em seco, tentando ver-se livre do n que de sbito Lhe obstrura a garganta. O mesmo quarto onde Charlotte Thomas estivera internada! 
O primeiro passo que havia sido dado na estrada empedrada e ensanguentada que conduzira a uma terra de loucura onde a demncia parecia no ter fim. David lutou contra 
o pressentimento aziago que se apoderou de si, tentando em vez disso concentrar-se na ironia daquela coincidncia. O quarto 412 seria o posto de comando da vanguarda, 
ao longo da batalha que serviria de instrumento para acabar com as actividades d'A Irmandade da Vida. Aquele exerccio mental teve resultados positivos, pelo menos, 
na medida em que o impediu de sair disparado no encalo da Dra. Armstrong, exigindo-lhe que houvesse uma troca de quartos. Comeou a andar sem destino pela rea 
onde era feita a triagem dos doentes, acabando por se dirigir para a sala dos mdicos, onde se estendeu num sof com uma cpia de uma revista mensal de nome Medical 
Economica. O artigo principal tinha o ttulo de "Dez Maneiras de Fugir aos Impostos que Possivelmente At o seu Contabilista No Conhecer". Antes de dedicar a sua 
ateno  maneira nmero um, David j tinha adormecido.
Uma hora mais tarde, o telefone fixo  parede acima de si despertou-o em sobressalto, afastando-o de uma sequncia de sonhos assustadores - a paragem cardaca que 
Charlotte sofrera, assim como os acontecimentos estranhssimos que se seguiram, desfilaram nos seus pensamentos com a altern ncia de todas as personagens envolvidas; 
todas, isto , com a excepo de Christine, cuja morte acontecia consecutivamente, de maneiras em que a ltima era sempre mais macabra do que a procedente.
David sentia as suas roupas desconfortavelmente humedecidas, enquanto a espcie de lixa que juraria ter na garganta Lhe dificultava a fala.
 - Fala da sala dos mdicos. Daqui Shelton - disse ele, atendendo o telefone com uma voz empastelada.
 - David? Fala Margaret Armstrong. Dar-se- o caso de eu o ter acordado?
 - No, quero dizer, sim. Quer dizer, eu no estava exactamente...
 - Bem - interrompeu ela - , a nossa Christine j se encontra s e salva no seu quarto. No tenho nada de novo a acrescentar quilo que j  do nosso conhecimento. 
Estou em crer que o seu estado no sofrer qualquer complicao.
 - Esplndido.
 - Sim. de facto assim . - Armstrong fez uma pausa. - Voc no tinha dito que queria falar comigo?
 - Sim, sim, sem dvida que quero. Isto , caso no...
 - Esta seria uma oportunidade excelente - interrompeu-o ela uma vez mais. - Estou no meu gabinete... no no que fica na torre, mas sim o que se situa na Ala Dois 
Norte.
 - Eu sei onde  que fica - retorquiu David, que finalmente se encontrava totalmente desperto. - L estarei dentro de cinco minutos.
O laboratrio de exerccios cardacos tambm servia de gabinete a Margaret Armstrong.
David bateu uma vez  porta que estava assinalada com a indicao "EXPERINCIA DE TENSo E EXERCCiO", aps o que entrou. A pequena sala de espera, bastante confortvel, 
encontrava-se deserta. Hesitou antes de chamar.
 - Doutora Armstrong? Sou eu, o David.
 - David, entre - convidou a cardiologista, surgindo  porta. - Eu estava a preparar um pouco de caf.
Quando passou pelo stio onde ela estivera, David cheirou o odor distinto de uma bebida alcolica.
Movido pelo instinto, viu as horas no seu relgio de pulso. Ainda no eram treze horas. Pela mente passou-lhe um determinado nmero de justificaes quanto ao motivo 
que pudesse levar a chefe de cardiologia  ingesto de bebidas alcolicas naquelas circunstncias, especialmente quela hora do dia. Nenhuma destas Lhe parecia ser 
inteiramente aceitvel. Apesar daquela reserva, a mulher dava-lhe a impresso de se encontrar perfeitamente sob controlo. Pelo menos de momento, David obrigou aquela 
preocupao a afastar-se bem para o fundo da sua mente.
O laboratrio era espaoso e encontrava-se bem equipado. Viam-se vrias mquinas com tapetes rolantes e bicicletas para exerccio; cada um daqueles equipamentos 
estava munido de um conjunto de aparelhos monitores instalados por todo aquele espao. O equipamento de emergncia, o qual era exigido em instalaes daquela natureza, 
inclua uma unidade de desfibrilhao, aparelhos que haviam sido colocados de forma despercebida num dos lados da sala, num esforo, sabia David, de evitar aos doentes 
quaisquer apreenses adicionais, os quais j se sentiriam enervados perante a perspectiva de um teste s suas capacidades cardacas.
Uma das extremidades daquelas instalaes fora destinada a uma rea de reunies, onde havia um sof de um tom bege e vrios cadeires de costas direitas, mobilirio 
que fora disposto de forma a circundar uma mesa baixa de caf. Armstrong indicou a David com um gesto que se sentasse no sof, aps o que trouxe uma cafeteira e 
duas chvenas. A atitude da mdica era de uma suavidade maior do que David alguma vez Lhe tinha visto.
 - Est com um aspecto de cansao - comentou ele. - Talvez seja prefervel que conversemos mais tarde.
- No, no. Esta altura  ptima para falarmos - retorquiu ela com demasiada rispidez. - Bem v, so as polticas hospitalares. Mas, para variar, tenho a oportunidade 
de me recostar e ouvir aquilo que me tm a dizer. Permita-me que sirva o caf e em seguida poder pr-me ao corrente de tudo o que lhe tem vindo a suceder.
Ela empurrou um pacote de natas na direco de David, mas ele recusou com um abanar de cabea.
 - No sei bem por onde comear - admitiu ele, tentando encontrar as palavras adequadas entre uns quantos goles de caf.
 - Talvez pelo princpio? - sugeriu ela, encorajando-o com um sorriso que pretendia p-lo mais  vontade.
 - Pelo princpio. Sim. Bem... Acho que o princpio  que no fui eu quem administrou a morfina  Charlotte Thomas, tendo sido a Christine a faz-lo. - David bebeu 
mais algum do caf. - Doutora Armstrong, o que eu tenho para Lhe contar  quase inacreditvel, trata-se de um assunto potencialmente explosivo. A Christine e eu 
decidimos partilh-lo consigo, porque... bem, porque temos esperanas de que possa utilizar a sua posio e influncia para nos ajudar,
 - David, voc sabe bem que estarei disposta a colocar-me a mim prpria, bem como qualquer influncia de que eu possa gozar,  vossa disposio. - Inclinou-se mais 
para a frente, a fim de Lhe proporcionar uma viso mais prxima do sentimento de confiana que ela pretendia que ele lesse nos seus olhos.
Ao cabo de alguns minutos, David j tinha mergulhado totalmente na histria de Charlotte Thomas, passando  d'A Irmandade da Vida.
Inicialmente, Armstrong incentivou-o a que prosseguisse com a sua narrativa, atitude que secundou uma srie de acenos de cabea, gestos e sorrisos, intercalados 
por algumas interrupes ocasionais, cuja finalidade era o esclarecimento de um determinado ponto. No obstante estes sinais de encorajamento, ao cabo de pouco tempo, 
a postura da mdica comeou a mostrar-se cada vez mais rgida, enquanto a expresso do seu olhar se tornava mais impassvel. Gradualmente, e de forma bastante imperceptvel, 
o convite caloroso  narrao que se reflectia nos seus olhos azuis deu lugar a uma extrema frieza. Ainda assim, David continuou a falar, sentindo-se aliviado por 
poder partilhar o peso daqueles segredos que tanto o oprimiam, os quais, at ontem, o haviam sobrecarregado, a nica pessoa totalmente alheia  organizao que Lhes 
dera origem. Decorreu quase meia hora at que ele comeou a ver a transformao que se havia operado na atitude da mulher.
 - Pass... passa-se alguma coisa? - perguntou ele mostrando algum alarme.
Sem Lhe dar resposta, Armstrong levantou-se do cadeiro e comeou a caminhar num passo vacilante em direco a um telefone que se encontrava sobre uma pequena mesa 
situada no extremo oposto do laboratrio. Depois de uma conversa breve travada num tom de voz sussurrante, regressou para junto dele, sentando-se pesadamente numa 
cadeira do outro lado da mesinha em frente de David. Inesperadamente, ela apresentava um aspecto frgil bastante mais envelhecido.
 - David - recomeou ela com uma expresso extremamente sria - , por acaso voc discutiu este assunto com qualquer outra pessoa alm de mim?
 - No, certamente que no. Eu j Lhe tinha dito isso mesmo. Ns estvamos esperanados em que nos pudesse ajudar, sem que se envolvesse...
 - Gostaria que voc recomeasse a sua narrativa. Existem alguns aspectos que desejo ver mais clarificados.

 - Chris, ests acordada? Consegues ouvir-me?
A voz dava a impresso de ecoar vinda de uma grande distncia. Christine abriu os olhos, pestanejou por vrias vezes tentando focar o seu campo de viso. Reconheceu 
a mulher que se Lhe dirigia como sendo uma das enfermeiras, embora as suas feies continuassem a ter uns contornos pouco visveis, o que Lhe causava algum mal-estar. 
Tentou voltar-se para poder ficar deitada de lado. Sentia um latejar que Lhe provocava nuseas, a par de uma presso excruciante dentro da cabea, o que Lhe tornava 
impossvel mudar de posio. O quarto mantinha-se numa semiobscuridade, mas at mesmo a pouca luminosidade que vinha da luz do corredor Lhe era insuportvel.
 - Estou acordada - disse ela. - A luz magoa-me os olhos. - Com lentido, fechou-os.
 - Chris, a doutora Armstrong deu instrues para que as tuas pupilas fossem verificadas de hora a hora. F-lo-ei to depressa quanto me for possvel.
Christine sentiu os dedos da enfermeira sobre a sua vista direita, ao que se seguiu uma dor penetrante quando o feixe de luz, projectado pela diminuta lanterna, 
Lhe incidiu sobre a pupila. Uma pequena pausa e foi a vez de o olho esquerdo sofrer o mesmo tormento. Tentou erguer as mos; contudo, estas recusavam-se a mexer-se. 
Estaria ela presa  cama? Sentia o brao direito, muito especialmente, entorpecido e pesado. Por uns momentos pensou que teria sido amputado. Mas foi ento que se 
recordou de que a Dra. Armstrong Lhe dissera que estava quebrado. Acomodou-se melhor sobre a almofada e obrigou-se a descontrair o corpo.
 - Ouve, vou deixar-te dormir por mais algum tempo - disse a enfermeira. - Dentro de cerca de vinte minutos, temos de substituir a soluo intravenosa. Nessa altura 
estou a pensar em te acordar, e podemos aproveitar para retirar mais alguns destes estilhaos de vidro do teu cabelo. Ests de acordo? - Christine acenou que sim 
o melhor que Lhe foi possvel. - Ei, quase me esquecia. S chegaste h algumas horas ao hospital e j ests a receber flores. Foram entregues h uns dois minutos. 
So lindissimas. Vou coloc-las nesta mesa perto de ti. Sei que no consegues v-las, mas talvez l mais para a noite j sejas capaz de olhar para elas. Trazem um 
carto. Queres que te leia o que diz?
 - Sim, por favor - retorquiu Christine numa voz enfraquecida.
 - Deseja-te os melhores votos de uma recuperao rpida, e est assinado por uma Dahlia.
Dahlia? As dores e o inchao que Christine sentia no crebro dificultavam-lhe o poder de concentrao.
 - Mas... eu... no conheo... nenhuma... Dahlia - replicou ela.
A mulher j tinha sado do quarto.

 - David, esse assassino, esse... esse Vincent, tem de me dizer outra vez como  que acha que ele conseguiu descobrir que voc se encontrava no Servio de Urgncias, 
e tambm como  que deu com o paradeiro do seu amigo.
David comeou a mexer na capa de uma revista que largou logo em seguida, colocando-a sobre a mesinha de caf e esfregando os olhos. Aquilo que se iniciara como sendo 
um confortvel partilhar de um fardo, que h muito esperava ser partiLhado, havia-se transformado num interrogatrio cheio de tenso,  medida que a Dra. Armstrong 
o sondava para obter todo e qualquer pormenor. Sentia-se pouco seguro, perplexo e ameaado pelas perguntas da mulher, assim como pela tenso que adivinhava no seu 
timbre de voz.
 - Bem v - continuou ele sem sequer tentar disfarar a apreenso crescente que no o abandonava - , j Lhe contei tudo aquilo que sei. Por duas vezes. As minhas 
teorias quanto  maneira como o Vincent encontrou o Ben, eu prprio e depois o Joey, no passam disso mesmo... meras teorias. Doutora Armstrong, eu sei que neste 
hospital est a passar-se qualquer coisa de estranho. Existe algo que eu Lhe disse que Lhe causou preocupao. No tenciono partilhar mais nenhum pormenor consigo, 
a menos que se decida a usar de franqueza para comigo. Agora, por favor, qual  o problema?
A expresso nos olhos dela era absolutamente glacial.
 - Meu jovem, a maior parte daquilo que me contou  absolutamente impossvel, no pode ter acontecido.  um autntico absurdo. Tudo isso no passa de uma srie de 
concluses doentias e aberrantes, que s podero causar sofrimento e desgosto a muita gente boa e inocente. - David olhava fixamente para ela sem querer acreditar 
nos seus ouvidos. - Est a atiar as labaredas de uma fogueira cuja amplitude voc no compreende. Esse to famoso assassino que voc acabou de me descrever...  
absolutamente impossvel que ele tenha alguma ligao com a Irmandade da Vida.
 - Mas...
 - J Lhe disse que  impossvel! - ripostou a mdica aos gritos.
 - Exactamente, o que  que  impossvel? - As cabeas de ambos voltaram-se simultaneamente em direco da porta. Dotty Dalrymple observava com uma postura plena 
de calma, mantendo as mos nas algibeiras do seu uniforme. David comeou a sentir a pele arrepiada perante a viso da mulher.
 - Oh, Dorothy, ainda bem que conseguiste vir at c abaixo to depressa. - A voz de Armstrong denotava uma grande tenso, embora no houvesse perdido a compostura. 
- Telefonei-te porque o doutor Shelton esteve a contar-me uma histria absolutamente ridcula a respeito d'A Irmandade da Vida: assassinos sob contrato e...
 - Eu tenho conhecimento de tudo o que ele te contou - atalhou Dalrymple com as faces inchadas por um meio sorriso - Eu sei muito bem o que  que ele tem estado 
a contar-te - Ergueu a mo direita que tirou do bolso. Quase perdido no seu punho carnudo via-se um revlver de cano empinado.

 - A luz... por favor, desliguem a luz. - Mesmo atravs das plpebras fortemente cerradas, Christine conseguia sentir a intensidade da luz.
Duas mulheres - uma enfermeira e uma auxiliar - retiravam fragmentos de vidro dos seus cabelos, servindo-se de pinas.
 - De acordo, Chris - disse uma delas. - Imagino que J te tenhamos torturado o suficiente por agora. Vou ter de te despertar dentro de quarenta minutos. Nessa altura, 
poderemos tentar tirar mais alguns estilhaos. Ests de acordo? - Desligou a luz do tecto. - Espera um minuto, peo-te desculpa mas vou ter de a ligar de novo.  
s mais alguns segundos para poder ajustar o fluxo da tua soluo intravenosa, que acabmos de substituir.
 - Na tua pequena ementa vinha mencionada uma costeleta de vaca de carne de primeira, assim como faiso, servidos numa cama de bocados de vidro, mas dado que tu 
no assinalaste nenhum destes pratos, decidimos servir-te a especialidade da casa: uma combinao de dextrose e gua.
Uma exploso que durou dez segundos e, uma vez mais, o quarto ficou obscurecido. Christine tentou ignorar o latejar que sentia no crnio.
 - A propsito - acrescentou a enfermeira - , a Mam Catatua esteve no nosso piso ainda no h muitos minutos. A laia de manada, levou-nos a todas para a sala de 
reunies, onde acentuou bem que as cabeas rolariam se tu no recebesses, da parte de toda a gente, um tratamento de primeira classe. Como se ns pudssemos tratar-te 
de maneira diferente. Bem... at mais tarde.
Christine ouviu a mulher sair do quarto. A Mam Catatua. Por alguns instantes, debateu-se com aquela expresso. Ao fim de algum tempo recordou-se. Dalrymple! Subitamente, 
sentiu um turbilho na cabea formado por fragmentos desarticulados de vrias informaes. Dalrymple a condenar David. Dalrymple a oferecer-lhe um suborno. A sua 
mente entrou numa actividade ao retardador, que tinha lugar atravs de tecidos lesionados e tumefactos, esforando-se por compreender. Bem no fundo do seu ntimo, 
a apreenso que sentia comeou a firmar-se, alimentando o latejar j de si insuportvel que Lhe atormentava a cabea. Dalrymple! Seria possvel que ela fosse a responsvel? 
Nada daquilo fazia o mnimo sentido. Nada, com a excepo de que tinha de encontrar David. Era foroso que Christine falasse com ele. Tentou mexer-se para conseguir 
chegar ao telefone em cima da mesa-de-cabeceira. Tocou-lhe com a mo livre, mas f-lo tombar no cho com um estrondo
enorme.
Procurou o boto da campainha para chamar a enfermeira de servio. Tinham-no prendido algures. Mas onde? Onde  que elas tinham dito que estava?
Vindas da escurido que reinava acima da sua cama, as gotas de soluo intravenosa continuavam a fluir inexoravelmente do saco de plstico, passando atravs do tubo 
e entrando no seu peito.
Christine remexia por entre a roupa da cama, continuando  procura do boto da campainha, quando sentiu que as dores comeavam a abrandar. Bem dentro do seu organismo 
sentia um calor desconfortvel que se espalhava por todo o corpo. Trinta segundos sozinha no balco de servio das enfermeiras... fora tudo o que Dotty Dalrymple 
necessitara.
David... telefonar a David. Christine esforava-se por manter a sua fora de vontade. As suas plpebras cerraram-se, recusando-se a abrirem-se de novo. Havia tanta 
coisa a fazer, pensava ele. David... A Irmandade... tanta coisa ainda a fazer. A sua cabea tombou contra a almofada. A mo ficou flcida caindo inerte para o lado. 
Bruscamente, nada daquilo parecia ter qualquer importncia. Nada de nada.
Durante algum tempo, Christine ficou a ouvir um rudo ensurdecido que enchia o quarto. Ento, com um suspiro audvel, rendeu-se  escurido.

Dalrymple indicou a Armstrong com um gesto que se sentasse na cadeira junto de David. Os seus olhos castanhos chispavam, sem ocultar um sentimento de dio que era 
dedicado aos dois. O dedo semelhante a uma salsicha deslocou-se nervosamente contra o gatilho.
 - Dorothy, por favor - suplicou Armstrong. - Conseguimos chegar to longe. Partilhmos tanta coisa. Tu s ests a sentir um excesso de cansao. Talvez se...
- Oh. Peggy', limita-te a permanecer sentada e cala a boca - ripostou a outra desabridamente.
David olhou atnito para a Dra. Armstrong.
 - Peggv? Voc? Mas voc  uma...
 - Uma mdica? - adiantou Armstrong suprindo a palavra que interrompera. - Somente mais alguns anos de estudo e nada mais. Acredite no que Lhe digo: a escola de 
enfermagem foi igualmente difcil. - Voltou a sua ateno para Dalrymple. - Dorothy, tu sabes bem que eu estou do teu lado.
 - Estars? Ser que tu tomas o partido de algum, para alm do teu prprio? No foste tu quem foi falar com a Beall. No  o teu nome que ela associa  Irmandade. 
No  a tua vida que ficar arruinada assim que ela falar com a Polcia. Eu tenho demasiadas coisas a meu favor, para me deixar ficar indiferente, enquanto isso 
acontece.
 - Ento... isso quer dizer que tu realmente  que s a responsvel. Contrataste um assassino? - Dalrymple acenou uma vez com a cabea. - Dorothy, como  que foste 
capaz de fazer uma coisa dessas?
 - No comeces a mostrar-te superior e importante comigo. A morte  o nosso jogo, no ser verdade? Foste tu quem me ensinou. Agora tu traas os teus limites num 
lugar, enquanto eu trao num outro. No mostraste a mais pequena relutncia em falsificar receitas, para alm de estares disposta a sacrificar o Shelton, aqui presente, 
com a finalidade de salvares a tua preciosa Irmandade. Aposto que se fosses tu quem tivesse falado com a Beall... caso houvesse sido o teu pescoo sobre o cepo, 
terias tomado as mesmas medidas que eu tomei, a fim de te protegeres a ti prpria.
Armstrong comeou a protestar, mas Dalrymple silenciou-a com um sacudir da arma. Levou a mo a uma das algibeiras e, com um sorriso, agarrou numa seringa de grandes 
dimenses completamente cheia. Em seguida, viu as horas no seu relgio de pulso.
 - So duas horas - continuou ela. - Se as minhas enfermeiras forem to eficientes no seu trabalho como eu as treinei para que o fossem, a soluo intravenosa que 
medicaste  nossa jovem Miss Beall j deve ter sido ministrada, tendo comeado a entrar no seu organismo.
A sentena de morte de Christine! Sentindo um pnico sbito, David ficou a olhar mesmerizado para Dalrymple.
- O que  que voc Lhe deu? - Mudou a posio dos ps de molde a encontrar um ponto onde pudesse firmar-se melhor, comeando  procura de uma abertura, ainda que 
muito diminuta.
Dalrymple pressentiu aquela alterao, o que a levou a empunhar o revlver de forma a que este ficasse directamente apontado para o rosto de David.
 - Seria intil tentar o que quer que fosse. - Uma vez mais lanou um rpido olhar ao seu relgio. - Alm do mais j  demasiado tarde. - Pousou a seringa em cima 
da mesa em frente dele. - Vocs dois sero um caso de assassnio e suicdio - continuou ela com toda a calma. - Francamente, -me absolutamente indiferente o que 
corresponder a cada um de vs, desde que a Polcia se sinta satisfeita por no existirem quaisquer dvidas. Doutor, dou-lhe a escolha. A agulha ou a bala. Sendo 
voc o mdico astuto que de facto , com toda a certeza que estar em condies de concluir que um dos mtodos  consideravelmente mais doloroso do que o outro.
 - Dotty, por favor, tu no sabes o que  que ests a fazer - implorou Armstrong, levantando-se da cadeira com o intuito de agarrar na mo livre de Dalrymple. Antes 
de David ter tempo para reagir, a chefe das enfermeiras descreveu um arco com o brao livre, mantendo as costas da mo viradas para a frente e desferindo um golpe 
violento e em cheio contra a face da mulher. Com um estalar audvel, o malar esquerdo de Armstrong ficou fracturado. O seu corpo foi arremessado a toda a largura 
da sala, tendo ido embater contra a parede que se encontrava a uma distncia de pouco menos de cinco metros.
Dalrymple continuava a manter David sob mira; o revlver encontrava-se apontado directamente para o ponto entre os olhos do mdico. A mulher olhou por cima do ombro 
para o corpo amarfanhado de Armstrong cado no cho.
 - H tanto tempo que eu desejava ter feito isto - disse ela com um sorriso. - Agora ns, doutor, tem uma escolha a fazer. - Ela contornou a mesa, empurrando-a para 
trs com uma perna que mais parecia o tronco de uma rvore, o que Lhe permitiu ter mais espao para poder movimentar-se. O orifcio do cano do revlver encontrava-se 
a apenas trinta centmetrOs da testa de David, enquanto ela Lhe oferecia a seringa. - Faa o favor de se decidir - urgiu Dalrymple numa voz suave.
David olhava fixamente para a mulher quando, pelo canto do olho, detectou movimentos. Margaret Armstrong, apoiada sobre as mos e os joelhos, avanava pelo cho 
centmetro a centmetro Cheio de desespero, David obrigou os seus olhos a continuarem a manter contacto com os de Dalrymple.
 - Ora bem?... - inquiriu ela. - A minha pacincia est a comear a esgotar-se.
David agarrou na seringa e examinou-a minuciosamente.
 - Eu... No me parece que consiga prosseguir com isto, a menos que seja aplicado um torniquete - disse ele numa tentativa para ganhar tempo. No momento em que Dalrymple 
baixou o olhar, ele aproveitou para observar os movimentos de Armstrong. A cardiologista estava cada vez mais prxima. Foi ento que reparou nas mos da mdica. 
- Em cada uma tinha uma pequena placa de metal. O desfibrilhador! Armstrong tinha ligado o mecanismo. As placas que se encontravam ligadas quele equipamento por 
fios em espiral tinham a potncia de transmitir quatrocentos joules.
David arregaou a manga, fechando e abrindo o punho por diversas vezes. Os fios j estavam quase inteiramente distendidos, embora Armstrong ainda se encontrasse 
a uma distncia de mais ou menos trs metros.
A mo de Dalrymple fechou-se com maior firmeza  volta da coronha do revlver.
 - Agora! - ordenou ela.
 - Dotty! - gritou Armstrong.
Ao ouvir a voz, Dalrymple girou subitamente sobre os calcanhares, na mesma altura em que David investia sobre ela. Com toda a violncia, impeliu um ombro contra 
o trax largo da mulher. Esta cambaleou para trs, embatendo contra a mesinha do caf, que era baixa, com a parte de trs dos joelhos. Tombou como se fosse uma sequia 
gigantesca, fragmentando a pequena mesa. Quando o seu corpo enorme caiu no cho, Armstrong lanou-se sobre ela, fazendo presso com ambas as placas contra as faces 
da mulher e, em simultneo, aliviou a presso sobre o boto que transmitia a carga.
O crepitar ensurdecido e a centelha que saram das placas foram, imediatamente, seguidos por uma pequena nuvem de fumo. Os braos de Dalrymple ergueram-se em movimentos 
descontrolados, enquanto o seu corpo era atravessado por espasmos, elevando-se vrios centmetros acima do cho. O cheiro a carne queimada enchia o ar. Da sua boca 
jorraram jactos de vomitado; a cabea da mulher dobrou-se para trs como que desligada do resto do corpo. No momento da sua morte, os esfincteres da sua bexiga e 
intestinos deixaram de exercer controlo sobre essas funes do seu organismo.
Durante vrios segundos, David manteve-se imobilizado, olhando com fixidez para as duas mulheres - uma lesionada e a outra morta. Ento, com um sentimento de terror 
que Lhe ressurgia, saiu disparado da sala num passo desajeitado, devido s dores que sentia, em direco  Ala Quatro Sul.
Margaret Armstrong, mal se aguentando sobre as pernas, mantinha-se encostada ao lavatrio, espargindo gua fria sobre as faces. Sentia-se como se estivesse drogada, 
incapaz de enquadrar o poder de concentrao da sua mente. Atrs de si encontrava-se estendida a montanha de morte que tinha sido, momentos antes, a pessoa de Dorothy 
Dalrymple.
Com grande dificuldade, obrigou a sua concentrao a focar-se na situao presente. No caso de Christine j estar morta, compreendeu ela, David Shelton era o nico 
empecilho que poderia impedir a continuao da sua Irmandade. Poderia ele ser eliminado? Deveria essa aco ser levada a cabo? Peggy Armstrong sabia que confess 
aria de bom grado um assassnio - estaria disposta a sacrificar-se a si prpria - com o objectivo de salvar o movimento. Mas teria ela a coragem de matar uma pessoa 
inocente?
Num passo vacilante, dirigiu-se para a porta onde se voltou para trs, olhando com desprezo para o corpo de Dalrymple. Se uma mulher que ela estivera convencida 
de conhecer to bem, o que implicitamente a levara a depositar toda a sua confiana nela, havia sido capaz de tentar comprar a sua prpria segurana por um custo 
to elevado, como  que ela poderia ter a certeza de que num perodo de crise no existiriam outras? Sentindo-se tremer, o que se devia mais aos seus pensamentos 
do que aos ferimentos que sofrera, Armstrong procurou apoio numa parede a que se encostou. Estaria tudo terminado? Depois de tantos anos, de tantos sonhos, teria 
aquilo que ela mais almejara chegado ao fim?
Saiu do seu gabinete fechando a porta  chave. O zelador no iria ali at depois do incio da manh seguinte. Dentro de menos de vinte e quatro horas. Caso ela desejasse 
salvar A Irmandade, restava-lhe somente aquele espao de tempo para poder arquitectar os seus planos, para se preparar, para agir. As perguntas, uma aps outra, 
desfilavam incessantemente pelos seus pensamentos. Valeria aquilo o preo de uma outra vida? Estaria ela em condies de o fazer? Haveria alguma explicao que se 
mantivesse vivel? Naquele momento, as respostas quelas questes no se vislumbravam no horizonte.
- V, v - urgiu ela. -constantemente.
David acenou num gesto de agradecimento, encaminhando-se apressadamente para o balco das enfermeiras.
 - Peam a mquina de reanimao para o quarto quatrocentos e doze - disse ele, ofegante. - Tambm preciso de pessoal que me ajude. Peam a mquina de reanimao 
para o quartO quatrocentos e doze.
A secretria daquela ala, que se mostrou assarapantada por breves momentos, agarrou no telefone.
Para David, a cena que se Lhe deparou no quarto 412, foi a reprise de um sonho pavoroso. A obscuridade, o som do borbulhar do oxignio, a tubagem por onde passavam 
as solues intravenosas, o corpo imvel. Ligou as luzes do quarto e correu para a cama. Christine, que se encontrava serenamente deitada de costas, era a expresso 
de uma mscara de morte. Atravs do altifalante do corredor, a operadora de servio comeou a dar o alerta num tom de voz onde transparecia uma urgncia incaracterstica.
 - Mquina de reanimao  Ala Quatro Sul... Mquina de reanimao, Quatro Sul...
Durante um segundo, talvez dois, os dedos de David percorrem o pescoo de Christine, procurando a pulsao na artria cartida. Conseguiu senti-la. O batimento rtmico 
e enfraquecido contra a ponta dos dedos indicador e mdio. Seria o seu prprio pulso ou o de Christine? Naquele mesmo momento, como que em resposta  incerteza que 
sentia, ela respirou audivelmente, um sopro de ar nico e maravilhoso, embora pouco profundo. Com aquele primeiro som, o seu peito soergueu-se quase imperceptivelmente, 
o que fez com que David entrasse em aco sem mais perdas de tempo. Interrompeu o fluxo que flua atravs da tubagem, debruou-se sobre ela e aplicou-lhe respirao 
boca a boca por duas vezes.
Antes de ter terminado, surgiu uma enfermeira que irrompeu quarto adentro, trazendo atrs de si o carrinho com a mquina de reanimao. Ao longo dos minutos que 
se seguiram, os dois, enfermeira e cirurgio, uniram esforos funcionando como se fossem uma s pessoa. Aquela mulher jovem era uma verdadeira maravilha, uma coordenadora 
nata em situaes de emergencia' tendo sempre  mo o medicamento ou o instrumentO que eram necessrios na altura, mesmo antes de David os pedir.



Captulo 23

Servindo-se do corrimo para se firmar, David desceu rapidamente as escadas que ligavam a Ala Dois Norte  Um Norte. As vagas de adrenalina abafaram os gritos que 
o seu tornozelo soltava. Irrompeu esbaforido pela entrada do corredor central, dispersando um grupo de freiras horrorizadas com a sua atitude.
        No trio principal, assistia-se  situao catica caracterstica do meio do dia. David esgueirou-se por entre as pessoas, dando encontres, qual jogador 
em campo aberto a jogar o ataque, e deixando  sua passagem dois homens esparramados no cho enquanto estes praguejavam contra ele.
        - Aguenta-te, querida, por favor, no desistas - disse David arquejante, subindo desesperadamente as escadas da Ala Sul. At mesmo percorrendo os degraus 
dois a dois, estes davam-lhe a impresso de serem infindveis, parecendo que se duplicavam por si prprios em cada um dos patamares. - Luta contra a besta. Faz frente 
ao veneno que ela instila. Por favor...
        Os seus ps pesavam-lhe que nem chumbo. As pernas cederam entre o terceiro e o quarto andares, o que voltou a acontecer enquanto ele entrava num passo cambaleante 
na Ala Quatro Sul.
        O corredor encontrava-se deserto, com a excepo de uma auxiliar de enfermagem que se esforava por prender um homem, de forma segura, de idade  sua cadeira 
de rodas. No espao dos poucos segundos em que ela se dedicou a olhar embasbacada para aquela apario que coxeava na sua direco, o seu doente, que fora vtima 
de uma trombose, conseguiu libertar-se, tendo cado desamparadamente no cho. A auxiliar, ao aperceber-se da urgncia, fez-lhe sinal que passasse.
- V, v - urgiu ela. - O Clarence costuma fazer isto constantemente.
        David acenou num gesto de agradecimento, encaminhando-se apressadamente para o balco das enfermeiras.
        - Peam a mquina de reanimao para o quarto quatrocentos e doze - disse ele, ofegante. - Tambm preciso de pessoal que me ajude. Peam a mquina de reanimao 
para o quarto quatrocentos e doze.
        A secretria daquela ala, que se mostrou assarapantada por breves momentos, agarrou no telefone.
        Para David, a cena que se lhe deparou no quarto 412, foi a reprise de um sonho pavoroso. A obscuridade, o som do borbulhar do oxignio, a tubagem por onde 
passavam as solues intravenosas, o corpo imvel. Ligou as luzes do quarto e correu para a cama. Christine, que se encontrava serenamente deitada de costas, era 
a expresso de uma mscara de morte. Atravs do altifalante do corredor, a operadora de servio comeou a dar o alerta num tom de voz onde transparecia uma urgncia 
incaracterstica.
        - Mquina de reanimao  Ala Quatro Sul... Mquina de reanimao, Quatro Sul...
        Durante um segundo, talvez dois, os dedos de David percorrem o pescoo de Christine, procurando a pulsao na artria cartida. Conseguiu senti-la. O batimento 
rtmico e enfraquecido contra a ponta dos dedos indicador e mdio. Seria o seu prprio pulso ou o de Christine? Naquele mesmo momento, como que em resposta  incerteza 
que sentia, ela respirou audivelmente, um sopro de ar nico e maravilhoso, embora pouco profundo. Com aquele primeiro som, o seu peito soergueu-se quase imperceptivelmente, 
o que fez com que David entrasse em aco sem mais perdas de tempo. Interrompeu o fluxo que fluia atravs da tubagem, debruou-se sobre ela e aplicou-lhe respirao 
boca a boca por duas vezes.
        Antes de ter terminado, surgiu uma enfermeira que irrompeu quarto adentro, trazendo atrs de si o carrinho com a mquina de reanimao. Ao longo dos minutos 
que se seguiram, os dois, enfermeira e cirurgio, uniram esforos funcionando como se fossem uma s pessoa. Aquela mulher jovem era uma verdadeira maravilha, uma 
coordenadora nata em situaes de emergncia, tendo sempre  mo o medicamento ou o instrumento que eram necessrios na altura, mesmo antes de David ter oportunidade 
de expressar os seus pensamentos por palavras.
        Em face de um veneno cuja natureza ignorava, a abordagem de David foi feita sem que estivesse com meias-medidas:
comeou a ministrar-lhe uma nova soluo intravenosa, cuja finalidade era diluir as toxinas, ao mesmo tempo que ajudava o organismo de Christine a manter uma tenso 
arterial constante; tambm lhe aplicou um tubo por via oral, tendo ela comeado a receber respirao atravs de uma bomba manual Ambu, o que a mantinha adequadamente 
ventilada; estas medidas foram acompanhadas da administrao de bicarbonato, que se destinava a contra-atacar a acumulao de cido lctico.
        A colorao da epiderme de Christine escureceu ainda mais. David arriscou afastar-se por uns momentos da bomba de ventilao manual, erguendo-lhe as plpebras. 
As suas pupilas eram pontos negros e infimos, perdidos nos crculos castanhos que as retraam: pupilas da dimenso de cabeas de alfinete devido a uma dose excessiva 
de uma qualquer droga. "Meu Deus, que seja morfina." Pediu que fossem buscar Naloxone, o antdoto altamente eficaz para combater as drogas narcticas. Ao fim de 
poucos segundos, a enfermeira j tinha injectado o frmaco.
        Ao cabo de mais uns quantos sopros de ar, David interrompeu-se de novo. Desta vez foi para voltar a verificar o ritmo da pulsao da cartida. Com uma profunda 
sensao de quem se afogava, verificou que esta era inexistente.
        - Por favor, coloque-lhe uma prancha por baixo do corpo
- instruiu ele, soerguendo os ombros de Christine acima da cama. - Vai ter de se esquecer do pessoal mdico de emergncia e comear a fazer compresses torcicas 
sucessivas at que aparea algum para nos auxiliar. Cristo! Onde  que pra todo o pessoal mdico deste hospital? - David expressava-se com ansiedade e rapidez.
        - Uma das enfermeiras foi para casa porque se sentia adoentada - explicou a mulher, articulando as suas palavras com a mesma cadncia que imprimia s compresses 
que fazia sobre o esterno de Christine, servindo-se apenas das mos. - H duas que esto na hora de almoo. Estas no ho-de tardar muito.
        David continuava a aplicar a ventilao artificial.
        - Precisamos de algum que trabalhe com o equipamento
de reanimao - resmungou ele. - Temos necessidade de algum na merda do carrinho de reanimao. - Uma vez que a enfermeira no podia interromper as massagens cardacas, 
os tabuleiros que continham os medicamentos, que to crticos eram numa situao daquelas, poderiam muito bem estar na lua, que o resultado teria sido rigorosamente 
o mesmo.
        Entretanto, apareceu um auxiliar de enfermagem. Com modos bruscos, David disse-lhe que verificasse a tenso arterial.
        - Nada - concluiu o homem depois de ter tentado por duas vezes.
        - Sabe fazer ressuscitao cardiopulmonar? - perguntou David esperanado em poder libertar a enfermeira, para que esta pudesse operar a mquina de reanimao. 
O homem abanou a cabea, afastando-se da cama. - Merda! - exclamou David numa voz sibilada.
        Baixou o olhar para Christine. A respirao espontnea deixara de existir; qualquer indcio de vida era absolutamente nulo. A sua pele adquirira o mosqueado 
de uma colorao de um azul-profundo. A menos que tivesse ajuda dentro de muito pouco tempo - sob a forma de um par adicional de mos capazes - Christine entraria 
numa fase em que qualquer tipo de reanimao seria intil. Durante cinco ou dez segundos, David manteve-se imobilizado. A jovem enfermeira observava-o; os seus olhos 
encontravam-se semicerrados, deixando transparecer uma preocupao crescente.
        - O que quer que seja de que tenha necessidade...  s pedir, doutor - disse a voz de Margaret Armstrong, que se colocara junto da mquina de reanimao. 
O seu olho esquerdo estava to inchado que ela mal conseguia abrir a plpebra, o que se devia a um hematoma enorme que abrangia completamente a face desse lado. 
De uma das narinas escorria-lhe um fio de sangue. Apesar daquelas leses, ela mantinha a sua habitual postura rgia, sem que parecesse dar-se conta dos olhares inquiridores 
por parte dos que se encontravam presentes no quarto.
        A capacidade de deciso de David, que j sentia bastante abalada pela falta de resposta de Christine, agudizou-se ainda mais pelo receio que a incerteza 
lhe inspirava.
        -Voc... voc poder aplicar as massagens cardacas retorquiu ele, desejando que a mulher no se tivesse colocado to prximo do carrinho onde se encontravam 
os medicamentos. Nele existia um variado nmero de frmacos que poderiam ser utilizados como armas letais.
 - No, no - contraps Armstrong, dando mais nfase s suas palavras com um abanar de cabea. - Vocs dois so bastante mais fortes do que eu. Para j no mencionar 
o facto de eu tambm ter curso de enfermagem e, devo acrescentar, que sou uma enfermeira das mais qualificadas. Eu responsabilizo-me pelos medicamentos. Agora... 
que raio de coisa, no percamos mais tempo!
David hesitou por um momento antes de comear a agir com toda a celeridade, pedindo os antdotos que haviam de neutralizar as substncias que Dalrymple, muito provavelmente, 
teria utilizado. O violento golpe que Armstrong sofrera na face no parecia ter afectado as suas reaces, nem to-pouco a eficincia que Lhe era caracterstica. 
Na realidade, ela era, tal como tinha afirmado, uma enfermeira incrivelmente bem qualificada. A adrenalina, o concentrado de glucose, mais Naloxone, clcio, mais 
bicarbonato - substncias que ela manuseou e administrou com rapidez, com uma grande economia de movimentos suprfluos.
Entretanto, comeou a chegar o auxlio suplementar. Houve outra enfermeira que se ofereceu para substituir a Dra. Armstrong; no entanto, esta foi incumbida de monitorizar 
a tenso arterial.
 - Ela no est a respirar pelos seus prprios meios - disse David. - Acho que seria prefervel intub-la.
Armstrong estendeu o brao e comeou a exercer presso com os dedos sobre a regio das virilhas de Christine, tentando encontrar a pulsao da artria femoral. Olhou 
para David com uma expresso sombria, seguida de um abanar de cabea.
 - Nada - observou a mdica.
 - Muito bem. Dem-me um laringoscpio e um tubo sete ponto cinco.
 - Espere! - Os olhos de Armstrong comearam a sorrir. - Espera. . espere... est aqui, doutor - anunciou ela. - J a encontrei.
 - Tenho uma leitura - informou a enfermeira que vigiava a tenso arterial alguns segundos mais tarde, exibindo um ar satisfeito. - Estou a ouvir a tenso! Fraca, 
a sessenta. No, esperem, passou para oitenta. Cada vez  mais elevada! Estou a ouvir com uma grande nitidez!
David voltou a examinar as pupilas de Christine. Sem sombra de dvida que se haviam alargado um pouco mais. Decorridos outros quinze segundos, ela recomeou a respirar. 
A jovem enfermeira que desde o incio dera a sua ajuda ergueu os polegares na direco de David, dando murros ao alto no vazio. numa demonstrao de todo o contentamento 
que sentia.
A ltima preocupao que afligia a mente de todos desapareceu, quando Christine comeou a gemer suavemente, rolando a cabea de um lado para o outro; a pouco e pouco, 
foi entreabrindo as plpebras. Com os olhos completamente abertos, fitou David de imediato.
 - Ol - saudou ele num murmrio.
 - Ol, tambm para ti - respondeu ela.
Pelo quarto, as pessoas congratulavam-se umas s outras.
 - Eu... eu estou a sentir-me muito melhor. J quase no sinto dores de cabea. - A sua expresso ensombrou-se. - David, Miss Dalrymple. Eu tenho a impresso que 
 muito possvel que ela seja a...
David silenciou-a com um dedo que levou aos lbios.
 - Eu sei, minha querida - retorquiu ele com uma expresso com que pretendia tranquiliz-la. - Eu j estou a par de tudo.
Christine esforou-se por conseguir ler nas entrelinhas, com o que se acalmou notoriamente.
 - Estou a sentir-me melhor. Muitssimo melhor, David. A doutora Armstrong  uma enfermeira miraculosa.
 - Sim... - redarguiu David, lanando um olhar na direco da mdica. - Uma enfermeira miraculosa.
O olhar de Margaret Armstrong foi ao encontro do dele, onde se manteve por breves instantes. Em seguida, agradeceu numa voz sussurrada a todos os que se encontravam 
presentes no quarto, o que fez um a um, indicando-lhes com um gesto que sassem.
A jovem enfermeira foi a ltima a abandonar o quarto. Armstrong acompanhou-a at ao corredor.
 - Voc fez um trabalho maravilhoso ali dentro - disse ela  jovem. - Sinto-me extremamente orgulhosa de si.
 - A senhora... a senhora doutora est ferida - comentou a enfermeira, corando de orgulho ao ouvir as palavras da outra - Posso ajud-la em alguma coisa?
 - Eu estou bem - replicou Armstrong. - Agora voc deve regressar para junto dos seus doentes. - Dito aquilo' a mdica girou sobre os calcanhares e voltou a entrar 
no quarto 412. Bem no seu intimo, sabia que no mesmo instante em que se aproximara no carrinho onde viera a mquina de reanimao, tendo seleccionado os medicamentos 
adequados  situao de emergncia, selara inexoravelmente o destino d'A Irmandade.
Christine permanecia adormecida. No lado oposto do quarto, David abrira parcialmente os cortinados, olhando atravs da janela para a tarde nublada. As suas mos 
mantinham-se pesadamente cadas ao longo dos flancos; a sua postura no reflectia nenhum do sentimento de vitria que acabara de conseguir alcanar. Armstrong abeirou-se 
dele em passos silenciosos. Mas ele no desejava olhar para a mdica. Durante breves momentos, o nico som que se fazia ouvir no quarto era o gorgolejar da garrafa 
de oxignio, substncia que passava atravs do dispositivo de segurana, assim como a respirao tranquila e estvel de Christine.
 -  um hematoma e peras o que tem no rosto - comentou David ao fim de algum tempo, mantendo o olhar sobre a cidade abaixo de si. - Acho que deveria ser examinada 
por algum.' ;
 - Hei-de tratar disso - disse ela. - Mais tarde.
 - Aquela mulher, aquela... besta que est estendida no ;' seu gabinete... ela foi o fruto da sua criao. O seu monstro.
 - Talvez sim. Suponho que sob certos aspectos voc tem toda a razo. Ser que o facto de eu continuar a acreditar, verdadeiramente, no bem que A Irmandade da Vida 
tem vindo a fazer ter alguma relevncia? A luta pela dignidade da morte humana ser justa e ter alguma importncia?
 - Certamente - retorquiu David com uma certa rispidez. - Tem importncia. Tal como  relevante em relao  fractura que a Christine sofreu no crnio. Tal como 
interessa no que se refere  trampa toda que ela ter de enfrentar... se... conseguir recuperar a sua sade. Tal como  relevante para a merda do juiz e do promotor 
pblico, assim como para os jornais, que a iro julgar pelo assassnio da Charlotte Thomas. Tal como tem importncia para os meus amigos que morreram, apenas porque... 
- A clera e a frustrao que o assolavam embargaram-lhe as palavras.
Decorreu um minuto de profundo silncio antes de Armstrong Lhe dar rplica.
 - David, eu compreendo o que  que voc est a sentir. De verdade que sim. Tambm sei que a ajuda que prestei  Christine, e aquilo que fiz  Dalrymple, no conseguiro 
eliminar o sofrimento por que vocs dois passaram. Mas tambm tenho conhecimento de outra coisa. Algo que contribuir bastante para sanar as vossas mgoas. - A mdica 
hesitou. - Sei que a Christine jamais ser forada a responder sob a acusao de assassnio.
 - O que  que voc disse? - perguntou David, atnito, voltando-se subitamente para ela.
 - A Christine no foi responsvel pelo assassnio da Charlotte Thomas. - Com aquelas palavras, a mdica fitou-o mostrando uma expresso de grande seriedade.
 - Como... como  que pode afirmar uma coisa dessas?
 - No foi ela - retorquiu Armstrong num tom de voz neutro - , porque a responsvel sou eu. O que posso vir a provar como sendo verdade.

- Christine, eu sou a Peg - continuou Armstrong pouco depois numa voz suave. - Peggy Donner.
Atravs da semiobscuridade, Christine examinou o rosto da mdica e, ento, estendeu a mo, agarrando na da outra.
 - A Irmandade... acabou?
 - Ainda no, minha querida. Mas... mas dentro em pouco  o que acontecer.
David perscrutou o semblante de Christine, tentando detectar raiva ou at surpresa; porm, no leu nenhuma destas emoes. Entre as duas mulheres, comeara a estabelecer-se 
um lao de unio, um vnculo que se situava muito fora do seu mbito de compreenso. Observava as duas com um grande fascnio, mantendo-se em silncio, hipnotizado 
por aquela cena.
 - Christine - prosseguiu Armstrong, forando-se a articular cada uma das palavras - , depois de sair deste quarto, vou comear a desmembrar A Irmandade. O que ser 
feito em moldes que permitam que nenhuma das enfermeiras que dela fazem parte saia prejudicada de todo este processo. Isto , desde que voc e o David possam continuar 
a viver com os segredos que ns trs partilhamos. Est a compreender o que Lhe digo?
 - Compreendo - replicou Christine com um ligeiro acenar de cabea. - Mas... e os relatrios... as fitas gravadas?...
 - Tudo isso ser destrudo. Tudo, isto , com a excepo de um. Esse ser-lhe- enviado. Foi elaborado por mim depois de ter injectado na Charlotte uma dose fatal 
de potssio. Christine, a quantidade de morfina que voc Lhe ministrou no foi o suficiente. Ela era mais forte, bastante mais resistente do que todos ns pensvamos. 
A Charlotte era minha amiga. Ela era... ela era uma das nossas irms. Eu tinha-lhe prometido que Lhe proporcionaria uma morte serena. Depois de voc ter sado do 
quarto dela, eu fui l para me despedir. Para Lhe dizer um ltimo adeus. Verifiquei que a Charlotte continuava a respirar com facilidade. Esperei um pouco, mas a 
respirao parecia ser cada vez mais forte. Chegou mesmo a abrir os olhos por breves instantes. Eu tinha-lhe feito uma promessa. Eu amava-a como... Gostava tanto 
dela como se fosse a minha prpria me. Eu... - Armstrong no conseguiu continuar. Pela primeira vez em quase cinquenta anos, comeou a chorar.
Christine soltou os dedos, passando-os pelas lgrimas que corriam pelas faces da mulher mais velha.



Captulo 24

Armstrong fechou a porta do quarto 412, na altura em que David verificava a tenso arterial de Christine, o que fazia pela primeira vez desde a reanimao. Em seguida, 
e com todos os cuidados, soergueu-lhe a cabea afastando-a da cama. Tinha estado a ouvir a histria da mulher durante um minuto ou dois, antes de se aperceber da 
importncia que teria para Christine inteirar-se daquele assunto.
Sentado  beira da cama, colocou uma mo debaixo da cabea da enfermeira. O quarto mantinha-se numa semiobscuridade, com a excepo de um feixe de luz solar plida 
que se filtrava atravs de uma abertura dos cortinados parcialmente afastados. David tremia de excitao quando comeou a acariciar-lhe as faces tumefactas e magoadas
 - Chris, acorda, minha querida - chamou ele. - Tens de despertar.
Armstrong arrastou uma cadeira para junto da cabeceira da cama.
Christine abriu os olhos e mostrou a David um pequeno sorriso, aps o que voltou a cerrar as plpebras.
 - Eu estou acordada - afirmou ela numa voz enfraquecida. -  que sinto menos dores se mantiver os olhos fechados. Mas no te preocupes, estou a sentir-me bem. Mais 
uns dias e estarei em forma.
 - Aposto que sim - disse David. - Chris, a doutora Armstrong est aqui. Ela quer dizer-te uma coisa. Eu... Eu pensei que talvez quisesses ouvir o que ela tem a 
dizer.
 - Christine? Consegue ouvir-me? Sou a Margaret Armstrong. - Christine virou a cabea na direco da voz e, uma vez mais, abriu os olhos. Pelo espao de vrios segundos, 
as duas mulheres entreolharam-se.
- Sinto um grande afecto por si, Peggy - afirmou ela numa voz entrecortada. - Por tudo o que tentou fazer, amo-a do fundo do corao.
Passou um longo minuto antes de Armstrong retomar a palavra.
 - Fiz tudo o que  necessrio  nossa Irmandade. Agora tenciono falar com o tenente Dockerty, assumindo toda e qualquer responsabilidade pela morte da Charlotte. 
Acredite em mim, Christine, fui eu quem cometeu essa aco. - Voltou-se para David. - Tambm assumirei a responsabilidade do que aconteceu  Doroty, assim como pela 
morte dos seus amigos. Estou em crer que haver muito menos perguntas, se no for sugerir que houve mais do que uma pessoa envolvida em todo este assunto.
David reparou na preocupao que se reflectia no rosto de Christine,  meno da palavra amigos.
 - Mais tarde, explicar-te-ei, Christine - adiantou ele. - Doutora Armstrong, quero dizer-lhe o quanto dei apreo a tudo o que fez durante a reanimao. Por esse 
motivo, prometo-Lhe que, desde que cumpra o que disse, da minha parte no existir qualquer interferncia.
 - Muito obrigada - agradeceu Armstrong, observando a frieza que se espelhava nos olhos dele; inclinou-se para baixo e beijou Christine na testa. Momentos depois, 
a mdica j tinha abandonado o quarto.
David ajoelhou-se junto da cama. A escassa luminosidade que havia no quarto no ocultava os olhos humedecidos de Christine.
 - Quando sares daqui - continuou ele - uma viagem at uma qualquer pequena povoao empoeirada no Mxico.
 - Mas depois regressamos aqui, est bem? - No seu sorriso via-se um misto de alegria e de tristeza.
 - Sim, havemos de voltar - confirmou David.
Ela fechou os olhos. Por alguns instantes, deu a impresso de ter voltado a adormecer, mas, quando ele fez meno de se ir, christine agarrou-lhe na mo.
 - David, importas-te de me dizer s mais uma coisa agora? - perguntou ela.
 - De que  que se trata?
 - A chapa de matrcula do teu carro  personalizada?

John Dockerty bebeu de um trago o que restava do caf j retardado da sua caneca e recostou-se mais na cadeira onde se sentara. Fora necessria toda a noite e parte 
da manh para fazer com que Marcus Quigg cedesse finalmente, acabando por Lhe indicar o nome que pretendia saber. O triunfo - se  que poderia classificar-se nesses 
termos - tinha um sabor pouco satisfatrio. Muito possivelmente, a imagem daquele homem de estatura baixa iria assombr-lo por toda a vida.
O facto de a responsvel pelos assassnios ser Margaret Armstrong, assim como pelos demais erros, eram factores que, aliados quele farmacutico to pattico, s 
faziam com que as coisas houvessem piorado. Ela era uma pessoa por quem ele sentira respeito e, ainda mais deprimente do que isso, algum em quem ele tinha depositado 
toda a sua confiana.
 - John Dockerty, o detective inato - disse ele com mordacidade. - Danou na praa pblica ao som da batuta de uma senhora, que veio a descobrir-se mais tarde ser 
completamente tarada. - Pois bem, do mal o menos, ele tivera a satisfao de poder dizer ao seu comandante, embora no o tivesse feito por tantas palavras, o cara 
de cu que o homem fora por ter ordenado precipitadamente a priso de David Shelton.
Dockerty viu as horas no seu relgio de pulso. J havia passado quase uma hora desde que o comandante Lhe prometera encontrar um magistrado que Lhe passasse um mandado 
de captura provisrio, que Lhe permitiria proceder  deteno de Armstrong. Coou a face com a barba j um pouco crescida, ponderando se se barbearia ou no, quando 
a campainha do telefone comeou a tocar.
 - Investigaes. Fala Dockerty - atendeu o detective. - Sim, comandante... isso  esplndido, chefe... eu deso imediatamente para o ir buscar... Sim, senhor, eu 
sei que ele deu a impresso de ser to culpado quanto o prprio pecado. Se eu estivesse no seu lugar, teria tomado a mesma deciso... Muito obrigado. Dentro de cinco 
minutos estarei a em baixo... nem mais um segundo. - As ltimas palavras de Dockerty dirigiram-se a um telefone cuja linha j fora desligada. Passou os dedos pelos 
cabelos para os alinhar um pouco, levantando-se da cadeira. Nesse momento, batendo  porta ao de leve, Margaret Armstrong entrou no seu gabinete.
 - Tenente Dockerty, tenho alguns assuntos que gostaria de poder abordar consigo - anunciou ela.
- Sim - replicou o detective. encostando-se  extremidade da sua secretria - , sem dvida alguma que ter.
Decorridos trinta minutos, Dockerty j tinha ouvido o suficiente da confisso de Armstrong, o que justificava a presena de um estengrafo. Num gesto final de desafio, 
ligou para o comandante, pedindo-lhe que fosse testemunha daquele depoimento. O homem, senhor de uns cabelos de um negro asa de corvo, que era um misto de poltico 
e de polcia e cuja maneira de ser era um tanto evasiva, ouvia num silncio cheio de perplexidade,  medida que Armstrong, mostrando uma calma extraordinria, admitia 
toda e qualquer responsabilidade pelos assassnios de Charlotte Thomas e de Doroty Dalrymple. Informou em seguida que tambm Lhe cabia a responsabilidade da contratao 
do assassino de Ben Glass e de Joseph Rosetti. Aquela era uma histria que ela ensaiara cuidadosamente, antes de ter ido de automvel para a Esquadra Um: uma explicao 
com que ela esperava deixar Dockerty satisfeito quanto ao facto de ter agido inteiramente sozinha. Causava-lhe um certo nojo ser forada a pintar Dalrymple como 
se esta fosse uma herona, a qual teria morrido em virtude de ter descoberto a verdade por um mero acaso; no entanto, qualquer aluso  possvel existncia de uma 
conspirao teria sido arriscar a revelao da existncia do movimento. Ela sabia bem o que  que os polcias semelhantes a Dockerty poderiam fazer. Alm do mats, 
Margaret tinha a certeza absoluta de que, at mesmo ao derradeiro momento, Dotty fora sempre to dedicada  Irmandade quanto ela prpria. A mulher tinha receado 
a possibilidade de vir a perder a sua posio, assim como a influncia de que gozava, e nada mais.
A confisso de Armstrong era bastante coerente, embora se verificassem umas ligeiras omisses a respeito de alguns pormenores, o que causava um certo mal-estar a 
Dockerty. Ainda tentou encost-la  parede, tendo sido silenciado pelo comandante, o qual recuperou o uso da lngua a tempo de se imiscuir no assunto.
 - Ora vamos l a ver, tenente, tenho a certeza de que a doutora estar disposta a esclarecer alguns destes pormenores, o que far a seu tempo. Tal como pode verificar, 
ela tambm passou por um mau bocado.
Armstrong agradeceu-lhe, o que complementou com uma expresso que transformava inequivocamente Dockerty num estranho; encontrava-se perante uma espcie de cumplicidade 
existente entre duas pessoas de uma estatura social afim.
No entanto, Dockerty decidiu forar a sua sorte.
 - S mais uma coisa - aventurou-se ele a dizer. - Exactamente, como  que procedeu para contratar um assassino a soldo com as caractersticas do Leonard Vincent?
 - Dentro de momentos esclarecerei esse aspecto - retorquiu ela, brindando-o com a sua expresso mais patrcia e mortfera - , mas, primeiro, agradeo-lhe o favor 
de me indicar onde  que so os lavabos das senhoras.
 - Se esperar um pouco - retorquiu Dockerty - , pedirei a uma das nossas agentes que a acompanhe...
 - Que disparate - interrompeu o comandante. - Oficialmente, a doutora Armstrong ainda no foi indiciada pelo que quer que seja. A... ah... a casa de banho das senhoras 
fica  direita, mesmo ao fundo do corredor.  impossvel passar-lhe despercebida.
Uma vez mais, Armstrong agraciou o comandante com um olhar especial e, cuidadosamente, alisou a saia antes de sair do gabinete.
Os lavabos das senhoras eram uma autntica pocilga. O cho de mosaico daquela instituio governamental encontrava-se manchado e cheio de rachas. As toalhas de papel 
que ali se viam transbordavam do caixote do lixo, colocado num dos lados do lavatrio. O ar encontrava-se fortemente impregnado com um misto do fedor a urina e desinfectante.
Margaret Donner Armstrong no reparou na imundcie. Olhou em seu redor, aps o que se dirigiu imediatamente para a sanita, fechou a porta de madeira prensada e sentou-se.
Sentia-se deveras satisfeita com a maneira como conseguira manipular Dockerty e o comandante. Caso Christine e David se mantivessem fiis  palavra dada, A Irmandade 
da Vida dissolver-se-ia com dignidade. A ironia de que se revestia aquela situao propiciou-lhe algum alvio.
Depois de ter sado do hospital, Armstrong fora a sua casa com a finalidade de honrar a promessa que fizera: as gravaes - todas  excepo de uma nica - foram 
incineradas. Enquanto tratava daquela tarefa, de vez em quando interrompia-se para poder ouvir um relatrio em especial, ou para reflectir numa amizade que mantivera 
com uma determinada mulher em particular. O seu sonho - o sonho mximo - estivera prestes a concretizar-se por inteiro. se no se houvesse dado a circunstncia de 
Dorothy se ter ido abaixo.
Barbara Littlejohn concordara em que tinham deixado de existir condies para que o movimento continuasse a existir. Por vrias ocasies, durante a conversa telefnica 
que ambas haviam mantido, a mulher chegara ao ponto de se mostrar aliviada. Aquela atitude levou Armstrong a perguntar a si mesma se Barbara no teria reagido exactamente 
da mesma maneira que Dalrymple, na hiptese de ter sido a sua prpria reputao e carreira a correrem riscos. O aspecto mais doloroso era que, muito simplesmente, 
ela jamais teria a certeza absoluta, tanto em relao a Barbara ou a qualquer das outras.
Por conseguinte, ficara decidido. Barbara encarregar-se-ia de fazer os telefonemas e de escrever as cartas, aps o que faria tudo o que se encontrasse ao seu alcance 
com vista a dar continuidade aos projectos da Fundao Clinton. Enquanto o auscultador era colocado sobre o descanso, Armstrong teve a certeza de que, depois de 
quarenta anos de trabalho, tudo estava terminado.
Naquele momento, permanecia sentada na sanita, olhando para as mensagens srdidas que acompanhavam os desenhos toscos, inscries que tinham sido feitas na porta 
 sua frente, recuando cinquenta anos no tempo at  ltima ocasio em que estivera num lugar semelhante quele. Nessa altura, sentira-se bastante atemorizada. Assustada 
e conspurcada. Receara os detectives e os olhares presos aos seus seios. Tinha conseguido concentrar a sua mente em lugares especialmente ocultos, o que a impediu 
de lhes dizer aquilo que eles desejavam que ela lhes contasse. Hora aps hora, fora capaz de opor resistncia ao domnio que eles queriam exercer sobre a sua pessoa; 
chegara ao ponto de se sentir molhada pela urina, o que preferira a ter de lhes pedir licena para se ausentar do gabinete. No fim, Margaret sara vencedora. Armada 
com aquela vitria, arriscara-se a pr em prtica uma misso sagrada, uma jornada que estivera to prximo - oh, to prximo - de concretizar.
Agora havia chegado a altura de embarcar numa outra.
Armstrong levou a mo por dentro da blusa at ao elstico do cs da saia, de onde retirou a seringa que Dotty Dalrymple estivera prestes a obrigar David a usar. 
Durante alguns momentos, apalpou a forma arredondada daquele cilindro da morte. Em seguida, arregaou uma das mangas e, com toda a habilidade, inseriu a agulha numa 
das veias. Encostou a cabea contra a parede e cerrou os olhos. Com um dedo esguio e delicado empurrou o mbolo.
 - Est tudo bem, mezinha... Estou aqui. mam - disse
ela.



EPLOGO

A brisa, que pouco mais fora do que um zfiro ao longo de todo o dia, de sbito, aumentou de intensidade, aoitando amontoados de folhas secas que formavam remoinhos 
em redor das pedras tumulares acinzentadas.
Dora Dalrymple deteve-se no caminho estreito para poder agasalhar-se melhor dentro do seu amplo casaco comprido. Ela era, tanto de rosto, como em tamanho, maneira 
de ser e de vestir, o espelho virtual da sua falecida irm gmea. Os seus ps, incongruentemente pequenos, percorriam a vereda em declive no sentido descendente, 
com a segurana que Lhe advinha do facto de ter feito aquele caminho todos os fins de tarde, durante as ltimas trs semanas.
A sepultura, que continuava a ser uma elevao de terra revolvida recentemente, encontrava-se circundada por um anel de pinheiros. No mesmo talho, via-se um bloco 
de mrmore pequeno, onde ainda no havia qualquer inscrio, o qual assinalava a sepultura onde um dia ela prpria seria enterrada. Com gestos rituais, agarrou no 
pequeno banco articulado de metal que ali deixara no primeiro dia em que fora ao cemitriO. colocando-o sobre o solo de terra escura. Em seguida, ps uma nica flor 
no local onde sabia estar o corao da sua irm.
 -  um crisantemo, Dotty - disse ela - , mais ou menos da cor da ferrugem. Eu sei que no so as tuas flores preferidas, mas este  to bonito e to alegrico ao 
Outono. Espero que no te sintas perturbada com a minha escolha de hoje. No ests, pois no? - Dora fez uma pausa, como se estivesse a ouvir a voz confiante da 
irm e prosseguiu: - ptimo, pensei que havias de compreender.
"Agora, as pessoas do hospital so extremamente simpticas para comigo. At estou em crer que deixaram de me chamar a Mam Catatua, o que costumavam fazer nas minhas 
costas... Sim, eu sei. Ora bem, na minha opinio,  por causa do respeito que sentem por ti que j no fazem isso. Dotty, hoje recebeste um telefonema da Violet, 
que est em Detroit. Eu disse-lhe que estarias ausente durante toda a tarde, aconselhando-a a ligar mais tarde. Eu... eu tenho a impresso de que no sou capaz de 
continuar com O Jardim sem a tua presena. Quer dizer, eu sei que dei a minha ajuda e tudo o mais, mas foste tu que o fundou e quem deu origem ao seu desenvolvimento 
contnuo... Mas acontece que A Irmandade acabou. Todas as enfermeiras, incluindo as nossas flores, foram notificadas. Nenhuma delas deseja que O Jardim venha a morrer, 
mas para podermos sobreviver temos de crescer. Como  que eu poderei encontrar novas enfermeiras que se unam a ns?... Talvez. E possvel que tenhas razo. Tu sempre 
conseguiste ter uma compreenso da natureza humana muito melhor do que a minha... Certo, eu sempre cozinhei melhor do que tu... mas o que  que isso prova? No que 
me diz respeito, isso no passa de uma ninharia.
"Hoje falei com Mister Stevens. A tua laje tumular est quase pronta.  uma autntica maravilha. Vais ador-la, sei que vais... Muito bem, de acordo, de facto estou 
a tentar mudar de assunto. Tenho medo de vir a tomar uma deciso errada, mais nada. Tu sempre te mostraste to confiante nas tuas capacidades, sempre to decisiva... 
Isso  uma promessa?... Esplndido. Nesse caso, est a parecer-me que vou seguir a tua sugesto e pedir  Janet, que  to encantadora, que venha viver para minha 
casa... Dorothy, tens a certeza que sabes o que  que ests a dizer? Para sempre  um perodo de tempo demasiado longo para nos mantermos ao lado de uma pessoa... 
Bem, de acordo. Hoje mesmo tenciono telefonar  Hyacinth. Mas no te esqueas de que ns as duas estaremos a contar contigo, ao longo do caminho que teremos de percorrer.
Terminada aquela conversa, Dora colocou o banco junto de um dos lados da campa e regressou ao seu automvel, sem se aperceber da chuva esparsa que comeara a cair.
J no interior da manso estilo Tudor que ela e Dotty haviam adquirido pouco antes da criao d'O Jardim, comeou a preparar um bule de ch, instalando-se numa poltrona 
demasiado grande' que fazia parte de um par que as duas irms tinham desenhado pessoalmente. Quinze minutos mais tarde, a campainha do telefone comeou a tocar.
 - Gostaria de falar com a Dahlia - disse a voz de uma mulher que deveria ser jovem.
 - Lamento muito, mas de momento a Dahlia no pode atender o telefone - informou Dora, imitando o timbre de voz sussurrada que ouvira Dotty utilizar em inmeras 
ocasies. - Contudo, daqui fala a irm... Chrysanthemum. Caso o deseje fazer, poder confiar tanto em mim como o faria com Dahlia.
 - Bem... de acordo, acho eu - replicou a mulher, denotando alguma insegurana. - O meu nome  Violet; estou a telefonar de Detroit. Mais concretamente, do Hospital 
Saint Bart. Detectei uma situao que me parece aconselhvel submeter a uma avaliao mais minuciosa.
 - Faa o favor de continuar - urgiu Dora, tentando instilar confiana na mulher.
 - Trata-se de uma mulher que se chama Agnes Morgan. O marido dela  Carter Morgan, um dos directores executivos da Ford. Ela tem apenas quarenta e dois anos, mas 
este ano  a terceira vez que se submete a uma cura de desintoxicao, no nosso hospital, por problemas relacionados com o alcoolismo. A fazer f nos mexericos que 
correm por c, h j vrios anos que o marido tenta que ela Lhe conceda o divrcio, de forma a poder casar com a sua secretria. Aparentemente, Mistress Morgan no 
quer dar-lhe o divrcio sem antes extorquir ao homem todos os bens que ele possui, para alm de fazer todos os seus esforos para Lhe arruinar a carreira profissional.
 - Essa situao parece ser bastante prometedora - comentou Dora, rabiscando os contornos de um automvel no bloco de apontamentos, por cima do qual desenhou o smbolo 
do dlar, muito rebuscado. - Eu encarrego-me de averiguar mais pormenorizadamente essa situao, aps o que entrarei em contacto consigo. Entretanto, voc deve descobrir 
tantas informaes quantas Lhe for possvel, a respeito desse Mister Morgan e da mulher. Pela aparncia das coisas, parece-me que os benefcios deste caso podero 
ser bastante avultados, assumindo que o cavalheiro opta por fazer negcio connosco.
 - Na minha opinio, estou em crer que isso  muito possvel - retorquiu Violet. - Quando  que pensa que poder telefonar-me?
 - Dentro de um ou dois dias - respondeu Dora. - Tal como voc sabe, ns trataremos de todos os preparativos relativos ao negcio. Poder contar com toda a ajuda 
que Lhe for necessria.
Pousou o auscultador, agarrando numa fotografia de Dotty, que se encontrava numa moldura sobre uma mesinha. As semelhanas fsicas consigo prpria eram tais que 
ela poderia muito bem estar a ver-se ao espelho.
 - Bem, minha querida, a nossa actividade prossegue de vento em popa - disse ela, colocando a fotografia em cima do seu amplo regao. - No entanto, nunca poderei 
levar isto a cabo sem o teu auxlio. Por conseguinte,  bom que no te esqueas da promessa que me fizeste. Seja como for, no  para isso que as irms servem? No 
ests de acordo?

Fim
